Na vila das Flores Claras, vivia um dragãozinho de escamas cor de pêssego. Ele se chamava Lume. Lume era pequeno. Lume tinha asas macias e olhos curiosos. Ele gostava de andar devagar. Ele gostava de cheirar as flores. Ele gostava de ouvir as histórias dos vizinhos.
Páscoa estava chegando. A vila enchia-se de cores. As janelas ganharam fitas. As mesas ganharam guardanapos desenhados com coelhinhos. No ar havia cheiro de canela e chocolate. Crianças corriam com cestinhas. Todos sorriam. Lume queria participar. Ele também queria aprender as coisas da festa.
Na praça, a tia Rosa pendurava ovos pintados numa corda. Ela ria e cantava. "Aqui se pendura ovo, para a sorte não fugir!", dizia ela, bateu palmas e os netos aplaudiram. Lume ficou intrigado. Ele nunca tinha visto ovo pendurado. Em sua casa, a Páscoa era diferente. Lá, as luzes brilhavam e pequenos sinos tocavam. Mas ovos pendurados? Lume queria tentar.
Lume foi até a tia Rosa. "Posso aprender a pintar ovos?" perguntou ele timidamente. Tia Rosa sorriu com gosto. "Claro! Vem cá, meu bem. Vou te ensinar um costume antigo." Ela deu a Lume um avental florido. O avental fez Lume sentir-se importante. Ele sorriu grande.
Na mesa havia ovos cozidos. Havia tintas de todas as cores. Havia pinceis e purpurina que brilhava como pó de estrela. Lume tocou no pincel. Ele sentiu cócegas nas asas. "Pinta um ovo de amarelo, para o sol", disse tia Rosa. "Pinta outro de azul, para o rio." Lume pintou. Fez círculos. Fez linhas. Fez bolinhas. O ovo ficou alegre. O ovo pareceu sorrir.
Depois vieram as fitas. Tia Rosa mostrou como amarrar. "Um laço bem feito guarda um desejo", explicou ela. Lume fez um laço. O laço ficou um pouco torto, mas foi com amor. Ele colocou o ovo no fio e pendurou na corda. O ovo balançou e cantou um tilintar suave. Lume olhou surpreso. Havia música nas coisas simples.
Na tarde seguinte, Lume decidiu adicionar algo do seu mundo. Ele cortou pequenas folhas brilhantes que cresciam perto do lago mágico. Essas folhas piscavam à noite com luzinha azul. Lume levou as folhas para a praça. "Posso juntar minhas folhas aos ovos?" perguntou, com voz pequena. As crianças se aproximaram. "Sim!" disseram em coro. Tia Rosa assentiu com os olhos brilhando.
Lume amarrou as folhas junto às fitas. Assim, quando o vento passava, as folhas faziam sombras de estrelas no chão. As crianças batiam palmas. "Olha as estrelas!" gritavam. O som parecia música nova. Os adultos sorriam. A vila ficou mais cheia de cores e luzes. Lume ficou muito feliz. Seu coraçãozinho bateu forte, como um tambor de alegria.
Na manhã de Páscoa, um cheirinho de pão doce veio cedo. A família de Lume trouxe chocolate em pequenos potes. Ele abriu um pote e encontrou um ovo de chocolate com cobertura brilhante. "Para você, Lume", disse a mamãe do João. Lume lambeu o chocolate com delicadeza. Estava gostoso. Estava quentinho. O chocolate derretia devagar, como nuvem ao sol.
Logo começou a caça aos ovos. As crianças correram pelos caminhos floridos. Lume correu também, mas devagar e sorrindo. Ele procurou entre arbustos, por trás de bancos e dentro de cestas de vime. Encontrou um ovo escondido sob as pétalas de uma margarida. "Aí está!" exclamou. Todos vieram ver. O ovo tinha a fita de Lume com a folha azul. "É mágico", disse a sobrinha da Dona Luz. "Brilha à noite." Lume ficou contente.
À tarde, houve uma roda de histórias sob o carvalho. As velas acenderam e as sombras dançaram nas folhas. Tia Rosa contou como, antigamente, as pessoas penduravam ovos para pedir um bom ano e agradecer pela água e pela terra. Todos escutavam calmos. Lume ouviu com atenção. Ele pensou em suas próprias tradições do lago. Pensou no som dos sinos e nas luzinhas azuis. Sentiu que podia juntar as duas coisas. Sentiu que partilhar era bonito.
Antes do pôr do sol, Lume teve uma ideia. Ele subiu no banquinho e falou com voz tímida. "Posso acrescentar algo mais?" Todos olharam. "Sim!" responderam as crianças. Lume segurou um pequeno sino dourado. Ele pendurou o sino junto a um ovo. Depois outro sino, e outro. Cada sino fez um som delicado. Acorde da vila ficou cheia de pequenos sininhos. As pessoas bateram palmas e riram.
A noite caiu bem devagar. As luzes das janelas piscavam como vagalumes. Os ovos pendurados brilhavam com cores e folhas. Os sininhos tocavam uma canção mansa. Lume sentiu calor no peito. Ele estava em casa, entre amigos. Ele aprendera uma costume e acrescentara sua própria alegria. A festa ficou mais bonita. Mais leve. Mais brilhante.
Na hora de dormir, Lume deitou-se perto da lareira. Ele segurou um pedaço de chocolate e olhou para o teto. "Hoje foi bom", murmurou ele. Lá fora, o vento fez as fitas dançarem. O som dos sinos soou como um bom-nasceu. Lume fechou os olhos. Sonhou com ovos que flutuavam como pequenos barcos. Sonhou com folhas azuis que acendiam caminhos. Sonhou com uma vila inteira cantando.
Quando acordou no dia seguinte, Lume encontrou um desenho na sua porta. Era uma fita, um ovo e um sininho desenhados com giz. Havia um bilhetinho: "Obrigado por tornar nossa Páscoa mais bonita." Lume sorriu e puxou o bilhete para perto do peito. Ele sentiu que pertencia. Ele sentiu que podia sempre juntar coisas e fazer festas ainda mais felizes.
E assim, a cada Páscoa, os ovos da praça balançavam com fitas, folhas e sininhos. Crianças e adultos lembravam de cantar a canção dos pequenos sinos. Lume contava a história da primeira vez. E todos, juntos, davam risadinhas suaves. A Páscoa na vila das Flores Claras ficou cheia de cor, de chocolate e de ternura. E Lume dormia tranquilo, com o coração aquecido pela festa que ajudara a criar.