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História de viagem no tempo 11 a 12 anos Leitura 21 min.

A porta do tempo e o relógio faminto

Dois amigos descobrem uma porta do tempo no sótão da avó e vivem uma aventura em que precisam enfrentar um relógio caprichoso, aprender sobre responsabilidade e confiar um no outro para encontrar o caminho de volta.

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Tomás, rapaz de 12 anos, rosto redondo, cabelo castanho desgrenhado, olhos grandes e curiosos, expressão maravilhada e concentrada, segura um pequeno disco metálico brilhante numa mão e uma chave prateada com uma estrela gravada na outra; Inês, cerca de 13 anos, cabelo castanho preso com presilha colorida, roupa moderna (jeans e t‑shirt), olhar malicioso e protetor, está ao lado dele com a mão no ombro, e o senhor Álvaro, cerca de 65 anos, rosto enrugado, bigode fino, monóculo e colete antigo, observa junto a um grande pêndulo encostado a uma cômoda; cenário: sala vitoriana acolhedora com papel de parede floral, poltronas de veludo verde, tapete persa vermelho, lareira crepitante e muitas relógios antigos nas paredes e móveis; momento dramático e suave em que a porta do tempo acabou de ser atravessada — luz dourada filtrando pelas cortinas, relógios parecendo vibrar em conjunto, pequenas nuvens de poeira luminosa no ar, sensação de maravilhamento e tensão contida, composição dinâmica com Tomás e Inês ao centro e o senhor Álvaro recuado junto ao grande relógio. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A porta que respirava

Tomás tinha 12 anos e uma imaginação que parecia ter molas. Bastava olhar para uma maçaneta antiga e ele já via um castelo inteiro. Naquela tarde, mexia em caixas no sótão da avó, à procura de nada em especial e encontrando um monte de “uau”.

Entre um álbum de fotos e um chapéu de palha, apareceu um objeto redondo, do tamanho de um prato, feito de metal opaco. No centro, havia um pequeno aro de vidro com um brilho que ia e vinha, como se a coisa respirasse.

— Isto é… uma bússola? — Tomás murmurou.

— Uma bússola não faz “vuuum” — respondeu Inês, a melhor amiga dele, que tinha chegado sem fazer barulho, como um gato curioso. Ela era um ano mais velha e tinha o superpoder de notar detalhes. — Olha: tem letras.

Tomás aproximou o rosto. As letras estavam gravadas à mão: “PORTA DO TEMPO — usar com cuidado”.

— A avó nunca falou disto — disse ele, com o coração a bater como um tambor de banda.

Inês ergueu uma sobrancelha.

— Talvez porque não é para usar. Logo, temos de… não usar? — Ela disse isso com um sorriso que já era meio “vamos usar”.

Tomás riu, nervoso.

O objeto tinha uma rodinha lateral, com números: 1881, 1950, 2026… e um ponteiro finíssimo. Quando Tomás tocou na rodinha, o ar ficou diferente, mais fresco, e o sótão cheirou por um instante a sabão e madeira encerada.

No canto, encostada à parede, havia uma porta pequena que Tomás sempre pensara ser um armário vazio. Só que agora a madeira tinha um brilho novo, como se alguém a tivesse acabado de polir.

— Não me digas… — Inês sussurrou.

Tomás engoliu em seco e, sem perceber bem como, rodou o ponteiro para um número que parecia chamar por ele: 1881.

O metal vibrou. A porta do “armário” fez um estalinho e… respirou. Sim, respirou mesmo, como se o espaço por trás tivesse pulmões.

Tomás tirou do bolso um caderno amarrotado. Na capa lia-se: “Caderno de Bordo — Tomás, Explorador (às vezes)”.

Ele escreveu depressa:

[NOTA DO CADERNO] Se isto for mesmo uma porta do tempo, a primeira regra deve ser: não fazer asneiras. A segunda: não tocar em coisas. A terceira: não esquecer a primeira.

— Pronto? — perguntou Inês, já com um pé à frente.

Tomás hesitou um segundo. Depois, assentiu.

— Pronto. Mas juntos.

E empurraram a porta.

Capítulo 2 — Um salão com relógios e veludo

O primeiro passo foi como entrar numa onda de água morna. O segundo foi como sair dela e cair num chão de madeira que rangia.

A luz era dourada, filtrada por cortinas pesadas. O ar cheirava a chá, carvão e perfume de rosas. Um grande salão abria-se à frente: sofás de veludo verde, um tapete com desenhos de folhas, e uma lareira onde crepitava um fogo tranquilo.

E relógios. Muitos relógios.

Um pendurado na parede com um pêndulo brilhante. Outro em cima de uma cómoda, com um passarinho de metal. Um pequeno no canto, a fazer “tic-tac” com teimosia.

Tomás olhou para as próprias sapatilhas, de repente muito modernas.

— Estamos no século XIX — sussurrou ele, como se a frase pudesse partir o ar.

Inês aproximou-se de um espelho enorme e viu-se refletida: jeans, t-shirt, cabelo apanhado com uma mola colorida. O espelho devolveu-lhe um olhar de “isto é real”.

— Parece um museu… mas com cheiro de gente — disse ela.

Numa mesa havia um prato com bolinhos e uma chaleira a fumegar. Tomás cheirou.

— Que cheiro bom.

— Não toques — Inês avisou, automática.

Tomás puxou do caderno e escreveu:

[NOTA DO CADERNO] É tudo tão bonito que dá vontade de mexer. Não mexer. Não mexer. Não mexer.

Um som de passos aproximou-se no corredor. Tomás e Inês congelaram. A porta por onde tinham entrado estava atrás deles, discreta, quase invisível no papel de parede.

— Esconde-te! — sussurrou Tomás.

Eles deslizaram para trás de um biombo pintado com flores. A madeira tinha pequenas rachas, e por uma delas Tomás viu uma senhora com vestido comprido entrar no salão. Trazia um penteado alto e uma expressão apressada.

— Onde se meteu o senhor Álvaro? — disse ela, para ninguém em particular. — O relógio grande está atrasado outra vez!

Do outro lado, um homem idoso apareceu, com um colete e um monóculo preso por uma corrente.

— Atrasado? Impossível, minha senhora. Eu ajustei o pêndulo esta manhã. O tempo é uma criatura caprichosa, mas eu… eu domino-o.

Tomás quase riu. Inês apertou-lhe o braço, como a dizer: “Não respira alto.”

A senhora saiu resmungando. O homem ficou sozinho e aproximou-se do relógio grande.

— Vamos, velho amigo… — murmurou ele, abrindo uma portinhola na base.

Tomás viu uma chave de metal brilhar.

Inês aproximou a boca do ouvido de Tomás.

— Esse homem mexe no tempo?

— Talvez só nos relógios — Tomás respondeu, baixo. — Mas… nós mexemos na porta.

O pêndulo do relógio parou por um segundo, como se tivesse prendido a respiração. Depois voltou a bater, um pouco mais rápido.

E, nesse instante, o objeto de metal no bolso de Tomás deu um pequeno “clac”, como se tivesse uma opinião.

Capítulo 3 — O bilhete e o primeiro paradoxo

Tomás sentiu algo duro no bolso. Tirou, devagar, o disco metálico. O ponteiro tremia, inquieto, apontando para 1881, mas os números ao redor pareciam desfocados.

E havia mais: uma tirinha de papel tinha surgido de uma fenda que ele jurava não existir antes.

Inês arregalou os olhos.

— Um bilhete?

Tomás desenrolou com cuidado. A letra era apressada e surpreendentemente… familiar.

“Tomás,

se estás a ler isto, não toques no relógio grande. E não confies no chá, por mais delicioso que pareça. Procura a chave de prata com uma estrela. Ela abre o caminho de volta.

Assinado: Tomás.”

Tomás ficou sem voz.

— Isso… isso é a tua letra — Inês sussurrou, como se o salão pudesse ouvir.

Tomás sentiu a cara aquecer.

— Mas eu não escrevi isto.

— Ainda — Inês corrigiu. — Ou já.

O homem do monóculo, o senhor Álvaro, fechou a portinhola do relógio e olhou para o salão, como se suspeitasse de um vento estranho.

Tomás e Inês encolheram-se atrás do biombo.

— De onde veio esse bilhete? — Inês perguntou, quase sem som.

Tomás escreveu no caderno com letra miúda:

[NOTA DO CADERNO] Paradoxo: recebi um aviso meu. O tempo é tipo um labirinto que gosta de preguiças: anda devagar, mas consegue dar nó.

O senhor Álvaro aproximou-se do biombo. As sombras dele caíram sobre as flores pintadas.

— Hum… — Ele farejou o ar. — Perfume estranho. E… borracha? Que raio de “borracha” é esta?

Tomás olhou para as suas sapatilhas. Tinham solas de borracha, claro. No século XIX, isso devia cheirar a coisa do futuro.

Inês fez um gesto rápido: apontou para a mesa dos bolinhos e depois para o corredor. Plano silencioso: distração e fuga.

Tomás tirou uma moeda de 1 cêntimo do bolso e atirou-a com cuidado para baixo da mesa. A moeda bateu e rolou, fazendo um “tin-tin” metálico.

O senhor Álvaro virou a cabeça.

— O quê? — resmungou, caminhando até à mesa. — Rataria?

Tomás e Inês escorregaram para o corredor, leves como sombras. O coração de Tomás parecia querer correr sem ele.

No corredor havia quadros de pessoas sérias e uma porta entreaberta. Lá dentro, uma pequena oficina: ferramentas, molas, engrenagens e… uma chave pendurada num prego. Prateada. Com uma estrela gravada.

— A chave! — Inês disse, com um sorriso vitorioso.

Tomás estendeu a mão, mas parou.

— Espera. E se tocar for… tipo… mexer demais?

— O bilhete disse para procurar. Procurar não é tocar, mas… pegar é inevitável — Inês respondeu. — E nós queremos voltar.

Tomás respirou fundo, grato por ter Inês ali, com a cabeça fria e os olhos atentos.

— Ok. Pegamos e saímos sem deixar rasto.

Ele apanhou a chave. Era fria e pesada, como uma pequena promessa.

Então, atrás deles, ouviu-se a voz do senhor Álvaro:

— Ora, ora… visitantes?

Capítulo 4 — O relógio que queria engolir o presente

Tomás e Inês viraram-se devagar. O senhor Álvaro estava à porta da oficina, com o monóculo brilhando como um olho extra. Não parecia zangado. Parecia… curioso.

— Não são daqui — ele disse, sem acusar, apenas constatando. — As vossas roupas… e esse cheiro a futuro.

Tomás quase soltou um “desculpe!”, mas engoliu a palavra. Inês, rápida, falou:

— Perdemos-nos. A casa é… enorme.

O homem sorriu com um canto da boca.

— A casa é o tempo. E o tempo é enorme, minha jovem.

Ele deu um passo, e o chão rangeu como um aviso.

— Essa chave… — disse ele, apontando. — Não é para mãos de crianças.

Tomás apertou a chave e tentou parecer calmo, o que era difícil quando o cérebro parecia uma bola de pinball.

— Nós só queremos voltar para… para onde viemos — disse ele.

O senhor Álvaro inclinou a cabeça.

— Voltar. Sempre voltar. Ninguém aprecia o agora até perdê-lo. — Ele suspirou. — Eu também já quis voltar.

Por um segundo, o olhar dele ficou distante, como se visse outra sala, outra época.

Depois, o pêndulo do relógio grande, no salão, começou a bater mais alto. “TIC-TAC. TIC-TAC.” Como passos de gigante.

O senhor Álvaro endireitou-se, alarmado.

— Não… não agora!

Uma vibração percorreu a casa. A luz tremeluziu. Os relógios começaram a tocar ao mesmo tempo, cada um com o seu som, formando uma música confusa.

Inês tapou os ouvidos.

— O que está a acontecer?

O senhor Álvaro correu para o salão, e Tomás e Inês seguiram-no, sem querer, puxados pelo barulho.

O relógio grande parecia… faminto. A portinhola na base abriu-se sozinha, e as engrenagens giravam depressa. O ar à volta ondulava, como calor sobre asfalto.

Tomás sentiu um puxão no bolso, como se o disco metálico quisesse saltar.

O senhor Álvaro falou, desesperado:

— Se o relógio sincroniza com uma porta aberta, pode misturar tempos! Um pequeno erro e… a vossa “agora” cai aqui como açúcar no chá.

Tomás arregalou os olhos.

— Tipo… o nosso presente vir para o seu salão?

— Ou o meu passado entrar no vosso quarto — o homem respondeu. — E aí começam os problemas: coisas fora do lugar, pessoas fora do tempo. A História fica com soluços.

Inês apontou para a porta do tempo, quase invisível na parede.

— Então fechamos a porta!

— Não basta — disse o senhor Álvaro. — É preciso travar o relógio grande com a chave de prata. Ela encaixa aqui.

Ele apontou para uma fenda perto do pêndulo.

Tomás olhou para a chave na mão. O bilhete dizia: “não toques no relógio grande.” Mas agora o relógio estava a fazer o salão tremer.

— Isso é uma armadilha do paradoxo — Tomás murmurou. — Se eu não tocar, dá errado. Se eu tocar, também pode dar errado.

Inês deu-lhe um empurrão leve no ombro.

— Escolhe o “dar certo”. Eu fico de vigia.

Tomás correu até ao relógio. As tábuas do chão vibravam sob os seus pés. Ele enfiou a chave na fenda. Por um instante, nada aconteceu. Depois, a estrela na chave brilhou, e o “TIC-TAC” abrandou, como um coração a acalmar.

O ar parou de ondular. A luz estabilizou.

O senhor Álvaro soltou o ar que parecia estar a prender há anos.

— Muito bem, rapaz.

Tomás ficou a olhar para a chave, ainda encaixada. E sentiu outra coisa: gratidão. Gratidão por Inês, por aquele aviso misterioso, e até por o senhor Álvaro não estar a gritar “intrusos!”.

Ele escreveu depressa no caderno, com a mão a tremer menos:

[NOTA DO CADERNO] Às vezes a regra é “não mexer”. Mas às vezes a regra maior é “consertar o que começou”. Sou grato por ter ajuda. Sozinho eu virava geleia.

Capítulo 5 — Chá, gratidão e um acordo com o tempo

O silêncio voltou, e com ele o crepitar da lareira. O senhor Álvaro sentou-se devagar num sofá, como se o corpo dele fosse feito de relógios também.

— Vocês vieram pela porta — disse ele. — E a porta veio… por vocês.

Tomás e Inês ficaram de pé, atentos. O homem apontou para a mesa.

— Chá? — perguntou, e logo acrescentou, com um sorriso: — Não se preocupem. Não está envenenado. Só é… do século XIX.

Tomás lembrou-se do bilhete: “não confies no chá.” Sentiu um arrepio de riso.

— Acho que vou ficar pela água — disse ele, educado. — Se houver.

O senhor Álvaro riu, surpreendido.

— Água há sempre. O que muda é o copo.

Ele trouxe um copo simples e encheu-o. Tomás bebeu e, por algum motivo, a água soube-lhe melhor do que a de casa. Talvez porque agora ele reparava nela.

Inês aceitou um bolinho, mas só depois de cheirar e de olhar para Tomás com uma expressão de “se eu desaparecer, escreve no caderno”.

— Porque é que tem uma porta do tempo aqui? — ela perguntou.

O senhor Álvaro olhou para os relógios.

— Eu tentei domar o tempo para corrigir um erro meu. Uma palavra dura que disse, um gesto impaciente… Achei que, voltando atrás, eu podia apagar. Mas o tempo não gosta de borracha. Gosta de lições.

Tomás sentiu o peito apertar.

— E conseguiu?

— Consegui aprender — respondeu o homem. — E aprendi que o presente é a única oficina onde se podem arranjar coisas. O passado é um livro: lê-se, mas não se risca.

Inês mastigou o bolinho.

— Isso foi… profundo — disse ela, com a boca meio cheia, e depois engoliu depressa. — Desculpe. Foi profundo mesmo.

O senhor Álvaro sorriu, divertido.

— Humor é uma boa âncora. Mantém-nos no agora.

Tomás lembrou-se do bilhete e perguntou, com cuidado:

— O senhor… já viu alguém como nós antes?

O homem hesitou.

— Vi uma vez um rapaz apressado, com um caderno. Ele deixou cair uma folha perto do relógio grande. Eu guardei-a. Era um aviso.

Tomás engoliu em seco.

— Então… fui eu. Ou vou ser.

O senhor Álvaro abanou a cabeça, calmo.

— É assim que o tempo se diverte. Faz um laço e chama-lhe “destino”. Mas vocês podem escolher como caminhar dentro do laço.

Inês apoiou o cotovelo no braço do sofá.

— E como voltamos?

Tomás tirou o disco metálico do bolso. O ponteiro agora estava estável, como se satisfeito por o relógio grande estar travado.

O senhor Álvaro apontou para a porta disfarçada na parede.

— A porta fecha quando vocês atravessam com a chave no bolso e gratidão no pensamento.

Tomás franziu a testa.

— Gratidão? Tipo… “obrigado”?

— Não só dizer — o homem explicou. — Sentir. Reconhecer o que vos ajuda. O tempo é estranho, mas gosta de boas maneiras.

Inês riu.

— Então o tempo é tipo a minha tia: se eu não agradeço, ela faz cara feia.

O senhor Álvaro soltou uma gargalhada curta.

— Exatamente.

Tomás olhou para o salão, para os relógios, para a lareira. E sentiu uma gratidão grande, simples: por estar vivo, por ter aprendido algo sem se magoar, por poder voltar.

— Obrigado, senhor Álvaro — disse ele, sério. — Obrigado por não nos prender e por nos explicar.

O homem inclinou a cabeça.

— E obrigado a vocês por travarem o relógio. O meu orgulho quase abriu uma ferida no tempo.

Tomás escreveu a última nota ali:

[NOTA DO CADERNO] Gratidão é tipo uma lanterna. Quando acendo, vejo o caminho de volta.

Capítulo 6 — Regresso e mãos lavadas

Tomás e Inês aproximaram-se da porta do tempo. Agora ela parecia apenas uma porta, mas o ar à volta tinha um brilho discreto, como poeira de estrelas.

Tomás pôs a chave no bolso e segurou o disco metálico. O ponteiro girou sozinho até 2026, o ano deles, e ficou quieto.

— Pronta? — Tomás perguntou.

— Pronta. E, Tomás… obrigada por não entrares em pânico — Inês disse, baixinho.

Tomás sorriu.

— Obrigado por me empurrares na direção certa.

Eles deram as mãos por um segundo, só para garantir que ninguém ficava para trás. Depois atravessaram.

A sensação foi de vento rápido e de páginas a virar. E, de repente, o sótão da avó. Poeira no ar. Caixas. O cheiro normal de madeira velha e… nada de rosas nem carvão.

A porta-armário estava fechada, quieta, como se nunca tivesse respirado.

Inês soltou um suspiro longo.

— Estamos de volta.

Tomás tirou o caderno. A folha do bilhete ainda estava lá, dobrada. E no canto do papel havia uma manchinha de chá, como uma prova de que aquilo não fora sonho.

— E agora? — Inês perguntou.

Tomás olhou para as mãos. Tinham poeira, e um pouco de gordura de engrenagem do relógio.

— Agora… regra do presente — disse ele. — Lavar as mãos.

Desceram as escadas em bicos de pés e foram até à casa de banho. A torneira fez um som claro. A água caiu, transparente, obediente ao agora.

Tomás ensaboou as mãos com calma. Inês fez o mesmo, soprando bolhas pequenas.

— Sabes o que eu agradeço? — Tomás disse.

— Diz.

— Agradeço que a nossa vida tenha coisas simples. Água que sai da torneira. Luz que acende. Amigos que não me deixam virar geleia.

Inês riu.

— Eu agradeço que o século XIX não tenha redes sociais. Imagina ter de explicar as minhas sapatilhas a toda a gente.

Tomás riu também, e a risada soou segura, como se assentasse no chão.

Fecharam a torneira. As mãos estavam limpas. O coração, também.

Tomás olhou para o próprio reflexo no espelho e pensou, com gratidão tranquila, que o presente era mesmo a melhor oficina.

E, lá em cima, no sótão, a porta ficou silenciosa, à espera de outra lição — mas não hoje. Hoje era só agora.

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Sótão
Divisão alta da casa, junto ao telhado, onde se guardam coisas velhas.
Maçaneta
Peça da porta que se gira ou se puxa para abrir ou fechar.
Opaco
Que não deixa passar luz; sem brilho e sem transparência.
Aro de vidro
Anel feito de vidro, uma peça redonda e transparente.
PORTA DO TEMPO — usar com cuidado
Aviso gravado indicando que a porta tem ligação ao tempo e é perigosa.
Ponteiro finíssimo
Agulha muito fina que aponta números num instrumento ou relógio.
Madeira encerada
Madeira que recebeu cera por cima, ficando brilhante e protegida.
Biombo
Painel dobrável usado para dividir espaços ou esconder algo atrás.
Pêndulo
Peça que balança para frente e para trás num relógio antigo.
Paradoxo
Situação que parece contraditória, como um aviso escrito pelo próprio futuro.
Engrenagens
Rodas dentadas que se encaixam e fazem máquinas funcionar.
Monóculo
Lente única usada num olho para ver melhor, presa por corrente.

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