Capítulo 1
O Leo tinha onze anos e um segredo que não cabia em nenhum bolso: uma naveta espacial do tamanho de uma carrinha, escondida num antigo armazém de barcos, a dois quarteirões do prédio onde ele vivia. Por fora, parecia uma coisa velha e enferrujada. Por dentro, era como entrar numa história em que as paredes sussurravam luz.
Naquela tarde, ele empurrou a porta pesada e sentiu o cheiro de madeira húmida misturado com um perfume metálico, como moedas aquecidas ao sol.
— Vamos lá, Estrelinha… só mais um bocadinho — murmurou, passando a mão pelo painel.
“ESTRELINHA” era o nome que ele tinha dado à naveta. O nome original, segundo o manual, era um código impossível, cheio de letras e números. Estrelinha era mais simpático. E mais verdade: quando ligava, a cabine acendia-se com pontinhos azuis, como um céu ao contrário.
O problema é que a bateria estava quase no fim. E o carregador… bem, o carregador não era de tomada.
O painel mostrou um aviso em letras dançantes:
NÍVEL DE ENERGIA: 7%
RECARREGAMENTO NECESSÁRIO
PROCURE ZONA SEGURA
Zona segura. Leo repetiu a expressão na cabeça. “Seguro” para uma naveta alienígena podia significar “não explodir”, “não ser visto”, “não acordar um monstro debaixo da terra” ou, o mais assustador de tudo, “não ter adultos curiosos”.
Ele tinha encontrado a Estrelinha há meses, numa noite em que a chuva caía torta e o vento parecia querer arrancar as árvores pela raiz. Uma luz verde atravessou o céu, fez um som de assobio tímido e… plof. A naveta caiu ali perto, como se o universo tivesse largado um brinquedo.
Desde então, Leo vinha aprendendo a linguagem do painel, como quem decifra um jogo. Só que agora não era jogo. Era urgência.
Ele abriu o mapa holográfico. Um círculo amarelo piscava ao longe, no fim da cidade, para lá das casas e dos postes, numa zona que toda a gente chamava de “a friche”.
Era um terreno abandonado, antigo canteiro de obras, que ninguém acabou. Mas, por alguma razão, as flores tinham tomado conta. Diziam que era bonito e estranho ao mesmo tempo: uma friche fleurie, como a professora de francês da escola insistia em chamar.
— Se o mapa diz que lá é seguro… então é lá — decidiu Leo, com o coração a bater como se tivesse pés.
Vestiu o casaco, guardou uma lanterna, uma garrafa de água e um pacote de bolachas no bolso. Nunca se sabia quando o universo pedia um lanche.
Quando ele tocou no botão de arranque, a Estrelinha vibrou, e um ronronar macio encheu o ar.
— Shhh — fez Leo, como se a naveta fosse um gato.
A porta do armazém abriu-se só um pouco, o suficiente para a carrinha impossível deslizar para a rua. Leo conduziu devagar, escondendo-se por trás de camiões estacionados e árvores. A cidade parecia normal, e isso era quase engraçado: as pessoas iam ao supermercado, passeavam cães, discutiam onde era a melhor pizzaria… enquanto uma naveta alienígena passava ali, com um miúdo ao volante.
No painel, o nível de energia piscou: 6%.
Leo engoliu em seco.
— Aguenta, Estrelinha. Prometo que já vamos.
Capítulo 2
A friche ficava atrás de uma cerca meio caída, coberta de hera e grafites antigos. Leo estacionou a naveta na sombra de um muro e espreitou por uma abertura.
O lugar era… inesperado.
Era como se alguém tivesse despejado um balde de cores ali. Flores altas, lilases e amarelas, balançavam ao vento. Paposilas vermelhas faziam pequenos fogos de artifício no meio da erva. Havia borboletas, e o zumbido das abelhas parecia um motorzinho alegre.
— Quem diria… um parque secreto — sussurrou Leo, entrando com cuidado.
O chão era irregular, com pedaços de cimento cobertos por musgo. Aqui e ali, surgiam restos de tubos enferrujados e placas antigas. Mas as flores engoliam tudo com gentileza, como se estivessem a dizer: “Não faz mal. Nós tratamos.”
O mapa holográfico projetou-se no ar, sobre o pulso de Leo. O círculo amarelo pulava perto de um monte de pedras, ao centro da friche.
Ele caminhou, sentindo as flores roçarem-lhe as pernas. A luz do fim da tarde passava por entre as hastes e criava faixas douradas no chão. Leo respirou mais fundo. Aquele lugar parecia seguro, sim. Parecia… abraçar.
Então ouviu um som.
Plim. Plim. Plim.
Como gotas a cair numa taça de vidro.
Leo parou.
— Olá? — chamou, baixinho, para não assustar ninguém. — Está alguém aí?
O som repetiu-se, agora mais perto, e veio acompanhado de um brilho branco que se movia entre as flores.
Leo agachou-se e afastou uma moita de margaridas. O brilho estava ali: uma bolinha luminosa, flutuando a poucos centímetros do chão. Tinha uma espécie de… cara? Ou uma ideia de cara: dois pontinhos mais escuros e uma linha que mudava de forma como um sorriso confuso.
A bolinha fez um barulhinho que podia ser um espirro.
— Atchim? — arriscou Leo, sem conseguir evitar uma risada nervosa. — Estás constipado?
A bolinha tremeu e respondeu com um plim mais agudo, como se estivesse ofendida e divertida ao mesmo tempo. Depois, girou no ar e desenhou um pequeno símbolo luminoso: uma seta apontando para o monte de pedras.
— Queres que eu vá ali? — Leo apontou para si e depois para o monte. — Eu?
Plim.
A bolinha começou a avançar, como um guia apressado. Leo seguiu, tentando não tropeçar. Ao mesmo tempo, uma sensação estranha crescia no peito dele: a sensação de que não estava sozinho no universo. E, mais do que isso… a sensação de que o universo podia ser simpático.
Chegaram ao monte de pedras. Parecia apenas entulho, mas havia flores brotando entre as rachaduras, e no centro, quase escondida, uma placa metálica oval.
A bolinha encostou na placa. A superfície acendeu-se com linhas suaves e abriu-se como uma tampa, revelando um círculo de metal polido, com ranhuras e marcas que lembravam… encaixes.
Leo aproximou-se, arregalando os olhos.
— Isto é… uma plataforma? Um carregador?
O painel no pulso vibrou e mostrou uma mensagem nova:
PONTO DE RECARGA DETETADO
COMPATIBILIDADE: 93%
AVISO: INICIAR COM AUTORIZAÇÃO LOCAL
Autorização local?
Leo olhou para a bolinha. Ela oscilava no ar, como se estivesse a respirar.
— Tu és a autorização? — perguntou ele.
A bolinha fez um plim suave, e o “sorriso” dela virou um arco grande, quase como uma lua.
Leo riu.
— Ok. Então… por favor? Podemos carregar a Estrelinha aqui?
A bolinha deu uma volta completa e pousou sobre o metal, como um carimbo de luz. As ranhuras acenderam-se. Um som profundo ecoou por baixo da terra, mas não era assustador. Era como o ronco de um gigante a espreguiçar-se.
Leo sentiu o chão vibrar.
— Uau.
Só que, naquele instante, o nível de energia no pulso piscou: 5%.
E, ao longe, um som de passos.
Alguém vinha pela cerca.
Capítulo 3
Leo apagou rapidamente o holograma no pulso e agachou-se atrás do monte de pedras. A bolinha luminosa desapareceu entre as flores como se soubesse brincar às escondidas melhor do que qualquer criança.
Os passos aproximaram-se. Havia vozes.
— Eu juro que vi uma luz a mexer-se aqui ontem! — dizia uma voz fina, que Leo reconheceu como a do Tomás, um miúdo da turma dele que gostava de teorias da conspiração e sandes enormes.
— Deve ser um gato com olhos brilhantes — respondeu outra voz, mais calma. A Inês. Ela era curiosa, mas do tipo que fazia perguntas antes de concluir.
Leo prendeu a respiração. Se eles vissem a naveta… se contassem a alguém… se a notícia chegasse aos adultos… adeus segredo, adeus Estrelinha, e talvez adeus a qualquer chance de voltar a saber de onde a naveta vinha.
Ele espreitou. Tomás e Inês entraram na friche, empurrando a cerca. Tomás segurava um telemóvel como se fosse uma lanterna e uma espada ao mesmo tempo. Inês trazia uma mochila e um ar de “isto pode ser interessante”.
— Estás a ver? — Tomás apontou para o centro. — Eu disse. Aqui há… coisas.
Inês olhou em volta e sorriu, sem gozar. Isso era uma das coisas boas nela: ela conseguia ser gentil mesmo quando achava alguém exagerado.
— Há flores. Muitas flores. E um monte de pedras — comentou. — O que exatamente é que viste?
Tomás hesitou, como se as palavras fossem insuficientes.
— Uma bola de luz. Tipo… uma estrela… mas baixinha. E fez “plim”. Exatamente “plim”.
Leo quase soltou uma gargalhada. “Exatamente plim.” Parecia frase de desenho animado.
O problema é que a bolinha, ofendida ou curiosa, reapareceu atrás de uma moita e fez um plim bem audível, como quem diz: “Sim, eu existo, obrigado.”
Tomás ficou com os olhos enormes.
— EU DISSE!
Inês deu um passo atrás, mas não gritou. Em vez disso, ergueu as mãos como se estivesse a acalmar um animal.
— Olá… — disse ela, devagar. — Não queremos fazer mal.
Leo sentiu um calor no peito. “Não queremos fazer mal.” Era exatamente o tipo de frase que ele também diria.
A bolinha flutuou entre os dois e desenhou no ar uma sequência de pontos, como um mini-fogo-de-artifício silencioso. Depois, fez uma seta… para o monte de pedras.
Tomás aproximou-se como se estivesse a entrar num filme.
— Isto é… alienígena, não é? — sussurrou ele, com uma alegria quase infantil.
Inês inclinou a cabeça.
— Se for, parece… educado.
Leo não aguentou mais ficar escondido. Saiu de trás do monte, levantando as mãos.
— Ok. Antes que vocês desmaiem ou publiquem vídeos… sou eu. O Leo.
Tomás virou-se tão rápido que quase deixou cair o telemóvel.
— TU?! Estavas aqui o tempo todo?
— Estava. — Leo respirou fundo. — E… eu tenho uma coisa para vos mostrar. Mas só se prometerem uma coisa.
Inês olhou direto para ele.
— Não contar a ninguém?
Leo assentiu.
Tomás pareceu lutar consigo mesmo, como se estivesse a decidir entre virar famoso ou manter um segredo maravilhoso.
— Prometo… — disse ele, finalmente. — Mas… isto é mesmo alienígena? Porque, se for, eu preciso de… de uma frase épica.
— Podes dizer “plim” — respondeu Leo, e Inês riu.
Ele guiou-os até a sombra do muro, onde a Estrelinha estava escondida. Quando Tomás viu a naveta, a boca dele abriu-se tanto que dava para ver as bolachas que ele tinha comido no recreio.
— Isso… isso… — ele apontou, tremendo. — Isso é uma NAVE!
— Naveta — corrigiu Leo, mesmo sem saber porquê. Talvez porque “naveta” parecia menos ameaçador, mais… doméstico. — E precisa de energia. O mapa diz que aqui tem um ponto de recarga, mas… precisa de autorização local.
A bolinha luminosa apareceu, como se tivesse ouvido o seu nome. Fez um plim orgulhoso.
Inês aproximou-se da naveta e passou a mão no metal, sem tocar demais.
— E tu encontraste isto… sozinho?
Leo encolheu os ombros, tentando parecer corajoso. Por dentro, ele sentia-se um pouco como uma colher a tentar carregar uma panela.
— Ela caiu. E eu… eu não quis que alguém a desmontasse. Parece… uma coisa viva. Ou pelo menos… importante.
Tomás estava a dar voltas à naveta, procurando botões, janelas, qualquer coisa que pudesse dizer aos amigos. Mas ele tinha prometido.
— Então, o que fazemos? — perguntou Inês. — Levamos até ao ponto de recarga?
Leo apontou para o monte de pedras.
— É ali. Mas… há um aviso. “Iniciar com autorização local.” Acho que a bolinha é a autorização.
A bolinha fez um plim, como um “sim” com campainha.
Tomás cruzou os braços, muito sério de repente.
— Ok. Missão: carregar naveta alienígena. Objetivo secundário: não morrer.
— Preferia “não assustar ninguém” — disse Inês.
Leo sorriu.
— Preferia “fazer isto com cuidado”.
E, juntos, empurraram a Estrelinha devagar pela friche, abrindo caminho entre as flores sem as esmagar. Leo ia na frente, afastando as hastes com delicadeza. A bolinha voava por cima, como um pequeno farol.
Quando chegaram ao círculo metálico, a plataforma acendeu-se de novo, como se estivesse feliz por os ver.
O painel da naveta projetou-se no ar:
INICIAR RECARGA?
REQUER CONFIRMAÇÃO LOCAL E HUMANA
— Humana? — Tomás piscou. — Isso sou eu?
Inês apontou para Leo.
— Acho que é o piloto.
Leo aproximou a mão do painel e olhou para a bolinha.
— Tudo bem?
Plim.
Ele carregou em “SIM”.
Capítulo 4
A plataforma brilhou, e linhas de luz subiram do chão como cipós transparentes, envolvendo a Estrelinha sem apertar. Era bonito, como se a naveta estivesse a ser regada com luz.
Um som suave começou, parecido com música feita de vento. As flores à volta inclinaram-se um pouco, como se escutassem.
No pulso de Leo, o nível de energia subiu para 8%. Depois 12%. Depois 20%.
Tomás não aguentou.
— Isto é a coisa mais incrível que já vi. — Ele baixou a voz e olhou para as flores. — Achas que… isto foi feito por extraterrestres também?
Inês agachou-se para observar a base da plataforma.
— Talvez. Ou talvez alguém tenha colocado aqui há muito tempo. Como… um posto de abastecimento, mas secreto.
Leo sentiu um arrepio, não de medo, mas de imaginação.
— Um posto para viajantes espaciais — disse ele. — E esta friche cheia de flores… como se o lugar quisesse parecer comum. Quem iria desconfiar de um terreno abandonado?
A bolinha luminosa fez dois plins seguidos e desenhou no ar uma coisa que parecia uma flor com um círculo no meio. Depois, uma linha apontando para baixo.
— Estás a dizer que… há mais coisas aqui em baixo? — perguntou Tomás, já com o olhar de quem quer cavar.
Inês franziu a testa.
— Sem estragar o terreno. Se isto é um lugar de recarga, tem de continuar seguro. Para nós e para… quem vier.
Leo concordou. A palavra “seguro” voltou, mais forte.
A naveta continuou a carregar. 35%. 44%.
Foi então que ouviram um estalo.
Do outro lado da friche, perto da cerca, uma sombra mexeu-se. Uma voz grossa resmungou:
— Eh lá… o que é isto? Quem anda aí?
Um adulto. Um homem. Provavelmente alguém que passava por ali e viu o brilho.
Tomás congelou. Inês levou o dedo aos lábios. Leo sentiu o coração a disparar.
A bolinha luminosa apagou-se quase completamente, ficando só um pontinho, como uma estrela a esconder-se atrás de uma nuvem.
O brilho da plataforma diminuiu, mas a recarga não parou. Era como se o sistema soubesse: “Perigo de ser visto.”
Leo sussurrou:
— Se ele vê a naveta, acabou.
Inês olhou rapidamente em volta e apontou para uma zona onde as flores eram mais altas e densas.
— Ali. Dá para cobrir com aquelas mantas de folhas.
Tomás, surpreendentemente, não discutiu. Ele foi útil, como se a aventura tivesse colocado o cérebro dele na posição certa.
Os três puxaram a naveta, milímetro a milímetro, para o meio das flores altas, sem desligar a ligação de energia que parecia acompanhar, como uma corda de luz elástica.
O homem aproximou-se, resmungando mais alto.
— Eu vi luzes! Isto aqui não é lugar para brincadeiras!
Leo prendeu a respiração. De onde estavam, dava para ver as pernas do homem entre as hastes. Ele caminhava devagar, desconfiado, chutando uma pedra.
A bolinha luminosa subiu um pouco e fez… plim.
Leo quase desmaiou.
Mas o plim saiu tão baixinho que parecia uma gota a cair de uma flor. O homem parou, olhou para o chão, e depois para o céu, como se não soubesse onde procurar.
— Deve ser algum bicho… — murmurou ele, aborrecido. — Ou um daqueles brinquedos de luz.
Ele deu meia volta, ainda a resmungar, e foi embora pela cerca.
Quando o som dos passos desapareceu, Leo soltou o ar que estava a guardar.
Tomás limpou o suor da testa com a manga.
— Ok. Eu nunca mais gozo com filmes em que as pessoas se escondem atrás de plantas.
Inês sorriu, aliviada.
— As plantas são ótimas. Só não gostam de ser pisadas.
Leo olhou em volta, para as flores que os tinham escondido como uma equipa silenciosa.
— Obrigado — disse ele, sem saber se falava para as plantas, para a friche, para a bolinha, ou para tudo ao mesmo tempo.
O painel indicou: 62%.
A bolinha luminosa voltou a brilhar um pouco mais, como se estivesse a relaxar. E desenhou no ar um símbolo novo: três círculos ligados por linhas, como um mapa de constelação.
Leo franziu a testa.
— O que é isso?
Inês aproximou-se e sussurrou:
— Parece… um endereço.
Tomás arregalou os olhos.
— Um endereço… para onde?
A bolinha fez um plim longo e apontou para o céu.
Leo engoliu em seco, mas não de medo. De expectativa.
Capítulo 5
A recarga chegou a 80%. As linhas de luz ficaram mais finas, como se estivessem a terminar um trabalho delicado.
Leo sentou-se no chão, entre as flores, e partilhou as bolachas com Tomás e Inês. A situação era tão estranha que comer bolachas parecia uma forma de dizer: “Ainda somos humanos. E tudo bem.”
Tomás mordeu uma e falou de boca cheia, esquecendo-se de ser discreto:
— Então a tua naveta… veio de onde?
Leo deu de ombros.
— Eu não sei. Ela caiu e… eu só cuidei dela.
Inês mastigou devagar, pensativa.
— E se… a bolinha for uma espécie de mensageira? Ou guardiã deste posto?
A bolinha fez um plim animado e desenhou um pequeno círculo em volta de si mesma, como um “eu”.
— Guardiã — repetiu Leo. — Faz sentido. Ela dá autorização, ajusta a luz para não sermos vistos… e mostra símbolos.
Tomás esticou a mão para a bolinha, devagar, pedindo permissão com os olhos. A bolinha aproximou-se e pousou na palma dele sem pesar nada. A pele do Tomás ficou iluminada, e ele sorriu como se tivesse segurado um pedaço de lua.
— Eu vou chamar-te… Pingo — disse ele.
A bolinha fez um plim curto, como se aprovasse. Ou como se achasse graça ao nome.
Leo riu.
— Pingo combina.
Inês olhou para o símbolo de constelação que ainda pairava no ar, mais fraco agora.
— Leo, e se isto for mesmo um endereço… talvez a Estrelinha esteja a pedir para voltar. Ou para entregar algo.
Leo endireitou-se. Uma sensação de responsabilidade pousou nos ombros dele, não pesada, mas firme.
— Ela não é minha — disse ele, com sinceridade. — Eu só fui… o guarda temporário.
Tomás apertou a bolacha.
— Isso foi… surpreendentemente maduro.
— Não exagera — resmungou Leo, corando. — Ainda me assusto com baratas.
Inês riu, e o riso dela fez a friche parecer ainda mais segura.
O painel da naveta apitou e projetou uma mensagem:
RECARGA CONCLUÍDA: 100%
NOVO DADO DETETADO: COORDENADAS PARCIAIS
FALTA FRAGMENTO 2/3
— Fragmento? — Tomás piscou. — Tipo um puzzle?
A bolinha (Pingo, agora) flutuou até ao painel e desenhou uma seta para… as flores mais densas, perto do monte de pedras.
Leo levantou-se imediatamente.
— Ok. Ela está a mostrar onde está o fragmento.
Inês pegou na mochila.
— Vamos, mas com cuidado. Sem destruir nada.
Eles seguiram a seta. Quanto mais se aproximavam, mais as flores pareciam brilhar, como se tivessem guardado um segredo em pólen.
No meio de um círculo natural de margaridas, havia uma pedra lisa com um símbolo gravado: três círculos ligados por linhas, o mesmo da constelação.
Leo ajoelhou-se e passou o dedo por cima. A pedra estava morna, como se tivesse coração.
— Isto é… um marcador — disse ele.
Tomás apontou.
— Ou um botão. Tudo na vida devia ser botão.
Leo olhou para Pingo, pedindo confirmação.
Plim.
Ele pressionou o símbolo.
A pedra deslizou para o lado, revelando uma pequena cavidade com um objeto triangular, translúcido, que parecia feito de vidro e água ao mesmo tempo. Dentro, luzes corriam como peixinhos.
Leo pegou no triângulo. Era leve. E quando ele o segurou, o pulso holográfico vibrou.
FRAGMENTO 2/3 OBTIDO
— Ok… isto está a ficar oficialmente “missão espacial” — murmurou Tomás, impressionado.
Inês olhou em volta, como se esperasse ver alguém surgir de um portal.
— E o fragmento 3?
Pingo desenhou no ar uma coisa diferente: uma espécie de espiral… e depois uma seta apontando para o lado de fora da friche, para a cidade. Para um lugar específico, que Leo reconheceu: a torre de água velha, perto do rio.
Leo sentiu um friozinho no estômago.
— A torre de água… — disse ele. — É um lugar super visível.
Tomás levantou o telemóvel.
— E super assustador à noite.
Inês respirou fundo.
— Então vamos antes de escurecer. E vamos juntos.
Leo olhou para a friche, para as flores que os tinham protegido.
— Obrigado — repetiu ele, e desta vez parecia que o lugar inteiro respondia com um silêncio contente.
Eles empurraram a Estrelinha de volta para a sombra do muro, planeando a rota. Agora, com a bateria cheia, a naveta podia mover-se sozinha, mas Leo não queria chamar atenção. A discrição era parte da bondade, ele pensou: não perturbar o mundo, nem assustar quem não entende.
Quando saíram da friche, Pingo flutuou à frente, como um pontinho guia.
E Leo, mesmo nervoso, sentiu uma alegria difícil de explicar.
Como se estivesse a ser convidado para um segredo maior.
Capítulo 6
A torre de água velha erguia-se perto do rio como um copo gigante esquecido por um gigante ainda maior. A pintura descascada fazia mapas de ferrugem, e as janelas, lá em cima, pareciam olhos cansados.
Leo estacionou a Estrelinha atrás de um grupo de arbustos, onde ninguém repararia num “carro” diferente. Tomás e Inês desceram em silêncio.
— Se aparecer um adulto… — começou Tomás.
— A gente diz que estamos a observar pássaros — completou Inês, prática.
— Pá, eu não sei nome nenhum de pássaro — confessou Leo.
Inês olhou para ele, séria e divertida ao mesmo tempo.
— Então diz “pássaro castanho comum”. Funciona quase sempre.
Tomás abafou uma gargalhada.
Pingo fez um plim, como se também achasse graça, e apontou para uma porta lateral da torre, parcialmente coberta por silvas.
A porta tinha um cadeado velho… mas o metal ao redor parecia diferente, mais liso, com o mesmo símbolo de três círculos.
— Claro — murmurou Leo. — Não é só uma torre de água. É… outra parte do caminho.
Ele aproximou o fragmento triangular do símbolo. O triângulo começou a brilhar e a emitir uma vibração leve, como um telemóvel em modo silencioso.
O cadeado estalou e caiu sozinho.
Tomás arregalou os olhos.
— Isto é magia tecnológica. Eu sabia.
Inês empurrou a porta. Ela abriu-se com um gemido, revelando uma escada em espiral e um cheiro de pedra molhada.
— Sem correr — disse ela.
— Eu nunca corro em escadas suspeitas — garantiu Tomás, com uma cara muito convencida.
Subiram. O som dos passos ecoava. A luz entrava em tiras pelas frestas, e partículas de pó dançavam no ar como pequenos planetas.
No meio do caminho, numa plataforma circular, havia um painel antigo, escondido sob teias de aranha. No centro, o mesmo símbolo. Ao lado, uma ranhura triangular.
Leo encaixou o fragmento 2/3. O painel acendeu, mostrando linhas que se juntavam numa imagem: a constelação de três círculos ficou completa… quase. Faltava um ponto, que piscava.
Uma mensagem apareceu, em letras simples, quase gentis:
FALTA FRAGMENTO 3/3
LOCALIZAÇÃO: “A FRICHE FLORIDA”
SUBLOCAL: “ONDE O VENTO CANTA”
Tomás fez uma careta.
— O vento canta? O vento assobia, no máximo. Cantar é quando eu canto no duche.
Inês pensou, olhando para a janela.
— “Onde o vento canta”… pode ser um lugar na friche onde o vento faz um som especial. Tipo… passando por tubos?
Leo lembrou-se dos restos de canos enferrujados espalhados por lá.
— Os tubos velhos… quando o vento passa, fazem som de flauta — disse ele. — Eu ouvi uma vez, quando fui sozinho.
Pingo fez um plim triunfante e girou no ar: confirmação.
Leo tirou o fragmento do painel (que apagou, como se respeitasse a decisão) e desceram depressa, mas sem correr. Lá fora, o céu já estava mais laranja, a tarde a inclinar-se para noite.
— Voltamos para a friche — disse Leo. — E achamos esse lugar.
Tomás ergueu um dedo.
— E desta vez, eu vou dizer uma frase épica.
Inês arqueou a sobrancelha.
— Se for “plim”, eu apoio.
Leo sorriu, ligando a Estrelinha por dentro do mato.
— Vamos. Antes que o vento decida cantar mais alto.
Quando chegaram de novo à friche, o ar parecia diferente: mais fresco, mais perfumado, como se as flores também estivessem à espera.
Pingo avançou, saltitando no ar, e guiou-os até uma zona onde vários tubos de metal saíam do chão, como canudos gigantes. Alguns estavam partidos, criando bocas abertas.
O vento passou.
Fiuuuuu… uuuuu… uuu…
Era um som bonito, quase uma canção lenta.
— Ok — sussurrou Tomás, arrepiado. — O vento canta mesmo.
Pingo pousou numa flor e apontou para um tubo maior, inclinado, que formava um arco.
Leo aproximou-se e viu, lá dentro, um brilho fraco. Ele enfiou a mão com cuidado e tocou num objeto redondo, pequeno, como uma moeda espessa.
Quando o retirou, a moeda acendeu-se e projetou o último ponto da constelação.
FRAGMENTO 3/3 OBTIDO
Tomás abriu os braços como se estivesse num palco.
— PLIM! — declarou, solene.
Inês riu tanto que quase sentou na erva.
Leo, com o fragmento na mão, sentiu uma onda de alívio e alegria.
— Agora… agora temos o endereço completo.
Pingo fez um plim longo e suave. E, pela primeira vez, desenhou algo que parecia claramente uma palavra, numa escrita de luz que se traduziu no pulso holográfico do Leo:
OBRIGADO
Leo engoliu em seco.
— De nada — respondeu ele, baixo. — Obrigado… tu.
Capítulo 7
De volta à Estrelinha, Leo colocou os três fragmentos num encaixe que apareceu no painel, como se sempre tivesse estado ali e só agora se deixasse ver. As peças juntaram-se com um clique perfeito.
A cabine encheu-se de luz azul. No ecrã, a constelação completou-se e girou lentamente. Depois, transformou-se num mapa com coordenadas e uma linha de rota.
A voz da naveta — não era exatamente uma voz, mais uma música que virava palavras — falou com suavidade:
— ROTA REGISTADA. DESTINO: PONTO DE ENCONTRO.
— TEMPO DE PARTIDA: QUANDO O PILOTO ESTIVER PRONTO.
Leo olhou para Tomás e Inês. O silêncio ficou grande, mas não pesado. Era o tipo de silêncio que pergunta: “E agora?”
Tomás coçou a nuca.
— Tu vais… mesmo? Tipo… para o espaço?
Leo sentiu o coração acelerar. Uma parte dele queria dizer “sim” e apertar todos os botões. Outra parte dele lembrava-se do quarto, da mãe a chamar para jantar, dos trabalhos de casa, da vida.
Inês foi a primeira a falar, com cuidado.
— Talvez não seja “ir embora para sempre”. Talvez seja só… entregar isto. Ou encontrar quem perdeu a naveta. E voltar.
Leo olhou para Pingo, que flutuava perto do painel, brilhando como um vaga-lume fiel.
— Se eles deixaram postos de recarga escondidos… se deixaram pistas… é porque esperavam que alguém ajudasse — disse Leo. — E… eu não quero ser a pessoa que encontra uma coisa perdida e finge que não viu.
Tomás assentiu, surpreendentemente sério.
— Isso é… bem fixe da tua parte.
Inês colocou a mão no ombro de Leo.
— Mas tens de fazer de forma segura. E com bondade. Até com… extraterrestres.
Leo riu, nervoso.
— Especialmente com extraterrestres.
No painel, apareceu uma nova mensagem:
PROTOCOLO DE BOA-VINDA: ATIVAR?
SUGESTÃO: LEVAR UM PRESENTE SIMPLES
Tomás arregalou os olhos.
— Um presente? Tipo… uma oferta de paz?
Inês abriu a mochila e remexeu, até tirar um pequeno caderno e uma caneta.
— Leva isto. Para desenhar, escrever… comunicar. É simples. E útil.
Tomás tirou do bolso uma pequena figura de plástico, um dinossauro verde com um sorriso torto.
— E eu dou o meu Dino. Ele é… um embaixador jurássico.
Leo riu.
— Um embaixador jurássico… perfeito.
Ele pegou no caderno e no dinossauro, guardou-os num compartimento que se abriu, obediente. Depois, tirou do bolso o pacote de bolachas e deixou também.
— Caso eles gostem de chocolate.
Pingo fez um plim que parecia uma risada.
A naveta confirmou:
PRESENTES REGISTADOS
PROTOCOLO DE BOA-VINDA ATIVO
Lá fora, a friche estava mais escura, mas as flores ainda guardavam pequenos reflexos do céu. Leo saiu por um instante e olhou ao redor. O lugar tinha sido abrigo, pista, aliado.
— Eu volto — prometeu ele, baixinho, sem saber a quem.
Quando voltou para dentro, Tomás e Inês estavam à porta.
— Nós não vamos contigo — disse Tomás, tentando parecer corajoso e falhando um pouco. — Porque… alguém tem de ficar para… guardar o segredo. Sim. Isso.
Inês sorriu.
— E alguém tem de garantir que, se tu voltares com um alien de três olhos, ele não se perca na cidade.
Leo sentiu uma vontade enorme de abraçá-los. Em vez disso, fez uma coisa que parecia mais “pré-adolescente”: bateu com o punho no punho de cada um.
— Obrigado — disse ele. — Mesmo.
A Estrelinha começou a vibrar, preparando-se. O painel mostrava um contador de dez segundos.
Tomás deu um passo atrás.
— Se vires um extraterrestre… diz “plim” por mim.
— Eu digo — prometeu Leo.
A porta fechou-se com suavidade.
A naveta ergueu-se sem fazer vento forte, como se respeitasse as flores. As luzes diminuíram para não chamar atenção. E, num movimento silencioso, a Estrelinha subiu acima da friche, acima das casas, acima da torre de água, até o céu ficar enorme.
Leo olhou pela janela. A cidade ficou pequena, como um brinquedo. E, no meio dela, a friche brilhava como um pedaço de tapeçaria viva.
O mapa no ecrã apontava para um ponto no céu, entre estrelas comuns.
Pingo flutuou ao lado de Leo e projetou, no ar, o mesmo “OBRIGADO”.
Leo sorriu, com um nó bom na garganta.
— Vamos fazer isto com calma — disse ele. — E com gentileza.
A Estrelinha acelerou. As estrelas alongaram-se em linhas. O universo abriu uma porta de luz.
E Leo entrou.
No painel, antes de tudo virar claridade, surgiu uma última mensagem, simples e muito clara, como um bilhete deixado em cima da mesa:
PRÓXIMA PISTA: “PROCURE A FLOR QUE BRILHA NO ESCURO”