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História de viagem no tempo 11 a 12 anos Leitura 21 min.

O beco do crepúsculo e o minuto perdido

Tomás descobre um beco que aparece ao crepúsculo e, com a ajuda de Lila, segue pistas temporais para recuperar um minuto perdido, aprendendo sobre curiosidade e responsabilidade perante o tempo.

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Um menino de 12 anos, rosto redondo, cabelos castanhos despenteados, olhos grandes e curiosos e expressão maravilhada e concentrada, segura delicadamente um pequeno cilindro metálico brilhante entre polegar e indicador, inclinado para frente como se prendesse a respiração; atrás e à direita, uma garota de 12–14 anos (Lila) com rabo de cavalo, óculos redondos e sorriso confiante, aponta suavemente para uma bússola pendurada na entrada do beco, com um cordão amarrado no pulso; ao fundo, um relojoeiro de cerca de 60 anos, bigode grisalho e bata manchada de óleo, observa apoiado num balcão cheio de relógios e engrenagens; o cenário é um beco estreito ao crepúsculo entre uma pastelaria e uma loja de telefones, calçada de pedras gastas que refletem tons violetas e laranja, paredes de tijolo com cartazes desbotados, luz dourada de uma lanterna e partículas luminosas no ar; o cilindro emite um fio de luz prateada que se estende até a bússola antiga cujas agulhas cintilam formando inscrições luminosas ("Avant", "Maintenant"), criando uma atmosfera misteriosa e suave entre passado e presente. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O beco que só aparece ao crepúsculo

O Tomás tinha doze anos e uma mania boa: queria que tudo fizesse sentido. Era daqueles que contava os degraus da escola, alinhava os lápis por tamanho e discutia com a mãe se “já” eram 19h00 ou se faltavam exatamente três minutos.

Nesse fim de tarde, ele saiu da biblioteca com um livro de capa azul sobre invenções antigas. O céu estava cor de laranja, como sumo de pêssego. Tomás caminhou pelo caminho de sempre, com o caderno de notas apertado contra o peito.

— Se eu cortar pela Rua do Mercado, poupo cento e vinte passos — murmurou, fazendo contas de cabeça.

Foi aí que viu algo impossível: entre a padaria e a loja de telemóveis, onde sempre existiu uma parede lisa e um cartaz de promoção, havia uma entrada estreita. Um beco. Um beco que ele tinha a certeza absoluta de que não existia.

Tomás parou. Piscou. Olhou para a parede ao lado, procurando a emenda, a pintura, qualquer sinal de truque.

— Isto não pode estar aqui — disse em voz alta, como se o ar pudesse concordar.

O beco parecia feito de sombra e brilho ao mesmo tempo. As pedras do chão eram antigas, gastas, e refletiam o último raio de sol como se tivessem engolido o crepúsculo. Na entrada, preso a um prego enferrujado, pendia um objeto redondo, do tamanho de uma tampa de frasco: uma bússola sem norte, com ponteiros finíssimos que tremiam, como se tivessem frio.

Tomás aproximou-se. Um cheiro a metal e chuva antiga subiu do chão.

No seu caderno, escreveu:

“Nota 1: Beco novo (impossível). Aparece exatamente ao crepúsculo. Temperatura mais baixa dentro. Objeto: bússola esquisita.”

Uma voz veio do nada, ou quase:

— Estás a observar ou estás a entrar?

Tomás deu um salto. No fundo do beco, encostada a uma parede, estava uma rapariga com cabelo preso num rabo-de-cavalo e óculos redondos. Não parecia assustada. Parecia… ocupada.

— Eu… estou a confirmar uma hipótese — respondeu Tomás, sério. — Quem és tu?

— Chamo-me Lila. E este beco é teimoso. Só abre quando o dia e a noite fazem um aperto de mão.

Tomás franziu a testa.

— Isso é poesia.

— É ciência com um casaco bonito — disse Lila, sorrindo. — Vais ficar aí a discutir palavras ou vais ver uma coisa que não cabe nos teus cento e vinte passos?

A curiosidade, essa força que empurra por dentro, ganhou. Tomás respirou fundo e entrou.

O mundo mudou de som. A rua lá fora ficou distante, como se alguém tivesse fechado uma porta de vidro. No centro do beco, a bússola começou a girar mais depressa, os ponteiros a dançar. E o crepúsculo… parecia prender a respiração.

Capítulo 2 — A bússola que aponta para “antes”

— Não toques nela de qualquer maneira — avisou Lila, aproximando-se. — Esta bússola não aponta para norte. Aponta para… momentos.

Tomás inclinou-se, fascinado. Os ponteiros não paravam num ponto fixo. Paravam em palavras minúsculas gravadas no aro: “Ontem”, “Agora”, “Amanhã”. E outras mais estranhas: “Quase”, “Já foi”, “Ainda não”.

— Isso é impossível — disse Tomás, mas a sua voz já tinha um tom mais baixo, como quem vê uma estrela cair.

Lila tirou do bolso um cordel com um nó, como uma pulseira simples.

— Regra número um: no beco, não te afastes de mim. Regra número dois: não mexas em pessoas que não são do teu tempo. Regra número três: o nó serve para lembrar o caminho de volta.

— Lembrar? Eu lembro-me bem das coisas — respondeu Tomás, ofendido.

Lila levantou uma sobrancelha.

— Lembras-te do teu primeiro choro?

Tomás abriu a boca… e fechou-a.

— Pois. — Lila estendeu-lhe o cordel. — Ata ao pulso. Só por garantia.

Tomás atou. O nó ficou bem no lado de dentro do pulso, como um pequeno planeta.

A bússola fez um “clinc” suave. Os ponteiros pararam, todos apontados para uma única palavra: “Antes”.

— Pronto — disse Lila. — Abriu.

— Abriu o quê?

A resposta veio em forma de vento. Um vento que cheirava a livros antigos e pão quente. As paredes do beco tremeluziram, como se fossem feitas de fotografia. As pedras do chão ficaram mais claras. E, num piscar, a saída do beco já não mostrava a rua moderna. Mostrava outra rua: carruagens, chapéus altos, roupas compridas. Uma placa de madeira balançava: “Casa de Ferragens e Relógios”.

Tomás engoliu em seco.

No caderno:

“Nota 2: Saída mudou. Parece século XIX (hipótese). Cheiros e sons diferentes. Bússola aponta para ‘Antes'. Não estou a sonhar (acho).”

— Estamos… no passado? — perguntou ele.

— Estamos numa fatia do passado — corrigiu Lila. — O tempo é como um bolo. Este beco corta fatias ao crepúsculo.

Tomás não conseguiu evitar um sorriso nervoso.

— Isso é a explicação mais deliciosa que já ouvi.

Eles deram o primeiro passo para fora. E o beco, atrás deles, ficou como uma sombra discreta entre duas paredes — invisível para qualquer pessoa apressada.

Capítulo 3 — O relógio que perdeu um minuto

A rua tinha um brilho diferente. As pessoas falavam alto, as rodas faziam “trac-trac” nas pedras, e o ar era mais limpo, com cheiro a carvão e laranjas.

Tomás olhou para uma montra cheia de relógios. Um deles batia as horas com um som grave.

— Se isto é o passado, temos de ser cuidadosos — disse ele, tentando parecer calmo. — Paradoxos, alterações na linha temporal, consequências imprevisíveis…

Lila riu.

— Olha para ti. Parece que engoliste um manual.

— Eu gosto de estar preparado.

— Também eu. Por isso, vamos só observar. E aprender.

Eles entraram na loja de ferragens e relógios. O interior era quente e cheio de tiques e toques. Um homem de bigode cinzento, com as mãos manchadas de óleo, levantou a cabeça.

— Boa tarde, jovens. Procuram conserto ou curiosidade?

Tomás abriu a boca para dizer “curiosidade”, mas Lila foi mais rápida:

— Curiosidade, senhor.

O homem sorriu, como se essa fosse a melhor encomenda do mundo.

— Então venham ver isto.

Ele puxou uma gaveta e mostrou um relógio de bolso aberto. No lugar dos números, havia pequenas marcas, e um espaço vazio, como se faltasse um pedacinho do tempo.

— Este relógio perdeu um minuto — disse o homem. — Um minuto inteiro. Procurei em todo o lado. Não está no mecanismo, não está na mola. Sumiu.

Tomás aproximou-se, olhos brilhando.

— Um minuto não se perde — afirmou, cartesianamente. — Um minuto é uma unidade de medida. O que pode acontecer é um erro de contagem ou uma falha no escapamento.

O homem piscou.

— Gosto dessa palavra: “escapamento”. Mas digo-vos: o minuto escapou mesmo.

Lila olhou para Tomás, com aquela expressão de quem diz “Vês?”.

Tomás respirou e examinou o relógio. E então reparou numa coisa minúscula: uma poeira brilhante no canto, como pó de estrela.

No seu pulso, o nó do cordel deu uma leve picada, como um lembrete.

— Lila… — sussurrou ele. — Isto está ligado ao beco.

A bússola, no bolso de Lila, começou a vibrar, como um telemóvel antigo.

— Sim — disse ela. — E acho que acabámos de encontrar uma pista.

O homem, sem perceber o que se passava, inclinou-se.

— Que tal? Conseguem devolver-me o meu minuto?

Tomás hesitou. A regra era não mexer.

Mas a curiosidade puxou de novo. E não era uma curiosidade vazia. Era a curiosidade que quer arrumar o mundo na prateleira certa.

— Vamos tentar — disse Tomás. — Mas com cuidado. Muito cuidado.

Capítulo 4 — O paradoxo malicioso e o bilhete dobrado

À saída da loja, Lila conduziu Tomás por uma rua lateral. O beco não estava ali, mas a bússola parecia saber o caminho. O ponteiro “Antes” tremia para a esquerda, como um dedo impaciente.

— O minuto perdido é como uma migalha do bolo do tempo — explicou Lila. — Às vezes, uma migalha cai no sítio errado.

— E se a recolocarmos, tudo fica certo? — perguntou Tomás.

— Em teoria. Na prática, o tempo tem sentido de humor.

Eles viraram uma esquina e encontraram um menino da idade de Tomás, com roupas simples e joelhos sujos, sentado numa caixa. Ele segurava um papel dobrado, olhando para ele como se fosse uma charada.

— Desculpa — disse Tomás, aproximando-se. — Estás bem?

O menino levantou os olhos. Eram atentos e desconfiados.

— Estou… a tentar entregar isto. Mas a pessoa a quem devo entregar… ainda não o conhece. E eu também não conheço.

Tomás arregalou os olhos.

— Isso não faz sentido.

— Bem-vindo ao clube — murmurou Lila.

O menino estendeu o bilhete.

— Diz “Para o rapaz que conta passos”. Eu não conto passos. Conto… moedas. Por isso acho que é para ti.

Tomás pegou no bilhete com cuidado, como se fosse feito de gelo fino. Estava dobrado em três e selado com uma gota de cera.

— Não abras aqui — avisou Lila, num tom sério. — Regra de ouro: mensagens do tempo, só em lugar seguro.

Tomás assentiu. Mas, ao virar o bilhete, viu algo gravado na cera: uma pequena bússola.

— Ele tem a marca do beco — disse Tomás.

O menino, curioso, inclinou-se.

— Do que estão a falar?

Lila sorriu de forma simpática.

— De… um lugar secreto. Obrigada por entregares.

O menino encolheu os ombros, aliviado.

— Ainda bem. Porque eu já estava a pensar que era uma partida. Aqui fazem muitas partidas com bilhetes.

Tomás quase disse “no meu tempo também”, mas engoliu as palavras. Regra número dois.

Eles caminharam até um jardim pequeno, onde ninguém parecia prestar atenção. Lila sentou-se num banco e fez sinal.

— Agora.

Tomás abriu o bilhete.

A letra era dele. A dele, mas um pouco mais firme, como se a mão fosse a mesma e a pessoa tivesse aprendido qualquer coisa.

“Tomás,

Se estás a ler isto, encontraste o beco ao crepúsculo. Não entres em pânico (sei que é difícil). O minuto perdido está preso num objeto que ainda não foi inventado neste tempo. Procura um brilho de estrela e ouve o que os relógios não dizem.

P.S.: Não tentes ‘melhorar' nada. O tempo não gosta de ser corrigido à força.

Assinado: Tu, com mais paciência.”

Tomás ficou sem fala.

— Eu… escrevi isto? — sussurrou.

— Um ‘tu' de outra fatia do bolo — disse Lila, com uma calma que parecia treinada.

Tomás olhou para os próprios dedos, como se esperasse encontrar tinta.

— Mas isso cria um paradoxo. Se eu recebo o bilhete e depois o escrevo, de onde veio a ideia original?

Lila deu de ombros.

— Talvez o tempo seja uma biblioteca onde alguns livros se emprestam a si mesmos.

Tomás soltou uma risada curta, sem querer.

— Isso é absurdo… e genial.

A bússola vibrou outra vez. Os ponteiros apontaram para “Quase”.

— Temos pouco tempo neste tempo — disse Lila. — O crepúsculo não dura para sempre. Vamos procurar o brilho de estrela.

Capítulo 5 — A máquina que ainda não existe

O brilho apareceu onde Tomás menos esperava: num carrinho de rua, entre maçãs e castanhas. Não era luz forte. Era um pontinho cintilante, como um vaga-lume preso numa gota de vidro.

O vendedor, um homem de avental, abanava a cabeça.

— Esta coisa não para quieta — resmungou. — Caiu do céu? Caiu do bolso do diabo? Eu só quero vender maçãs.

Tomás aproximou-se com cuidado. O objeto era um pequeno cilindro de metal liso, com uma ranhura fina e um botão minúsculo. Parecia moderno demais para aquele lugar. Parecia… do presente.

“Um objeto que ainda não foi inventado neste tempo” — repetiu Tomás, lembrando-se do bilhete. — Deve ser isto.

Lila observou em silêncio, como uma cientista a ver um bichinho raro.

— Se for, está a puxar o minuto perdido para dentro dele — disse ela. — E isso está a afetar os relógios daqui.

Tomás engoliu em seco.

— Então temos de o devolver ao… ao fluxo certo.

— Sim. E sem o ativar ao acaso.

O vendedor cruzou os braços.

— Vão comprar ou vão hipnotizar as minhas castanhas?

Lila apontou para uma maçã e pagou rapidamente. Depois, com uma habilidade surpreendente, pegou no cilindro e trocou-o por uma moeda brilhante, antes que o homem percebesse.

— Obrigado! — disse ela, alegre. — Boa tarde!

Quando se afastaram, Tomás arregalou os olhos.

— Acabaste de… fazer uma troca temporal.

— Foi uma troca comercial — corrigiu Lila. — Ele ficou feliz. E nós evitámos que isso virasse atração de feira.

Tomás segurou o cilindro com a ponta dos dedos, como se fosse um inseto.

No caderno:

“Nota 3: Objeto moderno encontrado no passado. Possível ‘capturador' de um minuto. Não ativar. Devolver ao beco.”

— Como sabes que não devemos carregar no botão? — perguntou Tomás.

Lila inclinou a cabeça.

— Porque carreguei uma vez. E apareceu uma galinha onde não devia.

Tomás arregalou os olhos, depois riu.

— Uma galinha?

— Não perguntes. Foi embaraçoso para todos, especialmente para a galinha.

Eles seguiram as instruções da bússola, que agora apontava para “Já foi” e “Ainda não” ao mesmo tempo. Tomás achou aquilo estranho, mas Lila explicou:

— É o tempo a dizer: “Anda, anda, mas com calma”.

Quando finalmente viram a sombra familiar entre duas paredes, o céu já estava mais roxo. O crepúsculo afinava, como a última página de um capítulo.

— Estamos quase no fim da janela — disse Lila. — Preparado?

Tomás respirou fundo.

— Preparado… o suficiente.

Capítulo 6 — Devolver o minuto e respeitar as regras

Dentro do beco, tudo parecia mais silencioso. As pedras refletiam o céu como um espelho escuro. A bússola sem norte pairava num gancho invisível, girando devagar.

— Agora — disse Lila. — Encosta o cilindro à bússola. Sem força. Só… aproxima.

Tomás fez o que ela pediu. Quando o metal chegou perto, o beco respondeu com um som leve, como o “tic” de um relógio a acertar o passo.

O cilindro tremeu. Um fio de luz, fininho como cabelo, saiu dele e entrou na bússola.

Tomás sentiu um friozinho na nuca, como quando alguém apaga as luzes e a sala muda de rosto.

A bússola brilhou por um instante. Depois, os ponteiros assentaram, calmos, apontando para “Agora”.

Lila soltou o ar, aliviada.

— O minuto voltou para o lugar dele.

Tomás olhou para o cilindro. Parecia mais… comum. Menos elétrico.

— E agora? — perguntou.

— Agora vem a parte mais importante: não deixar lembranças erradas no passado.

Tomás franziu a testa.

— Mas nós já estivemos lá.

— Estivemos, mas fomos discretos. E fizemos uma coisa útil: devolvemos o minuto. O resto… deixa o resto.

Tomás lembrou-se do impulso de explicar ao relojoeiro como consertar todos os relógios do mundo. Lembrou-se de querer dizer ao vendedor que, no futuro, as maçãs seriam embaladas em plástico (e que isso não era boa ideia). Lembrou-se de mil “correções”.

E, pela primeira vez, aceitou que nem tudo precisa de ser consertado por ele.

No caderno, escreveu:

“Nota 4: Curiosidade não é mandar no mundo. É compreendê-lo. Respeitar as regras evita confusão.”

Lila apontou para a saída do beco. Do outro lado, via-se uma rua diferente, mais iluminada, com carros e sinais modernos.

— O nosso presente — disse ela. — Mas antes…

Ela pegou no bilhete que Tomás recebera e devolveu-o a ele.

— Vais ter de o escrever um dia. Senão, ele nunca chega até ti.

Tomás engoliu.

— Então eu vou mesmo escrever para mim?

— Vais. Mas não precisas de saber quando. O tempo é… paciente. E tu também vais aprender a ser.

Tomás segurou o bilhete com cuidado e, sem saber porquê, sentiu-se mais leve.

— Lila — perguntou ele — tu és de que tempo?

Lila sorriu, como quem guarda uma estrela no bolso.

— Do tempo certo para aparecer quando alguém precisa. Vamos?

Eles deram um passo em direção à saída. A luz do presente chamou-os como um farol.

Capítulo 7 — O regresso e a lição que fica

O som da cidade moderna voltou de repente: um autocarro a travar, alguém a rir ao telemóvel, a campainha da padaria. Tomás piscou. Estava de novo entre a padaria e a loja de telemóveis.

Só que agora… a parede lisa tinha voltado. O beco desaparecera. Como se nunca tivesse existido.

Tomás olhou para o pulso. O cordel com o nó ainda lá estava.

— Isso prova que não foi imaginação — disse ele, com uma satisfação tranquila.

Lila estava ao lado dele, encostada ao mesmo sítio onde o beco deveria estar. Mas, quando Tomás virou a cabeça para falar, ela já caminhava para longe, misturando-se com as pessoas como se fosse apenas mais uma sombra do fim do dia.

— Espera! — chamou Tomás.

Lila olhou por cima do ombro.

— Conta os passos até casa — disse ela. — Mas não te esqueças de olhar para o céu no meio.

E desapareceu na esquina, como um pensamento rápido.

Tomás ficou ali um segundo, sentindo o mundo bem preso nos seus lugares… e, ao mesmo tempo, maior do que antes.

Ele abriu o caderno e escreveu a última nota, com letra cuidadosa:

“Nota Final: O beco do crepúsculo existe entre o ‘antes' e o ‘agora'. Vi o passado sem o empurrar. Devolvi um minuto perdido. Aprendi que a curiosidade é uma lanterna: ilumina o caminho, mas não precisa de incendiar tudo.”

No caminho para casa, Tomás contou os passos, claro. Mas, no passo número cinquenta e sete, parou de propósito, levantou a cabeça e olhou para o céu.

O crepúsculo estava a apagar-se devagar, como alguém a fechar um livro com carinho.

Tomás sorriu.

E seguiu, no tempo certo, para o seu próprio presente.

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Crepúsculo
Período do dia entre o fim da tarde e a noite, quando o céu fica colorido.
Bússola
Instrumento que mostra direções, usado para saber onde fica o norte ou outro ponto.
Ponteiros
Pequenas agulhas num relógio que indicam as horas, minutos e segundos.
Carruagens
Veículos puxados por cavalos, usados antigamente para viajar nas ruas.
Escapamento
Peça de um relógio que controla o movimento e faz os ponteiros andar devagar.
Paradoxo
Situação que parece contraditória, difícil de explicar porque cria dúvida lógica.
Cordel
Fio fino que se usa para atar ou prender algo no pulso ou nas mãos.
Migalha
Pedaço pequeno e solto, como um bocadinho de pão que caiu no chão.
Fatia do bolo
Imagem que significa uma parte separada de algo maior, como uma porção de tempo.
Pulso
Parte do corpo entre a mão e o braço, onde se usa relógio ou cordel.

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