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História que dá medo 11 a 12 anos Leitura 25 min.

A vela e o universo de ecos

Tomás encontra uma vela que acende sozinha e é levado a um mundo de ecos onde vozes e sombras exigem a luz; com a ajuda de uma menina chamada Inês, ele enfrenta medos e toma decisões para devolver o que foi tomado.

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Um menino de 12 anos, rosto pálido com sardas, cabelo castanho despenteado e expressão determinada, segurando uma pequena vela acesa contra o peito, caminha devagar por um corredor escuro olhando à frente; atrás e à direita dele, uma menina fantasma de cerca de 12 anos, cabelos curtos pretos, pele ligeiramente translúcida e olhos grandes brilhantes, paira com as mãos abertas como se guiasse; ao fundo, na entrada da casa, uma avó de cerca de 70 anos, rosto enrugado e expressão preocupada, segura sacolas de compras; o corredor é antigo com lambris escuros, tapete vermelho gasto, arandelas apagadas, papel de parede descascado e uma porta de quarto entreaberta de onde sai um brilho azulado; a vela é a única fonte de luz, pequenas sombras e silhuetas móveis pressionam as paredes, criando uma atmosfera tensa e poética com forte contraste entre a chama quente e os azuis frios da escuridão. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A vela que acendeu sozinha

Tomás tinha onze anos e a mania tranquila de ouvir o silêncio. Na casa da avó, no alto de uma rua estreita, o silêncio parecia mais grosso, como uma manta. Nessa tarde chuvosa, ele estava sentado no tapete da sala, a montar um puzzle antigo com peças gastas e cheirando a papel húmido.

A avó tinha saído para a mercearia e deixara a casa com as cortinas semicerradas. A luz do dia entrava em faixas cinzentas. Tomás gostava disso. Era como se o mundo ficasse em modo de sussurro.

Foi então que viu.

No aparador, entre um porta-retratos e um vaso com flores secas, havia uma vela branca, alta, com a ponta intacta. Tomás tinha a certeza de que a vela não estava acesa. Tinha olhado para ela muitas vezes, por hábito. Mas, num piscar de olhos — como se o ar tivesse engolido a escuridão — surgiu uma chama pequena, firme, amarela com um coração azul.

Tomás ficou imóvel, com uma peça do puzzle presa entre os dedos.

— Avó? — chamou, só para ter a certeza.

Ninguém respondeu. Mas o nome dele voltou… como se a casa o repetisse em voz baixa.

“Tomás… Tomás…”

Ele levantou-se devagar. O chão parecia rangir mais do que devia. Aproximou-se do aparador, observando a chama. Não havia fósforos por perto. Nem isqueiro. Nem cheiro a fumo fresco, só o odor limpo da cera a aquecer.

E, ainda assim, a vela ardia.

A chama tremeluziu e, por um instante, parecia apontar para o corredor que levava ao quarto de visitas. Tomás engoliu em seco. Não era medo do escuro — ele já tinha onze anos. Era outra coisa: a sensação de que a casa estava à espera.

Do corredor veio um som que não deveria existir: um eco de passos… mas os passos estavam no lugar errado, como se alguém andasse dentro de um armário.

Tomás fez o que fazia quando o coração começava a correr: respirou fundo, contando até quatro, como a professora de Educação Física ensinara. Um, dois, três, quatro.

A vela estalou suavemente. E o eco repetiu o estalo, só que atrasado, como uma risada nervosa.

Tomás estendeu a mão. A cera estava morna. A chama, estranhamente, não o queimou quando ele aproximou o dedo. Só o iluminou.

— Está tudo bem — murmurou, sem saber para quem estava a falar.

E, mesmo sem querer, pegou na vela.

Quando a ergueu, as sombras da sala arrastaram-se um pouco, como se fossem cortinas pesadas. E o corredor, à sua frente, pareceu mais comprido do que era.

Capítulo 2 — O corredor das vozes devolvidas

Tomás entrou no corredor. O ar ali era mais frio e tinha um cheiro a pedra molhada, como se a casa escondesse uma gruta por baixo do soalho. A vela lançava um círculo de luz que não chegava às pontas das paredes. E as paredes… pareciam escutar.

— Olá? — disse Tomás, tentando dar firmeza à voz.

“Olá…” respondeu o eco, mas com uma entoação diferente, um pouco torta, como se a palavra tivesse sido dobrada.

Ele avançou. Cada passo que dava regressava a ele em triplicado: toc, toc, toc… Só que um dos toques vinha sempre atrasado, e parecia manco, como um pé que se arrasta.

No meio do corredor, havia uma porta que Tomás conhecia bem: a do quarto de visitas, quase sempre fechado. A maçaneta era de latão e estava fria como gelo.

A chama inclinou-se na direção da porta, insistente.

— Não é nada — disse Tomás, tentando rir. — É só uma… vela mal-educada.

A piada morreu no ar e voltou como eco: “mal-educada… mal-educada…” E, na última repetição, a voz soou mais grave.

Tomás sentiu um arrepio subir-lhe pelos braços. Mesmo assim, empurrou a porta.

O quarto de visitas estava escuro, mas não completamente: a vela revelou uma poeira suspensa que brilhava como minúsculas estrelas presas. Havia uma cama com colcha florida, uma cómoda, e um espelho grande encostado à parede, coberto por um pano.

O eco dos passos de Tomás fez o quarto parecer maior, como se houvesse mais espaço do que as paredes permitiam.

— Quem está aqui? — perguntou, agora sem brincar.

Do outro lado do quarto, perto do espelho, ouviu-se um sussurro tão leve que podia ser a chuva na janela… se a janela não estivesse fechada.

“Devolve…”

Tomás aproximou-se, a vela na mão. O pano no espelho mexeu-se sozinho, como se um vento invisível o puxasse por baixo.

— Devolver o quê? — Tomás perguntou, tentando não deixar que a voz tremesse.

O pano caiu.

No espelho, em vez do reflexo do quarto, havia um corredor igual ao que ele acabara de atravessar, mas mais escuro e mais comprido. E, no fundo desse corredor-reflexo, uma sombra de criança olhava para ele — parada, sem rosto, apenas um contorno onde a luz não entrava.

A vela estalou. O eco repetiu, mas desta vez soou como um estalo de osso.

Tomás deu um passo atrás, mas o chão atrás dele respondeu com um “toc” que não era dele. Como se alguém estivesse bem perto, imitando-o.

A sombra no espelho ergueu a mão, lenta.

“Devolve a luz.”

Tomás apertou a vela. Sentiu, pela primeira vez, medo a sério — daquele que não cabe todo no peito e tenta sair pelos olhos.

Mas também sentiu outra coisa: uma teimosia quente, como quando ele caía de bicicleta e se levantava com os joelhos a sangrar.

— Eu… eu não roubei luz nenhuma — disse ele. — Eu só a encontrei.

O quarto pareceu prender a respiração. E o eco devolveu a frase… mas com uma palavra diferente.

“Tu só a tiraste.”

Capítulo 3 — O universo de ecos

A chama da vela alongou-se e, num piscar, o quarto de visitas deixou de ser um quarto. As paredes afastaram-se como se fossem feitas de neblina. Tomás piscou várias vezes, mas não era sonho.

Ele estava num lugar impossível: um mundo feito de corredores e arcos, como um labirinto de pedra antiga. Em todo o lado, havia superfícies que refletiam som: paredes lisas, colunas ocadas, teto alto que devolvia tudo com atraso. A cada respiração dele, o lugar respondia. A cada batida do coração, um “tum” distante repetia.

A vela era agora a única coisa claramente real. A luz dela abria caminho em pequenas ondas, como se empurrasse a escuridão para trás.

— Onde é que eu… — começou Tomás.

“Onde é que eu…” repetiu o universo, e depois acrescentou, mais baixo: “fiquei?”

Tomás estremeceu. Não era um eco normal. Era um eco com vontade própria, que completava frases.

Ele caminhou. Os seus passos pareciam chamar outros passos. Às vezes, atrás dele, ouvia alguém a correr, mas quando se virava não havia ninguém. Apenas sombras enroladas no chão, como fumo.

Ao longe, viu pequenas chamas flutuantes, como velas sem corpo. Aproximou-se com cuidado, como quem se aproxima de um cão desconhecido.

As chamas tremiam ao ritmo das vozes do lugar. E as vozes… eram pedaços de conversas antigas.

“Não entres aí…”

“Volta…”

“Promete…”

Tomás percebeu, com um aperto na garganta, que algumas eram vozes familiares. A avó, a mãe, o pai, a professora… mas todas distorcidas, arrancadas de momentos diferentes e coladas ali como cartazes rasgados.

— Isso não é justo! — disse ele, irritado, e o eco devolveu a frase em gargalhadas.

Uma sombra surgiu ao lado de uma coluna. Não tinha rosto, mas tinha a forma de uma criança. E movia-se aos solavancos, como se fosse feita de som mal encaixado.

“Devolve a luz,” disse, sem abrir boca. A frase apareceu dentro do ar.

Tomás levantou a vela como um escudo.

— Eu preciso dela para ver!

A sombra aproximou-se. O ar ficou mais frio. A chama da vela encolheu um pouco, como se tivesse medo.

“Sem a tua luz, nós vemos,” sussurrou o lugar. “Com ela, tu vês. E ver é perigoso.”

Tomás engoliu em seco. A ideia de ficar sem luz ali era como imaginar cair num poço sem fundo.

Ele respirou fundo outra vez. Um, dois, três, quatro.

— Então eu vou ver mesmo assim — disse. — E vou encontrar a saída.

O eco repetiu “saída… saída…” como se a palavra fosse engraçada, como se não existisse ali.

Uma passagem abriu-se na parede à sua frente, como uma boca que se escancara. O universo de ecos parecia oferecer um caminho… ou uma armadilha.

Tomás apertou a vela com força. A cera começou a escorrer um pouco pelos seus dedos, quente. Doeu, mas a dor era boa: lembrava que ele era de carne e osso, não um som perdido.

— Vamos lá — murmurou.

E entrou.

Capítulo 4 — A biblioteca dos sussurros

A passagem desembocou numa sala enorme, redonda, cheia de estantes até ao teto. Livros antigos, cobertos de pó, alinhavam-se em filas intermináveis. O cheiro era forte: papel velho, cola, e uma nota estranha, metálica, como sangue seco.

No centro da sala, havia uma mesa de pedra. Em cima dela, uma vela apagada, igual à de Tomás, mas partida ao meio.

Quando ele deu mais um passo, a sala respondeu com milhares de sussurros, como se os livros fossem bocas.

Tomás aproximou-se da mesa. A vela partida parecia pedir para ser tocada. E, ao lado, havia um caderno aberto com páginas amareladas. A letra era miúda e tremida, mas legível.

Ele leu em voz alta, sem perceber porquê:

“Aqui guardamos os ecos que ninguém quis ouvir. Aqui a luz é emprestada, e o preço é lembrar.”

Assim que terminou, os sussurros aumentaram. E as estantes… moveram-se. Não como se caíssem, mas como se deslizassem, reorganizando o labirinto em silêncio.

— Ok… isto é oficialmente mau — disse Tomás.

“Mau… mau…” respondeu o eco, com um tom quase ofendido.

Uma figura apareceu do outro lado da sala. Não era uma sombra como as outras. Era mais nítida, com contornos de gente de verdade: uma menina, talvez da idade dele, com cabelo curto e olhos enormes, brilhando como se refletissem a chama.

Mas havia algo errado: ela não fazia som ao andar. Nem mesmo eco.

Tomás recuou um passo.

— Quem és tu?

A menina inclinou a cabeça.

— Eu sou a Inês. Ou fui. — A voz dela era baixa, mas não ecoava; era como se o lugar não a conseguisse copiar. — Tu tens a vela inteira.

Tomás olhou para a sua mão. A chama parecia mais fraca agora, como se estivesse cansada.

— Eu não sabia… — começou ele.

Inês levantou a mão e apontou para a vela partida na mesa.

— A tua chama veio daqui. Este lugar vive de vozes repetidas. Ele apanha sons, memórias… e quando falta alguma coisa, ele rouba luz para compensar. Porque no escuro, ninguém distingue o que é verdade.

Tomás sentiu um peso no estômago.

— Então… eu tirei a luz de alguém?

Inês deu um meio sorriso, triste.

— Talvez de mim. Talvez de muitos. Eu fiquei aqui porque um dia segui uma luz que parecia segura. E o lugar fechou-se. — Ela olhou para os livros. — Os ecos ficaram com as minhas palavras. Sobrou-me o silêncio.

Um ruído percorreu as estantes, como unhas a raspar em madeira. As sombras estavam a aproximar-se, atraídas pela conversa, pelo som novo.

Tomás apertou os dentes.

— Eu não quero ficar aqui. E não quero que tu fiques aqui.

Inês olhou para a chama.

— Se queres sair, tens de fazer uma coisa difícil: usar a vela sem deixar que ela seja tua. A luz tem de ser devolvida… mas não apagada.

— Isso não faz sentido.

— Faz neste lugar. — Inês apontou para o caderno. — Lê a última frase.

Tomás voltou ao caderno. As letras pareciam tremer.

Ele leu:

“A luz fiel nasce quando alguém a segura por outro.”

As sombras chegaram à beira da sala. O ar encheu-se de ecos de risos, choros, e promessas quebradas.

Inês sussurrou, com urgência:

— Divide a chama.

Tomás olhou para a vela partida. Depois para a sua vela inteira. A cera escorria e queimava-lhe a pele.

— Eu não sei como!

Inês pousou a mão, sem tocar, perto da chama. A luz reagiu, esticando-se como um fio.

— Não é com as mãos — disse ela. — É com coragem.

Tomás respirou fundo. Um, dois, três, quatro.

— Está bem — disse, com a voz firme apesar do medo. — Eu partilho.

E, pela primeira vez desde que tudo começou, ele desejou que a luz não fosse só para ele.

Capítulo 5 — A partilha da chama

Tomás aproximou a vela inteira da vela partida sobre a mesa. A chama vacilou, como se reconhecesse a outra metade. O ar encheu-se de um zumbido, um som tão baixo que parecia vir de dentro dos dentes.

As sombras avançaram. Já não eram apenas contornos: tinham mãos compridas e dedos finos, feitos de trevas e eco. Cada vez que se mexiam, deixavam atrás de si um rastro de palavras arrancadas.

“Devolve.”

“Fica.”

“Não.”

Tomás segurou a vela com as duas mãos. A cera quente escorreu mais, queimando-lhe os dedos. Ele quis largar, mas não largou. A dor era real. E ele precisava de algo real para não se perder naquele universo que dobrava a verdade.

— Inês, eu… estou com medo — admitiu.

Ela assentiu, sem vergonha.

— Eu também. Medo não é um cadeado. Só é um alarme.

Tomás olhou para a chama. Tentou imaginá-la como um copo de água que se pode repartir. Ou como um segredo bom que fica maior quando se conta.

Ele aproximou a chama do pavio quebrado da vela partida. Por um segundo, nada aconteceu. As sombras riram com vozes de crianças e velhos ao mesmo tempo.

Então, a chama estendeu-se — como um pequeno braço de fogo — e tocou no pavio partido.

Acendeu.

Duas chamas agora tremeluziam na sala: uma na vela de Tomás, outra na vela da mesa. A luz duplicou, empurrando as sombras para trás. O universo de ecos pareceu engasgar, irritado.

As estantes estremeceram. Livros caíram sozinhos, abrindo páginas que sussurravam frases incompletas.

Inês arregalou os olhos. Um brilho novo apareceu nela, como se a chama a lembrasse de si mesma.

— Está a resultar — disse ela, a voz mais firme.

As sombras, porém, não desistiram. Juntaram-se num bloco escuro, como uma onda. E da onda surgiu uma figura maior, alta, com cabeça que quase tocava o teto. No lugar do rosto havia um vazio onde os ecos se juntavam, rodopiando como moscas.

Quando falou, não foi uma voz — foram muitas.

“Luz… é… minha.”

A chama de Tomás tremeu. O medo tentou morder-lhe o peito. Ele quase voltou a ser o menino no tapete, com o puzzle. Quase.

Mas lembrou-se dos joelhos esfolados na bicicleta. Lembrou-se de voltar a subir.

— Não — disse ele, e a palavra saiu limpa. — A luz não pertence a ninguém.

O gigante avançou. A mesa de pedra rachou. A vela partida quase caiu.

Tomás pegou na vela da mesa também. Agora tinha uma em cada mão. Era estranho: as chamas não o queimavam, como se o aceitassem.

Inês aproximou-se.

— Tu tens de guiar — disse ela. — Eu sigo.

— Para onde?

Inês apontou para uma porta que Tomás não tinha visto antes, entre duas estantes. Era estreita e estava coberta por um pano negro, como uma cortina de teatro.

— Para fora da biblioteca. Para o centro do eco.

O gigante soltou um som que fazia o ar vibrar.

Tomás correu. Inês correu com ele, silenciosa. As sombras tentaram agarrá-los, mas a luz dupla abria um caminho, como duas lâminas cortando a noite.

Ao passar pela cortina, Tomás sentiu o tecido gelado roçar-lhe a testa — e ouviu, muito perto, um sussurro diferente, suave:

“Não largues.”

Ele não largou.

Capítulo 6 — O centro do eco e a lueur fidèle

Do outro lado, havia uma câmara alta, vazia, com o chão coberto de água rasa que refletia tudo como um espelho partido. No centro, um poço circular sem fundo. Dele subia um som contínuo, como o mundo a respirar por uma ferida.

As paredes eram lisas e brilhantes. Cada palavra ali ganhava vida própria e voltava com força. Tomás sentiu que aquele era o coração do lugar: o sítio onde os ecos nasciam e se alimentavam.

O gigante de sombras entrou atrás deles, enchendo a câmara com frio. O seu “rosto” vazio rodopiava de vozes.

“Devolve… a luz… toda.”

Tomás olhou para o poço. A água tremia ao ritmo da voz do gigante. Ele percebeu: o poço queria engolir a chama. Queria a luz para manter o universo de ecos vivo e fechado.

Inês parou ao lado dele, ofegante apesar de não fazer som ao andar.

— Se deres tudo ao poço, ele fica mais forte — disse ela. — Se guardares tudo para ti, ele persegue-te. Há uma terceira coisa.

Tomás apertou as velas. Duas chamas. Duas promessas.

— Qual?

Inês apontou para a água rasa.

— Faz uma ponte de luz. Não para te esconderes, mas para atravessares. A luz fiel não é a maior. É a que não te abandona.

O gigante avançou. As sombras esticaram-se, tentando apagar as chamas com mãos de negrume. A água começou a borbulhar em pequenas bolhas de som.

Tomás fechou os olhos um segundo. Ouviu o seu próprio coração. E, por trás dos ecos, ouviu algo mais simples: a lembrança da voz da avó a dizer, quando ele tinha medo de trovões, “Olha para a chama, Tomás. Ela treme, mas não desiste.”

Ele abriu os olhos.

— Inês, segura uma — disse ele, estendendo-lhe a vela da mesa.

Ela hesitou, como se não acreditasse que podia tocar em algo tão vivo. Mas pegou. A chama dela ficou estável, como se finalmente tivesse encontrado dono… ou, melhor, companhia.

Tomás levantou a sua vela e apontou para o chão, onde a água refletia a luz.

— Se este lugar vive de eco — disse ele, alto, para que o universo ouvisse — então eu vou dar-te uma coisa que não consegues copiar.

“O quê… copiar…” repetiram as paredes.

Tomás respirou fundo. Um, dois, três, quatro.

— A minha escolha.

E deu um passo em direção ao poço.

A sombra gigante esticou-se para o agarrar. Tomás não recuou. Em vez disso, inclinou a vela para a água. A chama tocou a superfície e, em vez de apagar, espalhou-se como um risco dourado — um caminho de luz desenhado sobre o espelho tremido.

Inês fez o mesmo. Duas linhas luminosas avançaram pela água, encontraram-se e formaram uma ponte estreita até à outra margem, onde se via… uma porta de madeira, simples, com uma frincha de luz real a escapar.

O gigante rugiu, e o rugido voltou em mil rugidos. As sombras tentaram cobrir a ponte, mas cada vez que tocavam na luz, ela voltava a acender, fiel, como se lembrasse o caminho.

Tomás correu pela ponte. A água salpicava sem som, como se o mundo segurasse o fôlego. Inês seguiu, mais nítida a cada passo, como se a luz a estivesse a reconstruir.

Atrás deles, o gigante tentou pisar a ponte, mas a luz não suportou o peso da mentira: não quebrou — simplesmente deixou de existir debaixo dele. O gigante caiu no poço com um som de vozes a serem engolidas.

A câmara tremeu. As paredes começaram a desfazer-se em neblina. Os ecos enlouqueceram, repetindo palavras sem sentido, como um rádio avariado.

Tomás chegou à porta. Empurrou-a com o ombro.

A luz do outro lado era quente, amarela, cheirando a casa.

Ele atravessou. Inês atravessou também. E, no momento em que passaram, as velas apagaram-se ao mesmo tempo — não por derrota, mas como quem fecha os olhos para descansar.

Tomás piscou.

Estava de novo no corredor da casa da avó. A chuva ainda batia nas janelas. O mundo parecia… normal. Mas, na sua mão, havia uma pequena vela muito mais curta do que antes, como se tivesse sido gasta em anos.

E a chama estava acesa outra vez.

Pequena. Firme.

Uma lueur fidèle.

A porta do quarto de visitas estava fechada como sempre. O silêncio voltou a ser só silêncio, sem intenções. Tomás ouviu a chave na porta da rua.

— Tomás? — chamou a avó, entrando com sacos de compras. — Estás aí?

Tomás correu até ela, com a vela protegida entre as mãos.

— Avó… a vela… — começou ele, mas parou. Como explicar um universo de ecos sem parecer maluco?

A avó olhou para a chama e, por um instante, o rosto dela ficou sério, como se reconhecesse um velho inimigo. Depois, sorriu com doçura cansada.

— Ainda bem que não ficaste no escuro — disse ela, pousando os sacos. — Há luzes que aparecem quando precisamos. E há coragens que só crescem quando tremem.

Tomás olhou para a vela. Pensou em Inês. No medo. Na dor da cera quente. Na escolha.

— Avó… eu acho que eu… eu não desisti — disse, devagar, como se a frase fosse um degrau.

A avó passou-lhe a mão pelo cabelo.

— Eu sei.

Tomás colocou a vela no aparador. A chama tremeluziu, mas não apagou. Ficou ali, fiel, como um pequeno guardião.

E, quando Tomás voltou para o tapete e pegou numa peça do puzzle, percebeu uma coisa: o silêncio já não era apenas uma manta. Era também um lugar onde a coragem podia sentar-se ao lado dele.

No corredor, por um segundo, pareceu-lhe ouvir um eco muito distante, quase feliz:

“Obrigada.”

Ele não respondeu em voz alta. Só sorriu, de leve, e continuou.

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Aparador
Móvel baixo, geralmente usado para pôr objetos como candeeiros ou fotografias.
Tremeluziu
Moveu-se com pequenos tremores, como quando algo está quase a apagar-se.
Pavio
Pequeno fio dentro da vela que queima e mantém a chama acesa.
Neblina
Névoa fina que deixa o ar húmido e a visão um pouco turva.
Labirinto
Lugar com muitos caminhos que se cruzam e é fácil perder-se.
Reflexo
Imagem que vemos numa superfície brilhante, como água ou espelho.
Frincha
Fenda estreita por onde passa um pouco de luz ou ar.
Câmara
Sala ou espaço fechado, aqui usado para descrever uma sala importante.
Eco
Som que volta quando bate numa parede ou numa superfície distante.
Rasto
Marca ou sinal que algo deixou ao passar.
Lueur fidèle
Expressão em francês que significa uma luz pequena e constante, fiel.
Coluna
Peça vertical de pedra ou outro material que sustenta o teto.

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