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História que dá medo 11 a 12 anos Leitura 28 min.

O grande véu e a poeira dançante

Quatro amigos seguem uma poeira luminosa até ao mundo por trás do Grande Véu, onde descobrem um tear, sombras e um retalho que os desafia a aprender paciência e coragem para enfrentar segredos antigos.

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Quatro garotos de 12 anos na Duna do Sussurro: Nico, cabelos castanhos curtos, rosto calmo, veste olive, agachado ao centro costurando com uma grande agulha preta um pequeno retalho claro em uma fenda luminosa do Grande Véu; Miguel, cabelos pretos despenteados, expressão assustada, suéter vermelho, segura um bastão à frente, à esquerda e um pouco atrás; Tomás, cabelo loiro, sorriso nervoso, jaqueta azul, segura uma lanterninha que ilumina o ponto da costura, à direita; Rafa, cabelo castanho, olhar desconfiado, casaco cinza, segura o retalho atrás de Nico, ligeiramente à esquerda. As dunas são de areia cinzenta, o Grande Véu desce do céu como tecido espesso e plissado com franjas que tocam o chão, há névoa no horizonte, sombras longas e pequenas formas mascaradas no fundo; a cena tem luz suave da lanterna, contrastes nítidos, grãos de areia levantando-se e uma tensão calma enquanto os meninos vigiam. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1

No mundo do Grande Véu, o céu não era exatamente céu. Era um tecido imenso, cinzento-azulado, esticado de horizonte a horizonte, como se alguém tivesse pendurado uma cortina sobre o universo e esquecido de a abrir. Às vezes, o Véu ondulava devagar, e o vento vinha com cheiro de poeira antiga e metal frio.

Nico reparou primeiro.

Ele estava sentado num degrau de pedra, na orla da Praça dos Fios, esperando os outros terminarem de discutir qual era o melhor sabor de pastilha (Miguel jurava que menta era “sabor de escova de dentes”, o que era uma ofensa grave, segundo ele). Nico não tinha pressa. Tinha o tipo de paciência que fazia as pessoas esquecerem que ele estava ali… até ele dizer algo muito certeiro.

Foi então que viu.

Uma poeira minúscula, quase invisível, dançando no ar, como um pontinho de luz preso dentro de um grão. Não era o movimento normal de poeira empurrada pelo vento. Aquilo girava em círculos perfeitos, como se seguisse uma música que ninguém mais ouvia.

Nico estreitou os olhos. A poeira desenhou um oito no ar. Depois, parou. Depois, recomeçou, como se estivesse à espera de um olhar atento.

— Estão a ver aquilo? — perguntou ele, baixinho.

Miguel, Tomás e Rafa viraram-se. Os quatro tinham doze anos e uma energia que normalmente se espalhava como tinta. Mas o tom de Nico, calmo e firme, puxou a atenção deles como um anzol.

— Ver o quê? — Miguel fez uma careta, mastigando a pastilha como se quisesse derrotá-la.

— Ali. Um pontinho a dançar.

Tomás aproximou-se, curioso e com aquele jeito de quem queria sempre desmontar o mundo para ver as peças. Rafa, mais desconfiado, ficou meio passo atrás, braços cruzados, como se o ar pudesse morder.

— Isso é só poeira — disse Rafa. — A Praça está cheia disso.

A poeira, como se se ofendesse, fez uma pirueta rápida e subiu, contrariando o vento.

Tomás soltou um assobio curto.

— Ok. Poeira… com personalidade.

Nico não estendeu a mão. Observou. Esperou. A paciência, ele sabia, às vezes era a única forma de ouvir coisas pequenas.

O grão luminoso desceu, devagar, até ficar à altura dos olhos de Nico. Depois, moveu-se para o lado, como se dissesse: “Venham.”

Miguel engoliu em seco.

— Eu juro que, se isso for uma daquelas coisas que nos leva a um lugar onde há sanguessugas do tamanho de pombos, eu vou reclamar muito.

— Tu reclamas muito de qualquer forma — disse Tomás.

— Reclamar é um talento — respondeu Miguel, ofendido.

A poeira deslizou para fora da praça, na direção do bairro das Cordas Mortas, onde as casas eram estreitas e as ruas pareciam sempre mais longas do que deviam. O Grande Véu ali em cima parecia mais baixo, como se quisesse tocar os telhados.

Nico levantou-se. Sem dramatizar.

— Vamos ver para onde vai — disse ele.

Rafa franziu o nariz.

— E se for uma armadilha?

— Então… vamos com cuidado — Nico respondeu, simples. — Sem correr. Sem gritar. Só… atentos.

E, sem perceberem bem porquê, os outros seguiram. Porque quando Nico dizia “atentos”, era como se o mundo ficasse mais nítido.

Capítulo 2

As Cordas Mortas não tinham cordas de verdade, mas sim fios antigos pendurados entre postes, tão gastos que pareciam sombras. Diziam que, antes, o Véu era costurado ali, e que os costureiros do céu tinham desaparecido numa noite em que a luz se rasgou.

A poeira dançante guiou-os por um beco que cheirava a chuva velha. As pedras estavam húmidas, mas não havia água. Era como suor de parede.

— Isto é o tipo de lugar onde o medo mora e paga renda — murmurou Miguel.

Tomás riu, mas o som morreu depressa, engolido pela estreiteza do beco.

A poeira parou diante de uma porta de madeira, tão escura que parecia carvão. No centro, havia um desenho: um olho fechado, feito de linhas finas, como se alguém tivesse riscado com unha.

Rafa aproximou-se e tocou no desenho. Retirou o dedo num pulo.

— Está… quente.

— Madeira quente? — Tomás inclinou-se. — Isso não é normal.

Nico não tocou. Observou. E esperou. O grão de poeira subiu e desceu, como um pequeno aceno impaciente.

— Então? — Miguel sussurrou. — A poeira quer que batamos?

Nico respirou fundo, como quem decide atravessar um lago gelado devagar, para não quebrar o gelo debaixo dos pés. Bateu duas vezes.

Toc. Toc.

Do outro lado, algo arranhou. Não como rato. Como unha.

Miguel deu um passo atrás.

— Eu disse sanguessugas do tamanho de pombos… mas isto é pior.

Silêncio. Depois, um estalo. A porta abriu-se sozinha, só o suficiente para revelar escuridão.

A poeira entrou, fazendo uma curva elegante, como se estivesse numa dança de salão.

Tomás acendeu a lanterna de bolso, que ele carregava “por razões científicas”. O feixe de luz cortou o ar e encontrou um corredor estreito, com paredes cobertas de tecido — tecido igual ao do Grande Véu, só que mais grosso, e manchado como se alguém tivesse derramado tinta e depois tentado limpar com pressa.

— O Véu aqui dentro… — Rafa murmurou, arrepiado.

Nico entrou primeiro, com passos cuidadosos. Os outros seguiram, tentando não respirar alto demais.

O corredor parecia crescer. A luz da lanterna não alcançava o fim. E, apesar de estarem dentro de uma casa, havia vento.

— Ouçam — disse Nico.

Eles pararam.

No vento, havia sussurros. Não palavras claras. Mais como o som de gente a falar detrás de uma cortina.

Miguel apertou o braço de Tomás.

— Não gosto quando a casa faz… vozes.

Tomás tentou soar corajoso, mas a voz saiu mais fina.

— Talvez seja… o tecido a mexer.

Um sussurro ficou mais nítido, como se tivesse decidido ser ouvido.

“Esperem.”

Nico engoliu em seco. Não por medo, mas por respeito. A palavra parecia um aviso… e um teste.

A poeira dançante pousou numa costura da parede. A costura tremeluziu, como se escondesse uma abertura.

Nico não puxou. Não rasgou. Apenas observou o ritmo do tremor, como quem tenta apanhar o tempo certo de uma música.

— Agora — disse ele, quando a vibração ficou suave.

E então, com dois dedos, afastou o tecido no ponto exato em que a costura se abria, sem resistência, como uma boca que finalmente decide falar.

Atrás, havia uma escada que descia.

E o ar lá em baixo cheirava a coisas esquecidas.

Capítulo 3

A escada era de pedra, mas a pedra parecia ter sido lavada por muitos anos de sombras. A lanterna de Tomás iluminava degraus irregulares e marcas nas paredes: linhas, círculos, olhos abertos e fechados, e uma palavra repetida em letras tortas.

CALMA. CALMA. CALMA.

Miguel leu em voz baixa, como se estivesse a contar um segredo perigoso.

— Quem escreve “calma” tantas vezes… claramente não está calmo.

— Ou está a tentar lembrar-se de como ficar — Nico respondeu.

Lá em baixo, encontraram uma sala ampla, com o teto coberto pelo mesmo tecido do Véu. Mas aqui o tecido não estava esticado: pendia, pesado, como um lençol gigante molhado. No centro da sala, havia um tear antigo, de madeira escura, cheio de fios prateados que pareciam luz solidificada.

E ao lado do tear… um espelho. Alto. Sem moldura.

O espelho não refletia a sala. Refletia outra coisa: um corredor interminável, e nele sombras que se moviam devagar, como pessoas sem pés.

Rafa aproximou-se um pouco e parou, como se uma linha invisível o impedisse.

— Isso não é… normal.

— Hoje está a ser um dia muito fraco em normalidade — Miguel comentou, tentando fazer graça, mas a garganta dele parecia apertada.

A poeira dançante flutuou até o espelho e desenhou um círculo. No vidro, o círculo ficou marcado como neblina.

Dentro do espelho, uma sombra virou a cabeça. Como se tivesse ouvido.

O feixe da lanterna tremeu.

Tomás engasgou-se num riso nervoso.

— Não olhem muito. Olhar muito é como… convidar.

Nico, porém, olhou. Não com desafio. Com atenção. Como quem tenta entender uma pessoa assustadora antes de fugir dela.

A sombra aproximou-se do “vidro” do espelho. Onde deveria haver rosto, havia uma espécie de máscara feita de tecido do Véu, costurada com pontos grossos. Os pontos pareciam feridas.

A sombra levantou a mão e encostou-a ao espelho. Do lado de cá, o vidro ficou gelado e começou a ganhar pequenas rachaduras, finas como cabelo.

Miguel deu um salto para trás.

— Ok, ok, ok! Isto está a rachar! Ninguém racha coisas na minha frente sem explicação!

Rafa puxou Miguel pelo casaco.

— Silêncio!

Mas já era tarde.

A sombra empurrou. E o espelho respondeu com um som baixo, como um suspiro enorme.

As rachaduras espalharam-se e, por um instante, Nico viu o corredor do outro lado como se fosse uma rua real. Viu as sombras alinhadas, todas com máscaras costuradas, todas a mexerem-se em sincronia, como se fossem um único corpo.

Então uma voz veio, não de uma boca, mas do tecido pendurado no teto. O Véu falou, roçando palavra por palavra no ar.

“Quem… puxa… o fio… chama… a Costura.”

Tomás arregalou os olhos.

— A Costura? Isso é… uma lenda.

Rafa sussurrou:

— A Costura é o que fecha coisas… para sempre.

Miguel tentou rir e falhou.

— Eu prefiro coisas que fechem… tipo… sanduíches.

Nico respirou. A poeira dançante voltou a girar, mais rápido, como se estivesse nervosa. Ela não tinha corpo, mas Nico sentiu que ela estava a pedir: “Não corram. Não puxem de qualquer jeito.”

Ele pôs a mão no tear. Não puxou os fios. Apenas os tocou, bem de leve. Os fios estavam frios e vibravam como cordas de instrumento.

— O tear… está vivo — disse Nico.

— Como é que um tear está vivo? — Tomás perguntou, fascinado e apavorado ao mesmo tempo.

Nico olhou para a palavra nas paredes: CALMA.

— Talvez… só funcione com calma.

O espelho estalou de novo. A sombra pressionava mais forte. As outras sombras atrás dela pareciam aproximar-se.

Miguel apontou para a escada.

— A minha calma quer muito ir embora.

Nico não discordou. Mas, antes de sair, viu algo preso num gancho do tear: um pequeno pedaço de tecido, dobrado, com uma linha vermelha costurada ao redor, como um selo.

A poeira dançante pousou sobre esse pedaço e ficou imóvel, como se dissesse: “Isto.”

Nico estendeu a mão e pegou. O tecido era leve, mas o peso que ele sentiu era de responsabilidade.

No momento em que tocou no pedaço, as sombras do espelho pararam.

Como se tivessem prendido a respiração.

E o Véu do teto sussurrou:

“Não… rasgues. Aprende.”

Capítulo 4

Subiram as escadas depressa, mas sem correr. A pressa, naquele lugar, parecia uma coisa barulhenta que podia chamar atenção.

Quando saíram pela porta de madeira, a rua das Cordas Mortas estava mais escura do que antes. O Grande Véu lá em cima ondulava com lentidão, pesado, e a luz parecia ter perdido um pouco da coragem.

A porta fechou-se atrás deles com um clique definitivo.

Miguel soltou o ar.

— Sobrevivemos. Isso merece… uma estátua. Minha. Com uma capa.

Rafa olhou para Nico.

— O que é isso que tiraste?

Nico abriu a mão. O pedaço de tecido parecia um retalho do próprio céu. No centro, havia um bordado: um horizonte com uma linha calma, e acima dele… um olho fechado.

Tomás inclinou-se para examinar.

— Parece um mapa.

— Um mapa que não gosta de ser visto — Rafa comentou, porque o retalho tremia, como se tivesse arrepios.

A poeira dançante flutuava à volta do retalho, como um cãozinho de guarda feito de luz.

— Para onde é que nos quer levar? — Miguel perguntou, agora mais sério.

O retalho fez um pequeno movimento, como se o bordado mudasse de lugar. A linha do horizonte apontou na direção das Dunas do Sussurro, um lugar fora da cidade onde o chão era areia cinzenta e o vento contava histórias que ninguém queria ouvir duas vezes.

Rafa engoliu em seco.

— As Dunas… dizem que lá o Véu toca o chão.

— E se toca o chão, dá para levantar? — Tomás perguntou, com aquela esperança perigosa de quem gosta de descobrir o que não deve.

Nico dobrou o retalho com cuidado.

— Vamos com calma. E juntos.

Miguel levantou um dedo.

— Eu só quero deixar registrado que “com calma” não significa “virar lanche de sombra mascarada”.

— Significa observar antes de agir — Nico respondeu. — E não entrar em pânico. Pânico é como correr no escuro.

Rafa soltou uma risada curta, sem humor.

— No escuro… a gente tropeça.

Eles foram pela rua principal, tentando parecer quatro rapazes normais numa tarde normal sob um céu normal, o que era impossível. As pessoas passavam depressa, de olhos baixos. Ninguém falava do Grande Véu. Ninguém falava das Cordas Mortas. No mundo deles, o medo tinha etiqueta: não se comenta em público.

Quando chegaram ao portão de saída da cidade, o guarda olhou para eles, depois para o céu, e fez o sinal de “olho fechado” com os dedos.

— Vão para onde não devem — disse ele, sem raiva, apenas com cansaço.

Miguel tentou parecer inocente.

— Nós? Nunca.

O guarda olhou para Nico, como se adivinhasse o tipo de paciência que não é fraqueza.

— Se ouvirem o Véu… não respondam com pressa — murmurou. — Ele gosta de quem espera.

Nico assentiu.

E, ao atravessarem o portão, a poeira dançante subiu, girou uma vez e seguiu em frente, rumo às Dunas do Sussurro, como uma pequena estrela teimosa.

Capítulo 5

As Dunas do Sussurro não eram douradas. Eram cinzentas, como cinza de fogueira. Cada passo afundava um pouco, e o som era um “shhh” constante, como se o chão pedisse silêncio.

O vento ali não empurrava. Ele puxava.

Miguel segurou o casaco.

— Tenho a sensação de que a areia está a tentar me roubar as meias.

Tomás, mesmo com medo, não perdeu o brilho curioso.

— Olhem as marcas… — disse, apontando para sulcos na areia. — Não são pegadas. São… arrastos.

Rafa aproximou a lanterna do chão, embora ainda fosse dia. A luz parecia mais fraca ali, como se o ar a engolisse.

Os sulcos formavam linhas que convergiam para um ponto ao longe, onde o Grande Véu descia até quase tocar a areia. Dali, pendiam franjas longas, como cabelo de gigante.

O retalho no bolso de Nico vibrou. A poeira dançante girou em direção àquele ponto, impaciente.

Quando se aproximaram, o ar ficou gelado. O Véu, tão perto, parecia ter textura. Não era só tecido. Era como neblina grossa que se tinha esquecido de ser neblina.

E então ouviram, claro como um sussurro no ouvido:

“Devolve… o ponto…”

Miguel parou.

— Ponto? Tipo… ponto final? Eu também queria um ponto final.

Rafa apontou para a franja do Véu. Entre as tiras, havia algo pendurado: uma pequena agulha, negra, feita de osso ou metal queimado. Ela balançava sozinha, sem vento suficiente para isso.

Tomás deu um passo e recuou.

— Isso parece… uma agulha de costura.

Nico tirou o retalho e segurou-o diante do Véu. A poeira dançante pousou nele e desenhou um círculo sobre o olho fechado bordado. O olho, no bordado, pareceu “apertar” mais, como se tentasse não ver.

“A Costura” — Rafa sussurrou. — Ela quer fechar algo.

O Véu baixou um pouco mais. As franjas tocaram a areia e começaram a escrever linhas nela, como dedos apressados. As palavras surgiram e desapareceram.

ESPEREM.

NÃO PUXEM.

OUÇAM.

Miguel, pela primeira vez, não fez piada. A boca dele ficou seca.

— Eu estou a ouvir. Estou a ouvir muito.

Tomás olhou para Nico.

— O que fazemos?

Nico olhou para a agulha pendurada. Olhou para o retalho. Olhou para o horizonte distante, onde a cidade parecia pequena e segura.

E então ele fez algo que parecia simples, mas era difícil: ficou quieto.

Ficou quieto o suficiente para notar que a poeira dançante não estava só a guiar. Ela estava a tremer, como se tivesse medo de algo maior.

No silêncio, Nico percebeu: o Véu não queria apenas fechar. Queria fechar depressa. E depressa, em coisas mágicas, quase sempre dá errado.

Nico falou devagar, com respeito, como se falasse com uma tempestade.

— Nós não vamos rasgar. Não vamos puxar. Vamos… costurar direito.

O Véu ondulou. O vento parou por um segundo.

A agulha de osso balançou mais baixo, oferecendo-se.

Rafa arregalou os olhos.

— Nico… tu vais pegar nisso?

— Vou. Mas não sozinho — Nico respondeu.

Ele estendeu a mão. A agulha era fria como gelo guardado. Quando a pegou, um tremor passou pelo tecido do céu e correu pelas dunas.

No mesmo instante, sombras apareceram ao longe, na areia, deslizando como manchas de tinta. Máscaras costuradas. As mesmas do espelho.

Miguel deu um passo para trás.

— Eles encontraram a saída.

Tomás levantou a lanterna como se fosse uma espada, o que não ajudou muito, mas ajudou um pouco por dentro.

Rafa olhou para Nico, tenso.

— E agora?

Nico segurou o retalho com uma mão e a agulha com a outra.

— Agora… com paciência. Um ponto de cada vez.

Capítulo 6

As sombras aproximavam-se sem pressa, o que era pior do que correr. Era como se tivessem certeza de que chegariam.

O Véu desceu mais, formando uma espécie de arco sobre os quatro rapazes. Debaixo dele, o som do mundo mudou. O vento ficou abafado. O “shhh” da areia virou um sussurro de muitas vozes juntas, tentando dizer a mesma coisa por bocas diferentes.

Nico viu, no tecido do Véu, uma fenda fina, quase invisível — um rasgo antigo, remendado mal. A linha do remendo estava torta, apertada demais, como um nó feito com raiva.

— Aqui — disse Nico.

Tomás aproximou a luz. A fenda parecia respirar.

Rafa segurou o retalho aberto.

— O retalho encaixa?

Nico colocou o pedaço bordado sobre a fenda. O tecido do retalho aderiu como se tivesse saudades do lugar.

Miguel engoliu em seco.

— Por favor, por favor, por favor… que isto não acorde um monstro do tamanho de uma casa.

— Se acordar, tu conversas com ele — Tomás murmurou.

— Eu converso, sim. Eu digo: “Senhor monstro, tenha um bom dia e não me coma.” — Miguel respondeu, num fio de voz.

Nico começou a costurar.

A agulha atravessou o tecido com dificuldade, como se o Véu fosse uma pele grossa. Mas, quando passava, deixava um caminho de luz. A linha que saía não era de algodão: era um brilho fino, que se esticava e depois se acomodava como se fosse vivo.

Nico fez o primeiro ponto. Depois parou.

Esperou.

As sombras, ao longe, também pararam por um instante, como se sentissem o ponto.

— Estás… a fazer pausas? — Rafa perguntou, inquieto.

— O Véu está a reagir — Nico respondeu. — Se eu puxar rápido, rasga mais. Se eu esperar… ele aceita.

Fez o segundo ponto. Parou. Esperou. Sentiu o tecido relaxar um pouco.

Tomás olhou para as sombras.

— Elas estão mais lentas.

Miguel apontou, tremendo.

— Mas continuam a vir!

Nico assentiu. O coração dele batia forte, mas a mão continuava firme. Paciência não era ficar parado. Era avançar sem se perder.

Terceiro ponto. Pausa.

O Véu sussurrou, agora não como ameaça, mas como lembrança:

“Calma… é força…”

Rafa ficou ao lado de Nico, segurando o retalho esticado para não enrugar. Tomás segurou a lanterna, ajustando o feixe para Nico ver. Miguel, mesmo assustado, pegou num pedaço de madeira do chão e ficou de guarda, como se isso pudesse enfrentar sombras, mas também como se dissesse: “Eu estou aqui.”

Quarto ponto. Pausa.

Uma sombra mais à frente levantou a mão e arrancou um pedaço de areia, atirando-o ao vento. A areia virou pequenos insetos escuros que voaram na direção deles, zumbindo como agulhas.

Miguel gritou:

— Ah! Insetos de areia! Eu odeio o conceito!

Rafa tentou bater neles com a manga. Tomás apagou e acendeu a lanterna, e os insetos recuaram da luz por um segundo.

Nico não parou de costurar, mas também não acelerou. O segredo era esse: não deixar o medo ditar o ritmo.

— Miguel, luz! — Nico disse.

— Eu não tenho luz! Eu tenho… pânico! — Miguel respondeu, mas puxou do bolso um pequeno isqueiro (que ele guardava “para emergências e marshmallows imaginários”). Acendeu. A chama dançou, e a poeira dançante girou em volta da chama como se a protegesse.

Os insetos escuros recuaram.

Quinto ponto. Pausa.

O remendo no Véu começou a brilhar. A fenda diminuiu.

As sombras pararam de novo. Pareciam confusas, como se a porta por onde vinham estivesse a fechar.

Sexto ponto. Pausa mais longa.

Nico sentiu uma vontade enorme de puxar a linha com força e acabar logo. A vontade era como uma mão no ombro dele, empurrando.

Ele fechou os olhos por um segundo. Pensou: “Não.”

Abriu-os. Fez o sétimo ponto, suave.

E, com esse ponto, o retalho encaixou completamente. O olho bordado no centro pareceu relaxar. O Véu, acima, levantou-se um pouco, como se respirasse aliviado.

As sombras, diante deles, estremeceram. As máscaras costuradas rugaram-se, como tecido molhado.

Uma voz, vinda não de uma sombra, mas do próprio ar, soou triste:

“Sem rasgo… não há passagem…”

E então, como tinta diluída em água, as sombras começaram a desfazer-se. Primeiro as mãos, depois os corpos, por fim as máscaras, que caíram na areia e viraram pó.

Miguel deixou o pedaço de madeira cair.

— Eu… eu acho que acabámos de costurar o céu.

Tomás deu uma gargalhada curta, quase histérica.

— Isto vai ficar ótimo num trabalho de escola. “Como remendei um universo: redação.”

Rafa olhou para Nico, ainda tremendo, mas com admiração.

— Tu… não entraste em pânico.

Nico guardou a agulha, como quem guarda um segredo perigoso.

— Entrei. Só não deixei ele mandar.

A poeira dançante subiu, fez uma volta lenta sobre eles, e depois seguiu para o horizonte. Mas agora, em vez de puxá-los, parecia apenas… mostrar o caminho.

Capítulo 7

O vento voltou a soprar nas Dunas do Sussurro, mas já não puxava. Empurrava de leve, como uma mão amiga nas costas. O Grande Véu, mais acima, parecia menos pesado. Ainda era um céu de tecido, ainda escondia coisas, mas a luz atravessava-o com mais honestidade.

Os quatro caminharam em silêncio por algum tempo, como se o corpo deles precisasse entender que ainda estavam inteiros.

Miguel quebrou o silêncio primeiro, porque era impossível ele não quebrar alguma coisa.

— Então… a moral disto é: se virem uma poeira a dançar, sigam-na e levem material de costura?

Tomás riu.

— A moral é: não sejam idiotas apressados.

Rafa olhou para Nico.

— E… paciência.

Nico assentiu, olhando a linha do horizonte. A areia cinzenta ia ficando para trás, e à frente surgia uma faixa clara onde o mundo parecia mais aberto. O retalho agora estava costurado no Véu, e, embora ninguém mais visse, Nico sentia que aquela parte do céu tinha ficado… mais firme.

A poeira dançante apareceu uma última vez, bem à frente deles, brilhando fraca, como uma vela no fim.

Ela desenhou no ar um pequeno arco, como um sorriso tímido, e espalhou-se em pontos minúsculos que se misturaram com a luz.

Miguel levantou a mão, como se se despedisse.

— Adeus, poeira estranha. Obrigado por não nos matares.

Rafa deu-lhe um empurrão leve.

— Respeito.

— Eu fui respeitoso! Eu disse “obrigado”! — Miguel protestou.

Tomás apontou para a cidade ao longe, agora com o contorno mais nítido.

— Acham que vai ficar tudo bem?

Nico olhou para o horizonte. O Grande Véu ondulava devagar, mas não ameaçava. Era como uma cortina que, mesmo fechada, já não dava a sensação de prisão.

— Não vai ficar perfeito — disse Nico. — Mas… ficou mais calmo.

Eles pararam num pequeno monte de areia e olharam para a linha distante onde o céu encontrava o chão. Não era um lugar assustador agora. Era apenas… amplo.

O horizonte, ali, parecia respirar junto com eles, tranquilo e inteiro, como se dissesse: “Há coisas que se consertam devagar.”

Miguel sentou-se e, pela primeira vez, ficou quieto sem reclamar.

— Sabe… — disse ele, com a voz baixa — eu acho que entendi. Às vezes, o mais corajoso não é correr.

Rafa sorriu de lado.

— Às vezes é aguentar.

Tomás fechou a lanterna e guardou-a.

— E fazer um ponto de cada vez.

Nico ficou a olhar o horizonte apaziguado até sentir o coração bater num ritmo normal. O mundo do Grande Véu continuava misterioso, e talvez sempre fosse. Mas, naquele momento, havia uma luz suficiente para caminhar.

E eles caminharam, juntos, de volta, com paciência nos passos e coragem quieta no peito.

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Véu
Um tecido grande que cobre o céu no mundo da história.
Cortina
Peça de tecido que se pendura para tapar janelas ou dividir espaços.
Ondulava
Movia-se em ondas, como algo que sobe e desce devagar.
Poeira
Pó muito fino que fica no ar ou sobre objetos.
Pirueta
Giro rápido e elegante, como numa dança ou acrobacia.
Tecido
Material feito de fibras usado para fazer roupas e cortinas.
Costura
Linha que une partes de tecido, feita com agulha ou máquina.
Tear
Máquina ou estrutura usada para entrelaçar fios e fazer tecido.
Rachaduras
Fendas ou quebras finas numa superfície, como no vidro.
Sincronia
Ato de várias coisas acontecerem ao mesmo tempo e juntas.
Vibravam
Moviam-se com pequenas tremidas rápidas, como cordas ou vozes.
Manchado
Com marcas de sujeira ou cor diferente, que não saiu ao limpar.
Esquecidas
Coisas que foram deixadas de lado e que ninguém lembra mais.

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