Manhã de cores
Hoje é Páscoa. O sol entra pela janela. É quentinho e dourado. Passarinhos cantam no quintal. A menina chama-se Lia. Lia tem três anos. Ela acorda com um sorriso. Ela dá um abraço na mãe. O pai sorri também.
“Quero fazer uma guirlanda de primavera”, diz Lia.
A mesa fica pronta. Há papel colorido. Há fitas. Há flores pequenas do jardim. Amarelas. Cor-de-rosa. Brancas. A mãe corta um círculo de papelão. O pai passa a fita por dentro. Lia cola pétalas. Lia cola folhas. Tudo devagar. Tudo com cuidado. A cola cheira a doce. As mãos ficam com glitter. Brilha, brilha, brilha.
“Está tão linda”, diz a mãe.
Lia ri. “É uma guirlanda de alegria.”
O vento entra de mansinho. A guirlanda dança um pouquinho. As fitas fazem um som suave. Fssss… fssss… Parece uma canção baixinha.
Lia ajusta uma flor. Mais uma. E mais uma. Entre duas flores, algo brilha diferente. Não é glitter. Não é pétala. É um pedacinho de papel dobrado. Bem pequenino. Bem curioso.
“O que é isto?”, pergunta Lia.
A mãe aproxima os olhos. O pai também olha. A mãe abre o papel com cuidado. Dentro há um desenho simples. Um coelhinho com orelhas grandes. E um ovo pintado de azul. E uma linha de pontinhos que faz um caminho. Embaixo, há palavras. Palavras curtinhas.
“Quer ouvir?” pergunta a mãe.
Lia bate palminhas. “Quero, quero!”
O segredo entre as flores
A mãe lê devagar. “Siga o cheiro doce. Procure uma cadeira azul. Lá espera um mimo.”
Lia dá um pulinho. “Vamos!”
Os três vão até a sala. A cadeira azul está perto da janela. O sol faz manchas quentes no chão. Lia agacha. Olha por baixo. Nada. Ela franze o nariz. Não quer chorar. Só respira fundo.
O pai sorri. “Tenta olhar atrás.”
Lia contorna a cadeira. Atrás, bem ali, há um ovinho de chocolate. Pequeno e brilhante. Está dentro de um copinho de papel. Com pintinhas coloridas.
“Encontrei!” diz Lia.
Ela abre o embrulho devagar. Cheira a cacau e festa. Dentro do copinho, há outro papel dobrado. Outra pista. A mãe lê: “Onde a água canta, tem surpresa a encantar.”
Lia pensa. “Água canta na torneira!”
Todos vão para a cozinha. A pia brilha. A torneira faz plic plic suave. Embaixo, no cantinho seco, há um laço verde. E dentro do laço, outro ovinho. Lia ri. “Olá, ovinho!”
O pai mostra um pontinho vermelho na janela. É uma joaninha. A joaninha sobe, desce, e para num vaso de manjericão. A joaninha fica quietinha. Parecem olhos piscando.
A mãe abre a próxima pista. “Bata palminhas perto da janela. Olhe o que o vento mostra.”
Lia fica na janela. Bate palminhas. Pla, pla, pla. O vento entra. A guirlanda, lá na sala, faz fssss… As fitas apontam para a porta. As flores levantam um pouquinho, como quem diz: “Por aqui, por aqui.”
Todos seguem devagar. A casa cheira a chocolate e a pão. Lia abre a porta do quintal. O jardim está macio de verde. Há margaridas que parecem pequenos sóis. O céu é azul que dá vontade de cantar.
No degrau, uma cesta pequena espera. Tem um laço amarelo. Dentro, há ovos pintados com bolinhas. Há um coelhinho de pano. E há mais um bilhete. A mãe lê: “A Páscoa brilha quando os abraços brilham também.”
Lia abraça a mãe. Abraça o pai. O coelhinho de pano ganha abraço também.
Páscoa que brilha
Eles voltam para dentro. A guirlanda está pronta. Cheia de flores. Cheia de cores. Lia pendura a guirlanda na porta. A guirlanda fica bonita, muito bonita. Parece um sorriso de flores.
“Obrigada, coelhinho”, diz Lia. Fala baixinho, como um segredo bom.
O pai traz canecas com leite morno. A mãe corta fatias de bolo simples. Todos partilham os ovos. Um pedacinho para cada um. Lia prova e fecha os olhos. É doce e fofinho. Cheira a domingo.
Depois, pintam dois ovinhos de verdade. Com pincéis pequenos. Um ovo ganha riscas de arco-íris. Outro ganha corações. Lia põe autocolantes de estrelas. Uma estrela aqui. Outra ali. E outra só porque sim.
A joaninha visita a janela outra vez. O vento faz uma dança baixinha. As fitas dizem fssss… fssss… como suspiros felizes.
Lia encosta a cabeça no ombro da mãe. “Hoje foi mágico”, diz ela.
“Foi”, diz o pai. “A magia mora nas coisas simples.”
“A magia mora nos abraços”, diz a mãe.
Lia sorri. O coelhinho de pano fica ao colo. A casa fica tranquila. A guirlanda olha a tarde passar. O sol se deita devagar. Tudo fica dourado e calmo.
Hoje é Páscoa. E está tudo bem. E está tudo doce. E está tudo junto.