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História que dá medo 11 a 12 anos Leitura 17 min.

A menina que virou páginas para acender o bairro

Clara encontra um livro misterioso que a leva a enfrentar o Apagador — uma sombra que rouba a luz e a esperança do bairro — e descobre que olhar e falar com coragem pode transformar o escuro.

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Clara, 12 anos, rosto redondo com sardas, olhos grandes e decididos, expressão preocupada e corajosa, ajoelhada na relva molhada segurando um grande livro preto aberto e virando lentamente uma página; Dona Cidália, cerca de 70 anos, cabelo grisalho preso em coque, rosto enrugado e benevolente, segura uma pequena lanterna na janela de uma casa ao fundo olhando para Clara; ao pé de Clara uma sombra informe e mais escura que o chão, companheira muda sem traços humanos; o Apagador, grande massa de fumaça preta e texturada sem rosto com cavidades profundas e pontos luminosos presos que começam a escapar como vagalumes em direção às janelas; praça do parque à noite com um banco velho, escorregador enferrujado e grande raiz de árvore, chão coberto de folhas secas e relva amassada, postes apagados e algumas janelas acesas; cena principal dramática centrada em Clara e no livro, contrastes fortes de preto com pequenos pontos de luz quente, atmosfera tensa porém cheia de esperança; estilização com textura granulada de jornal, traços de tinta visíveis e paleta limitada a pretos, cinzas, ocres e amarelos quentes. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1

A Clara tinha doze anos e um jeito estranho de acalmar o mundo: virava páginas devagar. Devagar mesmo, como quem não quer assustar o papel. A noite estava tão escura que o bairro parecia ter engolido as próprias luzes. Os postes não falhavam; eles desistiam.

Ela estava sentada no degrau de casa, com o livro aberto no colo. As letras tremiam só um pouco, não por medo — dizia a si mesma —, mas por causa do vento frio que cheirava a chuva e ferro.

Quando a folha se moveu, fez um som fino, quase um sussurro: fff. E, por um instante, Clara jurou que alguém sussurrou de volta do outro lado da rua.

— Quem está aí? — perguntou, tentando soar corajosa.

Nada respondeu. Ainda assim, o escuro parecia cheio, como um quarto lotado onde todos prendem a respiração.

A vizinha, Dona Cidália, apareceu na janela, um quadrado pálido no preto.

— Menina, entra. Hoje o bairro está… diferente.

Clara fechou o livro sem bater a capa. Ela sabia que aquele “diferente” tinha peso. Desde o fim da tarde, sombras andavam com pressa demais, e as casas pareciam inclinadas para ouvir.

Ao se levantar, viu algo no asfalto: um risco branco, como giz. Era uma seta, apontando para o beco que levava à antiga biblioteca do bairro, fechada há anos. Clara engoliu seco. No risco, alguém tinha escrito com letras miúdas:

“VIRA A PÁGINA. NÃO CORRAS.”

Ela apertou o livro contra o peito. O coração queria disparar, mas ela lembrou do que sempre funcionava: um passo, depois outro. E, se fosse preciso, virar páginas devagar.

Capítulo 2

O beco era estreito e cheirava a mofo e laranjas podres. Clara avançou com cuidado, como se o chão pudesse reclamar. O livro, preso nos braços, parecia mais pesado do que antes.

Quando chegou à porta da antiga biblioteca, levou um susto: a maçaneta estava coberta de poeira, mas havia marcas recentes, como dedos.

— Isso é uma péssima ideia — murmurou para si. — Uma ideia péssima com letras caprichadas.

Ela empurrou. A porta abriu com um gemido comprido, teatral, como se o prédio estivesse acordando depois de um pesadelo.

Lá dentro, o ar era frio demais para ser só noite. As estantes, tortas, formavam corredores escuros. E, no centro, sobre uma mesa, havia uma lamparina acesa. Não fazia sentido. Mas estava lá, tremeluzindo, e jogando sombras que pareciam ter vontade própria.

Ao lado da lamparina, um livro grosso, com capa preta e sem título. Clara aproximou-se. A lamparina cheirava a óleo velho.

Ela tocou o livro preto com a ponta dos dedos. A capa era morna, como pele ao sol. Um arrepio correu pelos braços.

— Clara — disse uma voz.

Ela girou, pronta para gritar. Ninguém. Só as estantes e o silêncio, pesado como cobertor molhado.

— Clara — repetiu a voz, mais baixa. — Vira devagar.

O som vinha… do livro preto.

Clara recuou um passo.

— Quem é você?

As páginas se mexeram sozinhas, abrindo numa folha amarelada. E ali, escrito como se alguém soubesse a caligrafia dela, estava:

“SE QUERES QUE O TEU BAIRRO VOLTE A TER LUZ, LÊ. MAS NÃO TE APRESSES. A PRESSA ALIMENTA O ESCURO.”

Clara respirou fundo. Sentiu uma pontada de saudade — da rua com risos, das janelas iluminadas, do cheiro de jantar. Uma saudade que doía e dava coragem.

— Tá — disse ela, tremendo. — Mas eu não faço isso sozinha.

Como resposta, a lamparina piscou. E uma segunda sombra apareceu ao lado da dela… embora Clara estivesse sozinha.

Capítulo 3

A sombra extra não tinha pés, nem mãos, nem rosto. Era só um contorno mais escuro que o escuro, colado ao chão e às paredes, como tinta derramada.

— Não me encosta — avisou Clara, erguendo o livro preto como se fosse um escudo.

A sombra não avançou. Em vez disso, deslizou até a parede e “apontou” para um corredor entre duas estantes. Clara entendeu sem querer entender: era um convite.

Ela seguiu. O corredor parecia crescer, esticando-se como chiclete. O ar ficou mais gelado, e um som de páginas folheadas começou ao longe: fff, fff, fff. Parecia uma multidão lendo no escuro.

No fim do corredor, havia uma sala pequena, com um espelho enorme encostado na parede. O vidro estava manchado e rachado. Em frente ao espelho, uma cadeira.

Clara ouviu passos. Não os dela. Passos leves, apressados, que pararam atrás do espelho.

— Olá? — ela chamou.

Uma batida respondeu, do outro lado do vidro: toc, toc. Clara se aproximou. O próprio reflexo parecia errado, atrasado, como se estivesse pensando antes de copiar.

De repente, no espelho, apareceu uma rua do bairro. A mesma esquina de sempre, mas sem cor nenhuma. As casas eram cinza, o céu era cinza, e as janelas pareciam olhos fechados. No meio da rua, uma coisa enorme se movia lentamente, como um cobertor feito de sombras. E, sob o “cobertor”, pequenas luzes piscavam, fracas, como vagalumes presos.

Clara sentiu a garganta apertar.

— São… as luzes das pessoas?

No livro preto, que ela segurava sem perceber, letras surgiram na página aberta:

“CHAMA-SE O APAGADOR. ELE COME O QUE BRILHA: LÂMPADAS, RISOS, IDEIAS, ESPERANÇA. MAS TAMBÉM TEM MEDO.”

— Medo do quê? — perguntou ela, quase com raiva. — Se tem medo, por que está fazendo isso?

O espelho estalou. Uma rachadura cresceu como raio. E uma voz, não do livro, mas de dentro do espelho, sussurrou:

— Medo de ser visto.

Clara lembrou-se da Dona Cidália dizendo que o bairro estava diferente. Lembrou-se das pessoas fechando as cortinas mais cedo. Do silêncio. Talvez o Apagador estivesse ficando forte porque ninguém olhava direito para o escuro.

Ela colocou a mão sobre o espelho frio. O reflexo fez o mesmo, um pouco tarde. E, por um segundo, Clara viu no próprio rosto um brilho pequenino, teimoso.

— Então eu vou ver — disse ela. — Sem correr.

Capítulo 4

O corredor de estantes devolveu Clara à sala central. A lamparina ainda tremia. A sombra extra esperava como um cachorro sem dono, quieta e atenta.

Clara abriu o livro preto de novo. As páginas viraram sozinhas até um capítulo marcado com uma dobra.

“PARA ENFRAQUECER O APAGADOR, PRECISAS DE TRÊS COISAS:

UMA MEMÓRIA QUENTE,

UMA PALAVRA DITA COM SINCERIDADE,

E UMA PÁGINA VIRADA LENTAMENTE NO LUGAR ONDE A SOMBRA NASCE.”

Clara franziu a testa.

— Memória quente eu tenho. Palavra sincera eu… acho que tenho. Agora, ‘onde a sombra nasce'?

A sombra extra deslizou até a porta, como se dissesse: “vem”. Clara seguiu, saindo da biblioteca. Do lado de fora, a rua estava ainda mais escura. O beco parecia ter engolido o próprio fim.

A sombra guiou Clara pelas calçadas. As casas passavam como dentes fechados. Um gato atravessou a rua e sumiu, como se tivesse sido apagado no meio do salto.

Ela reconheceu o caminho: o parque da praça. Havia um escorrega enferrujado e um balanço que rangia mesmo sem vento. Ali, quando era pequena, Clara tinha aprendido a não ter vergonha de chorar. Tinha sido ali que ela ofereceu um pedaço de pão a um menino novo no bairro, que estava sozinho. Ele sorriu com migalhas nos lábios, e aquilo tinha aquecido o dia inteiro.

“Memória quente”, pensou. E sentiu o peito arder com uma saudade boa.

No centro da praça, perto da árvore mais antiga, havia uma mancha de escuridão no chão — mais escura que tudo. Parecia um buraco sem profundidade, um lugar onde a luz desistia.

A sombra extra parou ao lado da mancha, imóvel. Como se não pudesse chegar mais perto.

Clara ajoelhou. O livro preto abriu sozinho, esperando.

— Ok — disse ela, com a voz falhando. — Palavra sincera.

Ela encarou a mancha. Sentiu medo, sim. Medo de não dar certo, medo do que existia ali, medo de ficar sozinha dentro daquele escuro.

E então disse, sem enfeitar:

— Eu estou com medo. Mas eu me importo com este bairro. Eu me importo com as pessoas. Eu não vou fingir que não vejo.

A mancha pareceu vibrar, irritada.

Clara colocou a mão na página do livro preto. E, lembrando de como fazia para acalmar o mundo, começou a virá-la lentamente.

O som fff soou como asa de pássaro.

A praça inteira prendeu a respiração.

Capítulo 5

Quando a página terminou de virar, a mancha no chão se abriu como um olho.

O Apagador não surgiu de repente. Ele se derramou. Uma onda de sombra escorreu para fora, rastejando pelo gramado. E, no meio dela, milhares de pontinhos fracos tremeluziam — luzes roubadas, presas como peixinhos em rede.

Clara quis correr. As pernas pediram isso com urgência. Mas o livro preto parecia pesado, lembrando a regra: a pressa alimenta o escuro.

— Eu vejo você — disse Clara, e sua voz saiu mais firme do que ela esperava.

A sombra se levantou, formando uma espécie de corpo alto, sem rosto. Onde deveriam estar os olhos, havia apenas um vazio mais profundo. O ar ficou com gosto de vela apagada.

O Apagador inclinou-se, como se cheirasse o medo dela. Um sussurro atravessou a praça, feito de muitas vozes pequenas:

— Não olhes… não digas… não acendas…

Clara fechou os olhos por um segundo e puxou a memória quente, como quem puxa um cobertor do armário: a praça de tarde, o sol, o pão dividido, o sorriso de migalhas. Ela sentiu esse calor se espalhar no peito.

Abriu os olhos.

— Eu não quero te destruir — disse, surpreendendo a si mesma. — Eu só quero que pare de comer o que não é teu.

O Apagador tremeu, como se a frase tivesse encostado nele. A sombra extra, que acompanhava Clara, avançou um pouco e se colou à sombra gigante. Por um instante, pareceu que as duas sombras se reconheciam.

No livro preto, letras correram pela página recém-virada:

“ELE TEM MEDO DE SER VISTO PORQUE, QUANDO É VISTO, LEMBRA-SE DO QUE PERDEU.”

Clara engoliu em seco.

— O que você perdeu? — perguntou, olhando direto para o vazio.

O Apagador se contorceu, e as luzes presas piscavam mais forte, como se concordassem em contar um segredo. Um som escapou dele, baixo e quebrado, quase um soluço.

E Clara entendeu sem precisar de explicação completa: aquela coisa era feita de noites acumuladas, de solidões guardadas, de momentos em que alguém apagou o próprio brilho para não incomodar ninguém.

A sensibilidade dela doeu, mas também abriu espaço.

— Eu vejo a tua tristeza — disse. — Mas não vou te deixar levar a nossa luz com ela.

Com mãos firmes, Clara virou outra página do livro preto. Lenta. Muito lenta.

O Apagador recuou, como se a lentidão fosse uma lâmina.

As luzes presas tremeluziram e algumas escaparam, subindo como vagalumes libertos. Elas entraram nas janelas das casas ao redor, e algumas lâmpadas piscaram, confusas, voltando à vida.

O bairro ainda estava escuro, mas agora tinha pequenos pontos de resistência.

O Apagador soltou um rugido sem boca. A sombra avançou, tentando envolver Clara. O frio mordeu seus dedos.

Clara respirou fundo.

— Eu não corro — sussurrou. — Eu viro.

E virou mais uma página.

Capítulo 6

O vento levantou folhas secas na praça, girando como um mini-tornado. A árvore antiga estalou, e sua copa balançou como se a própria noite sacudisse os ombros.

A cada página virada lentamente, o Apagador parecia perder densidade. Não desaparecia de uma vez; desfiava, como tecido velho puxado por uma unha.

Mas ele ainda era perigoso. A sombra tentou lançar ao chão o livro preto, e Clara quase perdeu o equilíbrio. A capa bateu no joelho dela, dolorida. Ela mordeu o lábio para não chorar.

— Clara! — alguém gritou de uma janela.

Era Dona Cidália, com uma lanterna na mão, tremendo.

— Menina, o que você está fazendo aí?

Clara ergueu o rosto.

— Estou… olhando.

Outras janelas se abriram. Rostos cansados e assustados apareceram, espiando. Por um momento, Clara achou que eles iam fechar tudo de novo, como sempre. Mas então um menino acendeu a luz do quarto. Uma senhora acendeu uma vela. Um pai levantou o celular com a lanterna ligada. Pequenas luzes, pequenas coragens.

O Apagador pareceu encolher ao ser observado por tantos olhos.

Clara sentiu vontade de agradecer, mas não desviou o olhar da sombra gigante.

— Não é só comigo — falou alto. — A gente vê você.

O Apagador tremeu, como se essa frase doesse mais do que qualquer coisa. As luzes presas dentro dele começaram a escapar em enxames, subindo e se espalhando pelo bairro: em postes, em varandas, em olhos.

A sombra extra que acompanhava Clara fez algo inesperado: separou-se do chão e se juntou ao Apagador, não como inimiga, mas como lembrança. Por um segundo, o contorno gigante ganhou uma forma quase humana, e Clara viu algo parecido com mãos tentando segurar o próprio peito.

— Você não precisa comer o brilho dos outros para existir — disse Clara, com a voz mais suave. — Você pode… só ficar aqui. Sem machucar.

O livro preto ficou leve. Muito leve. Como se aprovasse.

Clara virou a última página, devagar como um adeus cuidadoso.

O Apagador não explodiu nem sumiu com grito. Ele apenas se soltou no ar, desmanchando em fios de sombra que subiram, subiram… e se misturaram ao céu, como fumaça que finalmente encontra espaço.

As luzes do bairro não voltaram de uma vez, mas começaram a reaparecer em ondas: um poste, depois outro, uma varanda, uma janela. O parque ganhou contornos de verdade. O escorrega enferrujado voltou a ser só um escorrega, e não uma boca.

Clara sentou na grama, cansada, com o livro preto no colo. Ela estava com medo ainda, um resto de tremor. Mas havia também uma coisa nova: uma coragem calma.

Dona Cidália desceu e se aproximou, segurando a lanterna como se fosse um troféu.

— Você está bem?

Clara assentiu.

— Acho que sim. Acho que… a gente está.

Ela olhou para o livro preto. A capa agora tinha uma pequena marca, como um ponto de luz.

Clara fechou o livro com cuidado e levantou o rosto.

No céu, entre nuvens finas, as estrelas surgiam. E, bem acima da praça, uma delas parecia piscar mais forte, como um recado.

Clara apontou.

— Olha.

E, como se o bairro inteiro tivesse combinado, muitos olhos seguiram o dedo dela, encontrando nas estrelas um sinal silencioso: a noite podia ser escura, mas não era dona de tudo.

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