Capítulo 1 — A caixa que fazia “tic”
Duarte tinha doze anos e um jeito calmo de olhar para as coisas, como se o mundo fosse um puzzle que merecia tempo. Naquela tarde, ele ajudava a arrumar a arrecadação do prédio com a sua melhor amiga, a Inês, que tinha a energia de um foguete e perguntas a toda a hora.
— Duarte, olha isto! — disse ela, puxando uma lona empoeirada.
Por baixo apareceu uma caixa metálica do tamanho de um micro-ondas antigo. Tinha um mostrador redondo, um ponteiro tremido e um botão vermelho que parecia pedir para ser carregado. Ao lado, uma pequena placa dizia, em letras gastas: “REGRA 1: VOLTAR SEMPRE. REGRA 2: NÃO MEXER NO QUE NÃO ENTENDE.”
— Hum… isto não é uma torradeira — murmurou Duarte.
— É uma máquina do tempo! — Inês abriu um sorriso tão grande que quase fez luz.
Duarte passou o dedo pela poeira. O mostrador tinha números, mas não eram horas normais. Havia “ONTEM”, “AGORA”, “AMANHÔ e, mais abaixo, uma escala com anos que pareciam ter sido riscados e escritos de novo. E, no fundo da caixa, uma abertura estreita, como uma ranhura para inserir algo.
— Talvez seja só uma brincadeira — disse Duarte, tentando ser sensato.
A máquina respondeu com um “tic… tic… tic…” muito decidido, como um relógio a acordar.
Inês inclinou-se para a placa e leu em voz alta:
— “Para viajar, coloque um objeto na ranhura. Ajuste o ponteiro. Espere o som do obturador.”
— Obturador… isso é de máquinas fotográficas — lembrou Duarte. O pai dele tinha uma câmara antiga guardada numa gaveta, “de filme”, dizia ele, com uma reverência especial.
— Então é ciência e fotografia ao mesmo tempo! — Inês esfregou as mãos. — Vamos pôr… o quê?
Duarte olhou à volta. Havia caixas com parafusos, revistas velhas, uma luva sem par. Encontrou no chão uma moeda brilhante, provavelmente caída de algum bolso. Pegou nela.
— Só uma moeda — disse ele. — E depois voltamos já. Regra 1.
Ele encaixou a moeda na ranhura. O ponteiro do mostrador tremeu, como se tivesse cócegas, e parou em “1976”.
— Inês… — Duarte engoliu em seco. — Tem a certeza?
— Tenho quase a certeza! — ela respondeu, que era o jeito dela dizer “não faço ideia, mas quero ver”.
Duarte carregou no botão vermelho.
A arrecadação encolheu, depois esticou, depois virou um borrão. O “tic… tic… tic…” acelerou até virar um “tac!” seco, como o clique de uma fotografia.
E, de repente, havia cheiro a químicos no ar. E uma luz vermelha suave, como a de um aquário.
Capítulo 2 — A oficina vermelha
Eles estavam num espaço estreito, cheio de prateleiras. Havia caixas com rolos de filme, papéis empilhados e pinças penduradas. Uma lâmpada vermelha iluminava tudo, deixando as sombras compridas.
— Uau… isto parece um laboratório secreto — sussurrou Inês.
— É uma câmara escura — disse Duarte, lembrando-se de uma explicação do pai. — Aqui revelam fotografias.
Do outro lado de uma cortina preta ouviu-se um assobio. Um homem de bigode e avental manchado entrou, segurando um relógio de bolso.
— Quem são vocês? — perguntou ele, mas a voz não era bruta. Era curiosa. — E como é que entraram na minha oficina?
Duarte levantou as mãos, devagar, para mostrar que não tinha más intenções.
— Eu sou o Duarte. Ela é a Inês. Nós… estávamos… perdidos.
Inês, que tinha mais coragem do que prudência, apontou para uma máquina grande na mesa: uma ampliadora, com um braço metálico e uma lente.
— Isso é para fazer fotos, não é? Como magia!
O homem soltou uma risadinha.
— Magia com paciência, menina. A pressa aqui só faz borrões. Chamem-me senhor Álvaro.
Duarte reparou numa prateleira com uma pilha de envelopes. Um deles tinha escrito “CASAMENTO — URGENTE”. Ao lado, um cronómetro e uma bandeja com líquido.
— Se mexerem em alguma coisa, estragam tudo — avisou o senhor Álvaro, já a olhar para um papel mergulhado na bandeja. — No escuro, os erros aparecem devagar… mas aparecem.
Inês inclinou-se para Duarte e sussurrou:
— Ele parece simpático. Podemos ajudar! Assim não damos nas vistas.
Duarte hesitou. A placa da máquina do tempo tinha sido clara: “Não mexer no que não entende.” Mas ajudar a segurar uma corda, passar uma pinça, isso entendia ele.
— Podemos… ajudar com coisas simples — disse Duarte ao senhor Álvaro. — Sem tocar no que não devemos.
O fotógrafo olhou-os de alto a baixo, como se medisse a sinceridade.
— Muito bem. Mas uma regra: aqui, ninguém corre. A fotografia ensina a esperar. E quem não espera… sai com a imagem torta da vida.
Inês fez uma careta divertida.
— Eu consigo esperar… mais ou menos.
Duarte sorriu. Aquela frase ficou a ecoar: a imagem torta da vida.
Foi então que Duarte sentiu algo no bolso: a moeda que ele tinha colocado na ranhura. Como assim? Ele puxou-a. Estava ali, quente, e agora tinha um risco fino, como se tivesse sido mordida por uma engrenagem.
— Inês… — murmurou ele. — A moeda voltou comigo.
Antes que pudessem pensar, ouviu-se do lado de fora um bater de porta e vozes apressadas.
— Álvaro! As fotos do casamento têm de ficar prontas hoje! — gritou alguém.
O senhor Álvaro suspirou, mas não parecia irritado. Parecia… determinado.
— Então, pequenos, vamos trabalhar. E com calma.
Capítulo 3 — O rolo teimoso e o paradoxo maroto
O senhor Álvaro entregou a Duarte uma pinça.
— Segura isto. Não toques no papel com os dedos. A pele deixa marcas.
Inês recebeu a tarefa de contar, em voz baixa, os segundos do cronómetro.
— Trinta… trinta e um… trinta e dois… — dizia ela, tentando não rir com a própria seriedade.
Aos poucos, uma imagem surgiu no papel submerso: um casal sorridente, flores, gente a bater palmas. Era como ver um segredo a aparecer do nada.
— Isto é incrível — sussurrou Duarte.
— Ciência bonita — confirmou o senhor Álvaro. — A luz escreveu, e nós só estamos a ler.
De repente, a cortina preta da entrada mexeu-se sozinha, como se alguém a empurrasse… mas não havia ninguém. Um vento frio atravessou a sala, e a lâmpada vermelha piscou.
O “tic… tic… tic…” voltou a soar, distante, como se viesse de dentro das paredes.
Duarte olhou à volta, inquieto.
— Inês… ouviste?
— Ouvi, sim. Parece a nossa caixa — respondeu ela, com os olhos brilhantes e um pouco assustados, mas sem pânico.
O senhor Álvaro franziu o sobrolho.
— Que caixa?
Duarte não queria mentir, mas também não queria criar confusão no tempo. Ele escolheu as palavras como quem escolhe um caminho sem buracos.
— Uma… caixa que faz tique-taque. Deve estar… por perto.
O vento voltou. Em cima da mesa, um rolo de filme começou a desenrolar-se sozinho, como uma fita preta a fugir. O senhor Álvaro tentou segurá-lo, mas o rolo saltou-lhe das mãos e caiu no chão.
— Ai! — ele exclamou. — Isto é filme virgem! Se apanha luz, acabou!
A cortina abriu-se um pouco, deixando entrar uma luz branca da oficina lá fora. Inês atirou-se para fechar a cortina, rápido demais. O tecido prendeu-se num gancho e ficou uma fresta.
— Não! — o senhor Álvaro correu, mas parou a meio, como se tivesse lembrado da própria regra. — Com calma, com calma…
Duarte viu o filme a brilhar, ameaçado pela luz. O coração dele bateu forte. Queria agir depressa, mas a voz do senhor Álvaro era como um trilho: pressa faz borrões.
Ele respirou fundo. Pegou numa caixa vazia, virou-a ao contrário para fazer sombra, e rastejou com cuidado, tapando a luz que caía no filme.
— Inês — disse ele, baixo e firme — segura a cortina devagar, sem puxões. Eu vou recolher o filme.
— Devagar… — repetiu Inês, como se fosse uma palavra nova.
Com dedos pacientes, Duarte enrolou o filme, volta por volta, sem o deixar encostar no chão. Era um trabalho chato, lento, e o filme parecia teimoso, querendo escapar. Mas, a cada volta, ele sentia que estava a ganhar.
Quando conseguiu fechar o rolo, o “tic… tic… tic…” parou.
O senhor Álvaro soltou o ar.
— Vocês salvaram o trabalho de uma semana.
Inês limpou a testa.
— A minha pressa quase estragou tudo.
Duarte olhou para a moeda riscada na mão. Sentiu que aquela máquina, seja lá o que fosse, tinha vontade própria. E tinha humor: fazia barulho quando queria chamar atenção, como um gato a derrubar coisas.
No silêncio seguinte, o senhor Álvaro abriu uma gaveta e tirou um pequeno objeto: um relógio de bolso prateado, com uma fotografia minúscula dentro da tampa.
— Isto foi do meu pai — disse ele, passando o polegar pela tampa. — Mas anda estranho. Às vezes atrasa, às vezes adianta… como se tivesse saudades de outro tempo.
Duarte engoliu em seco. Um relógio que não respeita o tempo parecia… uma pista perigosa.
— Posso ver? — perguntou ele.
O senhor Álvaro hesitou, depois assentiu.
— Só não o deixes cair.
Duarte abriu a tampa. A fotografia lá dentro mostrava um rapaz com um sorriso tímido. O rapaz segurava uma caixa metálica parecida com a deles.
Inês arregalou os olhos.
— Duarte… aquele rapaz… parece contigo!
E, antes que Duarte respondesse, o relógio de bolso fez “tac!”, como um obturador, e a lâmpada vermelha apagou-se por um segundo.
Quando a luz voltou, algo tinha mudado: na parede, um calendário que antes dizia “1976” agora mostrava “1978”.
— O quê? — Inês sussurrou, confusa. — Saltámos dois anos?
Duarte fechou o relógio com cuidado. A sensação era clara: um paradoxo maroto tinha acabado de lhes fazer uma partida.
Capítulo 4 — Um salto que não devia saltar
O senhor Álvaro olhou para o calendário e ficou pálido.
— Impossível. Ontem era 76 — disse ele, e a palavra “ontem” ali pareceu pesada. — Eu sei porque marquei a data da encomenda.
Ele abriu um envelope e leu, com as mãos a tremer:
— “Casamento — 1978”. Mas… o casamento que eu estou a revelar é de… agora.
Duarte sentiu a cabeça a girar, como se tivesse dado uma volta dentro de um carrossel. Não era medo. Era aquela sensação de estar num truque de cartas em que alguém muda o baralho.
— Inês — disse ele, baixinho — a máquina não só nos trouxe aqui. Ela está a mexer nos “degraus” do tempo.
— Isso é… mau? — ela perguntou, tentando fazer humor. — Tipo… “mauzinho”?
Duarte pensou na placa: “Voltar sempre.” “Não mexer no que não entende.”
E pensou no relógio com a foto dele… ou de alguém muito parecido.
— É perigoso se as coisas começarem a trocar de lugar — respondeu. — Como arrumar uma estante e, de repente, os livros decidirem andar sozinhos.
O senhor Álvaro apertou o relógio no punho.
— Se isto é uma brincadeira, não tem graça.
Duarte falou com calma, escolhendo a sinceridade que não destruía nada.
— Senhor Álvaro, acho que este relógio… está ligado a uma coisa que não entendemos bem. E quando tocámos, o tempo… tropeçou.
Inês apontou para a fotografia dentro da tampa.
— E… essa foto. É esquisita.
O senhor Álvaro abriu o relógio outra vez. A fotografia tinha mudado. Agora, o rapaz não segurava a caixa metálica. Segurava uma câmara fotográfica antiga e uma placa que dizia: “ESPERA”.
Duarte sentiu um arrepio de espanto.
— O tempo está a responder ao que fazemos.
O senhor Álvaro respirou fundo, como se o próprio peito fosse uma máquina a ajustar-se.
— Então, se o tempo é teimoso, vamos tratá-lo com respeito. Sem pressa.
A frase era simples, mas tinha uma força tranquila.
— Precisamos encontrar a nossa caixa — disse Duarte. — O “tic” vinha das paredes. Talvez esteja… escondida aqui, neste tempo.
Inês olhou as prateleiras.
— Numa oficina de fotografia há mil caixas. Isto é tipo caça ao tesouro.
Eles começaram a procurar, mas sem revirar tudo. Duarte apontava:
— Primeiro, lugares óbvios: debaixo das mesas, atrás das caixas maiores. Depois, as prateleiras mais baixas. Devagar.
Inês, que normalmente já teria tirado tudo para o chão, surpreendeu-se a si mesma. Ela respirou e seguiu o ritmo.
— Estou a fazer a coisa da paciência — disse, orgulhosa. — Vês? Não morri.
Duarte sorriu.
— Ainda bem.
Atrás de um armário alto, Duarte encontrou uma chapa de metal no chão, com o mesmo risco fino que a moeda. Parecia uma peça que tinha caído.
— Isto é dela — disse ele.
Seguindo as marcas, chegaram a uma porta pequena, quase invisível, na parte de trás da oficina. O senhor Álvaro franziu o sobrolho.
— Essa porta sempre esteve aí? — perguntou ele.
— Talvez o tempo a tenha… lembrado — respondeu Inês.
Duarte empurrou a porta. Um corredor curto, cheio de pó e teias de aranha. No fim, numa sala minúscula, estava a máquina: a caixa metálica, encostada à parede, a piscar uma luz verde muito fraca, como um vagalume cansado.
O mostrador estava em “1978”.
— Temos de pôr isto de volta nos trilhos — disse Duarte.
O senhor Álvaro olhou para a máquina como se fosse um animal raro.
— E como se faz isso?
Duarte viu a ranhura para inserir um objeto e lembrou-se da moeda que tinha voltado com ele, riscada, como se tivesse servido de chave e não de bilhete.
— Talvez o objeto seja uma âncora — disse ele. — Algo que liga um tempo ao outro. E se a âncora está fora do lugar… o tempo deriva.
Inês apontou para o relógio.
— E esse relógio parece… um barco sem corda.
Duarte assentiu.
— Precisamos devolver o que não pertence aqui. Ou ao menos pôr no lugar certo.
O senhor Álvaro apertou o relógio.
— Este relógio pertence à minha família.
Duarte olhou para a fotografia de “ESPERA” e teve uma ideia que lhe pareceu certa, como quando uma peça finalmente encaixa.
— Talvez ele pertença… ao passado do seu pai. Ou ao futuro do seu filho. Ou… a um momento específico. A paciência, aqui, é descobrir qual.
O “tic… tic… tic…” recomeçou, como se a máquina aprovasse o plano… mas pedisse cuidado.
Capítulo 5 — A lição do filme: esperar para ver
Voltaram à câmara escura. O senhor Álvaro estava dividido entre a curiosidade e o medo de estragar tudo.
— Se isto mexe no tempo, eu não quero que a minha oficina desapareça — disse ele.
— Nem nós queremos ficar presos em 1978 para sempre — respondeu Inês. — Eu nem sei viver sem internet. Quer dizer… eu consigo, mas faço birra.
O senhor Álvaro não entendeu “internet”, mas entendeu “birra”. Riu-se, e o riso ajudou a limpar o ar.
Duarte pediu o relógio com delicadeza.
— Posso testar uma coisa? Prometo que não corro.
Ele abriu a tampa e olhou a foto. A placa “ESPERA” parecia um conselho direto. Então ele fez o mais difícil: não mexeu logo. Sentou-se numa cadeira, quieto, e apenas observou.
O ponteiro do relógio tremia, como se estivesse indeciso. Aos poucos, foi acalmando, como uma agulha que encontra o sul.
— Inês — disse Duarte, sem tirar os olhos — repara. Quanto mais quieto eu fico, mais estável ele parece.
Inês aproximou-se, curiosa, e desta vez não tocou.
— É como revelar uma foto. Se mexes na bandeja, borras tudo.
O senhor Álvaro cruzou os braços, impressionado.
— Finalmente alguém que entende a minha lenga-lenga.
Duarte sorriu.
— A sua lenga-lenga é útil.
Quando o ponteiro estabilizou, ouviu-se um “tac” suave. A fotografia dentro do relógio mudou outra vez. Agora, mostrava o senhor Álvaro mais jovem, sem bigode, segurando o relógio aberto diante de uma criança. A criança segurava… a mesma moeda de Duarte.
— Essa criança sou eu? — perguntou Duarte, sem perceber como a pergunta já parecia verdadeira.
Inês apontou.
— Ou é o teu “tu” de outro tempo. E isso é… mega estranho.
Duarte encarou a moeda na mão. Se a foto mostrava o senhor Álvaro a dar o relógio e a moeda a uma criança, então a moeda não era só deles. Era uma peça de um ciclo.
— Senhor Álvaro — disse Duarte com cuidado — lembra-se de alguma moeda especial? Alguma vez encontrou uma moeda riscada?
O senhor Álvaro fechou os olhos, procurando na memória como quem procura uma fotografia numa caixa.
— Quando eu era miúdo… encontrei uma moeda diferente no chão da oficina do meu pai. Tinha um risco. Guardei-a anos. Um dia… desapareceu.
Inês abriu a boca.
— Então a moeda é a “âncora”!
Duarte sentiu um alívio, mas também uma responsabilidade pesada e bonita.
— Nós trouxemos a moeda para cá, mas ela devia estar aqui… naquele momento em que ele a encontrou. Se a moeda não aparece, a história muda. E o relógio fica instável.
O senhor Álvaro olhou para a câmara escura, para os papéis a revelar, para a vida toda presa em imagens.
— E o que temos de fazer?
Duarte apontou para o mostrador da máquina do tempo, que eles tinham visto no corredor.
— Precisamos levar a moeda ao ano certo. Ao dia em que o senhor Álvaro a encontrou. E depois voltar para o nosso presente. Sem deixar nada fora do lugar.
Inês engoliu em seco.
— Ok. Regras do tempo: sem souvenirs. Sem “só mais um minuto”. E sem tocar em coisas que não entendemos.
Duarte assentiu.
— E com paciência. Porque o tempo… parece gostar disso.
O senhor Álvaro respirou fundo.
— O meu pai dizia que a pressa é inimiga da luz. Talvez também seja inimiga do tempo.
Eles prepararam-se. Duarte segurou a moeda. Inês segurou a mão dele, firme, para não se perderem um do outro. O senhor Álvaro ficou na porta da câmara escura, como um guardião de avental.
— Boa sorte — disse ele. — E… obrigado por me lembrarem de esperar.
Duarte e Inês foram até à máquina no corredor secreto. O mostrador ainda marcava “1978”. Duarte rodou o ponteiro com cuidado. Havia pequenas marcas, como degraus. Ele procurou “1970” e depois “1966”, mas parou quando viu um risco pequenino ao lado de “1969”, como se alguém tivesse feito um sinal.
— Acho que é aqui — disse ele.
Inês aproximou o ouvido.
— Ouço o “tic” a ficar mais calmo. Como um gato a ronronar.
Duarte inseriu a moeda na ranhura. A luz verde ficou mais forte. E a máquina fez o som do obturador: “tac!”
Capítulo 6 — A moeda no lugar certo
A luz vermelha desapareceu. Eles estavam numa oficina semelhante, mas mais antiga. O ar cheirava a madeira e pó de papel. Na parede, um calendário dizia “1969”. E, na mesa, havia uma câmara grande, com fole, daquelas que parecem um acordeão.
Um homem mais velho, com mãos enormes e cuidadosas, ajustava a lente. Devia ser o pai do senhor Álvaro. Ele não os viu. Parecia que, naquele momento, eles eram quase… invisíveis, como visitantes numa fotografia antiga.
— Duarte — sussurrou Inês — isto é tipo modo fantasma?
— Talvez seja a regra do tempo para não atrapalhar — respondeu ele. — Nós só precisamos colocar a moeda onde ela deve ser encontrada.
No canto, havia uma caixa de madeira aberta, onde crianças poderiam mexer. Perto dela, no chão, uma pequena fenda entre as tábuas.
Duarte aproximou-se devagar. Cada passo parecia fazer o chão ranger, mas ninguém reagiu. Ele ajoelhou-se e colocou a moeda junto à fenda, num lugar onde podia cair com um toque leve.
— Pronto — disse ele, num sopro. — Agora é esperar… para que aconteça como sempre aconteceu.
E aconteceu.
Uma porta ao fundo abriu-se, e um rapazinho entrou correndo — mais novo, sem bigode, claro. Tinha o mesmo olhar curioso do senhor Álvaro, só que em versão “mini”.
— Pai! — ele chamou, mas baixinho, porque a oficina pedia silêncio. — Posso ver as fotografias?
— Podes, Álvaro — respondeu o pai, sem virar. — Mas com calma. A luz não gosta de saltos.
O rapazinho foi até à caixa de madeira, mexeu com cuidado, e o pé dele tocou na tábua solta. A moeda escorregou e brilhou no chão.
— Ooooh! — ele exclamou, apanhando-a. — Uma moeda com um risco!
Ele sorriu como quem encontrou um tesouro pequeno mas perfeito. Duarte sentiu um calor no peito, como se uma engrenagem invisível tivesse encaixado.
O ar à volta pareceu ficar mais nítido. E, bem distante, ouviu-se um “tac!” satisfeito, como uma fotografia bem tirada.
— Conseguimos — sussurrou Inês, com um sorriso aliviado.
Mas Duarte ainda tinha uma coisa a fazer: voltar sem deixar rasto. Ele puxou Inês pela mão, devagar, até sentirem o corredor secreto a surgir como um desenho por cima do mundo.
A máquina estava lá, encostada a uma parede que não devia existir em 1969. A luz verde piscava, tranquila. O mostrador agora mostrava “AGORA”, como se soubesse o caminho de casa.
Duarte procurou nos bolsos. A moeda tinha ficado no passado, onde devia. Mas a ranhura da máquina estava vazia.
— E o objeto para voltar? — Inês perguntou, de olhos arregalados.
Duarte lembrou-se da placa: “Para viajar, coloque um objeto.” Mas talvez… agora a âncora fosse outra. Ele olhou para o relógio de bolso que tinha trazido sem pensar, ainda na mão.
— Talvez seja isto — disse ele. — O relógio está fora do lugar no tempo. Se o devolvermos ao senhor Álvaro… no momento certo… ele estabiliza.
— Mas nós precisamos voltar para o presente primeiro! — Inês apontou, nervosa.
Duarte respirou, como na câmara escura. Paciência. Observação.
No mostrador, ao lado de “AGORA”, havia uma pequena luz amarela com um símbolo: parecia um relógio. E a ranhura, agora, tinha o formato exato do relógio de bolso.
— É o relógio — disse Duarte, aliviado. — A máquina quer que o coloquemos.
Ele encaixou o relógio na ranhura. O ponteiro do mostrador moveu-se sozinho, como uma bússola que encontra norte.
— Preparada? — Duarte perguntou.
— Preparada… e a tentar não fazer birra — Inês respondeu, com um sorriso tremido.
Duarte carregou no botão vermelho.
“Tic… tic… tic…” acelerou, e “tac!” fechou o momento, como uma página virada.
Quando abriu os olhos, estava de novo na arrecadação do prédio. Poeira no ar. Silêncio. Um raio de sol a entrar por uma janela pequena. A caixa metálica estava à frente deles, imóvel, como se nunca tivesse feito nada.
— Voltámos! — Inês sussurrou, e desta vez a alegria dela foi quase silenciosa.
Duarte olhou para a ranhura. Estava vazia. O relógio tinha desaparecido da máquina, como se tivesse seguido sozinho para o lugar certo.
No chão, ao lado de uma caixa de revistas velhas, havia um objeto: o relógio de bolso, fechado, brilhando.
— Ah — disse Duarte. — Então… ele veio connosco para ser devolvido. O objeto que tem de voltar ao lugar.
Inês pegou nele com cuidado, como se fosse uma bolha de sabão.
— E agora, onde é “o lugar”?
Duarte lembrou-se do senhor Álvaro e da oficina em 1976. Lembrou-se do calendário a saltar. Do filme quase estragado. Do conselho repetido: com calma.
— Vamos devolvê-lo ao passado… mas do jeito certo — disse ele. — E depois deixamos tudo quieto.
Ele colocou o relógio na ranhura da máquina, ajustou o ponteiro para “1976”, exatamente como na primeira viagem.
— Sem aventuras extra — avisou Inês. — Desta vez, só entrega e volta.
— Combinado — disse Duarte, e carregou.
Um “tac!” e, novamente, a luz vermelha. A câmara escura. O senhor Álvaro ali, com o avental, a revelar fotos como se nada tivesse saltado. O calendário dizia “1976”. O ar parecia… arrumado.
Duarte aproximou-se e estendeu o relógio de bolso.
— Senhor Álvaro, isto… caiu perto da nossa caixa. Acho que é seu. Mas… precisa ficar consigo. No seu tempo.
O senhor Álvaro pegou nele, confuso. Abriu a tampa. A fotografia mostrava agora o pai dele, jovem, a sorrir. Nada de caixas estranhas. Nada de placas. Apenas um instante normal, bem revelado.
O senhor Álvaro respirou fundo, aliviado, como se a oficina inteira tivesse ganho estabilidade.
— Obrigado. E… vocês?
Inês apontou para a cortina.
— Nós vamos… para casa. Temos trabalhos de escola. E… coisas no nosso tempo.
O senhor Álvaro observou-os com um olhar sério e gentil.
— Aprenderam alguma coisa aqui?
Duarte pensou na moeda, no filme, no calendário, no vento. E no facto de que, quando ele parou para observar, o tempo parou de tropeçar.
— Aprendi que algumas coisas só aparecem quando a gente espera — disse Duarte. — Como fotos. E… como soluções.
Inês levantou o queixo, orgulhosa:
— Eu aprendi a não correr numa sala onde a luz é delicada. E… talvez a não correr tanto na vida.
O senhor Álvaro sorriu.
— Então já valeu a pena.
Duarte e Inês voltaram ao corredor secreto. A máquina esperava, com o mostrador em “AGORA”. Duarte não colocou nenhum objeto desta vez; a ranhura fechou-se sozinha, como se dissesse: “Tudo no seu lugar.”
Ele carregou no botão.
“Tic… tic… tic… tac!”
A arrecadação voltou. O ar normal. O ruído distante do elevador. A vida presente, com os seus minutos comuns e preciosos.
Inês olhou para o chão.
— E a máquina?
A caixa metálica já não estava. No lugar dela, apenas uma marca limpa na poeira, como um retângulo desenhado.
Duarte encontrou, em cima de uma caixa, uma fotografia pequena em papel, ainda com um cheiro leve a revelador. Mostrava ele e Inês, na câmara escura, de mãos levantadas, a rir, com o senhor Álvaro ao fundo. No canto, escrito a caneta: “Com calma.”
Duarte colocou a fotografia dentro de um livro velho que estava ali, para não se perder nem se estragar.
— De volta ao lugar — disse ele, fechando o livro com cuidado.
Inês espreitou para a capa.
— E agora?
Duarte sorriu.
— Agora… fazemos o resto do dia. Devagar o suficiente para ver bem.
E, pela primeira vez, o tempo pareceu concordar em silêncio.