Capítulo 1 – O dragão do observatório
Eu me chamo Lúcio e sou um dragão. Não daqueles enormes que cospem fogo e sequestram princesas. Sou do tipo que usa mochila, gosta de caderno quadriculado e tem medo de ventilador de teto.
Também trabalho, às vezes. Sou “guia voluntário” no pequeno observatório do meu bairro. O prédio é redondo, branco, com uma cúpula que se abre como uma pálpebra brilhante. Fica no alto de um morrinho, entre um campinho de futebol e uma praça com três bancos e um cachorro que se acha dono de tudo.
Gosto de ficar lá em cima, à noite, quando os humanos vão embora. O telescópio parece um canhão apontado para o silêncio, e as estrelas são pequenos pontos de conversa esperando alguém corajoso ou curioso.
Eu sou os dois. Ou, pelo menos, tento.
Naquela noite, o ar tinha cheiro de chuva prometida. A cidade lá embaixo brilhava como um tabuleiro de luzes. Eu estava sozinho no observatório, com a chave que o seu Renato, o astrônomo responsável, sempre deixava comigo.
— Não mexe na cúpula sem adulto, Lúcio — ele sempre repetia. — E nada de tentar assar marshmallow com o laser de alinhamento.
Como se eu fosse fazer isso. De novo.
Eu ajustei o telescópio para Saturno, só por costume. Os anéis apareceram nítidos, tão bonitos que dava vontade de desenhar com lápis amarelo em volta de tudo. Respirei fundo, sentindo minhas narinas soltarem um fiozinho tímido de fumaça. Quando fico feliz, acontece.
— Boa noite, Saturno — murmurei.
Foi então que uma estrela se mexeu.
Não piscou. Não caiu. Simplesmente… andou. Devagar, como se estivesse experimentando um sapato novo.
Franzi as sobrancelhas. Ajustei o foco. A “estrela” ficou maior, virou um ponto branco-azulado, depois um disco metálico, depois… nada.
Ela sumiu do telescópio.
— Hein? — escapou de mim.
Um segundo depois, as luzes do observatório piscaram. O projetor de estrelas do planetário ligou sozinho, espalhando constelações na cúpula fechada. Só que não eram as constelações de sempre.
No lugar de Órion, apareceu algo que parecia um polvo gigantesco abraçando uma lua. No lugar do Cruzeiro do Sul, um conjunto de quadradinhos formando uma espiral.
— Err… seu Renato, é você? — perguntei para o vazio.
A resposta veio em forma de som. Um zumbido grave, como uma abelha gigante tocando contrabaixo, encheu o ar. A cúpula tremeu levemente. Minhas escamas também.
E então, bem no centro do salão, o ar ficou ondulado, como se fosse água. Uma luz prateada girou, mais rápida, mais rápida, até explodir num clarão manso, sem doer nos olhos.
Quando a luz se desfez, eles estavam lá.
Capítulo 2 – Visitantes além do mapa
Eram três. Nenhum deles parecia um humano, o que já era um bom início para uma noite interessante.
O primeiro era alto, fino, com pele azul-esverdeada que lembrava vidro de garrafa visto contra o sol. Não tinha olhos, mas uma faixa luminosa que atravessava a cabeça de lado a lado, mudando de cor. Usava algo como um casaco cheio de bolsos flutuantes. Literalmente flutuantes: os bolsos boiavam ao redor do corpo, presos por feixes de luz.
O segundo era menor, redondo, com quatro braços fininhos e um monte de olhos espalhados pela cara, como se alguém tivesse derrubado um pote de azeitonas. Flutuava a uns vinte centímetros do chão, roncando baixinho, como um gato satisfeito.
O terceiro… o terceiro parecia um monte de fios de luz entrelaçados em forma de pessoa. Um desenho animado feito de néon. Ele (ou ela, ou… seja lá o que fosse) piscava em cores diferentes, como um letreiro de rua muito educado.
Eu fiquei parado, com as asas meio abertas de susto. Minha cauda, traidora, se enrolou no pé do telescópio.
— Desculpem… o observatório está fechado para visitas… intergalácticas — gaguejei.
A criatura alta fez um gesto com a mão, e um som saiu de um pequeno círculo preso ao pescoço dela. O som se esticou, afinou, se reorganizou. Até que virou palavras, em português:
— Saudação cordial. Não desejamos dano. Procuramos histórias.
O redondo flutuante deu um giro animado no ar e repetiu, com voz mais fina:
— Históóórias!
Eu pisquei, sem saber se devia correr, gritar ou oferecer chá.
— Histórias? Mas… de quê?
A criatura de luz respondeu. Não com a boca, porque não tinha. As cores dela vibraram, e o círculo tradutor trabalhou de novo:
— De um pequeno planeta azul. Chamado Terra.
Meu coração bateu mais forte. Minhas escamas, que costumam ser de um verde escuro bem discreto, ficaram salpicadas de pontinhos dourados. Acontece quando fico muito empolgado.
— Vocês viajaram… sei lá de onde… até o observatório do meu bairro… para ouvir histórias da Terra?
Os três se entreolharam, ou pelo menos fizeram algo parecido com isso.
— Escolhemos este ponto — explicou o azul — porque aqui alguém fala com as estrelas todas as noites. E não tem medo delas.
Eu quase protestei. Às vezes tenho, sim. Mas era legal demais ouvir aquilo.
— Eu não sou… humano — avisei, por educação. — Sou um dragão. Quer dizer, sou Lúcio.
O redondo deu um pulo no ar.
— Dragão! Palavra nova! Registrei! — Ele estendeu um dos braços e um pequeno cubo metálico apareceu, rodopiando. — Deseja definição?
— Acho que não precisa. Eu sou a definição — respondi, abrindo um pouco as asas.
A criatura de luz riu. Não com som, mas com um brilho tão divertido que dava vontade de rir junto.
— Lúcio — traduziu o círculo. — Necessitamos de um contador de histórias. Nosso mundo está… quieto demais. Esquecemos como imaginar.
Eu olhei em volta. O observatório tinha cheiro de poeira e café frio. O ventilador de teto rangia. O telão do planetário mostrava aquelas constelações estranhas.
Quieto demais. Conhecia essa sensação.
— Tudo bem — murmurei. — Posso tentar. Contar histórias é meio que… o que eu faço.
Capítulo 3 – O acordo das estrelas
Sentamos em círculo. Quer dizer, eu sentei numa cadeira giratória, o redondo ficou flutuando na minha altura, o alto azulado cruzou as pernas no ar, como se a gravidade fosse apenas uma sugestão, e a criatura de luz simplesmente se espalhou um pouco, como uma fogueira calma.
— Como se chama o lugar de vocês? — perguntei, abrindo meu caderno de capa azul. Sempre anoto nomes estranhos.
— Não há tradução exata — respondeu o azul. — Chamamos de Lar-Comum. Há muitos povos. Muitas formas. Mas um mesmo céu.
— E vocês… viajaram tudo isso pra… que exatamente? — eu continuei.
Ele tocou um dos bolsos flutuantes e um campo de estrelas apareceu pairando sobre nós. Era um mapa espacial, mas diferente dos que eu costumava ver nos livros do seu Renato. As estrelas se moviam devagar, como se tivessem vontade própria. Pequenos símbolos brilhavam ao redor de alguns pontos.
— Nossos sensores — explicou o tradutor — detectaram ondas de imaginação nesse quadrante. Histórias enviadas na direção do vazio, embaladas em luz, som, sonhos. Vêm deste planeta azul. Vocês contam muitas histórias. Nós, poucas.
O redondo assentiu com todos os olhos ao mesmo tempo.
— Nosso Lar-Comum cresce. Tecnologia, energia, viagens. Mas… sem histórias, ficamos frios. Um professor nosso disse: “Procurem quem ainda sabe brincar com o universo.”
— E vocês acharam um dragão num observatório de bairro — ri, meio sem jeito. — A vida é mesmo cheia de plot twists.
O círculo tradutor demorou um segundo a traduzir “plot twists”. O azul franziu… a faixa de luz, talvez.
— Precisamos de cooperação — ele disse então, sério. — Em troca de suas histórias, oferecemos conhecimento. Podemos melhorar este observatório. Ajudar seus humanos a conhecer melhor o próprio céu. E…
Ele parou. A criatura de luz completou, em tons suaves:
— …podemos levar algumas histórias de vocês para o Lar-Comum. E trazer algumas de lá pra cá.
Eu fiquei em silêncio, ouvindo o ventilador ranger, o meu coração bater e um mosquito muito dedicado tentando ultrapassar a janela fechada.
Histórias indo e vindo entre mundos. Humanos aprendendo com alienígenas. Alienígenas aprendendo com humanos. E um dragão no meio, fazendo a ponte.
Parecia justo.
— Mas tem uma condição — eu disse.
A faixa luminosa do azul ficou num tom amarelo de alerta.
— Nenhum humano pode sair prejudicado — continuei. — Nem bicho, nem planta, nem rio. Nada de raptos, experimentos estranhos, nem chupa-cabra versão galáctica. A Terra já tem problemas demais.
O redondo fez cara ofendida.
— Não raptamos! Não mordemos! Só ouvimos! E, às vezes, abraçamos.
— Abraços são permitidos — respondi, sorrindo.
A criatura de luz brilhou num roxo tranquilo.
— Aceitamos a condição. Em troca, pedimos outra.
— Qual?
— Que você conte também histórias daquilo que a Terra ainda pode ser. Não apenas do que já é. Precisamos aprender a sonhar futuro.
Engoli em seco. Isso era difícil. Mas era exatamente o tipo de difícil que eu gostava.
— Fechado — respondi. — Vamos cooperar.
Estendi minha garra. O azul encostou a mão na minha. A criatura de luz envolveu nossas mãos com um brilho quente. O redondo se jogou por cima, transformando o aperto num emaranhado um pouco atrapalhado de dedos, luzes e escamas.
O acordo das estrelas estava selado.
Capítulo 4 – A primeira história
— Então… sobre o que vocês querem ouvir primeiro? — perguntei, enquanto as constelações alienígenas deslizavam devagar pela cúpula.
— Comece pequeno — sugeriu o azul. — Um lugar. Uma rua. Um pedaço da Terra.
Pensei na praia. Pensei na floresta, que eu só conhecia por foto. Pensei nos desertos vermelhos, nas geleiras brilhantes. Mas, no fim, escolhi o que conhecia melhor.
— Vou contar sobre o meu bairro — falei. — E sobre este observatório.
Os três se ajeitaram. A criatura de luz se fez um pouco mais compacta, concentrada. O redondo tirou de um bolso invisível algo parecido com uma bolinha de sabão sólida, que começou a gravitar em volta da própria cabeça.
— Aqui embaixo — comecei — as ruas parecem rios de asfalto. De dia, carros e ônibus são como peixes barulhentos. De noite, as janelas acendem como pequenas galáxias dentro dos prédios.
À medida que eu falava, percebi um detalhe estranho. O ar no centro do nosso círculo vibrava e, devagar, imagens começavam a surgir. Flutuações de luz que lembravam sombras coloridas.
Minha rua apareceu ali, meio transparente, mas reconhecível. O mercadinho de esquina, o ponto de ônibus, a banca de jornal. E eu lá, menor, correndo com minha mochila, tentando esconder as asas debaixo do casaco para não assustar as pessoas novas no bairro.
— Vocês estão… projetando o que eu conto? — perguntei, sem interromper a história.
— Somando nossa tecnologia ao seu jeito de imaginar — respondeu o azul, orgulhoso. — É uma cooperação em tempo real.
Continuei.
— Tem também o seu Renato, o astrônomo — falei. — Ele cuida deste observatório como se fosse um animal de estimação. Conversa com o telescópio, briga com as nuvens, pede licença para a Lua quando ela aparece bem na frente da estrela que ele quer olhar.
O redondo riu tanto que começou a girar mais rápido.
— Lua ciumenta! — chiou ele.
Mostrei como é a sala de entrada do observatório, com os pôsteres de nebulosas, os cartazes meio amassados de cursos que já passaram. Contei dos grupos de crianças que visitam, das perguntas engraçadas que fazem.
— Uma vez, um menino perguntou se dava para ver o cabelo de um astronauta do espaço — lembrei. — Outra vez, uma menina quis saber se as estrelas trocam mensagens como as pessoas mandam mensagens no celular.
— Trocam? — perguntou a criatura de luz, curiosa.
Pensei um pouco.
— Talvez troquem, mas numa linguagem que a gente ainda não entende. Como vocês.
A faixa luminosa do azul ficou num tom verde suave, que eu começava a reconhecer como satisfação.
Contei também sobre mim. Sobre como eu gosto de escrever histórias em cadernos diferentes. Tenho um para viagens que ainda não fiz, outro só para monstros que na verdade são mocinhos, outro com invenções malucas que talvez nunca saiam do papel.
Enquanto eu falava, mais imagens surgiam. Meus cadernos flutuavam em miniatura, abrindo e fechando sozinhos, soltando pequenas faíscas de letra.
— Este planeta é… inquieto — concluiu o azul, depois de um tempo. — Barulhento. Confuso. Mas cheio de coisas que nunca vimos.
— Vocês viram só um pedaço bem pequeno — respondi. — Tem muito mais.
— E as histórias tristes? — perguntou, de repente, o redondo, parando de girar. — Só tem histórias felizes?
Pensei na televisão ligada nas guerras, nas enchentes, nas queimadas. Pensei nas brigas de família, nos bullying da escola, nas notícias de animais desaparecendo. Minha cauda enroscou mais forte no pé do telescópio.
— Tem histórias muito tristes, sim — respondi, com cuidado. — Mas hoje à noite eu… posso contar as que apontam algum tipo de saída. Pode ser?
A criatura de luz vibrou num tom dourado.
— Histórias de saída são as que mais precisamos — traduzido, soou quase como um sussurro.
E foi assim que passei a primeira parte da noite contando histórias da Terra. De mutirões para limpar rios, de vizinhos que dividem comida quando falta, de cientistas tentando curar doenças, de crianças plantando árvores em calçadas estreitas.
Eles ouviam como se cada palavra fosse uma nova estrela surgindo.
Capítulo 5 – Quando o céu responde
Em algum momento, as luzes da cidade lá embaixo diminuíram. Devia ser hora de todo mundo dormir ou, pelo menos, fingir.
Eu começava a ficar rouco. Dragões também ficam. Minha garganta esquenta demais se eu falo por muitas horas. Tomei um gole de água de uma garrafinha amassada com adesivo de cometa.
— Agora é a nossa vez — disse o azul, de repente.
A criatura de luz se levantou, ou algo assim. As cores dela ficaram mais profundas, puxando para um azul noite salpicado de pontos brancos.
— Vamos contar uma história do Lar-Comum — vibrou ela.
As imagens mudaram. O salão do observatório sumiu e fomos cercados por um outro lugar, feito de projeções. Um céu roxo escuro, com três luas de tamanhos diferentes. No chão, construções que pareciam ter crescido como plantas: torres curvas, pontes transparentes, uma praça cheia de pedras flutuando em círculos.
— Este era nosso mundo — explicou o tradutor. — Antes de aprendermos a visitar outros céus. Muitos povos. Muitos modos de viver. Mas, aos poucos, algo foi se apagando. As histórias ficaram curtas. Previsíveis. Repetidas.
Uma imagem surgiu: uma criança alienígena, de um povo com asas feitas de vapor, segurando um dispositivo brilhante que mostrava sempre a mesma sequência de imagens.
— Esquecemos de inventar “e se…?” — continuou o azul. — Sem isso, nossas invenções ficaram frias. Serviam para muita coisa, mas ninguém sabia mais direito… por quê.
Mostraram então uma grande reunião, seres de todas as formas sentados em círculo, debatendo. No centro, um mapa do universo conhecido.
— Foi quando alguém lembrou de um velho boato — contou a criatura de luz. — Havia um planeta pequeno, azul, onde quase todo mundo ainda imaginava. Onde crianças inventavam mundos com pedaços de papel e adultos choravam com histórias de gente que nem existia.
Eu arfei.
— Essa parte é verdade? — perguntei. — A gente parece… tão confuso, às vezes.
— Confuso, sim — confirmou o azul. — Mas confusão também é um tipo de movimento. Nós estávamos parados demais.
Falaram então de como construíram a nave deles. Não uma nave de metal, com parafusos e portas, mas algo mais… vivo. Uma mistura de tecnologia e sonho. As imagens mostravam uma esfera de luz se formando, feita de pedaços de canções, memórias de tempestades, formas geométricas brilhantes.
— Nossas naves precisam de histórias para atravessar grandes distâncias — explicou o redondo, orgulhoso. — Sem elas, não saem do lugar.
— Então — concluí — para virem até aqui, vocês precisaram imaginar muito primeiro.
— Sim — disse a criatura de luz. — E isso já começou a nos curar um pouco. Mas precisamos de mais. Precisamos de troca. De cooperação verdadeira.
Enquanto ela falava, algo mudou lá fora. A cúpula do observatório, ainda fechada, deixou entrar uma claridade diferente, azulada, como se alguém tivesse acendido um holofote gigante no telhado.
— O que é isso? — perguntei, levantando.
O azul pareceu escutar algo que eu não podia ouvir.
— É a nossa nave — explicou. — Ela está respondendo às suas histórias.
— Respondendo como?
Ele sorriu, o que significou apenas que a faixa de luz em sua cabeça deu um pulinho.
— Venha ver.
Corremos — ou flutuamos, no caso de dois deles — até a escada que levava à plataforma externa. Meu coração batia rápido. Eu estava oficialmente quebrando a regra do seu Renato sobre a cúpula. De novo.
Quando empurrei a pesada porta metálica, o ar frio da madrugada me abraçou. Abri as asas instintivamente, sentindo a brisa passar por entre minhas escamas. Lá em cima, o céu estava limpo, tão limpo que dava para ver a Via Láctea como um rio leitoso atravessando tudo.
E, bem acima do observatório, pairava uma esfera de luz.
Não era grande. Tinha mais ou menos o tamanho de um carro pequeno, mas parecia feita de pura aurora boreal comprimida. Cores giravam em camadas: azul, verde, dourado, às vezes um rosa delicado.
— Essa é a nave de vocês? — perguntei, quase em sussurro.
— Uma parte dela — respondeu o azul. — A casca. O resto fica “entre”, onde vocês ainda não podem ir sem… enjoar muito.
A esfera pulsou quando me aproximei. De repente, uma imagem apareceu em sua superfície: minha rua, de novo. O mercadinho, o cachorro da praça, o campinho com traves tortas.
— Ela está armazenando suas histórias da Terra — explicou o redondo. — Vai levar tudo para o Lar-Comum. Vai espalhar por lá.
Senti algo apertar no peito. Um aperto bom e assustador ao mesmo tempo.
— E vocês? — perguntei. — Vocês vão… embora agora?
O azul balançou a cabeça.
— Ainda não. Falta a parte mais importante.
— Qual parte?
Foi a criatura de luz que respondeu, brilhando num tom suave de amanhecer:
— A parte em que vocês também recebem algo de nós.
Capítulo 6 – A pedra lisa
Voltamos para dentro. A cúpula se fechou, mas o céu da nave continuava dançando no alto do telão. Eu me sentei outra vez na cadeira giratória, tentando não rodar de nervoso.
— Não precisam me dar tecnologia — avisei. — Nem armas nem máquinas. Isso sempre dá problema nos filmes.
O tradutor demorou um pouco mais que o normal, como se estivesse procurando palavras delicadas.
— Não vamos dar armas — garantiu o azul. — Vamos doar uma pergunta.
Eu fiz a cara que minha mãe faz quando alguém diz que não quer mais arroz, só batata frita.
— Uma… pergunta?
O redondo aproximou-se, sério pela primeira vez.
— Em nosso mundo, as perguntas certas valem mais que qualquer aparelho — ele explicou. — E temos uma para você… e para este lugar.
A criatura de luz abriu um espaço em seu próprio corpo luminoso. De dentro dele caiu, suavemente, algo bem simples: uma pedra.
Era pequena, cabia na palma da minha garra. Tinha um brilho discreto, acinzentado, e era perfeitamente lisa, como se alguém tivesse passado horas polindo com carinho.
— Isso é… um meteorito alienígena superpoderoso? — arrisquei.
— Não — respondeu o azul, com o que eu pensei ser paciência divertida. — É só uma pedra. De um rio do Lar-Comum.
Toquei a superfície. Estava fria, mas não gelada. Só fria o suficiente para me acordar. Um pequeno símbolo apareceu, gravado em luz por um segundo: um círculo dentro de outro.
— A pergunta está aí dentro — disse o redondo.
— Como assim, dentro?
— Quando alguém encosta nesta pedra e pensa na própria casa — explicou a criatura de luz — a pedra faz uma simples pergunta, direto no pensamento: “O que aqui ainda pode melhorar, se mais gente cooperar?”
Olhei para a pedra. De repente, não parecia mais tão simples.
— Ela não responde nada — continuou o azul. — Não decide por ninguém. Só lembra a pergunta. E guarda, em silêncio, todas as respostas que as pessoas inventarem. De todos os mundos em que passar.
— Por quê? — sussurrei.
— Porque um dia — disse a criatura de luz — quando tivermos esquecido outra vez como mudar as coisas juntos, vamos precisar ouvir de novo essas respostas. As de vocês, as nossas, as de quem mais aparecer.
A sala ficou muito quieta. Até o ventilador resolveu colaborar.
Fechei a mão em torno da pedra. Não senti nenhum choque, nem luz, nem trombetas de revelação. Só o peso pequeno e constante de algo muito, muito simples.
Pensei na minha casa. No apartamento apertado, nas plantas da minha mãe, na TV sempre alta do vizinho de cima, nas discussões sobre contas, nos silêncios de preocupação. Pensei na rua. Nos buracos no asfalto. No lixo na praça. Nas risadas no campinho. No medo de sair à noite em algumas esquinas.
E a pergunta veio, mansa, como água entrando por baixo da porta: “O que aqui ainda pode melhorar, se mais gente cooperar?”
Não era uma voz. Era mais uma lembrança que eu nunca tinha tido.
Olhei para os três visitantes.
— E se alguém responder “nada”? — perguntei.
— Então essa é a história daquela pessoa naquele dia — respondeu o azul. — Talvez outra pessoa, no mesmo lugar, responda outra coisa. A pedra não briga. Ela só pergunta.
Ri, de leve.
— Uma tecnologia que faz perguntas. Vocês são mesmo estranhos.
— Vocês também — rebateu o redondo, simpático. — Foi por isso que viemos.
Ficamos ali, por um tempo, em silêncio confortável. Depois o azul se levantou, devagar.
— Está quase amanhecendo no seu planeta pequeno — disse ele. — Precisamos ir.
Minha cauda se desenrolou do pé do telescópio, como se estivesse com vergonha.
— Vocês voltam? — perguntei.
A criatura de luz mudou para um tom cor de pêssego.
— Histórias assim nunca acabam na primeira noite — traduziu o círculo, com um eco que parecia um sorriso. — Se vocês continuarem imaginando, encontraremos o caminho de volta.
O redondo deu três voltas no ar e veio me abraçar, cheio de braços e olhos.
— Obrigado pelas histórias, Lúcio-dragão! — chiou ele. — Cuide bem da pedra!
— E da pergunta — completei.
— Principalmente da pergunta.
O azul tocou meu ombro com delicadeza.
— Lembre-se: cooperação é tecnologia de ponta. Só que não precisa de tomadas.
Eu ri, apesar do nó na garganta.
A luz prateada voltou a encher o centro do observatório. As formas deles ficaram borradas, como desenhos sob chuva. Aos poucos, sumiram. O zumbido grave diminuiu, virou sussurro, depois nada.
A cúpula se abriu sozinha, devagar, como um olho acordando. O primeiro fio alaranjado do amanhecer escorreu pelo horizonte. Os pássaros começaram a tentar imitar naves espaciais, cada um do seu jeito.
Eu fiquei ali, sentado no chão, com a pedra fechada na mão.
Ela era mesmo só uma pedra. Pesada, lisa, silenciosa. Mas agora, cada vez que eu pensava na Terra — na minha rua, no meu prédio, no meu bairro, no meu planeta azul que ainda se atrapalha inteiro — a pergunta voltava, teimosa e calma:
“O que aqui ainda pode melhorar, se mais gente cooperar?”
Guardei a pedra no bolso interno da mochila, junto com meus cadernos. Quando o seu Renato chegou, bocejando, com cheiro de café e vento, eu já estava no telescópio, fingindo que tinha passado a noite inteira estudando Saturno.
— Tudo tranquilo, Lúcio? — ele perguntou.
Olhei para o céu, que agora parecia normal de novo.
Pensei na nave-luz, viajando de volta para o Lar-Comum, carregando histórias da Terra. Pensei na pedra no meu bolso, pesada como uma promessa leve.
— Tudo tranquilo — respondi. — Mas acho que, hoje, a gente podia fazer uma coisa diferente aqui no observatório.
— Diferente como?
Sorri.
— Que tal abrir mais cedo e convidar o pessoal do bairro inteiro para vir olhar o céu? De graça. E, depois, cada um conta uma história da sua casa. A gente anota tudo. Faz um mapa de sonhos, sei lá.
Seu Renato me olhou como se eu tivesse sugerido que ele virasse acrobata de circo. Depois, devagar, um sorriso apareceu debaixo do bigode.
— Confesso que é a ideia mais maluca que já ouvi neste lugar — disse ele. — Então, claro que vamos fazer.
Enquanto descíamos juntos a escada, ouvi, bem ao fundo, lá longe, quase no espaço entre as estrelas, algo que poderia ser riso. Ou eco. Ou agradecimento.
Minha mão apertou a pedra lisa no bolso. Pequena. Simples. Só uma pedra.
E, ainda assim, pesada de possibilidades.