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História de extraterrestre 11 a 12 anos Leitura 28 min.

O herbário de Lila e o viajante das estrelas

Lila, uma menina que coleciona plantas num herbário, encontra um visitante alienígena chamado Noh e troca folhas e segredos; juntos descobrem uma planta que guarda memórias e enfrentam um perigo no céu enquanto tentam ajudar Noh a voltar para casa.

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Lila, uma menina de 12 anos de rosto redondo com sardas e cabelo castanho em coque bagunçado, com expressão corajosa e maravilhada, segura um herbário de papelão gasto contra o peito e oferece uma pequena flor colada com fita; Noh, um extraterrestre pequeno de corpo longo e perolado, olhos grandes e pretos e dedos finos com pontos luminosos, ajoelha-se junto a um vaso e oferece uma minúscula bolha de luz azul contendo uma semente brilhante; no vaso cresce uma planta alienígena com caule translúcido e bolhas luminosas coloridas (azul, verde, violeta), uma das quais projeta a imagem desfocada de um céu verde; no terraço à noite, chão de concreto rachado, cadeira plástica gasta e um varal com um lençol branco formando sombra, postes e luzes distantes criam um halo alaranjado contra um céu estrelado; cena principal: um gesto terno e secreto sob as estrelas — Lila mostra uma folha seca enquanto Noh oferece a bolha de semente luminosa, ambos flutuam suavemente acima do chão e, no céu, uma silhueta de nave de vidro líquido brilha discretamente. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: O Herbário de Lila

Lila tinha doze anos e um jeito calmo de existir no mundo, como quem anda devagar para não amassar as sombras. Enquanto os colegas corriam pelos corredores e falavam alto sobre jogos e vídeos, ela gostava de coisas que cabiam na palma da mão: sementes, pedrinhas, folhas com nervuras perfeitas.

No seu quarto, havia uma caixa de sapatos com elásticos, recortes de jornal e uma pilha de folhas secas entre papéis. O herbário dela. Não era um daqueles de museu, com letras douradas e cheiro de sala antiga. Era um herbário de verdade, do tipo que ganha manchas de cola e marcas de dedo.

Naquela noite, Lila subiu ao terraço do prédio com o herbário apertado contra o peito. O teto-terrasse era o lugar mais perto do céu que ela conseguia sem precisar de foguete. Tinha um varal esquecido, duas cadeiras de plástico e um cantinho onde o vento sempre fazia um assobio, como se contasse segredos.

Ela se sentou no chão, colocou o herbário aberto no colo e passou o dedo por uma folha de manjericão, tão fina que parecia papel verde.

— Esta aqui é do quintal da minha avó — murmurou para ninguém, porque falar sozinho às vezes ajuda a pensar.

As estrelas estavam brilhantes, e o céu parecia uma lona preta cheia de furinhos. Lila respirou fundo. Tudo estava normal. Bom normal.

Aí a luz apareceu.

Não foi um meteoro rápido, nem um avião com pisca-pisca. Foi um brilho quieto que cresceu, como se alguém acendesse uma lanterna do outro lado do céu e fosse chegando, chegando, até parar… bem em cima do terraço.

Lila congelou, com a mão ainda em cima da folha.

O brilho desceu sem barulho e se juntou numa forma, do tamanho de uma bicicleta. Não parecia metal. Parecia… vidro líquido. A superfície tremia como água, mas sem escorrer.

Uma parte se abriu, como pétalas.

E de dentro saiu uma criatura.

Ela era pequena, mais baixa que Lila, com corpo comprido e fino. A pele tinha cor de pérola molhada. Os olhos eram grandes e escuros, mas não tinham aquele olhar de filme de terror. Tinham curiosidade. Como quando alguém vê uma coisa bonita e não quer estragar.

A criatura levantou uma das mãos — ou algo parecido com uma mão — e apontou para o herbário.

— Hrr… bi… — disse, como se estivesse mastigando a palavra.

Lila engoliu em seco. Seu coração deu um salto, mas ela se obrigou a ficar. Coragem, ela pensou, não é não ter medo. É ficar mesmo com medo.

— Herbário — ela repetiu devagar. — É um livro de plantas. Secas. Guardadas.

A criatura inclinou a cabeça, como um passarinho.

— Guar… da… — repetiu.

O vento assobiou. Lila quase riu de nervoso.

— Você… entende? — perguntou.

A criatura tocou o próprio peito.

— Noh.

— Noh — Lila repetiu. — Eu sou Lila.

— Li… la.

Foi tão certinho que a tensão no peito dela afrouxou um pouco. Ainda era estranho. Ainda era impossível. Mas também era… educado.

Noh apontou para o céu, depois para o herbário, depois para si.

— Mostra.

Lila olhou para o herbário, olhou para Noh, e pensou em descer correndo e gritar para os pais. Mas e se, quando ela voltasse, tudo sumisse? E se isso fosse uma chance única?

Ela virou uma página.

— Tudo bem. Eu mostro.

Capítulo 2: Folhas que Contam Histórias

Lila mostrou a Noh uma folha de mangueira, grande e brilhante, colada com fita transparente.

— Esta é uma mangueira. Dá manga. Bem doce.

Noh aproximou o rosto e soltou um som baixo, quase um ronronar. Depois tocou a folha com a ponta de um dedo longo. Uma luz fraquinha acendeu sob a pele dele, como vaga-lumes escondidos.

— Doce — Noh repetiu, com um sorriso pequeno que não tinha exatamente lábios, mas tinha intenção.

Lila foi passando as páginas. Hortelã, jabuticabeira, uma florzinha roxa que ela não sabia o nome e tinha chamado de “flor corajosa” porque crescia na rachadura do cimento.

— Você tem plantas no seu… lugar? — Lila perguntou, escolhendo uma palavra mais segura do que “planeta”, porque isso dava um nó no cérebro.

Noh fez um gesto como quem abre uma cortina.

— Tenho.

Ele voltou para a nave, ou cápsula, ou seja lá o que era aquilo. De dentro, tirou um objeto achatado, parecido com uma prancheta. A superfície era escura e lisa. Noh encostou um dedo e a prancheta se iluminou com linhas finas, desenhando algo.

Lila se inclinou. Não era uma foto. Era como um desenho vivo, feito de luz. Apareceu uma planta… alienígena.

Ela tinha um caule que lembrava bambu, mas era translúcido. No lugar de folhas, havia lâminas finas que vibravam, como se a planta cantasse sem som. E, no topo, um conjunto de bolhas brilhantes que mudavam de cor.

— Uau — Lila deixou escapar, com um sorriso. — Parece uma árvore de bolhas.

Noh apontou para o desenho e disse:

— Her… bá… rio.

— Você também tem um herbário? — Lila arregalou os olhos.

Noh bateu de leve na prancheta.

— Aqui. Guarda. Lembra.

Lila sentiu uma onda de alegria estranha. Ela, que sempre se sentia um pouco diferente, agora estava sentada sob as estrelas mostrando um herbário para um extraterrestre que tinha… outro herbário.

— Então você veio por causa disso? — ela perguntou. — Por causa de plantas?

Noh fez um som que pareceu um “sim” empolgado.

— Cheiro. Terra. Verde.

Lila riu, dessa vez de verdade.

— Você é tipo… um turista botânico.

Noh repetiu, confuso:

— Turis… ta.

— Alguém que visita lugares para ver coisas — ela explicou. — No seu caso, ver folhas.

Noh olhou para a folha de manjericão no herbário, depois olhou para o próprio peito, e fez um gesto dramático, como um explorador antigo.

— Eu. Ver. Folhas.

Lila tampou a boca com a mão para não rir alto demais. A situação era absurda. Mas era um absurdo gentil.

E então Noh apontou para o terraço, para a porta que levava à escada, e disse:

— Preciso… mais.

Lila sentiu o coração acelerar de novo. Mais? O que ele queria? Ela pensou nos pais dormindo, no prédio silencioso, e na coragem que precisava ser uma lanterna acesa no escuro.

— O que é “mais”? — perguntou.

Noh tocou a prancheta e mudou o desenho. Agora, apareciam símbolos e setas. Um deles parecia um círculo com um risco — como um “não”. Outro parecia um círculo com muitos pontos — como “muitos”.

Ele apontou para o símbolo de “muitos” e depois para o herbário de Lila.

— Troca?

Lila ficou muda por um segundo.

Trocar. Ele queria trocar plantas.

— Eu… não posso te dar meu herbário inteiro — Lila disse, segurando a caixa como se fosse um tesouro. — Mas posso… te dar uma folha. Uma só. E você me dá uma coisa do seu herbário.

Noh piscou devagar, como se estivesse processando. Depois fez um gesto de “ok” com a mão — não exatamente igual ao nosso, mas com a mesma energia de “combinado”.

Lila escolheu a “flor corajosa”, a que crescia no cimento. Era pequena, mas tinha história.

— Esta aqui — ela disse, destacando com cuidado a fita. — Ela sobrevive onde ninguém espera.

Noh encostou a prancheta e uma bolha de luz se formou, sólida como um cristal bem leve. Dentro, havia algo parecido com uma semente, mas com brilho azul e pequenos filamentos.

— Se… men… te — Noh disse.

Lila segurou a bolha com as duas mãos, com medo de quebrar.

— Uma semente alienígena — ela sussurrou.

Noh apontou para o céu e depois para a semente, e falou:

— Mistério.

Lila sentiu um arrepio bom, como o começo de uma aventura.

Capítulo 3: O Mistério das Bolhas Azuis

A semente alienígena parecia respirar. Não de verdade, claro — mas a luz dentro dela pulsava, como um coração que aprendeu a bater com calma.

— Como eu planto isso? — Lila perguntou.

Noh se ajoelhou e tocou o chão do terraço. A ponta do dedo dele ficou quente e desenhou um círculo no cimento, deixando uma marca luminosa que não queimou, só brilhou. Depois ele pegou um punhado de terra de um vaso esquecido — alguém tinha tentado plantar uma suculenta e desistido — e colocou no meio do círculo.

Ele entregou a bolha para Lila e apontou para o centro.

Lila hesitou.

— Se isso explodir, eu vou ficar muito chateada. Só avisando.

Noh fez um som que parecia uma risadinha.

— Não. Explo… dir, não.

— Ótimo — Lila disse, com ar sério. — Porque eu gosto do meu cabelo.

Ela encostou a bolha na terra. A bolha se abriu sozinha, sem estalo, como se fosse feita de sabão que não estoura. A semente desceu e se encaixou na terra.

Por um segundo, nada aconteceu.

O vento passou. Uma estrela cadente riscou o céu, rápida demais para um pedido.

E então a terra se mexeu.

Um broto azul apareceu, fininho, e cresceu com uma velocidade que deixou Lila de boca aberta. Não era uma planta gigante de filme, invadindo prédios. Era delicada, como uma haste de vidro, subindo até a altura do joelho dela.

No topo, uma bolha surgiu. Depois outra. E outra. Cada uma com um brilho diferente — azul, verde, violeta.

— É linda — Lila disse, sem conseguir desgrudar os olhos.

Noh encostou a mão na planta e fechou os olhos, como se escutasse música. As bolhas mudaram de cor, bem devagar, como um semáforo sonhador.

— Ela fala? — Lila perguntou, meio brincando.

Noh abriu os olhos.

— Ela… sente.

Lila engoliu em seco. De repente, o mistério ficou maior. Não era só uma troca de sementes. Era um pedaço de outro lugar, vivo, crescendo no terraço do prédio dela.

— E… é seguro? — ela perguntou, baixinho.

Noh apontou para Lila, depois para a planta, e fez um gesto de abraço no ar.

— Amiga.

Lila soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo.

— Ok. Amiga.

Mas então a planta fez algo estranho: uma das bolhas se desprendeu e flutuou no ar, lenta como um balão de festa. Ela veio na direção de Lila e parou bem na frente do rosto dela.

Dentro da bolha, a luz se reorganizou… e apareceu uma imagem.

Não era uma foto perfeita. Era como um sonho bem nítido. Lila viu um lugar com céu esverdeado e árvores translúcidas. Viu criaturas como Noh andando em passarelas de luz. Viu um lago escuro que refletia estrelas que não eram as dela.

Lila piscou, surpresa.

— Isso é… seu mundo?

Noh assentiu.

— Meu. Longe.

A bolha flutuou até Noh e mostrou outra imagem: o terraço, Lila, o herbário. Como se a planta estivesse gravando momentos.

— Ela guarda lembranças — Lila disse, maravilhada. — Um herbário… de memórias.

Noh repetiu, devagar:

— Herbário… de memórias.

Lila sentiu uma responsabilidade pesada e boa ao mesmo tempo. Ela tinha uma coisa que não podia simplesmente largar. E ainda havia a pergunta que não queria calar:

— Por que você veio aqui sozinho?

Noh olhou para o céu por um tempo longo demais. O brilho da nave dele diminuiu, como se também ficasse pensativo.

— Eu… perdi caminho — ele disse, com dificuldade. — Sinal… fraco.

Lila sentiu o estômago dar um apertinho.

— Você está perdido?

Noh assentiu, pequeno.

— Preciso… estrela certa. Mas… nuvem… metal — ele apontou para a cidade, para as antenas, para os prédios. — Muito barulho.

Lila olhou em volta. Prédios, caixas d'água, fios. Tudo o que para ela era normal… para ele era uma confusão.

E ali, sob as estrelas, Lila percebeu: coragem agora não era só ficar no terraço. Era ajudar alguém que não sabia voltar para casa.

— Então vamos achar sua estrela certa — ela disse.

Noh olhou para ela, e os olhos escuros dele pareceram mais brilhantes.

— Você… ajuda?

Lila sentiu medo. Sim. Mas também sentiu algo maior.

— Eu ajudo.

Capítulo 4: A Constelação que Faltava

Lila correu até a outra ponta do terraço e puxou uma cadeira de plástico, como se fosse um equipamento científico muito sério.

— Ok, Noh. Eu não tenho um telescópio. Mas tenho olhos e teimosia.

Noh inclinou a cabeça, intrigado.

— Tei… mo… si… a?

— Uma espécie de superpoder humano — Lila disse. — A gente insiste até dar certo.

Noh pareceu aprovar isso com um som animado.

Lila pegou o celular do bolso. A tela iluminou o rosto dela, e ela diminuiu o brilho para não atrapalhar.

— Se eu abrir um aplicativo de estrelas… — ela sussurrou, como se o celular fosse um segredo proibido.

Noh recuou um pouco ao ver a luz, depois percebeu que era só um retângulo brilhante. Ele apontou e disse:

— Pequena tela. Igual… prancheta, mas… nervosa.

Lila riu.

— Meu celular é nervoso mesmo. Às vezes ele trava só de emoção.

Ela abriu o mapa do céu. O aplicativo mostrava constelações, planetas, linhas e nomes. Lila apontou para o céu real, depois para a tela.

— Me diga qual é sua “estrela certa”.

Noh tocou a prancheta dele e desenhou três pontos em triângulo, com um risco curvo ao lado, como uma vírgula.

Lila franziu a testa.

— Triângulo com vírgula… Isso não é nenhuma constelação que eu conheça.

Noh bateu levinho no chão, impaciente, mas não bravo. Só preocupado.

— Não aqui? — ele perguntou.

— Talvez aqui, mas com outro nome… ou… — Lila olhou ao redor e teve uma ideia. — Ou talvez você não esteja vendo o céu direito.

Ela apontou para as luzes da cidade ao longe, aquela névoa alaranjada que escondia as estrelas mais fracas.

— A cidade apaga o céu. É… triste.

Noh olhou para as luzes como se fossem um monstro silencioso.

— Barulho de luz — ele disse.

Lila respirou fundo. O terraço era alto, mas talvez não alto o suficiente. Mesmo assim, ela tinha uma coisa que ajudava: o canto mais escuro do terraço, onde uma parede fazia sombra.

Ela pegou um lençol velho que estava guardado num armário do terraço (ninguém sabia por que, mas terraços têm dessas coisas) e o estendeu como uma cortina improvisada, prendendo com pregadores no varal.

— Pronto! Uma cabine anti-luz. Bem chique.

Noh entrou na sombra com ela. Ali, o céu parecia um pouco mais profundo. Mais estrelas surgiram, tímidas.

Lila comparou o desenho de Noh com o mapa do celular. Triângulos existiam aos montes. Ela foi passando o dedo na tela, procurando.

— Triângulo… triângulo… — murmurou.

Noh apontou para uma região específica do céu. Lila levantou o celular e alinhou.

E então ela viu: três estrelas formando um triângulo quase perfeito… e uma quarta, mais fraca, curvada para o lado como uma vírgula.

— Achei! — Lila sussurrou, como se estivesse numa biblioteca espacial. — Aqui! Só que no aplicativo chama… “Arco do Navegante”.

Noh repetiu com cuidado:

— Arco… do… Navegante.

Ele tocou a prancheta e o desenho se iluminou, confirmando. A nave dele, lá atrás, respondeu com um brilho maior, como se tivesse entendido.

Mas Noh ainda parecia tenso.

— Precisa… linha — ele disse, desenhando uma linha reta do triângulo até um ponto vazio.

Lila olhou para o céu. O ponto vazio era… vazio.

— Não tem estrela ali — ela disse.

Noh olhou de novo, como se estivesse em dúvida.

— Tinha. Sumiu.

Lila sentiu um friozinho.

— Estrelas não somem assim. A não ser que… — ela olhou para o céu e imaginou uma coisa passando na frente. — A não ser que algo esteja bloqueando.

Noh apontou para cima, mais alto, e fez um gesto circular.

— Nuvem… metal.

Lila franziu a testa. O céu parecia limpo. Mas, ao olhar com mais atenção, ela percebeu uma mancha diferente, bem sutil, como um pedaço de noite mais escuro que a noite.

— Tem algo ali — ela disse, baixinho. — Uma coisa escondida.

Noh fez um som preocupado.

— Interferência.

Lila sentiu o medo subir. Mas o terraço, a planta de bolhas, o herbário no colo… tudo isso parecia dizer: o desconhecido pode ser assustador, mas também pode ser compreendido.

— Vamos ver de perto — Lila disse, e a própria coragem a surpreendeu.

Noh olhou para ela como se dissesse: “Mesmo?” E ela confirmou com a cabeça.

— Mesmo.

Capítulo 5: A Coisa Escura no Céu

Noh voltou até a nave e tocou a superfície ondulante. Uma parte se abriu e revelou algo como um cinturão leve, cheio de pequenos discos.

Ele entregou um para Lila. Parecia uma moeda de vidro fosco, com uma alça.

— Isso é… o quê? — Lila perguntou.

— Flutua — Noh disse, como se fosse a coisa mais simples do universo.

— Ah. Claro. Flutua — Lila repetiu, tentando não soar como alguém prestes a desmaiar.

Ela colocou o disco no pulso, como uma pulseira. Ele se ajustou sozinho, morno. Noh colocou outro no dele. Depois apertou um ponto no disco e… os pés dele levantaram do chão, uns cinco centímetros.

Lila arregalou os olhos.

— Você está… pairando!

Noh olhou para baixo, satisfeito.

— Seguro. Devagar.

Lila apertou o ponto. O estômago dela virou uma cambalhota quando os pés se soltaram do cimento. Ela pairou, tremendo.

— Eu juro que vou vomitar estrelas — ela disse.

Noh fez um som divertido.

— Respira. Terra… puxa.

Lila respirou fundo. E, de fato, era como estar num elevador bem lento. Ela não subia muito. Só o suficiente para sentir o mundo diferente.

Eles flutuaram até a borda do terraço. A cidade lá embaixo parecia um tabuleiro de luzes. O céu acima parecia mais perto, como uma janela gigante.

A mancha escura estava ali. Agora, com outra perspectiva, dava para ver que não era nuvem. Era algo sólido, enorme, muito alto. Um objeto camuflado, como se usasse a própria noite como capa.

Lila engoliu em seco.

— Isso não é seu, né?

Noh balançou a cabeça depressa.

— Não. Não. Não.

A mancha se moveu um pouco, quase imperceptível. E então um feixe fino, praticamente invisível, varreu o céu. Quando passou perto, o disco no pulso de Lila vibrou.

Noh puxou Lila para trás, de volta à sombra do lençol.

— Caçador — ele sussurrou, e a palavra pareceu pesada.

— Caçador de quê? — Lila perguntou, com a voz mais baixa que um segredo.

Noh apontou para si, depois para a prancheta, depois para a plantinha de bolhas no vaso.

— De… coisas raras.

Lila olhou para a planta, que brilhava mansamente, inocente. Um nó se formou na garganta dela.

— Eles podem querer você… ou a sua semente… ou… — ela olhou para o herbário dela. — Ou qualquer coisa diferente.

Noh assentiu. Os olhos dele não estavam mais curiosos. Estavam atentos.

Lila pensou rápido. Não tinha armas. Não tinha superpoderes. Só um herbário, um celular e uma mente teimosa.

E uma plantinha que guardava memórias.

A planta soltou outra bolha. Ela flutuou até Lila e mostrou a imagem do terraço, o lençol no varal, Noh preocupado, o céu com a mancha escura.

Era como se dissesse: “Eu estou vendo. Eu posso ajudar.”

Lila encarou a bolha.

— Se você guarda lembranças… consegue mostrar uma lembrança falsa?

Noh entendeu a ideia devagar.

— Enganar? — ele perguntou.

Lila deu um sorriso pequeno.

— Enganar, mas do jeito certo. Para proteger.

Noh tocou a bolha, e a luz dentro dela se reorganizou. Lila viu a imagem mudar: o terraço vazio, a nave de Noh… descendo pela escada, como se fosse embora pelo prédio. Uma mentira bem convincente.

— Isso! — Lila sussurrou. — Se o caçador estiver procurando sinais, a gente dá um sinal… em outro lugar.

Ela apontou para o prédio ao lado, que tinha um terraço com um monte de antenas e uma caixa d'água que fazia sombra.

— Lá tem mais “barulho de metal”. Perfeito para confundir.

Noh olhou para o outro prédio, depois para a mancha no céu, e assentiu.

— Coragem — ele disse, tentando pronunciar como ela.

— Coragem — Lila repetiu, e sentiu a palavra virar armadura.

Eles trabalharam rápido. Noh fez a prancheta dele emitir um brilho curto, um “ping” no céu, apontado para o prédio ao lado. Lila usou o celular para refletir luz por um espelho pequeno que tinha no bolso do casaco (ela carregava porque gostava de ver folhas de perto e precisava de luz às vezes). Juntos, criaram um rastro confuso.

A mancha escura respondeu. O feixe varreu e se deslocou… na direção errada.

Lila soltou o ar.

— Funcionou — ela sussurrou.

Noh apertou o pulso dela, um gesto rápido de gratidão.

Mas ainda faltava o mais importante.

— Agora você precisa ir — Lila disse. — Usar a estrela certa. Antes que ele volte.

Noh olhou para a constelação e depois para Lila, como se não quisesse ir embora sem… fechar o círculo.

— Você… vem? — ele perguntou, e por um segundo Lila imaginou entrar naquela nave de vidro líquido e ver o céu de outro mundo.

O coração dela disparou. O desejo era enorme. Mas também havia a realidade: pais, escola, vida. E a planta no vaso, agora parte do terraço.

Lila respirou fundo.

— Eu não posso. Não agora. Mas… você pode me mostrar mais. Um dia. E eu vou continuar cuidando da sua semente aqui.

Noh pareceu entender. Ele tocou o vaso, e as bolhas mudaram para um azul mais suave.

— Você guarda — ele disse. — Você lembra.

— Eu guardo — Lila confirmou.

O feixe no céu já estava longe. O tempo era curto.

Noh voltou para a nave. A superfície se fechou como pétalas ao contrário. Um brilho envolveu tudo, e a nave começou a subir, silenciosa, até se misturar com as estrelas.

Lila ficou ali, com o vento no rosto e o herbário no colo, vendo o impossível ir embora.

Mas antes de sumir de vez, a nave soltou uma última bolha de luz. Ela desceu, flutuando, e pousou suavemente na mão de Lila.

Dentro dela havia… um desenho simples, feito de luz: Lila e Noh sentados no terraço, com o herbário aberto entre eles.

Lila sorriu, com os olhos ardendo um pouco.

— Até mais, turista botânico — ela sussurrou.

Capítulo 6: Um Desenho Preso com Fita

Na manhã seguinte, o mundo parecia o mesmo. O elevador do prédio continuava demorando. O vizinho do 502 ainda deixava a porta bater. O cheiro de café ainda invadia o corredor.

Mas Lila sabia que algo tinha mudado.

Ela subiu ao terraço com cuidado, como quem visita um segredo. A plantinha alienígena estava lá, firme no vaso, com bolhas brilhando como pequenas luas. Ela tocou de leve no caule translúcido.

— Bom dia — disse, baixinho. — Você e eu… somos guardiãs agora.

A bolha mais alta mudou de cor, do azul para um verde alegre. Lila decidiu que isso significava “bom dia” de volta.

Ela abriu o herbário na página da “flor corajosa”. No lugar onde a flor tinha estado, havia uma marca de fita e um espaço vazio. Um vazio que contava uma história.

Lila pegou uma folha em branco e um lápis. Sentou-se no chão do terraço, sob o céu claro que escondia as estrelas, e começou a desenhar.

Ela desenhou o terraço, o lençol no varal, o vaso com a planta de bolhas. Desenhou a nave como uma gota de vidro. Desenhou Noh com olhos curiosos e mãos longas, e desenhou a si mesma com o herbário aberto, como uma ponte.

Quando terminou, olhou para o desenho. Não era perfeito, mas era verdadeiro.

Ela pegou fita adesiva e colou o desenho na capa interna do herbário, bem ao lado do nome que ela tinha escrito com caneta: “Herbário de Lila”.

A fita fez aquele som satisfatório de “pronto”. Como se a memória estivesse segura.

Lila fechou o herbário e abraçou a caixa.

Coragem não tinha sido voar pelo espaço. Tinha sido ficar, ajudar, pensar, proteger. E confiar que o desconhecido podia ser amigo.

A plantinha soltou uma bolha pequena. Ela flutuou até o herbário e encostou na fita.

Por um instante, Lila viu na bolha o mesmo desenho… e, ao fundo, um céu esverdeado com árvores translúcidas. Como uma promessa silenciosa.

Lila sorriu.

— Eu vou continuar guardando — ela disse. — E quando você voltar… eu vou ter mais folhas para mostrar.

O vento no terraço assobiou, como se concordasse. E, mesmo sem ver, Lila sentiu as estrelas do outro lado do dia, brilhando do jeito delas, como quem espera.

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Herbário
Livro ou coleção onde se guardam folhas e plantas secas para estudar.
Terraço
Parte plana no topo de um prédio onde se pode andar ou sentar.
Varal
Corda ou estrutura para pendurar roupas e deixá‑las secar.
Elásticos
Tiras de borracha que esticam e servem para prender coisas.
Nervuras
Veias das folhas que parecem linhas finas e ajudam a sustentar a folha.
Manjericão
Planta aromática usada na cozinha, com cheiro forte e sabor fresco.
Jabuticabeira
Árvore que dá jabuticabas, frutas pequenas e escuras que crescem no tronco.
Translúcido
Algo que deixa passar alguma luz, mas não é totalmente transparente.
Cápsula
Recipiente fechado, às vezes usado para guardar ou transportar algo.
Suculenta
Planta que guarda água nas folhas, por isso precisa de pouca água.
Punhado
Quantidade que cabe na mão fechada, como um monte pequeno.
Broto
Pequena parte de planta que começa a crescer, como um primeiro galho.
Pétalas
Partes macias e coloridas da flor que protegem o centro.
Intenção
O que alguém pensa ou quer fazer, seu objetivo ou propósito.
Assobio
Som agudo feito com a boca ou pelo vento, como um apito suave.

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