Parte 1
A Lia tinha 3 anos e uns caracóis pequenos a saltar na testa. Era manhã clara. A casa cheirava a pão e a chocolate.
Lia estava sentada no tapete, com um coelhinho de peluche ao colo. Ela mexia as orelhas do boneco e fazia um sorriso.
De repente, ouviu-se um som lá fora.
“Dlim… dlim… dlim…”
Lia levantou a cabeça bem depressa. Os olhos ficaram redondos.
“Ouvi!” disse Lia. “Uma campainha!”
A mamã veio à porta da sala. “Também ouvi, Lia. É uma sineta. Está a passar na rua.”
“Quem toca?” perguntou Lia, com a voz macia.
A mamã piscou o olho. “Nesta altura do ano… pode ser alguém muito especial.”
“É o Coelho da Páscoa?” perguntou Lia, quase a rir.
A mamã encolheu os ombros, a brincar. “Talvez. Vamos ver?”
Lia saltou do tapete. “Ver! Ver!”
Ela calçou os sapatinhos. Um pé. Depois o outro pé. “Pronto!” disse, orgulhosa.
Na cozinha, a mesa tinha ovos para pintar. Havia um copo com pincéis. Havia cores: amarelo, vermelho, azul e verde. Havia também autocolantes brilhantes.
“Primeiro, podemos pintar um ovo,” disse a mamã. “Assim a Páscoa fica ainda mais colorida.”
“Sim!” disse Lia.
Lia molhou o pincel no amarelo. Pintou uma bolinha. Depois outra bolinha. E outra.
“Bolinhas, bolinhas,” cantou Lia baixinho.
A mamã pintou riscas azuis no outro ovo. “Riscas, riscas,” cantou a mamã.
O papá apareceu e disse: “Eu faço um ovo com estrelas!”
“Estrelas!” repetiu Lia. Ela adorava repetir.
“Dlim… dlim…” voltou a soar, mais perto.
Lia deixou o pincel no copo. “A sineta outra vez!”
A mamã limpou as mãos num pano. “Vamos à janela, pequenina.”
Lia subiu num banquinho. A mamã ficou ao lado, a segurar bem.
Lá fora, a rua tinha sol. As árvores tinham folhas novas. E, ao fundo, passava uma coisa curiosa: um carrinho pequenino, cheio de fitas coloridas. Na ponta, uma sineta brilhava e fazia “dlim, dlim”.
“Olha!” disse Lia. “Brilha!”
O carrinho parou um instante. E, mesmo ali, pareceu que uma sombra fofinha saltou atrás dele. Uma sombra com orelhas compridas.
Lia abriu a boca, sem fazer barulho. Depois sussurrou: “Coelho…”
O carrinho seguiu caminho. A sineta ficou mais baixinha, mais baixinha.
“Vamos seguir?” perguntou Lia, com cuidado, como se fosse um segredo.
A mamã sorriu. “Vamos, sim. Mas devagar. E sempre juntos.”
“Juntos,” disse Lia, feliz.
Parte 2
Na rua, o ar era morno. Lia deu a mão à mamã e a outra mão ao papá. Ela sentia-se forte, no meio dos dois.
“Dlim… dlim…” guiava o caminho.
Passaram pela padaria. O senhor da padaria acenou. “Boa Páscoa!”
“Boa Páscoa!” repetiu Lia. Ela adorava dizer isso.
Passaram por um jardim pequeno. Havia tulipas vermelhas e amarelas. Havia um banco verde. E havia um cheiro bom de relva.
A sineta voltou a tocar, mais perto. “Dlim, dlim, dlim!”
Lia riu. “A sineta está a brincar!”
No jardim, viram uma coisa no chão: uma fitinha cor-de-rosa, enrolada como um caracol.
“Olha, mamã!” disse Lia. “Fita!”
A mamã pegou na fita. Era macia e brilhante. E tinha um desenho: um ovo pequenino com um sorriso.
“Que bonito,” disse a mamã. “Talvez seja um convite.”
“Convite?” perguntou Lia.
“Um convite para procurar,” explicou o papá. “Procurar ovinhos.”
“Procurar!” disse Lia, e começou logo a olhar para todo o lado. “Onde? Onde?”
De trás de um vaso, apareceu um coelho de verdade. Era castanho-claro, com nariz a tremer. Ele ficou quietinho, a observar.
Lia parou também. Bem quietinha.
“Olá,” disse Lia, muito baixinho. “Olá, coelho.”
O coelho inclinou a cabeça, como se entendesse. Depois, deu um saltinho. E outro saltinho. E foi até uma cesta pequenina, escondida atrás do banco.
“Cesta!” disse Lia, com alegria.
Dentro da cesta havia um ovo de chocolate embrulhado em papel dourado. E havia um ovo pintado de verde com bolinhas amarelas, como os da Lia.
Lia tocou de leve no ovo pintado. “É igual… quase igual.”
A mamã riu baixinho. “Parece magia de Páscoa.”
O coelho cheirou a fita cor-de-rosa e, com o focinho, empurrou-a para a mão da Lia, como se dissesse: “É tua.”
“Obrigada,” disse Lia. Ela falou com o coelho como falava com os amigos.
O coelho fez um saltinho para trás e correu para as flores. Não era assustador. Era só fofinho e rápido.
A sineta soou mais uma vez, bem pertinho. “Dlim!”
Lia olhou para cima. Numa árvore, pendurado num ramo baixo, estava um sininho pequeno, dourado, preso por uma fita azul. O vento mexia. O sininho cantava.
“Ele canta sozinho,” disse Lia.
“O vento ajuda,” explicou o papá. “E a Páscoa também ajuda um bocadinho.”
Lia esticou o braço. Não chegava.
A mamã levantou Lia com cuidado. Lia encostou a mão no sininho. O metal estava fresquinho.
“Dlim…” fez o sininho, bem baixinho, só para ela.
Lia sorriu. “Olá, sineta.”
E, como se fosse resposta, uma folhinha caiu devagarinho, mesmo em cima do ombro da Lia. Ela riu.
“Eu sou uma árvore!” brincou Lia.
“Uma árvore pequenina,” disse a mamã, e deu-lhe um beijo na bochecha.
Parte 3
Voltaram para casa com a cesta e a fita. No caminho, Lia cantava: “Dlim dlim, Páscoa sim!”
Em casa, puseram os ovos pintados a secar. A mamã colocou o ovo de chocolate numa caixinha. “Depois do almoço,” disse ela.
“Depois,” repetiu Lia, sem se zangar. Ela gostava quando tudo era simples.
O papá pôs a fita cor-de-rosa na porta do quarto da Lia, como enfeite. “Agora a porta está em festa,” disse ele.
“Em festa!” disse Lia, e rodopiou devagar.
À tarde, a família fez uma caça aos ovinhos pela sala. A mamã escondia um ovinho de papel aqui. O papá escondia outro ali. E Lia procurava.
“Está aqui?” perguntava Lia, metendo a mão atrás da almofada.
“Não está aí,” dizia o papá, a rir.
“Então está ali?” Lia olhava debaixo da mesa.
“Quase!” dizia a mamã.
Lia encontrava. Um. Dois. Três. E batia palminhas.
Quando o último ovinho apareceu, Lia sentou-se no sofá, a abraçar o coelhinho de peluche. Os olhos estavam calmos. A barriga estava contente.
Lá fora, muito longe, ouviu-se uma última vez: “Dlim… dlim…”
Lia encostou a cabeça no ombro da mamã. “A sineta diz boa noite?”
A mamã acariciou os caracóis da Lia. “Diz sim. Diz: ‘Boa Páscoa, Lia.'”
“Boa Páscoa,” sussurrou Lia.
O papá apagou a luz grande e deixou só uma luz pequenina, amarela como o sol. A casa ficou tranquila. A Páscoa ficou ali, no ar, como um cheirinho doce.
Lia fechou os olhos, com um sorriso. E, no silêncio, parecia que o sininho ainda cantava, bem baixinho, só para ela: “Dlim… dlim… dlim…”