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História de viagem no tempo 11 a 12 anos Leitura 23 min.

O cais onde o tempo faz fila

Lia e Tomás descobrem um cais secreto que permite saltos no tempo; ao observarem 1932 enfrentam um motor perigoso e aprendem que curiosidade precisa de prudência.

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Lia, 12 anos, expressão determinada e assustada, cabelo castanho preso, veste leve verde, segura uma grande manivela metálica inclinada para reduzir a intensidade de uma máquina de viagem no tempo; Tomás, ~13 anos, pálido e surpreso, cabelo bagunçado, roupa cinza-azulada, está atrás dela com uma mão pronta para proteger e outra para apertar um botão vermelho, quase tocando o bracelete de Lia; Artur, ~12 anos, preocupado e curioso, roupas gastas dos anos 1930, segura um jornal amarelado à esquerda; o Dr. Sampaio, ~40 anos, bigode fino, bata bege, segura uma chave inglesa à direita; o financista Senhor Lemos, ~50 anos, terno escuro e olhar ganancioso, aparece ao fundo. Ambiente: antiga oficina dos anos 1930, grande sala de madeira escura, lâmpadas de filamento, bancos com ferramentas e grandes tubos e anéis metálicos ao redor de uma cabine circular com engrenagens; a máquina vomita objetos anacrónicos (uma bicicleta moderna, um capacete de astronauta, fotografias contemporâneas) que caem no chão, poeira visível em raios de luz quente; cena tensa com cores quentes contrastando reflexos metálicos frios, movimento nos objetos e rostos crispados. Estilo: pintura acrílica com pinceladas visíveis, texturas espessas e paleta de ocres, marrons e azuis-aco, iluminação teatral destacando faces e máquina. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O convite que piscava

Lia tinha doze anos e uma curiosidade que parecia ter molas nos pés. Saltava ideias, perguntas e planos como quem salta poças depois da chuva. Nessa tarde, estava no sótão da avó a remexer em caixas de cartão cheias de botões, fotografias e mapas antigos.

“Se eu encontrar mais uma caixa de rendas, juro que viro fantasma de tédio”, resmungou.

Foi então que viu uma maleta metálica, do tamanho de uma lancheira, com um símbolo gravado: uma ampulheta atravessada por um raio. A maleta estava fria, como se tivesse ficado à sombra do tempo.

Lia abriu. Lá dentro havia um bracelete de cobre, um pequeno mostrador redondo e um bilhete dobrado.

Ela leu em voz alta:

“QUAI DE PARTIDA DOS SALTOS — Entrada permitida apenas a quem promete prudência. Apressados são bem-vindos, mas só se souberem travar a tempo. — A.”

“A… Avó? Ou… Alienígenas?” Lia riu, mas o riso ficou suspenso quando o mostrador piscou três vezes, como um olho a acordar.

Da escada, surgiu Tomás, o vizinho de treze anos, alto e com cabelo que parecia sempre em discussão com o pente. Ele trazia uma lanterna e um ar de quem adora meter-se em aventuras… desde que não seja sozinho.

“Ouvi a tua voz. Encontraste tesouro?”

Lia estendeu o bilhete. “Encontrei… um convite que pisca.”

Tomás aproximou-se. “Isso é… tecnológico. E antigo. Como uma torradeira com saudades.”

Lia colocou o bracelete no pulso. Fechou-se com um clique perfeito, como se a conhecesse. No mostrador, letras pequenas formaram uma frase clara:

“DESTINO: QUAI. PARTIDA EM 00:59.”

Tomás engoliu em seco. “Lia… isso está a fazer contagem decrescente.”

Ela sorriu, espontânea. “Então temos cinquenta e nove… minutos para ser prudentes.”

“Isso não é muito tempo para aprender prudência”, disse ele.

“Ótimo”, respondeu Lia. “Vamos aprendê-la a caminho.”

Capítulo 2 — O cais onde o tempo faz fila

O bracelete guiou-os como uma bússola inquieta. Desceram a rua, atravessaram um parque e chegaram a um lugar que Lia nunca tinha notado: um portão estreito entre duas paredes cobertas de hera.

No portão, um letreiro discreto: “QUAI 7 — Saltos Autorizados”.

“Como é que isto esteve aqui a vida toda sem eu ver?” sussurrou Lia.

Tomás apontou para o bracelete. “Talvez só apareça para quem está… na hora certa.”

O portão abriu-se sozinho, com um assobio de ar. Do outro lado havia um corredor que cheirava a metal limpo e a vento de túnel. No fim, uma plataforma comprida, como a de uma estação de comboios, mas sem carris. Em vez disso, havia linhas brilhantes no chão, círculos desenhados com luz, e painéis com alavancas.

E… pessoas. Poucas, mas diferentes: uma senhora de chapéu alto a abanar um leque, um rapaz com roupas de ginástica futurista, um homem com óculos grossos a carregar um caderno cheio de rabiscos.

Todos pareciam estar à espera. Não de um comboio, mas de um instante.

Um relógio enorme pendia do teto. Em vez de horas, mostrava datas: 1871, 2040, 1999, 2222. As datas deslizavam como nuvens.

Uma voz calma saiu de um altifalante: “Passageiros do Salto de Treino, aproximem-se do Círculo Azul.

“Salto de treino?” Tomás repetiu. “Gosto mais de ‘treino' do que de ‘salto'.”

Lia pisou o Círculo Azul, que brilhou sob os seus ténis. Tomás seguiu-a, tentando parecer tranquilo, mas os ombros denunciavam o esforço.

Uma figura aproximou-se: uma mulher de cabelo curto, casaco cinzento com o símbolo da ampulheta. Tinha olhos atentos, daqueles que reparam até quando alguém mente para si próprio.

“Lia Rodrigues e Tomás Faria?” perguntou ela, consultando uma prancheta luminosa.

Lia arregalou os olhos. “Como sabe o meu apelido?”

“Aqui, o tempo dá-nos jeitos estranhos”, respondeu a mulher. “Eu sou a Agente Amélia. Antes de mais: regra número um. Não mexer no que não é vosso. Regra número dois: não tentar ‘melhorar' o passado. Regra número três: se algo correr mal, voltam imediatamente ao cais.”

Tomás levantou a mão. “E se não soubermos se correu mal?”

Amélia sorriu de lado. “Correu mal quando começam a achar que são mais inteligentes do que o tempo.”

Lia tentou parecer séria. “Prometo prudência.”

“Eu… tento prudência”, corrigiu Tomás.

“Boa resposta”, disse Amélia. “A prudência é uma tentativa constante.”

Ela apontou para um painel com um botão vermelho protegido por uma tampa. “Esse botão é o Regresso. Não é para brincar. Só se usa se perderem o fio do presente.

Lia repetiu, como quem grava um mapa na cabeça: “Regresso. Se perdermos o fio.”

Amélia entregou-lhes um cartão com letras bem grandes: “MISSÃO: OBSERVAR. NÃO INTERFERIR. TRAZER UMA LIÇÃO.”

“Uma lição?” Lia murmurou.

“Uma lição ilumina melhor do que uma lanterna”, respondeu Amélia. “Preparados?”

Tomás olhou para Lia. “Tu estás?”

Ela inspirou. O ar cheirava a aventura e a responsabilidade. “Estou.”

O relógio gigante parou numa data que piscou com força: 1932.

O Círculo Azul vibrou. A luz subiu como água ao contrário. E, num piscar de olhos, o cais deixou de existir.

Capítulo 3 — 1932: o apito e o paradoxo

Lia sentiu os pés aterrar numa madeira antiga. O ar era mais frio, com cheiro a carvão e pão quente. Estavam numa estação de comboios verdadeira, cheia de pessoas com casacos grossos e malas de couro.

Um apito agudo cortou o ar. Um comboio soltou vapor, como um dragão cansado.

Tomás arregalou os olhos. “Uau… é mesmo… antigo.”

Lia tocou no bracelete. No mostrador apareceu: “ÉPOCA: 1932. TEMPO DE OBSERVAÇÃO: 12 MIN.”

Do outro lado do cais, um rapaz da idade deles tentava equilibrar uma pilha de jornais. Um deles caiu e deslizou até aos pés de Lia. Na capa lia-se: “Invenção Promete Mudar o Futuro: Motor de Saltos!”

Lia ficou gelada e excitada ao mesmo tempo. “Motor de Saltos? Isto… isto fala de viagem no tempo!”

Tomás inclinou-se. “Mas em 1932? Isso não faz sentido.”

Lia olhou à volta. Ninguém parecia reparar no jornal a falar de algo tão impossível. Era como se, para todos os outros, aquele título fosse normal.

“Talvez o jornal esteja… errado”, sugeriu Tomás.

“Ou talvez nós estejamos no sítio onde as coisas começam”, sussurrou Lia.

O rapaz dos jornais veio correndo. “Ei! Desculpem! Esse era o meu!” Pegou no jornal, mas, ao puxá-lo, a pulseira de Lia brilhou.

O rapaz parou. Olhou para o bracelete como quem vê uma estrela cair no bolso de alguém.

“Esse símbolo…” disse ele, com a voz baixa. “A ampulheta com raio.”

Tomás deu um passo atrás. “Lia, ele viu.”

Lia tentou sorrir com naturalidade. “É… um bracelete. Da minha… tia.”

O rapaz franziu o nariz, desconfiado. Depois sorriu, rápido, como se tivesse encontrado um segredo. “Vocês não são daqui.”

Tomás tossiu. “Nós somos… de um bairro… distante.”

O rapaz inclinou-se, conspirador. “Eu chamo-me Artur. E estou a seguir o rasto de uma coisa que chamam… Quai de Partida. Dizem que existe um lugar onde o tempo faz fila. Vocês sabem onde fica?”

Lia sentiu o estômago dar uma cambalhota. Se Artur, em 1932, procurava o cais, então algo estava a atravessar épocas.

Tomás murmurou: “Regra número um: não mexer no que não é nosso.”

Lia respirou fundo. A prudência apareceu na cabeça dela como uma placa de STOP.

“Não sabemos”, disse Lia, devagar. “E mesmo que soubéssemos, não podíamos dizer.”

Artur franziu a testa. “Mas eu preciso! Tenho de… evitar uma coisa.”

“Evitar o quê?” escapou a Lia, espontânea.

Artur apontou para o jornal, nervoso. “Esse motor de saltos é perigoso. Dizem que, se for ligado sem cuidado, pode misturar datas como cartas de baralho. Pode pôr um bebé em 2050 e um astronauta em 1900. Eu vi um homem desaparecer ontem. Só… puf.”

Tomás ficou pálido. “Misturar datas… isso é o pior tipo de confusão.”

O bracelete de Lia apitou. No mostrador: “ALERTA: PARADOXO EM FORMAÇÃO.”

Lia engoliu em seco. Um paradoxo. A palavra parecia uma bola de neve a descer a montanha.

Artur aproximou-se mais. “Vocês têm esse símbolo. Vocês podem ajudar.”

Lia sentiu vontade de ajudar, como sempre. Mas ouviu a voz da Agente Amélia na cabeça: “Não tentar ‘melhorar' o passado.”

Ela decidiu uma coisa que lhe custou. “Artur… se há perigo, procura um adulto de confiança. Um chefe de estação. Um engenheiro.”

Artur riu, sem humor. “Adultos acham que eu invento histórias. Dizem ‘Artur, não sejas dramático'. E depois o tempo… faz aquilo que quer.”

Tomás olhou para Lia. “Temos de voltar ao cais. Agora.”

Lia assentiu, mas antes que tocassem no botão de Regresso do bracelete, ouviu-se um estrondo ao longe, como metal a rasgar-se.

As pessoas na estação pararam. Um vento estranho passou, mas não vinha de lugar nenhum. O relógio da estação, grande e redondo, começou a rodar os ponteiros ao contrário.

Artur gritou: “É ele! Estão a ligar o motor!”

O bracelete de Lia vibrou, quase quente. No mostrador, letras tremidas: “FIO DO PRESENTE A ENFRAQUECER.”

Tomás agarrou o pulso de Lia. “Se perdermos o fio… perdemo-nos nós.”

Lia olhou para Artur, que tremia, mas não fugia. E, naquele segundo, ela percebeu que prudência não era fugir sempre. Às vezes era escolher o risco menor.

“Temos doze minutos”, disse Lia. “E uma missão: observar… e trazer uma lição.”

Tomás arregalou os olhos. “Lia…”

Ela apontou para um edifício ao lado, onde um letreiro dizia “Oficina”. “Se o motor está lá, vamos ver. Sem mexer. Só ver. E, se for mesmo perigoso, carregamos Regresso.”

Tomás respirou fundo. “Observar sem interferir. Como… espiões educados.”

Artur já ia a correr. “Venham!”

Lia correu atrás, a sentir o coração bater como um tambor em cima de rodas.

Capítulo 4 — A Oficina e o truque do tempo

A oficina era um salão cheio de ferramentas, cabos e peças que brilhavam à luz de lâmpadas amareladas. No centro havia uma máquina enorme, parecida com uma cabine telefónica, mas com anéis metálicos à volta, como se o ar tivesse sido preso em círculos.

Um homem de bigode e macacão mexia em alavancas. Ao lado dele, um senhor elegante anotava tudo, com um olhar que parecia medir o mundo.

Artur sussurrou: “O engenheiro chama-se Doutor Sampaio. E aquele é o financiador, o Senhor Lemos. Lemos quer espetáculo. Quer ligar já.”

Lia aproximou-se o suficiente para ver um detalhe: um pequeno compartimento aberto na máquina, vazio, com a forma exata… do bracelete.

Tomás viu também e arregalou os olhos. “Aquilo… é o encaixe do teu bracelete.”

O bracelete de Lia apitou de novo: “CHAVE DETETADA. RISCO: ALTO.”

Lia sussurrou: “O motor precisa disto para ligar.”

Artur olhou para o pulso dela como se fosse ouro e perigo ao mesmo tempo. “Então é isso. A chave.”

Tomás puxou Lia para trás, protetor. “Não vamos dar chave nenhuma.”

“Eu nem ia!” Lia respondeu, ofendida e assustada.

Mas, nesse instante, o Senhor Lemos virou-se, como se tivesse ouvido pensamentos.

“O que temos aqui?” perguntou ele, aproximando-se. O olhar dele caiu no bracelete, e os olhos brilharam com ganância educada. “Curioso acessório.”

O Doutor Sampaio, concentrado, murmurou: “Ainda não está estável. Falta um regulador.

Lemos sorriu. “Talvez já tenha chegado.”

Ele estendeu a mão para o pulso de Lia.

Lia recuou. “Não toque!”

Tomás colocou-se à frente. “Ela disse não.”

Lemos fez um gesto e dois homens da oficina, fortes, avançaram. Não eram monstros, mas tinham a firmeza de quem obedece sem perguntas.

Artur ficou branco. “Desculpem… eu não sabia que ele vinha.”

Lia sentiu o fio do presente puxar por ela como elástico. O bracelete tremia, quase a implorar.

Ela pensou rápido. Prudência, prudência.

“Tomás”, sussurrou, “a tampa do botão de Regresso. Abre.”

Tomás, com dedos trémulos, levantou a tampinha no bracelete.

Mas Lemos foi mais rápido e agarrou o braço de Lia. A pele dela arrepiou-se. O bracelete brilhou como uma lâmpada a querer explodir.

“Excelente”, disse Lemos, satisfeito. “Vamos fazer história.”

O Doutor Sampaio hesitou. “Senhor Lemos, isto pode—”

“Pode ser grandioso”, cortou Lemos. “Ligue!”

E o Doutor Sampaio, pressionado, puxou uma alavanca.

Os anéis da máquina começaram a girar. O ar dentro deles ficou espesso, como gelatina transparente. O relógio da oficina tremeu. As ferramentas vibraram, tilintando como sinos nervosos.

No mostrador do bracelete, as datas dispararam: 1932, 2008, 1871, 2222, 1999… como um baralho atirado ao vento.

Artur gritou: “Está a misturar!”

Tomás tentou carregar no Regresso, mas a mão dele parecia presa no ar, como se o tempo estivesse a segurar-lhe os dedos.

Lia sentiu um puxão, como se alguém a tentasse arrancar do agora. O chão pareceu inclinar-se.

E então, de dentro dos anéis, surgiu uma coisa absurda e muito concreta: uma bicicleta moderna, com luzes LED, caiu no chão de 1932 com um estrondo. Logo depois, uma mala antiga apareceu e bateu na bicicleta. Depois, um chapéu de astronauta rolou como uma bola.

Tomás arregalou os olhos. “Isto é… um bazar temporal!”

Lia, mesmo com medo, soltou uma gargalhada curta. “Um bazar que ninguém pediu!”

Mas o humor desapareceu quando viu um papel a flutuar no ar, como se não decidisse em que ano queria cair. Era uma fotografia… dela e do Tomás, tirada no presente, no parque.

Artur apanhou a fotografia. “Quem são vocês?”

Lia sentiu o paradoxo a formar-se como uma nuvem escura — não assustadora, mas pesada. Se Artur levasse aquela prova, ele podia procurar o cais de forma diferente. Podia encontrar o bracelete. Podia impedir que Lia o encontrasse. E então… como é que ela estaria ali?

Prudência. Risco menor.

Lia olhou para o encaixe vazio na máquina. Se o bracelete era a chave, talvez a máquina estivesse a puxá-lo para se completar. E isso era o problema.

Ela respirou fundo e falou com firmeza: “Tomás, Artur: quando eu disser, vocês correm para fora.”

Tomás protestou: “Não vais—”

“Vou fazer uma coisa rápida e cuidadosa”, disse Lia. “Sem heroísmos. Só… travar a tempo.”

Ela puxou o braço com força, libertando-se de Lemos por um segundo. Correu para a máquina e viu, ao lado, uma manivela marcada com “INTENSIDADE”. Estava no máximo.

“Se eu baixar isto…” murmurou.

“Não mexer no que não é teu!” Tomás gritou.

“Eu sei!” Lia respondeu. “Mas isto já está a mexer em tudo!”

Ela agarrou a manivela e baixou um pouco. Os anéis abrandaram, como se respirassem melhor. O ar deixou de tremer tanto.

Lemos berrou: “Pare! Vai estragar!”

Lia não parou. Baixou até meio. As datas no bracelete começaram a desacelerar. O chapéu de astronauta parou de rolar.

O Doutor Sampaio olhou para ela, espantado. “Como soubeste?”

“Não soube”, disse Lia, ofegante. “Só… fui prudente. Menos força, menos confusão.”

Ela apontou para o encaixe. “O motor quer isto. Mas se encaixar, piora. Não encaixe.”

Sampaio hesitou, preso entre o medo e a lógica. Lemos avançou para agarrar o bracelete de novo.

Nesse instante, Tomás conseguiu mexer os dedos e carregou no Regresso.

O bracelete soltou um som claro, como uma gota a cair num copo.

A luz envolveu Lia e Tomás. Lia viu Artur a gritar o nome dela, sem o saber. Viu o Doutor Sampaio a tentar puxar a alavanca para baixo. Viu Lemos a tropeçar na bicicleta moderna.

E, antes de tudo se desfocar, Lia gritou para Artur, com toda a voz:

“Não persigas provas! Procura segurança!”

Artur ficou com a fotografia na mão… e, como se o próprio tempo se lembrasse da regra número um, a fotografia começou a ficar branca, branca, até virar apenas papel vazio.

Lia fechou os olhos.

Capítulo 5 — O Quai 7 e a lição que fica

O Círculo Azul do Quai 7 reapareceu sob os pés deles com um “hum” suave. Lia caiu de joelhos, como se tivesse corrido uma maratona dentro de um minuto.

Tomás sentou-se no chão, respirando como um acordeão. “Eu… odeio… bazares temporais.”

Amélia surgiu quase imediatamente, como se já os estivesse à espera. “Regressaram antes do limite. Bom. Mas o vosso pulso está a fumegar, Lia.”

Lia olhou. O bracelete estava quente, mas inteiro. “Quase o roubaram para ligar um motor. O tempo… começou a misturar coisas. Eu baixei a intensidade.

Amélia ergueu uma sobrancelha. “Mexeste num painel.”

Lia baixou a cabeça. “Eu sei. Regra número um. Mas… se eu não fizesse nada, o paradoxo ia crescer. Eu tentei travar, não acelerar.”

Tomás levantou a mão, como na escola. “Posso confirmar que ela travou. Com cara de pânico e coragem moderada.”

Amélia caminhou até um monitor e tocou em símbolos. Apareceu um gráfico com linhas que se entrelaçavam e depois se endireitavam.

“Boa notícia: o fio do presente estabilizou”, disse ela. “O motor não teve chave suficiente para se fixar. Provavelmente, em 1932, a máquina foi considerada demasiado perigosa e ficou por ali. Sem virar moda.”

Lia soltou o ar. “E o Artur? Ele viu-nos.”

“Viu… sombras de vocês”, disse Amélia. “Mas o tempo é teimoso com segredos. A fotografia apagou. E a memória dele vai ficar como uma sensação: ‘Fui avisado para ser prudente.' Isso é o tipo de lembrança que não cria paradoxos. Cria juízo.”

Tomás riu. “Juízo é uma tecnologia subestimada.”

Amélia entregou-lhes o cartão de missão, agora com espaço para escrever. “E a lição?”

Lia pensou no olhar de Lemos, no baralho de datas, na bicicleta caída no passado, no relógio a andar ao contrário.

“A lição é…” Lia falou devagar, para ficar certo. “Curiosidade abre portas. Mas prudência escolhe por qual porta entrar — e quando voltar. E… quanto mais forte tentamos puxar o tempo, mais ele puxa de volta.”

Amélia assentiu. “Excelente. Acrescento outra: quando algo parece oferecer ‘um atalho', costuma cobrar juros.”

Tomás apontou para o bracelete. “Podemos… não usar isto durante uns cem anos?”

Amélia sorriu. “Por hoje, sim. Mas antes, uma última coisa. O Quai é um lugar de partida… e de chegada. E cada viagem merece um regresso tranquilo.”

Ela conduziu-os por uma porta lateral. “Venham.”

Capítulo 6 — O presente, a torneira e um brinde simples

Saíram numa sala pequena, clara, com bancos e uma janela que mostrava a rua normal, o parque normal, o céu normal. O mundo parecia intacto, e isso era a melhor surpresa de todas.

Sobre uma mesa havia um jarro de vidro com água e rodelas de limão. Ao lado, dois copos.

Tomás olhou, desconfiado. “Isso não vai ser… água de 1871, pois não?”

Amélia riu com leveza. “Água do presente. Sem paradoxos. Só refresco.”

Lia tirou o bracelete. A marca no pulso parecia apenas uma pulseira de sol. Ela colocou o objeto na maleta metálica, que se fechou com um clique satisfeito.

“Sabes”, disse Tomás, pegando num copo, “eu sempre achei que a coragem era fazer coisas malucas.”

Lia serviu-se também. “E agora?”

“Agora acho que coragem é parar antes de estragar tudo.” Ele levantou o copo. “À prudência. Mesmo quando é difícil.”

Lia encostou o copo ao dele, com um som pequeno e feliz. “À prudência. E ao presente, que afinal é um lugar bem fixe.”

Bebeu um gole. A água estava fria e limpa, como se lavasse o susto por dentro. Lia fechou os olhos por um segundo, grata por estar ali, inteira, no seu tempo.

Quando abriu, a contagem do bracelete já não existia. Só existia o agora, brilhante e seguro, e um copo de água refrescante nas suas mãos.

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Sótão
Parte alta da casa, junto ao telhado, onde se guardam coisas velhas.
Maleta metálica
Caixa pequena de metal que se fecha, usada para guardar objetos importantes.
Ampulheta
Objeto antigo que mede tempo com areia que cai de um lado para o outro.
Mostrador
Pequena tela ou visor que mostra informações, como números ou mensagens.
Prancheta luminosa
Placa que ilumina e serve para escrever ou ler notas com mais facilidade.
Prudência
Cuidar e pensar antes de agir, para evitar perigos e problemas.
Círculo Azul
Marca no chão que acende e indica onde as pessoas devem ficar.
Regresso
Ação de voltar ao lugar seguro quando algo corre mal.
Paradoxo
Situação em que uma coisa cria contradição, podendo causar confusão no tempo.
Oficina
Lugar com ferramentas onde se consertam ou constroem máquinas.
INTENSIDADE
Nível de força ou energia de uma máquina, que se pode aumentar ou baixar.
Fio do presente
Imagem que mostra a ligação entre o agora e o que está a acontecer no tempo.
Bazar temporal
Mistura confusa de objetos de épocas diferentes caindo ao mesmo lugar.
Manivela
Peça que se gira com a mão para ligar ou controlar uma máquina.
Regulador
Pequena peça que controla como uma máquina funciona, para ficar estável.

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