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História de viagem no tempo 11 a 12 anos Leitura 22 min.

O cronópato e a noite em que o tempo quase se rasgou

Duas amigas encontram no sótão um aparelho de viagem no tempo que as leva a uma festa nos anos 60, onde, com a ajuda de uma rapariga local, tentam reparar uma pequena alteração no passado antes que cause maiores problemas.

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Três meninas de 12 anos: Lia, cabelo castanho claro preso em rabo de cavalo, veste um vestido simples, agachada ao centro com a mão sobre o Cronópato; Joana, cabelo preto curto, camiseta às riscas e ténis brancos, à esquerda, em pé e ligeiramente à frente, segura uma caixa de rissóis como escudo; Rosa, cabelo ruivo com sardas, vestido vintage às bolinhas, à direita inclinada para ajudar, segurando um bilhete de lotaria dobrado e com expressão emocionada. Cena numa rua festiva noturna dos anos 1960 com calçada brilhante, lanternas coloridas e banca de refrescos em madeira; ao fundo uma cabine telefónica antiga a emitir um brilho azul vacilante. As três escondem e estabilizam atrás da banca uma pequena máquina metálica retro (Cronópato), colocando sobre ela uma pulseira em forma de estrela, um bilhete dobrado e um autocolante; uma fenda temporal azul tremeluz perto da cabine, tensão mágica enquanto fecham o buraco temporal. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O Achado no Sótão

Lia e Joana tinham doze anos e uma energia que parecia ter molas nos ténis. Subiam escadas a correr, falavam ao mesmo tempo e tinham um talento especial para encontrar “coisas interessantes” onde ninguém procurava.

Nessa tarde, a avó da Lia pediu:

— Meninas, ajudem-me a arrumar o sótão. E cuidado com as caixas! A memória também se parte…

O sótão cheirava a madeira antiga e a livros guardados. Havia malas, fotografias em preto e branco e uma caixa com letras desbotadas: “NÃO ABRIR — PROJETO”.

Joana pousou a mão na tampa.

— Se diz “não abrir”, é porque é claramente para abrir.

Lia riu, mas o coração bateu mais rápido. Levantaram a tampa com cuidado. Lá dentro, envolta em pano grosso, estava uma máquina do tamanho de um micro-ondas, com um mostrador redondo, botões coloridos e uma alavanca cromada. Ao lado, um caderno com páginas amareladas.

Na primeira folha lia-se: “CRONÓPATO — aparelho de salto temporal. Regra nº 1: não mexer no passado sem pensar. Regra nº 2: voltar sempre.”

“Cronópato”? — Joana repetiu. — Parece nome de super-herói.

Lia virou o mostrador. Um ponteiro tremelicou e uma luz azul piscou, como se a máquina estivesse a acordar de uma sesta de décadas.

— Joana… isto está mesmo a funcionar.

— Ou está a pedir pilhas — disse Joana, tentando fazer piada, mas com os olhos brilhantes.

Atrás delas, uma caixa caiu com um “PUM” e levantou pó. Assustaram-se e, sem querer, Lia puxou a alavanca.

A máquina fez um som de chaleira a ferver e depois um “TAC!” seco, como uma porta a fechar-se no ar.

O chão ficou leve. O mundo pareceu enrolar-se, como um filme a avançar depressa.

— Ai! — Joana agarrou a mão da Lia. — Seja lá o que isto for… já está!

E, num segundo muito longo, o sótão desapareceu.

Capítulo 2 — A Rua Vestida de 1960

Caíram em pé, mas com as pernas moles, no meio de uma rua que não era a rua delas. Ou era… mas diferente. Os prédios tinham varandas de ferro trabalhado, os carros pareciam brinquedos de metal com formas arredondadas, e os candeeiros lançavam uma luz amarela, aconchegante.

E havia música. Uma música alegre, com trompetes e palmas. Ao fundo, uma festa de bairro iluminava a noite com lâmpadas penduradas e bandeirinhas coloridas.

— Onde estamos? — sussurrou Lia.

Joana apontou para uma montra. Um cartaz dizia: “Grande Baile — Verão de 1963”.

— Estamos… no passado. Mesmo no passado! — Joana apertou os braços contra o corpo, como se o ar tivesse outro peso.

As pessoas passavam com roupas diferentes: vestidos rodados, camisas com colarinhos rígidos, penteados impecáveis. Ninguém parecia assustado com duas miúdas de calções e sapatilhas modernas, mas alguns olhares curiosos pousavam nelas.

— Temos de parecer… normais — murmurou Lia.

— Normais? Eu consigo ser normal durante três minutos, no máximo — disse Joana. — Depois começo a fazer perguntas.

Uma rapariga da idade delas apareceu com um balão na mão e sardas no nariz.

— Olá! Vocês são novas aqui? Vão ao baile?

Lia engoliu em seco.

— Sim… somos… de longe.

— Eu sou a Rosa — disse a rapariga. — A festa está ótima! Só tenham cuidado com a rua do lado. Hoje há fogos e uma coisa… estranha na esquina. O meu irmão diz que viu faíscas.

Faíscas.

Lia olhou instintivamente para trás, procurando o Cronópato. A máquina estava ali, encostada a um muro, como uma mala esquecida. Mas agora um grupo de miúdos mais velhos rondava, com ar de quem procura diversão… e problemas.

— Joana, temos de esconder a máquina — sussurrou Lia.

— E rápido.

Rosa franziu o sobrolho.

— Que máquina?

— Uma… máquina de… fazer limonada — improvisou Joana, e saiu-lhe tão disparatado que Lia quase se riu.

Rosa não riu. Olhou para o muro, viu o objeto, e os olhos dela arregalaram-se.

— Isso não é de limonada.

— É… de viagens — confessou Lia, baixinho. — Viagens no tempo.

Rosa ficou muito séria por um segundo, como se tivesse acabado de ouvir uma palavra proibida. Depois sorriu, cheia de curiosidade.

— Então vocês são… do futuro?

— Mais ou menos — disse Joana. — E nós não queremos fazer confusão no teu… agora.

A música do baile subiu de volume e, ao mesmo tempo, um estalido de foguete estourou no céu. As luzes refletiram-se no mostrador do Cronópato.

E os miúdos mais velhos viram-no brilhar.

Capítulo 3 — O Paradoxo do Bilhete Perdido

— Ei! — gritou um rapaz alto, com cabelo engomado. — O que é isso? Parece rádio de nave espacial!

Ele aproximou-se com mais dois amigos. Um deles esticou a mão.

Lia puxou a máquina para si, mas era pesada.

— Não mexam! É… frágil!

Rosa, rápida, agarrou num prato de rissóis que passava numa bandeja e colocou-se à frente, como se defendesse um castelo com… comida.

— A festa é para dançar, não é para roubar coisas!

— Roubar? — o rapaz riu. — Só quero ver.

Joana cochichou:

— Lia, precisamos de um plano. E de um esconderijo.

Lia abriu o caderno amarelado. As folhas tremiam-lhe nas mãos. Havia desenhos do mostrador e uma frase sublinhada: “Para regressar, alinhar a data de origem e usar um marcador de memória.

— Marcador de memória? — Lia murmurou.

Joana leu por cima do ombro.

— Tipo… uma coisa que nos lembre de onde viemos? Uma âncora?

— Talvez uma fotografia… — Lia olhou para as casas, para a festa. — Ou algo nosso.

Nesse instante, um papel voou e colou-se à perna da Lia: um bilhete de lotaria, daqueles antigos, com números e um carimbo: “Sorteio de hoje”.

Joana apanhou-o.

— Olha, um bilhete! Talvez dê para comprar… sei lá… um gelado de 1963.

Rosa ficou pálida.

— Esse bilhete é do meu pai! Ele anda a dizer que “hoje é o dia”. Se o perder, ele fica triste a semana inteira.

Lia sentiu um aperto. Não era só um bilhete. Era uma esperança.

— Então devolvemos já — disse Lia, firme.

Mas o rapaz alto viu o papel.

— Ei, isso é meu! — mentiu, e tentou arrancá-lo da mão da Joana.

Joana recuou, e o bilhete rasgou-se ao meio com um som feio, como uma promessa a partir.

Silêncio por um segundo, mesmo com a música ao fundo.

Rosa levou as mãos à boca.

— Não… o meu pai…

Lia sentiu o tempo a ficar pesado, como se a noite tivesse engolido a luz. Aquilo era pior do que um susto: era uma alteração, uma pequena torção na história de alguém.

No caderno, Lia viu outra frase: “Pequenas mudanças fazem grandes ondas. Corrigir antes que o momento passe.”

— Temos de consertar isto — disse Lia. — Não é sobre ganhar ou perder. É sobre… não estragar a memória de alguém.

Joana assentiu, séria.

— E também sobre não sermos duas meteoritas a cair na vida dos outros.

Rosa olhou para elas, com os olhos húmidos mas atentos.

— Como é que se conserta um bilhete rasgado?

Lia olhou para o Cronópato. O mostrador tinha uma escala pequenina: MINUTOS. Não só anos. O ponteiro tremia perto de “-5”.

— Talvez… voltar cinco minutos — disse Lia. — Só cinco. Antes de rasgar.

Joana engoliu em seco.

— Viagem no tempo de bolso. Adoro. E tenho medo.

Os miúdos mais velhos avançaram outra vez, atraídos pela discussão. Um foguete estalou no céu, e a luz refletiu-se no metal da alavanca.

— Agora! — disse Lia.

As três — Lia, Joana e Rosa — empurraram a máquina para trás de uma banca de refrescos. Lia girou o ponteiro para “-5” e puxou a alavanca com cuidado, como se puxasse o fio de um papagaio de papel.

O ar ficou elétrico. Cheirou a chuva antes de cair.

E a noite deu um pequeno salto para trás.

Capítulo 4 — Cinco Minutos que Valem Ouro

Voltaram ao mesmo lugar, mas a música estava numa parte anterior, e as pessoas estavam ligeiramente noutros pontos, como peças de um jogo reposicionadas.

— Funcionou… — sussurrou Joana, espantada.

Rosa olhou ao redor, como quem procura confirmar se o mundo ainda é o mundo.

— Estamos… antes?

— Antes do rasgão — disse Lia. — Regra: desta vez, ninguém puxa bilhetes como se fossem cordas.

Joana levantou as mãos.

— Eu prometo. Mãos de estátua.

A cena repetia-se: o bilhete veio a voar, mas Lia apanhou-o com delicadeza, dobrou-o e colocou-o no bolso do vestido de Rosa.

— Entregas ao teu pai quando o vires — disse Lia.

Rosa assentiu, determinada.

— Vou guardá-lo como se fosse… uma faísca de sorte.

E os miúdos mais velhos aproximaram-se de novo. O rapaz alto olhou para o muro, onde a máquina tinha estado antes, mas agora ela estava escondida.

— Estavam a brincar com o quê? — perguntou ele, desconfiado.

Joana sorriu com a cara mais inocente que conseguiu.

— Com… com uma caixa de música. Mas avariou. A vida é assim.

Ele fez uma careta e foi embora, aborrecido.

As três respiraram. Mas a noite ainda tinha perigos. Um estalido maior anunciou que os fogos iam começar. As pessoas começaram a juntar-se perto da rua do lado — exatamente onde Rosa tinha dito haver faíscas estranhas.

Lia espreitou. No fim da rua, uma cabine telefónica antiga piscava com luzes azuis, como se tivesse engolido relâmpagos. O ar em volta ondulava.

— Isso não é fogo de artifício — disse Lia.

Joana aproximou-se um pouco, sempre com cuidado.

— Parece… um rasgão no ar. Um “buraco” a tentar abrir.

No caderno, Lia encontrou um desenho parecido: “Fenda temporal — surge quando o aparelho é ativado sem estabilização. Evitar proximidade. Pode puxar objetos… ou pessoas.”

Rosa apertou o pulso de Lia.

— Vocês fizeram isso aparecer?

— Sem querer — confessou Lia. — A máquina está velha. E nós puxámos a alavanca à pressa.

Joana tentou brincar, mas a voz saiu fina:

— A boa notícia é que aprendemos uma coisa. A má é que a coisa aprendeu onde estamos.

A multidão aproximava-se, curiosa com a cabine a piscar. Um senhor comentou:

— Deve ser uma falha elétrica.

Uma criança apontou:

— Olha, parece magia!

Lia viu o perigo: se alguém tocasse na cabine, podia ser puxado. E isso, sim, era uma confusão enorme.

— Temos de fechar a fenda — disse Lia.

— Como? — perguntou Rosa.

Lia olhou para o Cronópato.

— Se a fenda nasceu de uma ativação, talvez feche com uma ativação… correta. Estabilizada.

Joana abriu o caderno numa página com instruções simples, quase como uma receita:

1) Afastar curiosos.

2) Alinhar “AGORA”.

3) Usar marcador de memória.

4) Acionar e esperar o som “TUM” (fecho).

“Marcador de memória” outra vez — disse Joana. — Precisamos disso para estabilizar e também para voltar para casa, aposto.

Lia meteu a mão no bolso e sentiu o seu pequeno objeto: uma pulseira de tecido com uma conta em forma de estrela, feita por ela e pela avó. Era simples, mas tinha histórias.

— Isto — disse Lia. — Lembra-me quem eu sou e de onde venho.

Rosa tirou do bolso o bilhete do pai e colocou-o na mão de Lia.

— Usa isto também. É a nossa prova de que o passado tem pessoas de verdade, com esperanças de verdade.

Joana puxou do bolso um autocolante do caderno da escola, meio amarrotado, com a frase: “Não esquecer”.

— Eu sei, é meio ridículo. Mas funciona.

Lia respirou fundo.

— Vamos afastar a multidão. Joana, distrai com humor. Rosa, chama os adultos para a festa. Eu preparo a máquina.

Capítulo 5 — A Noite da Festa e o Fecho do Tempo

Joana avançou para a rua como se fosse uma apresentadora.

— Atenção! Teste surpresa! Quem conseguir dançar o twist melhor ganha… um aplauso oficial!

Algumas pessoas riram. Outras, confusas, começaram a imitar passos. A música parecia ajudar, como se o bairro inteiro decidisse que dançar era mais seguro do que espreitar cabines luminosas.

Rosa correu até à banca de refrescos.

— Dona Emília! Estão a chamar a senhora para ajudar com os pratos! E precisam do seu avental mágico!

A senhora, orgulhosa do avental, foi logo. Outros adultos seguiram. A rua da cabine ficou menos cheia.

Lia puxou o Cronópato para perto, atrás de um poste. O metal estava frio. O mostrador brilhava com uma luz que parecia respirar.

Ela colocou a pulseira no topo da máquina, junto ao mostrador. Depois, ao lado, o bilhete de lotaria (bem dobrado) e o autocolante “Não esquecer”.

— Marcadores de memória — sussurrou. — Um do futuro, um do presente, um do passado.

Joana voltou, ofegante.

— Eu nunca pensei que salvar o tempo exigisse… dança.

Rosa apareceu também.

— A rua está mais vazia. Mas a cabine está a puxar o ar. Eu sinto no cabelo.

Lia alinhou o ponteiro para “AGORA”, como dizia o caderno. Não “1963”, não “2026” — apenas o agora, aquele instante, para fechar a ferida.

— Quando eu puxar a alavanca, ninguém se aproxima da fenda — disse Lia. — E se ouvirem um “TUM”, corremos para a máquina.

— Espera — disse Rosa, tocando no braço de Lia. — Se vocês forem embora… eu vou lembrar-me?

Lia hesitou. Era uma pergunta grande, do tamanho do céu da noite.

— Talvez só como um sonho. Mas a tua vida continua. E a memória… pode viver em pequenas coisas. Num bilhete guardado, numa história contada, num cheiro de festa.

Rosa engoliu em seco e sorriu.

— Então eu vou contar ao meu pai que uma noite quase perdi a sorte… e ganhei uma aventura.

Lia puxou a alavanca.

O ar vibrou. A luz azul da cabine esticou-se como um elástico e depois encolheu. A rua fez um som grave:

TUM.

A cabine parou de piscar. O ar ficou normal. Os fogos começaram no céu, e desta vez eram só fogos: cores, estrondos e risos.

Joana soltou o ar que nem sabia que estava a prender.

— Conseguimos! Fechámos um buraco no tempo com uma pulseira, um bilhete e… um autocolante idiota.

— Idiota, mas útil — disse Lia, a sorrir.

Mas o Cronópato deu um estalido estranho. O ponteiro tremeu e deslizou sozinho, como se tivesse vontade própria, apontando para uma data… que Lia reconheceu como a deles.

— Ele quer voltar — disse Lia. — Ou está a ficar sem energia.

Rosa segurou a mão das duas.

— Obrigada. Por não deixarem a noite ficar… estragada.

Joana inclinou a cabeça.

— E obrigada por confiares em duas desconhecidas com roupas esquisitas.

Rosa riu.

— No meu bairro, as noites de festa trazem coisas inesperadas.

Lia olhou para o baile, para as luzes, para as pessoas a dançar sem saberem que o tempo tinha sido remendado ali ao lado. Sentiu um respeito novo, como se cada momento tivesse uma etiqueta invisível: “manusear com cuidado”.

— Vamos — disse Lia. — Regra nº 2: voltar sempre.

Capítulo 6 — De Volta ao Presente, com as Mãos Cheias de Memória

Atrás de uma banca, longe de olhares, Lia girou o mostrador para a data de origem — o dia e o ano delas — como no caderno. Os marcadores de memória ainda estavam no topo da máquina.

Joana apertou a pulseira da Lia um instante, como quem confirma que aquilo é real.

— Se eu desaparecer e reaparecer no sótão… prometes que me beliscas para eu ter a certeza?

— Prometo — disse Lia. — Mas com carinho.

Rosa deu um passo atrás, com os olhos brilhantes e corajosos.

— Adeus, viajantes.

— Adeus, Rosa — disseram as duas.

Lia puxou a alavanca.

O mundo enrolou-se outra vez, mas agora elas conheciam a sensação: um frio rápido, um zumbido, e depois o ar a encaixar no lugar certo.

Apareceram no sótão, exatamente onde tinham estado. A poeira dançava num raio de luz. O relógio da casa, lá em baixo, tocou uma hora normal, como se nada tivesse acontecido.

Joana olhou à volta.

— Voltámos. Estou inteira. Acho eu.

Lia riu e beliscou-lhe o braço de leve.

— Estás. Infelizmente para as tuas ideias malucas.

O Cronópato estava quieto, com as luzes apagadas, como um animal cansado. No topo, porém, estavam os marcadores: a pulseira, o autocolante… e o bilhete de lotaria.

— O bilhete! — disse Lia. — Ele veio connosco!

Joana pegou nele com cuidado.

— Isso é… perigoso? Tipo trazer coisas do passado?

Lia abriu o caderno e leu a última nota, escrita à pressa: “Objetos com história forte podem prender-se ao viajante. Guardar como lembrança, não como vantagem.”

Lia pensou em Rosa e no pai dela. O bilhete precisava de estar onde pertencia.

Desceram ao andar de baixo e encontraram a avó da Lia na sala, a arrumar um álbum antigo. A avó levantou os olhos e sorriu, como se as tivesse esperado.

— Então, exploradoras? Encontraram tesouros?

Lia hesitou. Depois, com cuidado, mostrou o bilhete.

— Avó… isto estava na caixa. É antigo. E… acho que é importante para alguém.

A avó pegou no bilhete, olhou o carimbo, e ficou pensativa.

— Isto… parece o bilhete do vosso bisavô. Ele guardava um igual no álbum. Dizia que naquela noite, numa festa, quase o perdeu… e alguém o ajudou a lembrar-se do que realmente importava: estar com a família, mesmo sem prémio.

Lia sentiu um arrepio bom. A história encaixava, como peça de puzzle.

— Então… ele não ganhou?

A avó sorriu.

— Ganhou, sim. Um prémio pequeno, acho eu. Mas o que ele contava era a música, as luzes e a sensação de que alguém, num instante, o protegeu de uma tristeza. Memória é isso: a parte do passado que nos ensina a cuidar do presente.

Joana respirou fundo.

— Nós… conhecemos uma rapariga chamada Rosa.

A avó piscou os olhos, como quem procura um nome numa gaveta antiga.

— Rosa… a amiga do bairro. A que dizia que as noites de festa trazem coisas inesperadas.

Lia e Joana trocaram um olhar espantado e feliz.

No sótão, mais tarde, guardaram o Cronópato de novo, agora com respeito, como quem tapa uma janela para o tempo. Lia colocou a pulseira à volta do pulso e sentiu a estrela encostar-se à pele.

— Sabes o que é engraçado? — disse Joana. — Nós fomos ao passado para mexer em coisas… e voltámos a querer mexer menos.

Lia assentiu.

— E a querer lembrar mais.

Lá em baixo, a avó chamava para o lanche. O presente tinha cheiro a pão quente e a segurança.

E, enquanto desciam as escadas, Lia pensou que o tempo era como um bairro em noite de festa: lindo, barulhento, cheio de luzes… e sempre a pedir cuidado, para ninguém tropeçar no que veio antes.

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Sótão
Parte alta da casa, junto ao telhado, onde se guardam coisas velhas.
Desbotadas
Cores que ficaram fracas e claras por causa do tempo.
Mostrador
Parte com números ou ponteiros numa máquina ou relógio, que indica informação.
Alavanca
Peça alongada que se puxa ou empurra para fazer uma máquina funcionar.
CRONÓPATO
Nome da máquina de viajar no tempo encontrada no sótão.
Paradoxo
Situação em que duas coisas verdadeiras se contradizem ao mexer no tempo.
Fenda temporal
Abertura no ar ligada ao tempo, que pode aparecer quando a máquina falha.
Marcador de memória
Objeto usado para lembrar o tempo de origem e ajudar a voltar.
Rasgão
Corte ou fenda forte num tecido ou no ar, como um grande rasgo.
Autocolante
Figurinha de papel com cola que se cola em cadernos ou objetos.
Estabilização
Ato de tornar algo estável, sem balançar ou causar problemas.
Ponteiro
Pequena peça que se move no mostrador para mostrar uma posição ou hora.

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