Capítulo 1 — O Relógio que Não Gostava de Atrasos
Tomás tinha 12 anos e uma mania: reparar em pormenores. Sabia quando a chuva mudava de cheiro, quando o elevador fazia um soluço no terceiro andar e quando a avó dizia “já volto” e queria dizer “fica por aqui, preciso de ti a ouvir”.
Nessa tarde, ele estava no sótão do prédio com a sua melhor amiga, a Inês, que tinha 12 também e uma coragem que parecia vir com pilhas incluídas.
— Aposto que isto é só sucata — disse a Inês, a apontar para um baú de metal com fechos gastos.
— Sucata não faz este som — respondeu Tomás.
Lá dentro havia um objeto que não parecia de nenhum lugar: um relógio de bolso, grande como uma bolacha, com vidro grosso e números que brilhavam devagar, como vagalumes presos em ordem. Não fazia “tic-tac”. Fazia uma espécie de “tchic… tchic…”, como se estivesse a escolher bem cada passo.
Ao lado, um cartão de papel amarelado dizia, em letras cuidadas: “Uma vez por dia. Dois passageiros. Ouçam antes de tocar.”
— Ouvir o quê? — Inês inclinou a cabeça, desconfiada e divertida.
Tomás encostou o relógio ao ouvido. Em vez de som de engrenagens, ouviu um sussurro baixinho, como se o ar estivesse a contar um segredo:
“Destino: Aurora Boreal. Hora: daqui a… muito.”
Tomás engoliu em seco.
— Inês… o relógio falou.
— Claro que falou. E eu sou uma torradeira — ela riu, mas a risada morreu quando o relógio aqueceu na mão de Tomás. O metal ficou morno, como caneca de chá.
No vidro, os números giraram e pararam em “23:59”.
— Falta um minuto para… — Tomás começou.
— Para a meia-noite? — Inês sorriu. — Isso eu sei.
Mas o relógio vibrou, como um coração apressado. O baú tremeu. O pó do sótão levantou em redemoinho.
Tomás lembrou-se do cartão: “Ouçam antes de tocar.”
— Talvez seja para ouvir… um ao outro — disse ele, de repente.
Inês arqueou as sobrancelhas.
— Então fala tu. O que estás a pensar, senhor Detetive dos Pormenores?
Tomás respirou fundo.
— Estou a pensar que… se isto for mesmo uma coisa de viagem no tempo… não podemos fazer loucuras. Temos de seguir regras. E… ouvir-te quando disseres “para”.
Por um segundo, Inês ficou séria, como quando alguém diz uma verdade nua.
— Combinado — ela disse. — E tu ouves-me quando eu disser “respira”. Porque tu às vezes prendes o ar como se fosse segredo.
O relógio deu um “tchic” mais alto, como se aprovasse.
— Então… tocamos? — perguntou Inês, já com o dedo no botão.
Tomás olhou para as suas mãos, para o pó no chão, para a luz fraca da janela. A vida parecia normal demais para aguentar a ideia de um salto.
— Tocamos — disse ele.
A Inês carregou.
O mundo dobrou-se como uma folha. O sótão desapareceu. E, por um instante, Tomás sentiu o futuro a soprar-lhe na cara como vento gelado misturado com vapor quente.
Capítulo 2 — A Cidade Onde o Gelo Fuma
A aterragem foi estranha, mas não doeu. Foi como cair numa cama feita de ar.
Tomás abriu os olhos.
Estavam numa avenida larga, coberta por um material branco que parecia neve… mas não escorregava. À volta, prédios altos de vidro e pedra escura brilhavam sob um céu cor de leite. Ao longe, montanhas de gelo recortavam o horizonte. E, no meio de tudo, subia vapor em colunas suaves, como chá a sair de uma caneca gigante.
— Estamos… no Polo Norte? — Inês perguntou, a esfregar as mãos.
Tomás inspirou. O ar era frio, mas vinha com um cheiro inesperado: mineral e quente, como pedras depois de chuva.
— Não é só gelo — disse ele. — Há calor por baixo. Geotérmico.
Ao lado deles, uma placa digital apareceu, como se tivesse acordado:
“AURORA BOREAL — CIDADE POLAR GEOTÉRMICA — BEM-VINDOS, VISITANTES TEMPORAIS.”
Inês arregalou os olhos.
— Ok. Isso foi específico.
— “Visitantes temporais”… — Tomás repetiu, com um arrepio que não era do frio.
Uma criança passou a correr, com botas brilhantes e um gorro que mudava de cor. A criança olhou para eles e riu.
— Vocês estão com roupa de museu!
— Obrigada pelo elogio… eu acho — Inês respondeu.
A criança parou e apontou para o relógio na mão de Tomás.
— Ah! Um de bolso! Isso é da coleção antiga. Vocês vieram pelo Pulso?
— Pulso? — Tomás perguntou.
— O Pulso do Tempo. A cidade tem regras. Não podem mexer muito. Senão dá nó — disse a criança, e fez um gesto com os dedos como se enrolasse massa.
Tomás e Inês trocaram um olhar.
— Como é que te chamas? — perguntou Inês.
— Lira. E vocês?
— Tomás e Inês — disse Tomás.
Lira começou a andar, e fez sinal para os seguirem.
— Venham. Vão congelar o nariz e depois fica com cara de pateta. Acontece aos turistas.
Inês tapou o nariz, teatral.
— Salva-nos, Lira do Futuro.
Enquanto andavam, Tomás observava tudo. Havia tubos transparentes a passar por cima das ruas, com cápsulas a deslizar em silêncio. Havia jardins em cúpulas, com plantas verdes a brilhar, como se tivessem engolido luz. E havia, a cada esquina, aberturas no chão com grades quentes, de onde saía vapor.
— A cidade usa o calor da Terra — explicou Lira, a saltar por cima de uma linha luminosa no chão. — O gelo por cima é como uma tampa. Mas aqui em baixo, a Terra ferve como sopa.
— E a energia? — Tomás perguntou, curioso.
— Tudo. Luz, aquecimento, transportes… e o Pulso — disse Lira, baixando a voz. — Mas isso é especial. Só abre quando… precisa.
— Precisa de quê? — Inês perguntou.
Lira encolheu os ombros.
— De alguém que ouça.
Tomás sentiu o relógio de bolso mais pesado, como se carregasse uma frase inteira por dizer.
Capítulo 3 — O Museu dos Amanhãs e a Regra do Não-Mexer
Lira levou-os a um edifício redondo, com paredes que pareciam feitas de gelo polido, mas que não eram frias. Na entrada, uma escultura metálica mostrava uma ampulheta atravessada por uma linha em espiral.
Uma porta abriu-se sem ruído. Dentro, havia uma sala cheia de objetos em vitrines: um telemóvel antigo, uma chave enferrujada, um caderno com folhas amareladas.
— Museu dos Amanhãs — anunciou Lira. — Aqui guardamos coisas que mudaram o mundo… ou quase.
Tomás aproximou-se de uma vitrine e leu um rótulo:
“GUARDA-CHUVA, 2084 — INVENTADO PARA CHUVA HORIZONTAL.”
— Chuva horizontal? — Inês riu. — Essa eu queria ver.
Lira apontou para outra vitrine onde havia um relógio parecido com o de Tomás, mas maior, preso a uma base.
— Este é um Pulso. O teu é um Mini-Pulso. Serve para viagens curtas. O grande mantém a cidade… em ordem.
Tomás viu um mapa na parede. Não era um mapa normal: mostrava linhas de tempo como rios, com curvas, remoinhos e, aqui e ali, nós apertados.
— O que são esses nós? — ele perguntou, a apontar.
Um adulto aproximou-se. Era alto, com uma bata cinzenta e um crachá que dizia “Engenheira Safira”. O cabelo dela parecia flutuar, preso por pequenos ímanes.
— Nós são paradoxos — disse Safira, com calma. — Quando alguém tenta mudar um acontecimento importante, a linha do tempo enrola-se sobre si. E a realidade fica… irritadiça.
— Irritadiça como eu antes do pequeno-almoço — comentou Inês.
Safira sorriu de lado.
— Exatamente. E uma realidade irritada faz coisas tolas: apaga memórias, troca detalhes, faz pessoas esquecerem palavras simples. Já tivemos um dia em que ninguém conseguia dizer “porta”.
Tomás imaginou uma cidade inteira a apontar e a fazer gestos, e quase se riu. Quase.
— Então não podemos mexer em nada — disse ele, sério.
— Podem observar. Podem aprender. E, se forem chamados, podem ajudar a desatar um nó — Safira olhou para o relógio de Tomás. — Esse Mini-Pulso não aparece por acaso.
O relógio, como se tivesse ouvido, aqueceu de novo. No vidro surgiu uma frase, em letras finas:
“OUÇAM A HISTÓRIA ERRADA.”
Inês inclinou-se para ler.
— História errada? Como assim?
Safira franziu a testa.
— Há pouco, o Pulso grande deu um alarme. Um nó apareceu… hoje. E isso não devia acontecer. Nós são raros.
Lira mordeu o lábio.
— Eu ouvi os mais velhos a dizerem que alguém mexeu na inauguração das turbinas geotérmicas.
Tomás endireitou-se.
— A inauguração é… um acontecimento importante.
— Sem as turbinas, esta cidade não existe — disse Safira. — E se a cidade não existe, o Pulso grande não existe. E se o Pulso grande não existe… — ela deixou a frase no ar, como um aviso.
Inês fez um som baixo.
— …então nós também talvez não estejamos aqui.
Tomás sentiu o chão parecer menos sólido por um segundo.
— O que temos de fazer? — ele perguntou.
Safira apontou para uma porta com o símbolo da ampulheta.
— Vamos ao Núcleo. E, Tomás… a regra mais importante: quando ouvirem alguém contar uma história, ouçam até ao fim. Muitos paradoxos nascem de interrupções.
Inês olhou para Tomás.
— Ouvir. Estamos a apanhar a dica.
Tomás apertou o relógio.
— Estamos.
Capítulo 4 — O Nó no Núcleo e o Rapaz com o Casaco Vermelho
O Núcleo era uma sala enorme, redonda, com um buraco no centro onde se via um brilho laranja, como lava distante. Não havia lava ali; Safira explicou que era o calor capturado, transformado em energia limpa. Tubos grossos desciam e subiam, como raízes metálicas.
No meio, o Pulso grande parecia um coração gigante: uma esfera de cristal com luzes a pulsar. Cada pulso fazia o ar vibrar levemente, como música sem som.
Tomás sentiu o seu Mini-Pulso responder, com pequenos arrepios na palma.
De repente, uma luz azul rasgou o ar. Uma sombra apareceu perto dos painéis de controlo.
— Ei! — gritou Inês. — Quem está aí?
A sombra tomou forma: um rapaz, talvez de 13 anos, com um casaco vermelho muito vivo. Tinha uma mochila cheia de fios e um sorriso que não pedia licença.
— Calma — disse ele, levantando as mãos. — Eu só vim… corrigir uma coisa.
Safira avançou.
— Identifica-te.
— Chamem-me Nico — respondeu. — E eu sei como isto funciona melhor do que vocês pensam.
Lira ficou ao lado de Tomás, mais quieta do que antes.
— Ele é um mexedor — sussurrou ela. — Um desses que acham engraçado mudar tudo.
Nico caminhou até ao Pulso grande.
— Não é “mudar tudo”. É melhorar. Vocês dependem das turbinas como se fosse magia. Eu posso dar-lhes uma versão mais eficiente… antes do tempo.
Tomás lembrou-se do mapa com rios e nós. Lembrou-se da regra.
— Se fizeres isso, crias um paradoxo — disse ele.
Nico soltou uma gargalhada curta.
— Paradoxo é só um nome chique para “ninguém tentou com jeito”.
Inês cruzou os braços.
— E o teu “jeito” é mexer na história dos outros?
Nico ergueu o que parecia um pequeno dispositivo com uma ponta brilhante.
— Isto é um Acelerador de Projeto. Eu coloco aqui, as turbinas evoluem cinquenta anos numa hora. Poupamos energia, evitamos falhas. A cidade fica melhor.
Safira falou firme.
— E todas as decisões, aprendizagens e erros que nos trouxeram até aqui? Apagas tudo isso. As pessoas deixam de saber porquê. Só ficam com o resultado, como se tivesse caído do céu. Isso é frágil.
Tomás observou Nico. O rapaz mexia os dedos na alça da mochila, inquieto.
— Por que queres tanto fazer isso? — Tomás perguntou, sem acusar, só curioso.
Nico hesitou, como se não esperasse uma pergunta que não fosse um grito.
— Porque… — ele olhou para o brilho no centro do Núcleo. — Porque no meu tempo disseram-me que a cidade quase colapsou no começo. Que houve falhas, que muita gente sofreu frio, que faltou luz. Eu… eu queria evitar.
Inês baixou um pouco os ombros.
— Isso parece bom — ela disse. — Mas pode dar errado de maneiras que tu nem imaginas.
Tomás deu um passo à frente, lembrando-se: ouvir até ao fim.
— Conta a história toda — disse ele. — O que aconteceu no teu tempo? Quem te contou? Por que te deixaram vir?
Nico mordeu o lábio. O sorriso desapareceu.
— Foi o meu avô. Ele… ele ficou preso numa tempestade de gelo quando era pequeno. Disse que prometeu nunca mais deixar ninguém passar por aquilo. E… — Nico olhou para o dispositivo. — Eu encontrei os planos do Pulso e… vim.
Safira fechou os olhos por um instante, como quem monta um puzzle por dentro.
— O teu avô… sobreviveu? — ela perguntou.
— Sim — Nico respondeu, mais baixo. — Ele sobreviveu e virou técnico das turbinas. Sempre disse que aprendeu a ouvir o som certo da máquina. “Se escutares, a turbina fala contigo”, ele dizia.
Tomás sentiu algo encaixar.
— Então o sofrimento dele fez dele… quem ele foi. E o que ele aprendeu ajudou a cidade depois — Tomás falou devagar. — Se tu apagas a parte difícil, talvez apagues a pessoa que ele se tornou. E o que ele salvou depois.
Nico ficou parado. O dispositivo tremia na mão dele, como se também estivesse indeciso.
Inês aproximou-se, sem agressividade.
— Nós também queremos ajudar. Mas… não dá para cortar caminho no tempo sem tropeçar.
Lira, que até então estava quieta, disse num fio de voz:
— O Pulso grande está a pulsar irregular. O nó já está a apertar.
E, como resposta, as luzes do Núcleo piscaram. Uma porta ao fundo abriu-se sozinha e fechou-se de novo, como se a realidade tivesse soluços.
Safira apontou para Nico.
— Se colocares isso, o nó vira corda. Precisamos de desfazer, não de apertar.
Nico olhou para Tomás, como se procurasse permissão.
Tomás não mandou. Só ofereceu.
— Ouve — disse ele. — E deixa-nos ouvir-te. Juntos.
Nico respirou fundo. Baixou o dispositivo.
— Então… como se desfaz um nó?
O Mini-Pulso de Tomás brilhou e mostrou uma nova frase:
“VOLTA À PRIMEIRA FAÍSCA.”
Capítulo 5 — A Primeira Faísca e a Tempestade que Ensina
Safira guiou-os por um corredor estreito, com paredes cheias de cabos. O Pulso grande projetou uma janela de luz no ar, como um ecrã transparente.
— Vamos assistir ao momento da inauguração — explicou Safira. — Não para mudar. Para encontrar onde a história ficou “errada”.
Tomás engoliu em seco.
— Vamos… ao passado, dentro do futuro?
Inês fez uma careta divertida.
— Um sanduíche temporal. Espero que não dê azia.
Lira riu baixinho, finalmente.
Nico manteve-se quieto, mas não fugiu. Isso já parecia uma vitória.
A janela de luz expandiu-se. Um vento frio atravessou o corredor, cheirando a neve real. Tomás sentiu o Mini-Pulso puxar, como se fosse íman.
— Regra — disse Safira. — Observem. Não intervenham. E… ouçam.
Eles atravessaram a luz.
De repente, estavam numa praça cheia de gente, com bandeiras e casacos grossos. O céu era mais escuro, e a cidade parecia menos polida. Ainda assim, havia o mesmo vapor quente a subir de grades no chão.
Ao fundo, uma estrutura enorme de metal: as primeiras turbinas geotérmicas, recém-instaladas, brilhando como uma máquina recém-lavada.
Um homem subiu a um palco. Tinha um microfone e uma voz forte.
— Hoje acendemos a primeira faísca! — anunciou ele.
A multidão aplaudiu. Tomás viu crianças com bochechas vermelhas de frio, a saltar no lugar.
E então… um som diferente, um “clac” seco, vindo de um dos painéis. Tomás notou antes de todos: uma luz pequena que piscou duas vezes e apagou.
— Viste? — sussurrou ele para Inês.
— Vi — ela respondeu.
Nico, ao lado, estava pálido.
— Isto… isto é antes da tempestade — murmurou. — O meu avô falou desse dia.
Um vento mais forte soprou, trazendo flocos de neve grossos. A alegria da praça hesitou.
No painel, um técnico jovem aproximou-se, com uma caixa de ferramentas. Ele falou com alguém, mas o barulho do vento abafou. Tomás aproximou-se o suficiente para ouvir, sem tocar em nada.
— Não gosto deste cabo — disse o técnico, preocupado. — Está a cantar fino.
— Cantar fino? — Inês sussurrou, intrigada.
Tomás lembrou-se da frase do avô de Nico: “Se escutares, a turbina fala contigo.”
O técnico encostou o ouvido ao painel, como Tomás fizera com o relógio. Ele ficou quieto, concentrado. Depois, levantou a mão.
— Parem! — gritou ele para o palco. — Esperem! Ouçam!
Mas o apresentador continuou, animado, sem perceber. A multidão gritava, o vento assobiava.
Tomás sentiu um aperto. Era ali. A história errada não era um ato malvado. Era… falta de escuta.
O técnico tentou falar com um chefe ao lado, mas o chefe abanou a mão, apressado.
— É só nervosismo de máquina nova — disse o chefe. — Estamos em direto!
Nico deu um passo, instintivo, como se quisesse correr até lá.
Safira segurou-lhe o braço, firme.
— Não — disse ela, num sussurro que parecia uma parede. — Se interferires, mudas quem ouve quem. Observa.
O vento virou tempestade em minutos. Neve a bater de lado, como areia. As pessoas começaram a recuar.
No painel, o cabo “cantou” mais alto: um zumbido agudo. O técnico jovem gritou de novo:
— DESLIGUEM! ESTÁ A AVISAR!
E desta vez… alguém ouviu. Uma mulher, talvez a responsável pela segurança, olhou para o técnico, viu a expressão dele, viu a luz a piscar… e levantou a mão.
— Desligar! — ordenou ela.
Houve confusão. Vaias. O apresentador protestou.
Mas o técnico não desviou o olhar do painel. A mulher aproximou-se e encostou também o ouvido, sem vergonha, ali, no meio da praça.
E ela ouviu.
— Está mesmo a cantar fino — ela disse, e a voz dela mudou. — Trocar o cabo. Agora.
A multidão gemeu, mas começou a dispersar para se abrigar. A tempestade passou com raiva, mas as turbinas ficaram em segurança. Mais tarde, voltariam a ligar.
Tomás sentiu o Mini-Pulso aquecer.
“ISTO FOI CERTO”, mostrou o vidro.
Safira franziu o sobrolho.
— Então por que existe um nó hoje?
Nico olhou para os lados, confuso, e então viu. Na beira da praça, escondido junto a uma coluna, havia um brilho pequeno… um dispositivo semelhante ao dele, preso discretamente.
— Alguém… já mexeu — Nico sussurrou, horrorizado. — Não fui eu. Eu ainda nem tinha chegado.
Inês apontou.
— Dá para tirar sem ninguém ver?
Tomás observou o movimento das pessoas. Havia um momento em que todos olhavam para o céu, por causa de um clarão de luz.
— Agora — disse ele, rápido. — Mas com cuidado.
Safira olhou para Tomás, avaliando.
— A regra é não intervir… — ela começou.
Tomás respondeu, com calma:
— Mas o nó veio de uma intervenção. Se não tirarmos isto, estamos a deixar uma mentira presa na história.
Safira respirou, como quem aceita um risco bem medido.
— Um passo. Sem tocar em mais nada. E ouvindo o ambiente.
Tomás aproximou-se do dispositivo. Era pequeno, frio, e estava ligado ao painel por um fio fino.
Ele parou.
— Inês — disse ele. — Diz-me o que vês. Eu quero ter a certeza.
Inês agachou-se ao lado, olhos atentos.
— O fio está preso por um encaixe simples. Se puxares de lado, podes partir. Tem de ser para cima. Devagar.
Tomás assentiu. Ouviu o vento, o murmúrio da multidão, o zumbido do cabo. Ouviu a própria respiração.
— Nico — disse ele, sem olhar. — Estás a ouvir também?
— Estou — Nico respondeu, tenso.
— Então diz “agora” quando o zumbido baixar — pediu Tomás.
Nico fechou os olhos por um segundo, concentrado, e então:
— Agora.
Tomás levantou o encaixe para cima, devagar, como se levantasse uma pétala. O fio soltou-se sem estalo. O dispositivo apagou-se.
No mesmo instante, o ar pareceu alisar-se. O clarão no céu terminou. A tempestade continuou, mas o ambiente perdeu aquele “soluço” estranho.
O Mini-Pulso mostrou:
“NÓ DESATADO. VOLTEM.”
Safira tocou na janela de luz.
— Voltar — disse ela.
A praça dissolveu-se como neve em água quente.
E eles estavam de novo no corredor do Núcleo, no futuro.
Capítulo 6 — O Regresso e os Cortinados a Fechar
No Núcleo, o Pulso grande pulsava suave, regular, como batida tranquila depois de uma corrida. As luzes estabilizaram. A porta que antes abria e fechava sozinha ficou quieta, como se finalmente tivesse decidido existir direito.
Lira soltou um suspiro longo.
— Odeio quando a realidade faz birra — disse ela.
Inês riu.
— Eu também. Dá muito trabalho.
Nico olhou para o dispositivo que tinha trazido. Parecia menor agora, não por tamanho, mas por importância.
— Eu achei que estava a fazer o bem — disse ele, com a voz falhada. — Mas… eu não ouvi. Eu só queria chegar ao fim mais rápido.
Safira aproximou-se.
— Ouvir dá trabalho — disse ela. — Exige paciência. Exige aceitar que o outro pode estar certo. E que a história tem camadas.
Tomás lembrou-se do técnico jovem na praça, a gritar “ouçam”, e de como só quando alguém parou para escutar é que as coisas ficaram seguras.
— O teu avô não se tornou técnico por acaso — disse Tomás a Nico. — Ele aprendeu num dia difícil. E essa aprendizagem virou proteção para outros.
Nico engoliu em seco e assentiu.
— Eu vou voltar e… contar-lhe a verdade toda. Sem atalhos.
Inês inclinou-se para Tomás e sussurrou:
— Olha para ti, todo filosófico. Estou orgulhosa, senhor Detetive.
Tomás corou um pouco.
Lira apontou para o Mini-Pulso.
— O teu está a chamar.
No vidro, aparecia uma contagem: “00:30”.
Safira abriu uma pequena caixa e colocou lá dentro um cartão semelhante ao que eles tinham encontrado no sótão, só que novo.
— Isto vai com vocês — disse ela. — Uma lembrança e uma regra. “Ouçam antes de tocar.” Serve no tempo… e fora dele.
Tomás pegou no cartão.
— Obrigado — disse ele, sincero.
Inês acenou para Lira.
— Adeus, Lira. Não deixes ninguém dizer que a tua cidade é fria. Ela fuma de calor.
Lira sorriu.
— Adeus, gente do passado. E… boa sorte com portas, chuvas e avós.
Nico deu um passo em frente, hesitou, e estendeu a mão.
Tomás apertou-a.
— Desculpa — Nico disse.
— Aceite — respondeu Tomás. — Mas ouve: desculpa sem mudança é só palavra bonita.
Nico sorriu, desta vez sem arrogância.
— Vou mudar.
A contagem chegou a “00:05”.
— Respira — disse Inês, como prometera.
Tomás respirou. O ar do futuro tinha cheiro de pedra quente. Guardou esse cheiro como se guardasse uma frase boa.
“00:01”.
O Mini-Pulso brilhou.
O mundo dobrou-se outra vez, como folha.
E o sótão voltou. O pó caiu no lugar. A luz da janela era a mesma. Lá fora, um carro passou na rua como se nada tivesse acontecido.
Tomás olhou para o relógio normal na parede: tinha passado… um minuto.
Inês sentou-se no chão, a rir baixinho, meio aliviada.
— Ok. Eu retiro o que disse. Não era sucata.
Tomás abriu a mão. O Mini-Pulso estava frio e quieto. O cartão de Safira estava lá, real, com letras limpas.
Ele leu em voz alta, como uma promessa:
— “Ouçam antes de tocar.”
De baixo, ouviu-se a voz da avó de Tomás:
— Tomás? Inês? Venham lanchar!
Tomás olhou para Inês.
— Vamos?
— Vamos — ela respondeu, e depois acrescentou, com um sorriso maroto: — Mas desta vez sem viagem no tempo. Tenho fome no presente.
Eles desceram as escadas. Tomás ouviu os degraus a ranger, ouviu a respiração dos dois, ouviu o som familiar da casa. Percebeu que o presente também tinha coisas a dizer, se alguém parasse para escutar.
Na sala, a avó puxou os cortinados, devagar, e a luz da tarde ficou mais suave. O tecido deslizou com um sussurro tranquilo.
E os cortinados fecharam-se lentamente.