Capítulo 1: Uma Luz no Parque
O Tomás tinha 11 anos e uma teimosia útil: quando decidia ajudar alguém, ajudava mesmo. Naquela tarde, foi ao parque com a mochila às costas e um binóculo velho pendurado ao pescoço, como se fosse explorador.
O parque cheirava a relva cortada e a pipocas. Havia crianças a correr, um cão a ladrar para a própria sombra e um senhor a tocar saxofone, desafinado mas feliz.
Tomás sentou-se no banco ao lado do lago, a observar as nuvens. Foi então que viu: um brilho rápido, como um peixe de luz, a atravessar o ar e a desaparecer atrás de um grupo de arbustos.
“Ok… isto não foi um drone”, murmurou.
A curiosidade puxou-o pelos ténis. Tomás aproximou-se devagar, afastou ramos, e encontrou algo do tamanho de uma caixa de sapatos: uma cápsula redonda, amassada, com riscos azuis a pulsar.
E, ao lado, uma criatura agachada, a respirar como quem acabou de correr uma maratona.
Tinha pele verde-menta, olhos grandes e dourados, e umas orelhas finas que tremiam como folhas ao vento. Vestia uma espécie de colete prateado cheio de bolsos.
Quando viu o Tomás, a criatura levantou as mãos.
— Não… esmagar! — disse numa voz fininha.
Tomás arregalou os olhos. A ideia de alienígenas era fixe… até aparecer um de verdade no meio do parque.
— Eu não vou esmagar ninguém — respondeu ele, tentando parecer mais calmo do que se sentia. — Estás… perdido?
A criatura apontou para a cápsula e depois para o céu, com uma expressão aflita.
— Eu… Lumo. Amigo… caiu. Preciso… achar.
“Um amigo extraterrestre perdido no parque”, pensou Tomás. “Isto é o tipo de coisa que nunca acontece… e agora está a acontecer comigo.”
Tomás respirou fundo.
— Está bem, Lumo. Eu ajudo. Mas temos de ser discretos. As pessoas… ficam esquisitas com o desconhecido.
Lumo inclinou a cabeça.
— Desconhecido… pode ser amigo.
Tomás sorriu, apesar do coração estar a bater como um tambor.
— Pode. Vamos provar isso. Primeiro: onde foi a última vez que viste o teu amigo?
Lumo fechou os olhos, como quem ouve uma música distante, e apontou para o caminho de pedra que levava ao outro lado do parque.
— Cheiro… verde. Terra molhada. Folhas que picam.
— Isso soa a… horta comunitária! — disse Tomás. — Vem. E tenta… parecer um pouco menos extraterrestre.
Lumo olhou para o próprio colete, confuso.
— Menos… brilhante?
— Exatamente.
Lumo tocou num botão e, com um “plim” tímido, o colete ficou da cor de um casaco castanho. Ainda assim, os olhos dourados continuavam a gritar “sou de outro planeta”, mas Tomás decidiu que ninguém repararia se ele andasse com confiança.
E assim, os dois atravessaram o parque: um rapaz determinado e um alienígena a tentar não parecer um alienígena.
Capítulo 2: O Mapa que Cheira
Perto do parque infantil, uma menina apontou para o Lumo.
— Olha, mãe! Aquele rapaz trouxe um… duende!
Tomás acelerou o passo.
— Duende? — sussurrou Lumo, ofendido.
— É… uma espécie de elogio — improvisou Tomás. — Quer dizer que és… mágico.
Lumo relaxou.
— Eu sou… um pouco mágico.
Tomás conduziu-o por um caminho lateral, perto de arbustos altos que faziam uma parede verde. Ali, longe de olhares, pararam.
— Tens alguma coisa para nos guiar? — perguntou Tomás. — Um mapa? Um sinal?
Lumo abriu um bolso do colete e tirou uma esfera transparente, como uma bolinha de sabão sólida. Dentro, havia pontos luminosos que se mexiam lentamente, como pirilampos.
— Mapa de cheiro — explicou. — Ele mostra pistas… do ar.
Tomás franziu a testa.
— Mapa de… cheiro?
Lumo encostou a esfera ao nariz e inspirou. Os pontos dentro da esfera rearranjaram-se, formando uma linha que apontava para a direita.
— O meu amigo chama-se Niri — disse Lumo. — Niri tem cheiro… de limão e metal. Como chuva em pedra quente.
Tomás tentou imaginar isso. Era difícil, mas também era… bonito.
— E o Niri está a deixar um rasto?
— Sim. Quando está com medo, o corpo solta… luz cheirosa.
— Isso é útil — disse Tomás. — Eu, quando tenho medo, só suo. E não ajuda ninguém.
Lumo fez um som que parecia um risinho.
— Humanos são… engraçados.
— Obrigado, eu acho.
Seguiram o “mapa de cheiro” por um trilho que contornava o lago. A esfera tremia nas mãos do Lumo e, de vez em quando, mudava de direção, como se discutisse consigo mesma.
Passaram por um grupo de idosos a jogar dominó numa mesa.
— Boa tarde, rapaz! — disse um deles ao Tomás. — Quem é o teu amigo?
Tomás engoliu em seco.
— É… é o L… Luís! — disse ele, rápido. — Ele é… primo. Muito… tímido.
Lumo acenou com rigidez, como um boneco.
— Eu… Luís — disse ele, com uma pronúncia esquisita. — Eu… gosto de… dominó.
O idoso riu-se.
— Então volta cá um dia, Luís! Aqui ensinamos.
Quando já estavam longe, Tomás murmurou:
— Dominó, a sério?
Lumo abriu os braços.
— Eu digo o que o teu rosto manda dizer.
Tomás tapou a cara com a mão.
— O meu rosto é péssimo a dar ordens.
A esfera voltou a apontar, agora para um portão de madeira com uma placa: “Horta do Parque — Cuidamos Juntos”.
Um perfume de manjericão e tomate veio ao encontro deles, como um abraço.
— Cheiro… verde — disse Lumo, animado. — Aqui!
Tomás empurrou o portão.
— Então vamos encontrar o Niri.
Capítulo 3: O Potager Perfumado
A horta era um mundo dentro do mundo. Canteros alinhados, terra escura, folhas a brilhar ao sol. Havia girassóis altos como guardas e uma pequena estufa que parecia uma bolha.
O ar estava cheio de cheiros: hortelã fresca, morangos maduros, cebola, e algo doce que Tomás não conseguia identificar.
— Isto é… incrível — disse ele, baixinho, como se não quisesse acordar as plantas.
Lumo caminhou devagar, quase em pontas dos pés. A esfera de cheiro flutuava acima da palma da mão dele, como se estivesse ansiosa.
— Niri… passou por aqui — disse Lumo. — Muito medo.
Tomás agachou-se e viu marcas na terra. Não eram pegadas de sapatos nem de cães. Eram marcas pequenas, em forma de meia-lua, como se alguém tivesse saltado com pés redondos.
— Ele é pequeno? — perguntou Tomás.
— Niri é… compacto — disse Lumo, orgulhoso, como se isso fosse um título.
Um som veio de trás de um canteiro de abóboras: “tlim-tlim”, como colher a bater em vidro.
Tomás levantou o dedo.
— Ouviste?
Lumo assentiu e aproximou-se. Tomás seguiu, com o coração a fazer piruetas.
Atrás das folhas grandes, encontraram uma coisa… que não era bem um animal nem bem um robô. Era uma criatura do tamanho de um gato, com corpo prateado e macio, como metal polido, e olhos redondos que mudavam de cor.
Quando os viu, encolheu-se e soltou um clarão azul. O ar cheirou de repente a limão e a chuva.
— Niri! — exclamou Lumo.
A criatura soltou um som rapidinho, como uma frase em código, e tentou fugir entre as folhas.
Tomás estendeu as mãos, sem tocar.
— Ei, calma! Nós não vamos magoar-te.
Niri parou, mas não se virou. O corpo dele tremia.
Lumo deu um passo.
— Niri, eu aqui. Tomás é… amigo humano.
Niri virou a cabeça devagar. Os olhos mudaram de azul para um amarelo desconfiado.
— Humano… grande — disse Niri, com uma voz que parecia feita de campainhas.
— Eu sei — disse Tomás. — Sou grande, mas sou gentil. E estou a ajudar o Lumo a encontrar-te. Estás perdido?
Niri olhou para a horta, depois para o céu, e fez uma careta.
— Caí. Barulho. Pessoas. Um pássaro… tentou comer a minha antena.
Tomás mordeu o lábio para não rir.
— Pássaros fazem isso. Eles acham que tudo é comida. Uma vez um pombo tentou roubar o meu sanduíche.
Niri inclinou a cabeça.
— Sanduíche é… objeto sagrado?
— É sagrado para mim — disse Tomás, sério.
Lumo aproximou-se mais e estendeu um pequeno disco luminoso.
— Temos de voltar para a cápsula. Ela está ferida. Nós… consertar. Juntos.
Niri hesitou, depois deu um salto elegante para cima de uma caixa de madeira e observou Tomás, como se estivesse a medir a verdade nos olhos dele.
Tomás manteve-se quieto.
— Se quiseres, posso levar-vos por um caminho sem muita gente — disse ele. — E podemos usar a horta para… esconder coisas, se for preciso.
Niri cheirou o ar, literalmente. Depois, os olhos dele ficaram verdes, como sinal de decisão.
— Eu aceito… cooperação.
Lumo pareceu aliviado.
— Cooperação é… o melhor motor.
Tomás levantou uma sobrancelha.
— Melhor do que gasolina?
— Gasolina cheira mal — disse Lumo, com uma sinceridade tão séria que Tomás soltou uma gargalhada.
Niri piscou os olhos em lilás.
— Humor… detectado.
Tomás respirou fundo, feliz por ver que o medo estava a diminuir.
— Então vamos. Mas primeiro… conseguem esconder esse brilho? A horta é tranquila, mas o parque não é.
Niri tocou numa pequena placa no peito e o brilho ficou mais suave, como uma lanterna coberta por pano.
— Modo discreto — disse ele.
Tomás fez sinal para o portão.
— Perfeito. Sigam-me, extraterrestres… ou duendes. Como preferirem.
Capítulo 4: A Corrida Discreta
Saíram da horta por um caminho estreito entre arbustos. Tomás ia à frente, a abrir passagem. Lumo seguia com passos leves. Niri deslocava-se em pequenos saltos silenciosos, como se a gravidade fosse uma sugestão.
No meio do caminho, ouviram vozes. Um grupo de adolescentes aproximava-se, a rir alto, com uma bola de futebol.
Tomás parou e sussurrou:
— Problema. Eles vão olhar.
Lumo abriu um bolso e tirou algo que parecia um lenço transparente.
— Eu tenho… dobrador de atenção.
— Isso soa perigoso — disse Tomás.
— Não é perigoso. Só… faz as pessoas pensarem noutra coisa. Como quando tu vês uma nuvem em forma de dragão e esqueces a matemática.
Tomás considerou.
— Ok. Eu aprovo.
Lumo abanou o “lenço” no ar. Um brilho suave espalhou-se, quase invisível.
Os adolescentes passaram e, de repente, começaram a discutir animadamente.
— Juro que vi um gato a usar óculos! — disse um.
— Gato com óculos? Isso não existe! — respondeu outro, mas já estava a olhar para os lados, à procura.
Tomás aproveitou e puxou os dois amigos para trás de um arbusto.
— Funciona mesmo — sussurrou.
Lumo encolheu os ombros.
— A mente humana é… saltitante.
Niri fez um som de aprovação.
Continuaram. O parque parecia diferente agora: cada árvore era um esconderijo, cada banco uma possível ameaça. Mas Tomás sentia-se estranhamente confiante. Ele não estava sozinho. E estava a fazer algo importante.
Quando chegaram ao lugar onde a cápsula tinha caído, Tomás viu-a de novo: amassada, com um lado enterrado na terra e os riscos azuis a piscar como um coração cansado.
Niri correu até ela e encostou a testa à superfície.
— Ela está triste — disse ele.
Tomás aproximou-se.
— Dá para consertar?
Lumo abriu mais bolsos do colete e tirou ferramentas que pareciam brinquedos: uma chave que emitia luz, um tubo que soprava ar quente, e uma fita que se colava sozinha.
— Consertar, sim — disse Lumo. — Mas precisamos… de energia. E silêncio.
Tomás olhou em volta. Havia pessoas, mas não muito perto. Mesmo assim, alguém podia aparecer.
— O silêncio eu consigo — disse Tomás. — A energia… talvez também. Aqui perto há uma cabine de manutenção do parque. O meu pai trabalha com eletricidade e já me ensinou algumas coisas. Não para mexer em tudo, mas para… não ser inútil.
Lumo sorriu.
— Tu és… muito útil.
Niri inclinou-se.
— Humano útil. Isso é raro?
Tomás fingiu pensar.
— Depende do dia.
Ele correu até à cabine, fingindo que procurava uma bola perdida. Encontrou uma tomada exterior escondida atrás de um arbusto — usada para luzes de eventos. Tirou do bolso um pequeno adaptador que tinha na mochila (o pai insistia que “uma mochila deve ter coisas úteis”).
Voltou e entregou.
— Não sei se isto serve, mas…
Lumo encaixou o adaptador numa entrada na cápsula com um “clac” perfeito.
— Serve. Tu és… improvável.
— Obrigado? — disse Tomás, rindo.
A cápsula começou a vibrar suavemente, e os riscos azuis ficaram mais firmes. Uma parte amassada endireitou-se devagar, como se estivesse a respirar.
Mas, então, um som agudo ecoou: um alarme pequeno, vindo da cápsula.
Niri recuou.
— Sistema de proteção. Ele pensa que há perigo.
Tomás engoliu em seco.
— Como é que o convencemos a não… entrar em pânico?
Lumo olhou para ele.
— Com voz calma. E… verdade.
Tomás aproximou-se da cápsula, como se falasse com um animal assustado.
— Olá… cápsula. Nós somos amigos. Estamos a ajudar. Ninguém quer roubar nada. Só queremos que o Lumo e o Niri voltem para casa em segurança.
O alarme hesitou, baixando de volume.
Niri juntou-se, tocando com cuidado na superfície.
— Nós cuidamos de ti. Tu cuidaste de nós.
O alarme apagou-se.
Tomás soltou o ar que nem sabia que estava a prender.
— Ufa.
Lumo inclinou a cabeça.
— Tu falas bem com máquinas.
Tomás olhou para a cápsula, contente.
— Talvez porque, às vezes, eu também me sinto como uma máquina barulhenta por dentro.
Lumo pousou uma mão leve no ombro dele.
— Então tu entendeste.
Capítulo 5: A Despedida e o Presente
A cápsula abriu uma fenda e uma rampa pequena desdobrou-se. Lá dentro, tudo era suave e brilhante, como o interior de uma concha luminosa. Havia assentos que pareciam feitos de nuvem sólida e painéis com símbolos que dançavam.
Niri entrou primeiro, olhando para trás.
— Tomás vem?
Tomás deu um passo, mas parou.
— Eu… não posso. Tenho de voltar para casa. A minha mãe vai achar que fui raptado por… duendes.
Lumo riu, um som que parecia vento numa garrafa.
— Nós não raptamos. Nós… convidamos.
Tomás sorriu, mas sentiu um aperto no peito. Era estranho despedir-se de alguém que tinha conhecido há tão pouco tempo e, ainda assim, já parecia importante.
— Posso fazer uma pergunta? — disse ele.
— Três — disse Niri, generoso.
Tomás riu.
— Vocês… têm medo dos humanos?
Lumo pensou um segundo.
— Nós temos medo… do que não entendemos. E nós não entendíamos. Agora… entendemos um pouco mais.
Niri acrescentou:
— Alguns humanos são barulhentos. Mas este humano… é claro.
Tomás corou.
— Obrigado. Eu também aprendi uma coisa: o desconhecido não precisa ser assustador. Pode… cheirar a manjericão e limão.
Lumo abriu um dos bolsos e tirou um objeto pequeno: uma semente prateada, do tamanho de uma ervilha, que brilhava com um brilho quente.
— Presente — disse ele. — Semente de luz. Planta na terra. Ela cresce… e lembra-te de olhar para cima.
Tomás segurou a semente. Era morna, como se tivesse um pequeno sol lá dentro.
— Eu vou plantar na horta — disse ele. — No potager perfumado. Assim… ela vai ter bons cheiros.
Niri inclinou-se.
— Boa escolha. Plantas gostam de histórias.
Lumo olhou para o parque lá fora, com um pouco de preocupação.
— As pessoas?
Tomás acenou com a cabeça.
— Eu vou distraí-las. Vocês partem quando o caminho estiver livre.
Ele apontou para o saxofonista ao longe.
— Vou pedir-lhe uma música bem alta. Ninguém presta atenção a nada quando há música.
Tomás correu até ao saxofonista e atirou uma moeda para a caixa.
— Pode tocar a mais animada que tiver? A sério, a mais barulhenta!
O senhor piscou o olho.
— Para já, rapaz!
E começou uma melodia tão saltitante que parecia que o parque inteiro estava a dançar sem querer.
Enquanto isso, atrás dos arbustos, a cápsula fez um som baixo, como um ronronar. Uma luz suave subiu, sem explosões nem sustos, como um balão a levantar voo.
Tomás viu de relance, e o coração dele deu um salto feliz.
Lumo e Niri acenaram pela abertura antes de esta se fechar. Tomás acenou de volta, com a música a empurrar a despedida para o céu.
A luz subiu, passou entre as folhas das árvores e desapareceu nas nuvens como se sempre tivesse pertencido ali.
Tomás ficou parado por um momento, com a semente prateada na mão.
— Adeus… — murmurou. — Ou… até já.
Capítulo 6: O Sonho que Continua
Nessa noite, Tomás foi para a cama mais cedo do que o normal, não por estar cansado, mas por estar cheio de um tipo de energia diferente, como se o mundo tivesse acrescentado uma cor nova.
No dia seguinte, ele plantaria a semente na horta. Mas agora, no escuro do quarto, ele segurou-a só mais um pouco, a sentir o calor.
Adormeceu.
No sonho, estava novamente no potager perfumado. As plantas pareciam mais altas e mais brilhantes. O manjericão sussurrava palavras pequenas. Os tomates tinham estrelas refletidas na pele.
No lugar onde ele tinha imaginado plantar a semente, já havia um rebento prateado a sair da terra, com duas folhas que brilhavam como luas fininhas.
De repente, a horta abriu-se como uma porta. Em vez do caminho de terra, havia um corredor de luz que se estendia para o céu.
Tomás ouviu a voz do Lumo, como se viesse dentro do vento:
— Tomás… olha para cima.
Ele olhou.
Lá em cima, entre as nuvens, havia pontos luminosos a piscar: um, dois, três… como um código de amizade.
Niri apareceu ao lado do rebento, pequenino, com os olhos a mudar de cor.
— Isto é só um sonho — disse Niri, mas sem parecer triste. — Sonhos são… lugares de ensaio.
Tomás riu.
— Então eu vou ensaiar ser corajoso.
Niri acenou.
— E ser aberto.
Tomás estendeu a mão. O rebento prateado cresceu um pouco mais, como se tivesse ouvido.
O corredor de luz tremeluziu, convidativo, e Tomás deu um passo em frente, sentindo o cheiro de limão, terra molhada e manjericão, todos juntos, como uma promessa.
E, enquanto caminhava, pensou que talvez o desconhecido fosse apenas um amigo que ainda não tinha sido encontrado.