Capítulo 1 — A menina e o caderno das estrelas
Marta tinha doze anos e um caderno que cheirava a lápis recém-apontado. No caderno, ela desenhava constelações, colava bilhetes do planetário e escrevia listas como quem coleciona pequenas vitórias.
Naquela noite, o céu parecia mais fundo, como um lago escuro cheio de faíscas.
— Hoje é noite de meteoros — disse o pai, colocando uma manta nas suas costas. — Mas não é corrida. É observação.
Marta levantou o queixo, decidida.
— Eu vou contar todos.
O pai riu baixinho.
— Vai precisar de paciência. Os meteoros não obedecem a ninguém.
Ela abriu o caderno na página com o título “Chuva de meteoros: contagem oficial”. Ao lado, desenhou um meteoro com uma cauda enorme, como se ele estivesse com pressa de chegar a algum sítio.
O lugar escolhido era especial: um alinhamento de choupos na beira do campo. Eram altos e finos, e o vento fazia as folhas sussurrarem, como se os troncos estivessem a trocar segredos.
Marta deitou-se, olhou para cima e começou:
— Um… dois… três…
À quarta luz, ela percebeu algo diferente. Não era um risco rápido. Era um ponto verde, tranquilo, descendo devagarinho, como uma lanterna curiosa.
— Pai… isso é normal?
O pai franziu a testa.
— Hm. Normalmente, meteoros não… travam no ar.
O ponto verde pairou por cima dos choupos e, de repente, apagou-se.
O campo ficou quieto. Até as folhas pareceram prender a respiração.
Marta segurou o lápis com força.
— Eu acho que… não foi um meteoro.
E, no fundo do alinhamento de choupos, uma luz fraquinha voltou a acender, como um olho a espreitar.
Capítulo 2 — O “meteoro” que respirava
No dia seguinte, Marta voltou ao alinhamento de choupos sozinha, com a desculpa de que ia “desenhar árvores”. Levava uma lanterna, uma garrafa de água e o caderno. O vento estava mais quente e cheirava a relva cortada.
Ela caminhou entre os troncos, que formavam um corredor comprido, como se alguém tivesse alinhado as árvores com uma régua gigante.
— Olá? — chamou, sentindo-se um pouco tola. — Se és um meteoro… bom… meteoros não respondem, pois não?
Algo fez “ploc”.
Marta parou. O som vinha de trás de um choupal, perto de um monte de folhas.
Quando ela se aproximou, viu uma coisa do tamanho de uma mochila, redonda e lisa, como uma pedra polida. Tinha uma rachadura que brilhava em verde e… fazia um barulhinho.
Um barulho de respiração.
— Estás a… respirar? — sussurrou Marta.
A coisa tremeu e a rachadura abriu-se mais um bocadinho. De dentro, apareceu uma criatura pequena, com olhos grandes e brilhantes, a pele azulada e uns dedos finos que pareciam pincéis.
Ela piscou. Marta piscou de volta.
A criatura soltou um som que parecia um soluço e um assobio ao mesmo tempo.
— Sss… olá?
Marta engoliu em seco. O medo tentou subir-lhe ao peito, mas a criatura parecia mais assustada do que ela. Estava encolhida, como um gato apanhado pela chuva.
— Olá — respondeu Marta, devagar. — Eu sou a Marta.
A criatura apontou para si, com muito cuidado.
— Eu… Zi.
— Zi? — Marta repetiu, tentando acertar o som. — Zi.
Zi abriu um sorriso torto, como quem acabou de acertar num jogo difícil.
Então, Zi apontou para o caderno de Marta e fez um gesto de “escrever”.
— Contar? — perguntou Zi, com uma voz que parecia aprender as palavras à medida que as dizia.
Marta olhou para o seu caderno, depois para Zi.
— Contar meteoros? É isso?
Zi bateu palminhas, feliz, e a sua cápsula redonda fez outro “ploc”, como se estivesse a concordar também.
Marta soltou uma risada.
— Está bem. Mas primeiro… estás bem? Caíste ontem à noite.
Zi fez um gesto com as mãos, como quem imita uma coisa a descer e depois a abrandar.
— Nave… cansada.
Marta tocou na cápsula com a ponta dos dedos. Era fria e suave.
— Então vamos com calma. Meteoros também não aparecem todos de uma vez.
Zi inclinou a cabeça, atento, como se “com calma” fosse uma frase deliciosa.
Capítulo 3 — Aula de paciência entre choupos
Marta voltou ao alinhamento de choupos ao fim da tarde, desta vez com uma mochila cheia de coisas úteis: fita adesiva, uma chave de fendas do pai (que ela prometeu devolver), bolachas e uma manta extra.
Zi estava à espera, sentado em cima da cápsula, como um rei num trono redondo. Ao ver as bolachas, fez uma expressão séria, cheirou uma, e depois mordeu com tanto cuidado que parecia estar a provar uma ideia.
— Bom? — perguntou Marta.
Zi mastigou devagar e respondeu:
— Estrelas… crocantes.
Marta riu.
— Bolachas não são estrelas, Zi.
Zi olhou para o céu, depois para a bolacha, depois para Marta, como se estivesse a comparar as duas coisas. Por fim, deu de ombros, satisfeito.
A cápsula tinha um painel lateral meio soltinho. Marta ajoelhou-se e, com a chave de fendas, apertou um parafuso que estava a dançar.
— Não estou a acreditar que estou a arranjar uma nave alienígena no meio dos choupos — murmurou.
Zi aproximou-se e esticou um dedo para o parafuso.
— Parafuso… teimoso.
— Sim — concordou Marta. — Às vezes, as coisas demoram.
Zi fez um som de compreensão, como um “hmm” musical, e apontou para o caderno.
— Contar meteoros… demorar?
Marta fechou o caderno e respirou fundo, como se estivesse a explicar um segredo importante.
— Demora. Às vezes passa um minuto sem nenhum. E depois, de repente, aparecem três. É como… esperar por pipocas no micro-ondas. Se abres antes do tempo, ficas sem a melhor parte.
Zi franziu a testa.
— Micro… ondas?
Marta apontou para os choupos.
— Imagina que as folhas são pipocas. Se tiveres paciência, ouves o “pop” na hora certa.
Zi olhou para as folhas, sério, e ficou imóvel. Um minuto inteiro. Dois.
O vento fez as folhas tremelicarem.
— Pop — disse Zi, muito baixo.
Marta tapou a boca para não rir alto.
— Quase. Mas gostei do esforço.
Quando o sol começou a descer, os troncos compridos pintaram sombras no chão. Marta e Zi sentaram-se no corredor de árvores, de costas para a cápsula.
— Zi… tu vieste de muito longe?
Zi apontou para cima, para um ponto que nem parecia diferente dos outros.
— Casa… atrás de muitas noites.
Marta imaginou um lugar onde “muitas noites” fossem uma estrada.
— Deve ter sido difícil.
Zi encolheu os ombros e, desta vez, a sua voz saiu mais clara:
— Difícil… mas bonito.
Marta olhou para os choupos, alinhados como guardas.
— Aqui também é bonito. E é um bom lugar para esperar.
Zi repetiu, como quem guarda uma palavra no bolso:
— Esperar.
Capítulo 4 — A contagem começa
Chegou a noite da chuva de meteoros. Marta convenceu o pai de que queria “um tempo só dela para se concentrar”. Ele aceitou, mas deixou-lhe um apito e a promessa de que estaria na casa, atento.
— Se vires algo estranho, apita.
Marta quase disse “já vi”, mas ficou quieta. Algumas coisas precisavam de um pouco de espaço para crescer.
No alinhamento de choupos, Zi já tinha preparado tudo. Ele tinha colocado pequenos pedrinhos no chão formando um círculo e, no meio, a lanterna de Marta apontada para cima, coberta por um plástico fino, como um mini planetário improvisado.
— Fiz céu… pequeno — explicou Zi, orgulhoso.
Marta sorriu.
— Ficou incrível.
Eles deitaram-se na manta. O céu verdadeiro estava acima, enorme, e o céu pequeno tremia na lanterna, cheio de sombras de folhas.
Marta segurou o lápis.
— Regras: cada meteoro é um risco rápido. Se for avião, não conta. Se for satélite, não conta.
Zi levantou um dedo.
— E se for nave…?
Marta arregalou os olhos.
— Zi.
Zi riu num som que parecia uma mola a saltar.
— Brincar.
O primeiro meteoro cortou o céu como um risco de giz.
— Um! — disse Marta.
Zi repetiu, feliz:
— Um!
O segundo meteoro veio dois minutos depois.
— Dois!
Depois o céu ficou quieto. Muito quieto. Marta sentiu a impaciência a bater-lhe na ponta do lápis.
Zi, ao lado, respirava devagar, como se estivesse a ouvir música.
— Não vem mais? — murmurou Marta.
Zi apontou para o caderno e fez um gesto de “calma”.
— Esperar é parte.
Marta fez uma careta.
— Eu sei. Só que… é difícil.
Zi mexeu num pedrinho do círculo e alinhou-o direitinho com os outros, com uma precisão quase engraçada.
— Difícil… mas bonito — disse ele, repetindo a frase de antes.
Marta olhou para o céu, forçando-se a não “caçar” meteoros com os olhos. Ela tentou apenas estar ali. Sentir o vento, ouvir as folhas, contar as respirações.
De repente, como se o céu tivesse ouvido, um meteoro riscou a escuridão.
— Três!
E logo outro.
— Quatro!
Zi bateu palmas, mas baixinho, como se não quisesse assustar as estrelas.
— O céu gosta de surpresa — disse Marta.
Zi assentiu.
— Surpresa gosta de paciência.
Marta anotou a frase no caderno, ao lado do número quatro, com letras grandes.
Capítulo 5 — O meteoro que queria ser amigo
A meio da noite, quando já tinham contado vinte e três meteoros, a cápsula de Zi fez um som diferente: um “bip” tímido, como um pássaro eletrónico.
Zi levantou-se num salto.
— Nave… acordar.
A rachadura verde na cápsula brilhou com mais força, e o painel lateral acendeu símbolos que pareciam ondas e setas.
Marta aproximou-se, curiosa.
— Isso quer dizer que ela está consertada?
Zi soprou para o painel, como se estivesse a encorajar a luz.
— Quase. Precisa… de alinhamento.
— Alinhamento? Como os choupos?
Zi apontou para a fila de árvores e depois para o céu. Fez um gesto como quem alinha coisas numa linha invisível.
— Para falar com casa… precisa de linha certa.
Marta olhou para o corredor de choupos, tão direito que parecia uma seta apontada para o espaço.
— Então este lugar é perfeito.
Zi mexeu em dois pedrinhos do círculo e colocou-os em linha com o tronco mais alto. A cápsula respondeu com um “bip” mais contente.
Marta ficou de pé ao lado dele, segurando o caderno contra o peito.
— Zi… quando falares com a tua casa… vais embora?
Zi demorou a responder. Olhou para cima, para as estrelas, e depois para Marta. Os olhos grandes dele pareciam guardar luz.
— Eu… voltar. Mas… lembrar.
Marta sentiu uma coisa quente no nariz, como se fosse espirrar emoções.
— Eu também vou lembrar.
Zi ergueu um dedo e tocou de leve na capa do caderno.
— Levar contagem?
Marta arregalou os olhos.
— Levar o meu caderno?!
Zi recuou rapidamente, assustado com a reação, e abanou as mãos.
— Não! Não! Só… número. Para mostrar. Casa gosta de número.
Marta soltou o ar e riu.
— Ah. Isso sim. Eu posso até fazer uma página bonita.
Ela abriu o caderno e desenhou uma linha de choupos, com pequenas estrelas a cair por trás. Em cima, escreveu: “Meteoros contados com Zi.”
— Pronto — disse ela. — Agora a tua casa vai saber que aqui também se conta o céu.
Zi olhou para o desenho como se fosse uma janela.
— Casa vai rir.
— Rir é bom — disse Marta. — Mesmo no espaço.
Nesse momento, um meteoro enorme atravessou o céu, mais brilhante do que todos os outros. Marta e Zi ficaram sem palavras.
Depois, ao mesmo tempo:
— Vinte e quatro! — gritaram, e acabaram por se rir com a coincidência, como se o meteoro tivesse contado junto.
Capítulo 6 — O último olhar
A noite foi ficando mais fria, e os meteoros começaram a espaçar-se, como se o céu estivesse a bocejar.
A cápsula de Zi soltou três “bips” seguidos. Os símbolos no painel alinharam-se numa sequência que parecia uma estrada de luz.
Zi endireitou os ombros.
— Hora.
Marta ficou parada, com o lápis na mão. O alinhamento de choupos parecia mais alto do que nunca, como se quisesse segurar o céu para não deixar Zi partir.
— Vais mesmo? — perguntou ela, tentando manter a voz firme.
Zi aproximou-se e, com muito cuidado, tirou um pedrinho do círculo. Colocou-o na palma da mão de Marta.
Era um pedrinho normal… até que brilhou por dentro, um verde suave, como uma vaga-lume adormecido.
— Para… esperar — disse Zi. — Quando esperar difícil… segurar.
Marta fechou os dedos à volta dele.
— Obrigada.
Zi entrou na cápsula. A rachadura fechou-se como uma pálpebra. A luz verde correu pela superfície e depois ficou calma, pronta.
O ar mudou. As folhas dos choupos começaram a dançar mais rápido, como se o vento tivesse aprendido um passo novo.
Marta deu dois passos para trás e levantou o caderno, instintivamente, como se ele fosse um escudo e um abraço ao mesmo tempo.
A cápsula subiu devagar. Não fez barulho de motor. Era como ver uma bolha a subir num copo de água, só que no meio da noite.
Quando passou pela altura dos choupos, a luz verde iluminou os troncos e as folhas, pintando tudo com um brilho de sonho.
Marta levantou a mão.
— Adeus, Zi!
Uma pequena luz piscou na cápsula: uma vez, duas vezes, três. Como um aceno em código.
E então, com uma aceleração suave, ela disparou para o céu e tornou-se um ponto, e depois nada, como se tivesse entrado numa costura escura do universo.
Marta ficou ali, entre os choupos, a ouvir o silêncio voltar ao lugar.
Ela olhou para o caderno: vinte e quatro meteoros contados. Mas, no canto da página, escreveu mais uma coisa:
“Paciência: esperar pelo que não se pode mandar.”
Antes de ir para casa, Marta deitou-se na manta por mais um minuto. Só mais um.
O céu ofereceu-lhe um último meteoro, pequeno, discreto, como um segredo.
Marta não gritou o número. Apenas sorriu e fez um risco leve no papel.
E, com o pedrinho verde na mão, deu um último olhar ao alinhamento de choupos, como quem guarda um amigo no lugar onde o encontrou.