Parte 1
Era véspera de Páscoa. Lá fora, a noite estava macia, com lua redonda e cheirinho de primavera. Dentro de casa, quatro meninos de quatro anos estavam de pijama: o Tomás, o Leo, o Bento e o Rui.
Na sala, havia um cesto com ovos de chocolate brilhantes, embrulhados em papel colorido. A mãe disse: “Amanhã é a caça aos ovos.”
Os quatro fizeram “ooooh”.
O pai sorriu: “Mas agora é hora de dormir.”
O Tomás apertou o coelho de peluche. “E se eu sonhar com ovos?”
“Pode sonhar,” disse a mãe. “Sonhos são bons.”
No quarto, as luzes ficaram pequeninas. A janela tinha uma cortina azul. A lua fazia um risco prateado no chão.
O Leo sussurrou: “Eu queria uma caça aos ovos… à noite.”
O Bento abriu muito os olhos. “Uma caça noturna!”
O Rui riu baixinho. “Com lanternas!”
Tomás encostou a cabeça na almofada. “Eu acho que… eu acho que vou imaginar.”
E imaginar foi como abrir uma porta devagar. Na cabeça do Tomás, a cama virou um barquinho de nuvens. E os quatro amigos estavam juntos, bem juntinhos, sem sair do quarto de verdade. Era um sonho feliz.
No sonho, cada um tinha uma lanterna pequena. As lanternas não eram de pilhas. Eram lanternas de luz de estrela. Faziam um brilho amarelo e doce, como mel.
“Vamos?” perguntou o Tomás.
“Vamos!” disseram os três, ao mesmo tempo.
Parte 2
A porta do quarto, no sonho, abriu para um jardim feito de cores. A relva era verde, verde, verde. As flores pareciam rebuçados. E o ar cheirava a chocolate quente.
Lá ao fundo, perto de um arbusto, ouviu-se um “toc toc toc”, bem baixinho.
O Rui apontou a lanterna. “Quem está aí?”
Uma voz fininha respondeu: “Shhh… é uma noite especial.”
De trás de uma cesta apareceu um Coelhinho da Páscoa pequenino. Tinha um laço cor-de-rosa e orelhas que abanavam.
O Leo ficou boquiaberto. “És… és mesmo de verdade?”
O coelhinho piscou um olho. “Sou de sonho. Mas sou simpático.”
O Bento perguntou: “Há ovos?”
“Há ovos, sim,” disse o coelhinho. “Mas nesta caça noturna há uma regra.”
Tomás engoliu em seco, mas não ficou com medo. A voz do coelhinho era suave.
“Regra?” perguntou Tomás.
“Regra do carinho,” disse o coelhinho. “Cada ovo que encontrarem é para partilhar. Um pedacinho para cada amigo.”
Os quatro meninos fizeram que sim com a cabeça.
O coelhinho bateu palminhas. “Então… procurem onde a luz da lua beija.”
A lua, redonda e calma, fazia poças de luz no chão. Os meninos caminharam devagar, a rir baixinho. As lanternas de estrela dançavam nas mãos.
O Leo encontrou o primeiro ovo atrás de um vaso. “Achei!”
Era um ovo de chocolate embrulhado em papel azul com pintinhas brancas. O Leo abriu com cuidado. “Um bocadinho para ti, Tomás. Um bocadinho para ti, Bento. Um bocadinho para ti, Rui. E um bocadinho para mim.” Mastigaram devagar. Era doce e morno, como abraço.
O Bento disse: “Eu quero achar um!”
O coelhinho fez “hmm” e apontou com a orelha. “Onde há riso, há surpresa.”
O Bento ouviu uma risadinha. Era um passarinho de papel, pendurado numa árvore. Debaixo dele, escondido, havia um ovo com papel amarelo. Bento gritou baixinho: “Aqui!”
Partilharam de novo. “Um para cada,” repetiram, como canção.
O Rui achou um ovo vermelho perto de uma pedra. A pedra parecia ter sorriso. O Tomás achou um ovo verde dentro de uma bota de jardinagem. Todos disseram “Uau!” e “Que giro!” e “Mais um!”
A cada ovo, o coelhinho fazia uma magia pequenina. Uma flor mudava de cor. Um vento cheirava a baunilha. Uma nuvem fazia forma de coração. Tudo era leve, leve.
Depois, o coelhinho pousou a patinha no chão. “Agora, o último.”
“Último?” perguntou o Leo, com um ar de quem queria mais.
“Sim,” disse o coelhinho. “Porque o melhor ovo não é o maior. É o mais… brilhante.”
Ele levou-os até um canteiro. A lua brilhava ali como um sorriso. Debaixo de uma folha grande, estava um ovo dourado.
Tomás pegou nele com as duas mãos. “É lindo.”
O coelhinho disse: “Abram juntos.”
Os quatro seguraram o ovo. “Um, dois, três.” E abriram.
Dentro não havia só chocolate. Havia também confetes de açúcar e um bilhetinho. Tomás leu, devagar: “Páscoa é cor. Páscoa é partilha. Páscoa é amizade.”
Os quatro abraçaram-se, bem apertadinhos.
Parte 3
A luz do jardim ficou mais suave. O coelhinho bocejou. “Agora, é hora de voltar ao quarto.”
“Mas… e os ovos?” perguntou o Rui.
O coelhinho sorriu. “Os ovos do sonho viram alegria no peito. E amanhã… amanhã há ovos de verdade.”
Tomás sentiu uma quentura boa. “Obrigada, coelhinho.”
“De nada,” disse ele. “E lembrem-se: juntos é mais doce.”
O jardim foi ficando pequenino, como uma pintura. As lanternas de estrela apagaram-se devagar. E o Tomás ouviu a voz da mãe, longe e perto ao mesmo tempo: “Dormem bem, meus amores.”
De manhã, o sol entrou pela janela. Os quatro meninos acordaram na sala, todos com os olhos brilhantes, porque tinham dormido ali numa manta grande, como acampamento.
O pai disse: “Prontos para a caça aos ovos?”
Os quatro gritaram: “Sim!”
A mãe pôs um cesto no meio. “Lembrem-se: partilhar.”
Tomás olhou para os amigos e sorriu. “Regra do carinho.”
E lá foram eles, pelo corredor e pelo quintal, a encontrar ovos de chocolate em cantinhos. Atrás do vaso. Debaixo da folha. Perto da pedra que parecia sorrir.
Cada vez que achavam um, diziam juntos: “Um bocadinho para cada!”
E a Páscoa ficou cheia de risos, cores e uma magia calma, como se a lua ainda estivesse a beijar o chão, só que agora era o sol a dizer: “Bom dia.”