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História de extraterrestre 11 a 12 anos Leitura 21 min.

O círculo de luz na rua pedonal

Duas amigas, Lia e Joana, descobrem um círculo luminoso numa rua pedonal que as conduz a um pequeno visitante extraterrestre preso num antigo centro de correios, e juntas enfrentam mistério e perigo enquanto tentam compreender e ajudar.

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Três personagens: Lia, 12 anos, cabelo castanho apanhado, jaqueta azul-claro, joelheiras discretas, ajoelhada à frente à esquerda com um pequeno lápis de ponta brilhante; Joana, 12 anos, rabo-de-cavalo preto, bata verde, em pé à direita segurando um kit de chaves de fenda e estabilizando uma placa solar; Luun, um extraterrestre não binário do tamanho de uma laranja, corpo vermelho-bronze liso com reflexos verdes, superfícies brilhantes em vez de olhos e colar de placas translúcidas pulsantes, junto a um dispositivo circular metálico luminoso; cena numa rua pedonal de paralelepípedos húmidos pela manhã, com bancos, floreiras, montras de vidro, postes solares e uma porta metálica cinzenta de um antigo Centro de Correios ao fundo; ação: as duas meninas ajudam o extraterrestre a recarregar o dispositivo inserindo a placa solar, uma aura luminosa suave no chão e um holograma discreto de constelações em filamentos de luz sobre o aparelho; estilo: gouache com traços visíveis, cores saturadas e suaves, texturas de pincel nos paralelepípedos e na porta metálica, reflexos húmidos, luzes quentes nos rostos e pequenas faíscas ao redor do objeto, atmosfera matinal clara e mágica. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O círculo que não devia estar ali

Lia gostava de começar as manhãs arrumando ideias, como quem alinha lápis numa caixa. Caderno de capa azul, estojo fechado, cabelo preso. Tudo no lugar.

Naquele sábado, ela atravessou a rua pedonal da Praça do Farol, onde as lojas ainda levantavam as grades e o cheiro de pão quente escapava da padaria como um convite. O chão de pedras claras brilhava depois da chuva da noite.

— Chegaste cedo — disse Joana, aproximando-se com a sua mochila leve e as rodas discretas da cadeira a fazerem um som macio, quase como um sussurro. Joana tinha sempre um sorriso pronto, desses que desarmam preocupações.

— Eu… ouvi um barulho ontem — confessou Lia. — Um “vuuuup”, como se o ar tivesse engolido um trovão.

Joana ergueu as sobrancelhas.

— Isso é a descrição mais científica que eu já ouvi.

Lia riu, mas logo apontou.

Entre dois canteiros de flores, no centro da rua pedonal, havia um círculo luminoso no chão. Não era tinta, nem giz. Parecia luz solidificada: um anel fino, com pequenos pontos que piscavam como vaga-lumes presos numa linha perfeita.

— Uau — soltou Joana, aproximando-se devagar. — É… bonito. E nada normal.

Lia ajoelhou-se a uma distância prudente. O círculo tinha cerca de um metro e meio de diâmetro. A luz não ofuscava; era suave, como lua no azulejo. E, mesmo assim, dava a impressão de estar a vibrar por dentro, como se guardasse um segredo.

— Não há pegadas — murmurou Lia. — Nem marcas de pneus. Como se… tivesse aparecido de repente.

Joana inclinou-se para a frente, curiosa.

— Ou como se alguma coisa tivesse pousado aqui e depois… evaporado.

As duas trocaram um olhar. Um desses olhares de doze anos que dizem: “Isto vai dar problema” e “Eu quero ver”.

Lia tirou do bolso um pequeno lápis e segurou-o como se fosse uma antena.

— Não vamos tocar.

— Claro que não — disse Joana. — Nós somos pessoas prudentes e responsáveis.

— Exatamente.

Silêncio.

Depois, as duas avançaram mais um centímetro.

Capítulo 2 — A rua pedonal vira um mapa do céu

O círculo respondeu com um brilho mais intenso, como se as tivesse reconhecido. Os pontinhos na linha começaram a correr, dando voltas, formando padrões.

— Está a… ler-nos? — Joana perguntou, meio a brincar, meio a sério.

— Talvez esteja a medir a temperatura — disse Lia, tentando parecer calma. — Ou a… a verificar se somos… de confiança?

— Eu sou totalmente de confiança. Tenho cara de quem devolve livros na biblioteca.

Lia ia responder quando algo mudou no ar. Não foi um som, nem um vento. Foi uma sensação, como quando o elevador começa a subir e o estômago lembra-se de ficar no piso de baixo.

O anel projetou um feixe de luz, curto e arredondado, que desenhou no ar uma espécie de holograma. Não parecia magia; parecia tecnologia muito boa, muito limpa. Surgiu um mapa, mas não era um mapa de ruas. Era um mapa do céu: pontinhos, linhas, curvas, como constelações que alguém tivesse reorganizado.

No centro, um símbolo pulsava — um triângulo dentro de um círculo, como um olho geométrico.

— Isto é… um convite? — sussurrou Joana.

Lia reparou num detalhe: junto ao mapa, uma sequência de formas repetia-se em intervalos regulares, como uma linguagem feita de luz.

— Não é português — disse Lia, óbvio e útil como sempre.

— Obrigada por confirmares, doutora — Joana riu baixinho. — Mas olha ali… parece uma seta.

De facto, a luz fazia uma direção clara: apontava para o fim da rua pedonal, onde havia uma galeria antiga com portas de vidro e, ao lado, uma porta metálica que quase ninguém usava — a entrada de serviço do antigo Centro de Correios.

— O Centro de Correios está fechado há anos — disse Lia. — Só abriram a galeria para exposições.

— E a porta metálica continua lá, toda triste e enferrujada — completou Joana. — O mapa quer que a gente vá até lá?

O círculo diminuiu o brilho, como se dissesse “sim, era isso”.

Lia engoliu em seco. Uma parte dela queria correr para casa, ligar para a mãe, para a polícia, para a NASA e para a professora de Ciências, por ordem alfabética. Outra parte, a parte que colecionava factos sobre planetas e guardava recortes de notícias de sondas espaciais, ficou quieta e acordada.

— Vamos — decidiu Lia, com uma coragem que parecia emprestada. — Mas com cuidado. E sem tocar em nada.

Joana levantou a mão.

— Regra número um das aventuras: “Sem tocar em nada” dura sempre três minutos.

— Hoje vai durar mais — prometeu Lia.

As duas avançaram pela rua pedonal. As pedras no chão, ainda húmidas, refletiam o sol da manhã. Algumas pessoas passavam, distraídas, com sacos de compras, sem notar o círculo, como se ele fosse invisível para todos menos para elas.

— Por que será que ninguém vê? — perguntou Joana.

— Talvez… só apareça para quem… — Lia hesitou. — Para quem está a prestar atenção.

Joana sorriu.

— Então estamos oficialmente em perigo: nós prestamos atenção.

Capítulo 3 — Um sussurro dentro do metal

Ao chegarem à porta metálica do antigo Centro de Correios, o holograma apagou-se atrás delas, como se o círculo tivesse guardado a energia.

A porta era alta, cinzenta, com uma fechadura antiga. Havia um pequeno painel ao lado, daqueles para códigos, mas sem números. Só uma superfície lisa.

— Isto parece uma entrada secreta — disse Joana, a voz cheia de cinema.

Lia aproximou-se do painel. Sentiu um calor suave, como quando se encosta as mãos numa caneca de chocolate quente.

— Não há botões.

— Talvez seja por… aproximação — sugeriu Joana. — Como os cartões sem contacto. Só que… versão alienígena.

Lia colocou a palma da mão a poucos centímetros. O painel acordou: um brilho azul, depois verde, depois um branco delicado. Um som breve ecoou, “tin”, como uma campainha tímida.

A porta não abriu.

— Hm — Lia mordeu o lábio. — Falta alguma coisa.

Joana olhou para a rua pedonal, para onde o círculo estava.

— E se for preciso o círculo? Como uma chave. Uma assinatura.

Lia respirou fundo.

— Então temos de levar… a luz até aqui?

— Ou trazer aqui algo que ela nos deu — disse Joana.

Lia lembrou-se do lápis no bolso. Tirou-o e percebeu uma coisa estranha: a ponta estava brilhando ligeiramente, como se tivesse bebido um pedacinho daquela luz.

— Joana… eu… eu encostei o lápis perto do círculo. Só perto.

Joana abriu a boca num “ah!” vitorioso.

— Regra número um das aventuras: três minutos.

— Eu não toquei! — protestou Lia. — Foi… ciência observacional.

Lia aproximou a ponta brilhante do lápis do painel. Um traço de luz correu do grafite para o metal, como se o painel sugasse uma gota de estrela.

Desta vez, ouviu-se um “clac” profundo. A porta tremeu.

E do outro lado, veio um som. Não era voz humana. Era como um sussurro feito de notas, um pequeno canto de máquina.

— Está alguém aí — disse Joana, com os olhos enormes.

Lia não sabia se devia responder “olá” ou “não se assustem”. Escolheu a coisa mais simples.

— Nós… estamos aqui — disse, devagar.

O painel projetou um símbolo: o mesmo triângulo dentro do círculo. Depois, uma sequência de luzes formou algo que parecia uma cara muito básica: dois pontos e uma linha curva.

— Ele… está a sorrir? — Joana perguntou.

— Ou é o modo “não quero guerra” — respondeu Lia.

De dentro, o sussurro mudou. Agora parecia… curioso. Como um gato eletrónico a cheirar uma novidade.

E então, por uma fenda na parte inferior da porta, deslizou um objeto pequeno, do tamanho de uma laranja. Era redondo, metálico, mas com partes transparentes, onde se via luz a rodar em espiral. Parou mesmo à frente delas.

— Ok — disse Joana. — Eu voto em “não chutar”.

— Concordo — Lia respondeu, quase ofendida com a ideia.

O objeto projetou um feixe curto no chão, desenhando novamente o mapa do céu. Só que agora havia um ponto a piscar no meio: aqui.

E ao lado, uma palavra surgiu. Não em letras, mas em imagens que o cérebro entendia, como quando se sonha: “AJUDA”.

Lia sentiu um frio nas costas e, ao mesmo tempo, uma vontade quente de fazer alguma coisa certa.

— Estão com problemas — disse.

Joana assentiu.

— E escolheram duas pré-adolescentes numa rua pedonal. Isso é… corajoso.

Capítulo 4 — O pequeno visitante e a grande explicação

A porta metálica abriu só um palmo. O suficiente para uma coisa passar. E alguma coisa passou.

Era pequeno, mais baixo que o joelho de Lia, com um corpo fino e alongado, como uma gota em pé. A pele — ou o material — mudava de cor: do cinza ao verde suave, como se respirasse. Não tinha olhos como os nossos; tinha duas superfícies brilhantes que refletiam a luz, e uma espécie de colar de placas translúcidas no pescoço, que vibravam quando fazia sons.

Ele não parecia assustador. Parecia… perdido.

O ser olhou para o objeto redondo no chão, depois para as duas. Inclinou o corpo, um gesto que parecia uma mistura de cumprimento e pedido de desculpa.

— Olá — disse Joana, com a naturalidade de quem fala com um cão simpático. — Eu sou a Joana. Esta é a Lia. E nós não mordemos. Quase nunca.

O visitante soltou uma sequência de notas. O objeto redondo respondeu, projetando imagens no ar: uma nave pequena, brilhante, descendo numa noite; o círculo luminoso ficando no chão; depois um clarão e uma espécie de sombra a passar depressa — como um drone ou um bicho mecânico.

— Alguém… atacou? — Lia perguntou.

Nova imagem: o visitante e outros como ele escondendo-se dentro do antigo Centro de Correios. A porta fechando. Um símbolo de energia baixando, como uma bateria.

— Eles ficaram presos — concluiu Joana. — Sem energia suficiente para voltar.

O visitante mostrou outra imagem: uma coisa parecida com uma cápsula de energia, mas partida. Depois, o mapa do céu apontando para a rua pedonal, para as lâmpadas solares decorativas que enfeitavam os postes — pequenas placas que carregavam durante o dia.

— Ele quer… energia daqui? — Lia adivinhou.

Joana olhou para os postes.

— As luzes da rua são solares. Se eles só precisam de um pouco…

Lia hesitou.

— Mas não podemos arrancar coisas da cidade.

O visitante inclinou-se outra vez. As placas no pescoço vibraram com um som delicado, quase como um “por favor”.

O objeto redondo projetou uma imagem final: o visitante devolvendo tudo, colocando as placas de volta, a rua intacta. E uma sensação clara, quase uma palavra no peito: “PROMESSA”.

Joana ergueu as mãos.

— Ok. Um empréstimo. Nós emprestamos um bocadinho de sol. Ninguém fica sem luz. E vocês devolvem.

Lia respirou fundo. Pensou na regra de ser correta, aplicada, de seguir procedimentos. E pensou noutra coisa: esperança. A ideia de que ajudar podia ser também uma forma de ser correta.

— Eu sei como fazer sem estragar — disse Lia. — As placas têm parafusos. Se tivermos uma chave…

Joana apontou para a mochila.

— Eu tenho um kit de ferramentas pequeno. Não perguntes porquê.

— Eu nem vou perguntar — disse Lia, já a aceitar que a vida de Joana era um conjunto de surpresas úteis.

As duas foram até um poste. Lia subiu num pequeno banco de cimento, com cuidado, e Joana estabilizou o kit, passando as ferramentas. O visitante observava, atento, como um aluno novo a ver uma aula.

Quando Lia soltou a placa solar, ela não se apagou. Continuou a brilhar fraquinho, guardando luz como um segredo.

— Pronto — disse Lia. — Agora… como entregamos?

O visitante estendeu as mãos finas. O objeto redondo abriu-se como uma flor de metal, criando um encaixe. Lia colocou a placa lá dentro. A luz rodopiou mais depressa.

O visitante emitiu um som que parecia alegria.

Joana sorriu.

— Está a funcionar. Eu sabia. A rua pedonal é oficialmente uma estação de reabastecimento espacial.

Capítulo 5 — A corrida do sol emprestado

Levaram o “recarregador” até à porta metálica. O visitante guiava, rápido e silencioso. A rua pedonal, com as suas esplanadas e bancos, parecia a mesma — só que agora cada sombra podia esconder um mistério.

— Espera — disse Lia, parando de repente. — E se… aquela sombra mecânica voltar?

Joana olhou em volta. Um gato atravessou a rua, indiferente a extraterrestres e a ansiedade humana. Um senhor regava plantas numa varanda. Nada parecia ameaçador.

Mas o ar voltou a dar aquela sensação de elevador.

O objeto redondo projetou um alerta: uma forma escura aproximando-se, como um inseto de metal com asas de hélice.

— Não é imaginação — sussurrou Joana. — Temos companhia.

Lia apontou para um arco de pedra que ligava duas lojas, como um pequeno túnel.

— Ali! Se formos pelo arco, ficamos fora da linha direta.

Joana manobrou com rapidez, as rodas fazendo um zumbido. Lia correu ao lado, segurando o recarregador com as duas mãos como se carregasse um pedaço de sol.

O visitante seguiu, ligeiro, quase flutuando.

Por cima, um zzzzz rápido. A sombra metálica passou, varrendo a rua pedonal com uma luz vermelha, como um scanner irritado.

— Shhh — fez Joana, encolhendo-se.

Lia prendeu a respiração. O coração batia tão alto que ela achou que o drone podia ouvi-lo e denunciar: “Aqui! Duas humanas e um alien!”

Mas o arco de pedra escondia-os. O drone passou, hesitou, e seguiu adiante.

Quando o som se afastou, Joana soltou o ar.

— Ok. Nota mental: quando eu disser que o dia está tranquilo, não acreditar em mim.

Lia quase riu, mas estava tremendo.

— Vamos depressa.

Chegaram à porta metálica. O painel acendeu-se como se estivesse à espera. O visitante encostou o recarregador à superfície. A luz do objeto entrou no metal em linhas, como raízes luminosas. O som de dentro mudou: agora era mais forte, como várias vozes-máquina em coro.

A porta abriu um pouco mais. De dentro, saiu um brilho suave, azul esverdeado, que cheirava a chuva limpa.

Lia e Joana espreitaram. Não viram um “correio” antigo. Viram um espaço diferente: paredes lisas, curvas, e uma espécie de corredor que parecia feito de luz endurecida. Como se o interior tivesse sido remodelado por tecnologia, sem barulho, sem pó.

— Eles fizeram uma casa aqui dentro — murmurou Lia.

O visitante fez um gesto convidativo, mas também protetor: como quem diz “podem olhar, mas não precisam entrar”.

Joana apontou para o recarregador.

— Isto chega?

O objeto respondeu com um símbolo de “sim” e uma contagem a descer: 30… 29… 28…

— Trinta segundos — disse Lia.

— Trinta segundos para recarregar uma nave — Joana assobiou. — O meu telemóvel precisava disso.

Lia olhou para o céu da rua pedonal, tão normal, e sentiu uma alegria inesperada. Ali estava ela, aplicada e certinha, a ajudar um ser de outro lugar, sem que o mundo acabasse. Pelo contrário: o mundo parecia maior e mais bonito.

A contagem chegou a 3… 2… 1…

Um “TUM” profundo vibrou no chão, como se uma máquina gigante tivesse acordado lá em baixo. E, por um instante, Lia viu, refletida na porta, a imagem de uma nave compacta, escondida mais para dentro, pronta.

O visitante inclinou-se outra vez. As placas no pescoço vibraram, e o objeto redondo projetou uma imagem clara: as placas solares voltando para o poste, a rua pedonal intacta. Promessa cumprida.

Joana deu um toque no ombro de Lia.

— Conseguimos.

Lia assentiu, com os olhos a picar.

— Sim. Conseguimos.

Capítulo 6 — A porta que fica fechada

O visitante devolveu a placa solar. Lia e Joana correram até ao poste e aparafusaram tudo no lugar. Quando terminaram, ninguém na rua parecia ter notado que uma aventura tinha passado por ali, a dois passos da padaria.

Voltaram à porta metálica. O painel agora mostrava o símbolo do triângulo dentro do círculo, mas mais calmo, como um coração a bater devagar.

O visitante ficou do lado de dentro, na luz azul esverdeada. Antes de recuar, projetou uma última imagem: Lia e Joana na rua pedonal, mais altas, mais velhas, olhando para o céu. E, no céu, um pequeno ponto brilhante a responder, como quem diz “eu lembro-me”.

Depois, uma sensação suave, difícil de explicar, pousou nelas como um cobertor leve: esperança. A certeza de que o desconhecido não precisava ser assustador. Podia ser curioso. Podia pedir ajuda. Podia agradecer.

— Então… adeus — disse Lia, a voz pequena.

Joana acenou.

— Boa viagem. E, por favor, não voltem com drones zangados.

O visitante emitiu um som que parecia uma risada curta, musical. Recuou.

A porta começou a fechar devagar. Lia deu um passo à frente, sem saber porquê, como se quisesse guardar aquele momento num bolso.

— Espera! — disse ela. — O teu… nome?

O visitante parou. As placas no pescoço vibraram. No ar apareceu uma forma simples, como duas ondas cruzadas, acompanhada por um som: “Luun”.

— Luun — repetiu Lia, com cuidado, como se fosse uma coisa frágil.

Joana repetiu também, sorrindo.

— Luun. Bonito.

O ser inclinou-se uma última vez. A porta fechou com um clique suave, final.

Lia esperou que o painel voltasse a abrir, ou que o círculo luminoso reaparecesse na rua pedonal. Nada. Só metal frio e silêncio.

Joana tocou de leve no braço de Lia.

— Ficou… mesmo fechada.

Lia olhou para a porta fechada. Sentiu um aperto, sim. Mas por baixo do aperto havia outra coisa: uma luz tranquila, como o círculo no chão.

— Está tudo bem — disse Lia. — Se eles conseguiram ir… então o céu ficou um pouco mais perto.

Joana respirou fundo, como quem guarda um segredo bom.

— E nós continuamos aqui. A prestar atenção.

As duas afastaram-se pela rua pedonal, misturando-se com as pessoas e os cheiros de pão. O mundo parecia igual. Só que, agora, Lia tinha a certeza de que, por trás de algumas portas fechadas, podia haver caminhos. E que a esperança, às vezes, começava com um círculo de luz no chão e duas amigas a dizerem, ao mesmo tempo:

— Vamos. Com cuidado.

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Pedonal
Que pertence ou é próprio de uma rua para pessoas andarem, sem carros.
Holograma
Imagem feita de luz que parece flutuar no ar, como uma projeção 3D.
Constelações
Grupos de estrelas no céu que formam desenhos reconhecíveis.
Feixe de luz
Um raio concentrado de luz que aponta para um lugar específico.
Triângulo dentro do círculo
Um desenho com três lados colocado no centro de um círculo.
Painel
Uma superfície plana com botões ou luzes, usada para controlar algo.
Placas solares
Peças que captam a luz do sol para virar energia elétrica.
Placas translúcidas
Peças que deixam passar alguma luz, mas não são totalmente claras.
Contagem
Ação de contar números em ordem, para medir tempo ou quantidades.
Promessa
Compromisso de fazer algo no futuro; palavra dada com seriedade.
Sussurro
Som suave e baixo feito quando alguém fala bem baixinho.

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