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História de extraterrestre 11 a 12 anos Leitura 26 min.

O domo de calma e o desenho que caiu do céu

Tomás e Leonor seguem um desenho misterioso até ao ginásio vazio e encontram Nilo, um pequeno extraterrestre perdido; juntos, com respeito e calma, embarcam numa aventura para o ajudar.

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Três personagens: Tomás, garoto de 11 anos, cabelos curtos castanhos, expressão calma e curiosa, no centro do ginásio sobre um círculo luminoso segurando uma pequena chave cilíndrica metálica; Leonor, menina de 11 anos, cabelos castanhos em rabo de cavalo, olhar decidido e travesso, atrás à direita junto aos bancos com as mãos na cintura pronta para agir; Nilo, extraterrestre do tamanho de uma mochila, pele azul-esverdeada e levemente brilhante, grandes olhos lanternas e três dedos por mão, flutuando à altura do peito de Tomás e segurando uma esfera transparente com faíscas estelares que forma um domo protetor. Cenário: interior de um ginásio escolar iluminado por raios de sol oblíquos por uma janela alta, piso de madeira envernizada com linhas brancas, bancos e corda de escalada, armário com bolas e tapetes visíveis; atmosfera calma e mágica, contrastes quentes do sol e reflexos frios da esfera, texturas nítidas. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O desenho que caiu do céu

O Tomás tinha onze anos e um jeito de olhar para as coisas como se cada sombra escondesse uma história. Não era do tipo que falava sem parar. Preferia ouvir, reparar, imaginar. Às vezes, inventava planetas inteiros só com o barulho da chuva na janela.

Nessa tarde, ele e a Leonor — que também tinha onze, cabelo preso num rabo de cavalo e uma coragem que parecia sempre pronta — estavam a sair da escola quando algo leve bateu no ombro do Tomás.

— Ai! — ele disse, mais surpreso do que magoado.

No chão, uma folha dobrada, limpinha, como se tivesse sido passada a ferro. Não havia nome. Não havia nada escrito. Só um desenho.

Tomás abriu com cuidado. Leonor aproximou o rosto.

O desenho mostrava o ginásio da escola… mas diferente. Havia linhas brilhantes no ar, como fitas de luz, e no centro uma espécie de círculo no chão. Em cima, pairava uma bola transparente, com estrelas dentro. E ao lado, desenhada com traço simples e engraçado, estava uma criatura pequenina: cabeça grande, olhos enormes, três dedos e um sorriso torto, como quem diz “Não tenhas medo”.

— Isso é… fofo e assustador ao mesmo tempo — murmurou a Leonor.

Tomás virou a folha. Atrás, só uma frase, escrita com letras caprichadas, como se a caneta tivesse aprendido português num livro antigo:

“Encontro. Ginásio. Quando o eco estiver sozinho.”

— Eco sozinho? — Leonor franziu o sobrolho. — O que é que isso quer dizer?

Tomás passou o dedo pelo desenho, sentindo a tinta seca. Teve uma sensação estranha, como quando se reconhece uma música sem saber de onde.

— Quer dizer… quando estiver vazio — arriscou. — Um ginásio vazio faz eco. Se estiver sozinho, não há ninguém para o interromper.

Leonor endireitou-se, decidida.

— Então vamos lá ver hoje. Depois das atividades. Quando toda a gente for embora.

Tomás hesitou. O desconhecido era um mar enorme. Mas o desenho era como uma garrafa com mensagem, e ele sempre quis descobrir de onde vinham as mensagens.

— Vamos — disse, calmamente, como quem abre uma porta devagar.

E guardou a folha no bolso, como se fosse um mapa para um lugar que ainda não existia.

Capítulo 2 — O ginásio deserto e o eco educado

Ao fim do dia, a escola esvaziou-se aos poucos. Portas bateram, mochilas arrastaram no chão, e as vozes foram ficando fininhas, distantes, até desaparecerem.

Tomás e Leonor esperaram atrás da biblioteca, fingindo procurar um livro que nunca aparecia.

— Estou a sentir-me uma personagem de filme — sussurrou a Leonor.

— Nos filmes, isto é quando aparece o segurança — respondeu Tomás, sem levantar muito a voz.

— Shhh! Não invoques seguranças.

Quando o silêncio finalmente tomou conta do corredor, avançaram como dois exploradores num templo antigo. O ginásio estava no fundo, com as portas altas e uma janela por cima, por onde a luz do fim da tarde entrava em faixas douradas.

Tomás empurrou a porta. Ela rangiu com um som comprido, como se estivesse a espreguiçar-se depois de uma sesta.

Lá dentro, o ginásio parecia maior. As linhas do campo estavam desenhadas como caminhos. Os bancos encostados à parede pareciam plateias de um teatro vazio. E o eco… o eco vinha ao encontro deles.

— Olá…? — disse a Leonor, só para testar.

“Olá… olá… olá…” respondeu o espaço, cada vez mais baixinho.

— Vês? Está sozinho — disse Tomás.

Ele tirou o desenho do bolso e comparou. O ginásio era igual… até que não era.

No centro do campo, onde o desenho mostrava um círculo, havia apenas o chão encerado. Tomás caminhou até lá. Leonor seguiu-o, com passos cuidadosos, como se o chão pudesse acordar.

— Se isto for uma partida… — começou ela.

— Quem faria uma partida tão… bem desenhada? — Tomás mostrou a folha. — E com estrelas dentro de uma bola.

Leonor não respondeu. Estava a olhar para o teto, como se esperasse que alguma coisa caísse.

Tomás parou exatamente no meio do campo.

E então, sem barulho, o ar mudou. Não foi vento. Foi como quando se apaga a luz e os olhos ainda estão a decidir se acreditam.

Um círculo luminoso apareceu no chão, fininho, desenhando-se como giz brilhante. O eco, de repente, ficou quieto. Como se também estivesse a prender a respiração.

— Tomás… — Leonor disse o nome dele devagar. — Isso não estava aqui há cinco segundos.

— Eu sei — respondeu ele, com o coração a bater mais depressa, mas com a voz firme.

No centro do círculo, um pontinho de luz subiu, inflou, e virou uma esfera transparente. Dentro dela, pequenas faíscas rodopiavam como peixes num aquário de estrelas.

Leonor soltou um riso nervoso.

— Ok. Isto já passou do “filme”. Isto é… isto é “o quê que eu vou contar à minha mãe”?

Tomás ia responder quando a esfera fez um som delicado: “plim”.

E uma figura pequenina apareceu, como se tivesse saltado de dentro de uma fotografia.

Capítulo 3 — Um amigo que cabe na palma da mão

A criatura tinha mais ou menos a altura de uma mochila pequena. A pele era azul-esverdeada, como a cor do mar quando o sol está a pensar em pôr-se. Os olhos eram enormes e brilhavam um pouco, mas não de um jeito assustador — mais como lanternas curiosas.

Ela levantou as mãos (três dedos em cada uma) e acenou.

— Olá — disse, com uma voz fina e surpreendentemente educada.

Leonor abriu a boca, fechou, abriu outra vez.

— Tu… falas português?

A criatura inclinou a cabeça.

— Aprendi com rádio. E com… desenhos — respondeu. — Eu sou o Nilo. Não do rio. Do… outro.

Tomás, que reparava em tudo, notou que o Nilo carregava algo preso ao peito: uma plaquinha com símbolos e, pendurado, um lápis muito parecido com um lápis normal. Só que a ponta parecia feita de vidro.

— Foste tu que mandaste o desenho? — perguntou Tomás, levantando a folha.

Nilo sorriu mais ainda. O sorriso era torto, igual ao do desenho.

— Sim. Desenho é seguro. Desenho não morde. E eu… não quero assustar. Eu… perdi-me.

— Perdeste-te… na Terra? — Leonor perguntou, ainda entre espanto e curiosidade.

— Na Terra e fora dela — respondeu Nilo, e fez um gesto com a mão, como quem tenta explicar uma coisa enorme com um movimento pequeno. — Eu vinha com minha cápsula. Tempestade de poeira espacial. Fui… espirrado para aqui.

Leonor soltou um som que parecia uma gargalhada engolida.

— Espirrado? Tipo… “atchim”?

— Mais ou menos — Nilo confirmou, muito sério, como se fosse a explicação mais científica do universo.

Tomás sentiu uma vontade estranha de rir e, ao mesmo tempo, de proteger aquele ser.

— E por que o ginásio? — perguntou ele.

Nilo apontou para o teto alto.

— Espaço grande. Eco sozinho. Eco ajuda meu aparelho ouvir. E… ginásio tem bolas. Eu gosto de bolas.

Leonor levantou uma sobrancelha.

— Nós também, mas normalmente chutamos as bolas. Não colocamos estrelas dentro delas.

Nilo olhou para a esfera transparente, que ainda flutuava.

— Esta é bola de calma. Para não haver pânico. Funciona assim: quando alguém grita, ela… faz silêncio macio.

Como para provar, Nilo tocou na esfera com o dedo. Um “plom” suave espalhou-se pelo ar, como se uma manta invisível tivesse sido sacudida.

O ginásio pareceu ficar mais quente, mais seguro. Até a luz dourada ficou mais tranquila.

Tomás respirou fundo.

— Está bem. Então… como te ajudamos?

Nilo piscou devagar, como se escolhesse as palavras.

— Preciso de uma coisa escondida aqui. Minha cápsula caiu perto. Mas minha ferramenta ficou presa… num lugar de saltos e cordas.

Leonor apontou para o lado do ginásio, onde havia os colchões, as cordas de trepar e o armário do material.

— O armazém! — disse ela. — “Lugar de saltos e cordas” é basicamente o nosso depósito.

Nilo assentiu, aliviado.

— Sim. Depósito. Lugar de coisas perdidas.

Tomás olhou para a porta do armazém. Estava fechada. E, de repente, aquela aventura parecia ter uma regra: devagar, com respeito, como se estivessem a visitar a casa de alguém.

— Vamos — disse Tomás.

Leonor respirou fundo.

— E se aparecer o segurança?

Nilo ergueu a esfera um pouco mais.

— Bola de calma ajuda. Mas… melhor respeitar humanos. Não quero problemas para vocês.

Tomás gostou daquela frase. “Respeitar humanos.” Soava a alguém que estava a tentar ser gentil num planeta estranho.

— Então fazemos isto com cuidado — disse ele. — Sem estragar nada. Sem assustar ninguém.

Nilo colocou a mão no peito, num gesto que parecia um juramento.

— Com cuidado. Com respeito. E com… um pouco de humor? — acrescentou, e o sorriso dele ficou ainda mais torto.

Leonor riu, finalmente de verdade.

— Humor eu tenho. Cuidado também. Vamos ao depósito, extraterrestre educado.

Capítulo 4 — O depósito, as cordas e a ferramenta teimosa

A porta do armazém tinha uma fechadura simples. Normalmente, estava trancada. Mas naquele dia… estava só encostada, como se alguém tivesse saído à pressa.

Leonor empurrou devagar. A porta abriu-se com um “toc” discreto.

Lá dentro, o cheiro era de borracha, pó e bolas de basquete cansadas de levar pancada. Havia cordas penduradas, arcos, cones, uma trave de equilíbrio e uma caixa enorme com material de ginástica.

Nilo entrou como quem visita um museu.

— Uau… — disse ele, tocando num cone laranja. — Isto parece chapéu de trânsito.

— É quase isso — respondeu Leonor. — Só que serve para nos fazer correr em ziguezague até ficarmos a odiar o ziguezague.

Tomás observava o chão. No desenho, a ferramenta aparecia como um pequeno cilindro com uma luz na ponta. Não via nada.

— Onde é que ficou preso? — perguntou.

Nilo apontou para cima. No alto, perto da corda de trepar, algo brilhava. Era mesmo um cilindro metálico, preso entre a corda e uma viga, como se tivesse sido mastigado pelo azar e cuspido ali.

— Ali! Minha chave-ponte — disse Nilo. — Abre caminho para eu voltar.

Leonor olhou para a altura e engoliu em seco.

— Eu não sou muito de subir cordas. A minha dignidade não é elástica.

Tomás, que era mais leve e tinha calma para não se precipitar, aproximou-se da corda.

— Eu posso tentar — disse.

— Tomás, se caíres, eu vou ter de te arrastar e… eu sou péssima a arrastar pessoas — Leonor avisou.

Nilo levantou a esfera, e um brilho suave envolveu o chão abaixo da corda.

— Bola de calma pode virar… colchão de calma. Não dói. Só faz “puf”.

“Puf” é um argumento científico excelente — Leonor comentou.

Tomás agarrou a corda e começou a subir. As mãos deslizaram um pouco, mas ele respirou devagar. Um passo de cada vez. Lá em baixo, Leonor observava, pronta para ajudar, mesmo sem saber como.

— Estás bem? — ela perguntou.

— Estou — respondeu Tomás, sem olhar para baixo. — Só estou a descobrir que os meus braços eram mais decorativos do que eu pensava.

Nilo olhava com uma atenção respeitosa, como se o ato de subir fosse uma arte.

— Humano é muito… persistente — disse ele.

— Ele é — confirmou Leonor. — E calmo. Às vezes dá vontade de lhe oferecer uma trompete para ver se ele faz barulho.

Tomás chegou perto da viga. A ferramenta brilhava, presa. Ele estendeu a mão com cuidado. Mas quando tocou, o cilindro vibrou e soltou um “bzzzt” agudo.

— Ui! — Tomás puxou a mão. — Isto dá choque!

Nilo arregalou os olhos.

— Não é choque. É… cócega de segurança. Para ninguém roubar.

Leonor pôs as mãos na cintura.

— Então diz à tua chave-ponte que nós não somos ladrões. Somos… assistentes voluntários.

Nilo aproximou-se da corda e falou para a ferramenta como se fosse um animalzinho.

— Chave-ponte, por favor. Eles são amigos. Não morder.

Tomás tentou outra vez. Desta vez, o “bzzzt” virou um “bip” suave, e o cilindro soltou-se, caindo.

Por um segundo, Leonor prendeu a respiração.

Mas a esfera, lá em baixo, fez “puf”. O cilindro caiu num colchão invisível e pousou no chão como uma pena metálica.

Tomás desceu, com as pernas a tremerem um pouco, mas com um sorriso de vitória.

— Apanhei! Quer dizer… a bola apanhou — corrigiu.

Nilo pegou na ferramenta com reverência.

— Obrigado — disse ele. — Vocês respeitaram meu equipamento. Não bateram. Não gritaram. Isso é… raro em planetas com ginásios.

Leonor fingiu ofensa.

— Ei! Nós sabemos ser civilizados. Às vezes.

Tomás reparou que, no momento em que Nilo segurou a chave-ponte, os símbolos na plaquinha do peito dele acenderam, formando linhas como um pequeno mapa.

— E agora? — perguntou Tomás. — Voltas já?

Nilo olhou para eles, e o sorriso dele ficou mais pequeno.

— Eu… preciso ir para minha cápsula. Está escondida. E eu não quero ir sozinho.

Leonor olhou para o ginásio vazio através da porta.

— Então vamos contigo — disse, sem hesitar. — Mas rápido. Antes que o eco deixe de estar sozinho e apareça alguém de carne e osso.

Nilo assentiu.

— Sim. Rápido. Mas… com respeito — acrescentou, e parecia mesmo importante para ele.

Tomás guardou o desenho no bolso outra vez.

— Com respeito — repetiu. — E com um pouco de humor.

Leonor piscou.

— Isso eu garanto.

Capítulo 5 — A cápsula escondida e a confusão mais silenciosa do mundo

Saíram do ginásio e atravessaram um corredor lateral que dava para uma porta de serviço. Do lado de fora, o céu estava a ficar violeta, e o ar cheirava a relva molhada.

Nilo guiava-os sem mapa, como se sentisse um puxão invisível.

Atrás do campo da escola, havia um pequeno jardim com arbustos altos e uma velha tabela de basquete. Ali, entre folhas, um brilho fraco piscava, escondido como um segredo.

Nilo afastou os ramos. Lá estava: uma cápsula do tamanho de uma cabine telefónica, arredondada, com a superfície lisa e marcada por riscos de aterragem. Parecia uma pedra espacial que tinha decidido aprender a ser porta.

— Uau… — Leonor sussurrou. — Isto estava aqui e ninguém viu?

— Humanos olham muito para telas — Nilo disse, sem maldade, só como quem observa o tempo.

Tomás achou a frase engraçada e um pouco verdadeira. Mas não disse nada. Preferiu olhar para a cápsula e imaginar a viagem que ela tinha feito.

Nilo aproximou a chave-ponte de uma ranhura. A ferramenta emitiu uma luz azul e, por um instante, apareceu no ar um desenho parecido com o que Tomás recebera: linhas brilhantes, círculos, um caminho.

— É igual ao meu desenho — Tomás disse.

Nilo assentiu.

— Desenho é língua que todos entendem. Mesmo quando palavras falham.

A cápsula fez um som como uma fechadura feliz. “Clac.” A porta abriu-se, revelando um interior compacto: painéis com luzes suaves, uma cadeira dobrável, e um ecrã que parecia feito de água sólida.

Leonor apontou para uma alavanca com três botões.

— Isto é para… disparar?

Nilo riu, um riso fininho.

— Não. Isso faz chá. Quer dizer… faz bebida quente. Eu tentei copiar. Saiu… sopa de ar.

— Sopa de ar? — Leonor repetiu, e começou a rir. — Tomás, eu quero provar a sopa de ar!

— Não — disse Tomás, com firmeza gentil. — Sem mexer em coisas que não são nossas.

Leonor parou de rir, mas assentiu.

— Tens razão. Respeito primeiro. Sopa de ar depois.

Nilo olhou para Tomás com gratidão.

— Você tem coração quieto — disse. — Coração quieto não quebra coisas.

De repente, um barulho distante: passos. Vozes. Alguém a rir perto do portão.

Leonor gelou.

— Oh não. Alguém ficou na escola!

Tomás espreitou. Dois alunos mais velhos atravessavam o pátio, provavelmente à procura de uma bola esquecida.

Nilo encolheu-se.

— Eu não quero assustar — disse ele, rápido. — Se me veem, podem gritar. E grito chama… confusão.

Tomás pensou na bola de calma.

— A esfera! — ele disse. — Nilo, consegues fazer uma maior? Uma que… esconda isto?

Nilo fez um gesto com a mão, como quem abre uma janela no ar. A esfera, que ele trouxera do ginásio, flutuou para fora da cápsula e começou a crescer, devagar, como uma bolha de sabão resistente.

Ela expandiu-se até cobrir a cápsula e os três, formando um domo transparente, quase invisível. Dentro, o som do mundo ficou abafado, como se estivessem debaixo de água — mas sem a parte desconfortável de molhar as meias.

Os dois alunos passaram perto, falando alto.

— Juro que deixei a bola aqui! — disse um.

— Se calhar a bola foi abduzida — respondeu o outro, a rir.

Leonor levou a mão à boca para não se rir também, e apontou discretamente para Nilo, como se dissesse: “Se vocês soubessem…”

Os alunos foram embora. O silêncio voltou.

Dentro do domo, a luz parecia mais macia, e Tomás sentiu um alívio espalhar-se no peito, como quando a febre baixa.

— Isto é… incrível — Leonor sussurrou. — Parece que o mundo está a falar em algodão.

Nilo tocou no domo com o dedo.

Domo de calma — disse ele. — Protege. Não prende. E lembra: quando desconhecido chega, melhor colocar calma primeiro.

Tomás olhou para a Leonor. Ela assentiu, séria.

— Ok — disse ela. — Eu admito: isto é uma lição.

Nilo voltou-se para o painel. As luzes formaram um caminho de pontos.

— Eu posso enviar mensagem para minha família — explicou. — Dizer: “Estou vivo. Fiz amigos. Não comi nenhum humano.” Porque… eles têm medo. Em casa, contam histórias.

Leonor sorriu, com humor.

— Podes dizer que nós também não te comemos. Para equilibrar.

Nilo riu.

Tomás, no entanto, sentiu uma pontada de tristeza. Quando a aventura tem uma porta de saída, a gente percebe que ela vai mesmo acabar.

— Vais embora hoje? — perguntou.

Nilo demorou um segundo a responder.

— Não hoje. Preciso reparar asa pequena. E… quero dar presente. Um desenho de verdade. Não só convite.

Tomás tirou a folha do bolso.

— Este já é um presente — disse ele.

Nilo abanou a cabeça.

— Este foi pedido. Presente é outro.

Ele mexeu num compartimento e tirou uma folha finíssima, prateada, e o lápis de ponta de vidro.

— Desenhar é minha maneira de respeitar — disse. — Posso?

Tomás e Leonor sentaram-se no chão do domo, como se estivessem num acampamento secreto.

— Podes — disse Tomás. — Mas… sem sopa de ar.

— Sem sopa de ar — confirmou Nilo, solene.

Capítulo 6 — O desenho que acalma e a despedida que não assusta

Nilo começou a desenhar. A ponta de vidro não deixava tinta: deixava luz. Uma luz suave que se fixava na folha prateada como estrelas bem comportadas.

Tomás observava, hipnotizado. Leonor tentava não interromper, mas a curiosidade saltava-lhe pelos olhos.

No desenho, apareceu primeiro o ginásio, com as linhas do campo. Depois, o círculo no chão, a esfera no ar. E, ao lado, dois pequenos humanos — um com cabelo curto e olhar calmo (Tomás), outro com rabo de cavalo e postura decidida (Leonor). Até os ténis estavam lá, com um risco engraçado.

— Ei! Eu não sou assim tão baixa — sussurrou Leonor.

Nilo olhou para ela, confuso.

— Você é… do tamanho certo para coragem grande.

Leonor ficou sem palavras por um momento, e depois fez uma careta.

— Isso foi fofinho. Não te habitues, extraterrestre.

Nilo continuou. E então desenhou o domo de calma por cima de todos, como uma bolha protetora. Dentro do domo, ele desenhou pequenas coisas: um cone de ginástica que parecia chapéu, uma corda que virava um caminho, e uma chavinha com cara de “não mordo mais”.

Tomás sentiu que aquele desenho era mais do que recordação. Era um pedaço de segurança que se podia dobrar e guardar.

— Para que serve? — perguntou ele.

Nilo terminou com um último traço e soprou levemente. A folha brilhou e depois estabilizou, como se respirasse.

— Serve para lembrar — disse. — Quando você olhar, seu peito faz silêncio macio. Igual bola. Igual domo.

Leonor pegou na folha com cuidado.

— É tipo… um calmante em papel? Mas bonito.

— É respeito em papel — corrigiu Nilo, com seriedade. — Respeito e amizade.

Tomás guardou o novo desenho junto do antigo.

Lá fora, a noite ia ficando mais escura. O domo protegia-os do frio e do medo de serem vistos.

Nilo levantou-se e colocou a mão na parede invisível do domo.

— Eu tenho de dormir na cápsula. Amanhã reparo e… talvez vá.

Leonor sentiu o nó da despedida e tentou desfazê-lo com humor.

— Se fores, manda mais desenhos. Mas sem enigmas tipo “quando o eco estiver sozinho”. Quase me deu um ataque de eco.

Nilo riu.

— Eu mando com legenda. “Por favor não entrem em pânico”.

Tomás levantou-se também.

— Obrigado por confiares em nós — disse ele. — E por… não nos achares estranhos.

Nilo piscou, como se estivesse a escolher o melhor jeito de explicar.

— Todo mundo é estranho para quem chega. Mas estranho não é ruim. Só é… novo. E novo pode ser bom, se tiver calma.

Leonor olhou para o domo e depois para o céu por cima, cheio de estrelas.

— Então vamos fazer um acordo — disse ela. — Se algum dia encontrares outro planeta cheio de gente diferente, lembras-te do domo de calma.

Nilo assentiu.

— Sim. E vocês, quando pensarem em extraterrestres, não pensem logo em monstros. Pensem em… Nilo. Que gosta de bolas.

— E de sopa de ar — Leonor acrescentou, e riu.

Nilo abriu a porta da cápsula e entrou. Antes de fechar, levantou a mão.

— Boa noite, amigos.

— Boa noite — disse Tomás.

— Boa noite — disse Leonor. — E… obrigado por não abduzires o nosso professor de Educação Física. Ele é assustador, mas é nosso.

Nilo riu outra vez, e a porta fechou-se com um “clac” suave.

Tomás e Leonor ficaram sentados mais um pouco dentro do domo. O silêncio ali não era vazio. Era cheio de calma, como uma sala com almofadas invisíveis.

Tomás olhou para o desenho prateado guardado no bolso, sentindo o coração bater no ritmo certo.

— Sabes, Leonor… — disse ele, baixinho. — Acho que o desconhecido não é sempre um lugar escuro.

Leonor encostou a cabeça ao joelho.

— Não. Às vezes é só… um ginásio deserto com um extraterrestre educado e uma bola que faz “puf”.

Ficaram ali até terem a certeza de que o mundo lá fora estava tranquilo. Depois, o domo de calma foi diminuindo devagar, como uma bolha que não estoura, apenas descansa.

E quando desapareceu, deixou no ar uma sensação leve: a certeza de que, com respeito e coragem, até o espaço pode ser acolhedor.

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Espreguiçar-se
Esticar o corpo devagar, como quando se desperta de uma sesta.
Cápsula
Pequena nave ou caixa fechada que serve para viajar ou proteger alguém.
Depósito
Lugar onde se guardam equipamentos e materiais, como o armazém da escola.
Viga
Peça forte e comprida de metal ou madeira que sustenta um teto.
Plaquinha
Pequena placa com informação ou símbolos, geralmente presa ao peito de alguém.
Ranhura
Fenda estreita onde se encaixa uma chave ou peça para abrir algo.
Colchão
Almofada grossa que amortece quedas e deixa o chão mais macio.
Esfera
Objeto em forma de bola perfeitamente redonda.
Cilindro
Peça com forma de tubo comprido e redondo.
Chave-ponte
Ferramenta especial que abre ou liga mecanismos, como uma chave técnica.
Tempestade
Grande agitação no ar, aqui referindo-se a poeira no espaço.
Domo de calma
Cobertura em forma de bolha que torna o lugar mais tranquilo e protegido.
Bola de calma
Bola que cria silêncio e reduz o pânico quando alguém grita.
Persistente
Que não desiste; continua tentando mesmo quando é difícil.
Sopa de ar
Expressão para uma bebida imaginária feita só de ar, sem sabor real.

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