Parte 1
A Lara tinha 3 anos e mãos pequeninas que gostavam de fazer coisas grandes. Na cozinha, a mesa estava pronta: uma toalha com pintinhas, um prato com ovos cozidos e copinhos com tinta de muitas cores.
“Hoje é Páscoa!” disse a mamã, com um sorriso brilhante.
“Páscoa tem chocolate!” disse a Lara, muito séria, como se fosse uma regra do mundo.
“E tem ovos pintados,” respondeu o papá. “Ovos que ficam a parecer estrelas, flores e… bolinhas malucas.”
A Lara riu. “Bolinhas malucas!”
Ela sentou-se na cadeira alta. Os pés balançavam no ar, um, dois, um, dois. A mamã deu-lhe um pincel e a Lara segurou como quem segura uma varinha.
“Este é o meu pincel mágico,” sussurrou ela.
A mamã piscou o olho. “Então faz magia com calma, devagarinho.”
A Lara escolheu o primeiro ovo. Era branco e liso, como uma lua pequenina. Mergulhou o pincel no amarelo.
“Amarelo é sol!” disse ela.
E pintou uma risca, depois outra, depois outra. O ovo ficou com um chapéu de sol. A Lara achou que o ovo estava a sorrir. Talvez fosse só a risca torta. Talvez fosse mesmo um sorriso.
Quando ela mudou para o azul, aconteceu uma coisa estranha e engraçada: o pincel fez “plim!” e uma gota saltou, bem redondinha, para cima do ovo.
“Olha!” disse a Lara. “A tinta saltou sozinha!”
O papá aproximou o rosto. “Uau… isso foi um salto olímpico.”
A Lara riu tanto que quase fez “plim” com o nariz.
Ela pintou mais ovos: um com riscas cor-de-rosa, outro com pintas verdes, outro com manchas roxas que pareciam nuvens de sumo de uva. A cozinha cheirava a bolo e a festa. Lá fora, o sol fazia cosquinhas na janela.
No fim, havia um ovo especial, maior e mais pesado. A mamã disse: “Este é para guardarmos no centro da mesa.”
A Lara olhou para ele com atenção. “Este vai ser… arco-íris!”
Ela molhou o pincel no vermelho. Depois no laranja. Depois no azul. As cores misturaram-se e brilharam como rebuçados.
E então… “plim, plim, plim!”
Três gotinhas de tinta caíram no ovo sozinhas, bem certinhas, como se alguém invisível estivesse a ajudar.
A Lara arregalou os olhos. “Mamã… o meu pincel está a fazer cócegas no ovo!”
A mamã riu baixinho. “Na Páscoa, até as coisas gostam de brincar.”
A Lara sentiu-se segura, quentinha por dentro. Continuou a pintar, devagar. O ovo arco-íris ficou tão colorido que parecia ter música lá dentro.
Parte 2
Quando todos os ovos estavam pintados, a mamã colocou-os num cesto com palha macia. Pareciam dormir num ninho de ouro claro.
“Agora vamos pôr a mesa,” disse o papá.
A Lara ajudou com um guardanapo e uma colher. A colher fez “cloc” e a Lara disse: “A colher está a falar!”
“Está a dizer ‘cloc, cloc, feliz Páscoa',” brincou o papá.
A Lara olhou para o cesto. O ovo arco-íris estava mesmo no meio, como um rei pequenino. De repente, aconteceu outra coisa: uma luz muito suave, quase como um brilho de bolha de sabão, apareceu em volta dele. Não era forte, não assustava. Era só… bonita.
A Lara aproximou o nariz. “Cheira a chocolate?”
E cheirava mesmo. Um cheirinho doce, quentinho, como quando se abre uma caixa nova.
“Será que o Coelhinho da Páscoa passou por aqui?” perguntou a Lara, num sussurro.
A mamã respondeu com a voz calma: “Talvez tenha passado com as patinhas bem leves. E talvez tenha deixado um bocadinho de magia para agradecer os teus ovos.”
A Lara ficou muito contente. “Obrigada, coelhinho!”
Nesse momento, uma pequena marca apareceu na palha do cesto: duas pegadinhas pequeninas, como as de um coelho a dançar. A Lara soltou um “oh!” redondo.
“Ele dança!” disse ela.
O papá fez uma cara surpresa e engraçada. “Então é um coelho bailarino. Deve gostar de música.”
A Lara bateu palmas, bem devagar, para não acordar os ovos. “Tum, tum, tum.” E as pegadinhas pareciam seguir o ritmo, uma, duas, uma, duas, como se a palha tivesse pés.
A Lara riu baixinho. “A palha tem pés!”
A mamã puxou a Lara para o colo por um instante. “A magia da Páscoa é assim. Pequena, doce e a rir.”
Depois, ouviram a campainha: “trim-trim!”
Era a avó, com um saco. “Feliz Páscoa, meus amores!”
A Lara correu e deu um abraço apertado. A avó tinha cheiro a sabonete e a bolachas.
“Ovos! Ovos pintados!” disse a Lara, puxando a avó pela mão até à mesa.
A avó viu o cesto e abriu a boca de surpresa. “Que cores lindas! Este aqui parece um jardim. Este parece um céu. E este… este arco-íris parece que brilha!”
A Lara endireitou o corpo. “Ele brilha porque tem cócegas.”
Todos riram.
A avó tirou do saco um coelhinho de chocolate embrulhado em papel dourado. “E este veio para ti.”
A Lara segurou o coelhinho com cuidado. “Eu não vou comer já.”
“Não?” perguntou o papá.
“Não. Primeiro ele vai ver os ovos,” disse a Lara, muito decidida.
Ela pôs o coelhinho de chocolate ao lado do cesto. E, por um segundo, pareceu que o papel dourado fez “plim”, como uma estrela a piscar. A Lara sorriu, tranquila.
Sentaram-se à mesa. Comeram um pedacinho de bolo, um pedacinho de chocolate, e falaram das cores: vermelho, azul, amarelo, verde. A Lara repetia as cores como uma canção.
Quando a tarde ficou mais macia, a Lara bocejou. A mamã pegou nela ao colo.
“Queres levar um ovo para o quarto?” perguntou a mamã.
A Lara escolheu um pequenino, com pintas verdes. “Este é o ovo das pintinhas felizes.”
No quarto, a mamã colocou o ovo numa prateleira, bem seguro. A Lara deitou-se, abraçada ao seu coelhinho de chocolate ainda fechado.
“Páscoa é… brilhante,” murmurou ela.
“É sim,” disse a mamã. “E amanhã as cores continuam, dentro de ti.”
A Lara fechou os olhos. Na sua cabeça, os ovos dançavam devagar, sem pressa. E o ovo arco-íris, lá na cozinha, parecia guardar a casa com um brilho doce, como um sorriso a dormir.