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História que dá medo 11 a 12 anos Leitura 26 min.

A caixa de música e o colecionador do silêncio

Tomás, Inês e Duarte enfrentam um misterioso silêncio que invade sua vila e descobrem que os sons perdidos estão presos em frascos, guardados por um enigmático Colecionador. Juntos, eles precisam encontrar uma maneira de libertar esses sons e restaurar a alegria da sua comunidade.

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Um garoto de 12 anos, Tomás, com cabelos castanhos bagunçados e olhos brilhantes de curiosidade, está no centro da cena, com uma expressão determinada e ligeiramente preocupada. Ele usa uma camiseta vermelha e um short azul, segurando uma caixinha de música de metal, pronto para abri-la. Ao seu lado, Inês, uma garota de 12 anos com cabelos loiros presos em um rabo de cavalo e um olhar destemido, observa atentamente a floresta escura ao redor, com os braços cruzados e um sorriso confiante. Um pouco afastado, Duarte, um garoto de 12 anos com um boneco de neve na camiseta, olha ao redor com uma expressão hesitante, segurando uma lanterna que ilumina fracamente o caminho. O cenário é uma floresta densa, com árvores majestosas e folhas verdes, criando uma atmosfera misteriosa. A luz da lua filtra pelas branches, projetando sombras dançantes no chão coberto de folhas secas. A situação principal mostra Tomás, Inês e Duarte diante de um velho coreto de madeira coberto de musgo, com um alçapão aberto que revela escadas escuras levando a um lugar desconhecido. Uma leve brisa faz as folhas tremularem, acrescentando um toque de angústia ao ambiente, enquanto o silêncio opressivo da noite os envolve, criando um sentimento de suspense e aventura. reportar um problema com esta imagem

O Silêncio Que Pesava

Naquela noite, a vila de Vale-Dentro pareceu parar de respirar. Não havia latidos, nem o farfalhar das árvores, nem o bater das ondas no rio. O relógio da torre, que sempre tocava nove badaladas como um bocejo enorme antes do sono, ficou encravado entre o oito e o nove, como se tivesse esquecido o que vinha a seguir.

Tomás, com doze anos e uma curiosidade que parecia ter motores, saiu ao quintal de chinelos, sem fazer barulho nenhum — nem o estalar das ripas de madeira aconteceu. O silêncio não era só falta de som. Era um silêncio diferente, pesado, como uma manta molhada sobre os ombros.

— Isto está errado — sussurrou, e até o sussurro soou alto dentro da cabeça. — Está… quieto demais.

A mãe apareceu à porta, com a luz quente da cozinha a desenhar uma moldura nas suas costas.

— Vai já para dentro, Tomás. O telefone também está mudo. Deve ser aquele problema na central… — a voz dela, ao contrário de tudo, saía limpa. O silêncio escolhia o que queria engolir.

Tomás assentiu, mas os pés não o levaram para a cozinha. A curiosidade agarrou-lhe o braço com força.

À esquina, encontrou a Inês, com o cabelo preso num rabo-de-cavalo guerreiro e a mochila cheia de coisas que “podem dar jeito”.

— Estás a sentir isto? — perguntou ela, arregalando os olhos. — A minha cadela não ladrar ao aspirador? Isto é uma espécie de fim do mundo.

— Ou o começo de alguma coisa — disse Tomás, meio a sorrir, meio a engolir o medo. — Se calhar alguém precisa do nosso barulho de volta.

Duarte apareceu a seguir, com a lanterna do pai e um boné demasiado grande. Olhou à volta, boquiaberto.

— A minha irmã bebé adormeceu e… nem ressona. Eu acho que o silêncio está a comer os sons.

— Então temos de descobrir porquê — decidiu Tomás. Sabia, com a firmeza que se tem quando se está a jogar um jogo difícil, que tinha de encontrar a resposta para aquele silêncio anormal, ou tudo começaria a desaparecer aos poucos. — Vamos à torre do relógio. Se ele parou, é um mau sinal.

Atravessaram a praça, onde as cadeiras da esplanada estavam viradas para o nada, como se esperassem um espetáculo invisível. As suas pisadas não diziam nada ao chão; só o ar lhes tocava as faces, frio e parado.

— Isto é assustador — confessou Duarte. — Se aparecer um monstro, eu atiro-lhe trabalhos de casa. Ninguém aguenta.

Inês deu uma risada curtinha, mais feita com os olhos.

— Não te preocupes. Se houver um monstro, o Tomás fala com ele.

— É o plano mais perigoso que já ouvi — disse Tomás, a tentar parecer ofendido, mas grato por aquele bocadinho de humor.

A porta da torre estava entreaberta. Entraram. O ar cheirava a pó e a ferrugem. Lá em cima, o relógio dormia. Ouviam — dentro das próprias cabeças — o bater acelerado dos seus corações, o único som que não se deixava calar.

— O silêncio está a começar daqui? — Inês apontou a lanterna para as engrenagens paradas. De repente, a luz vacilou e… voltou, mais fraca.

Tomás aproximou-se da grande roda metálica. No centro, uma fenda pequenina, como uma boca fechada à força. A sua mão tocou o metal frio. Uma corrente de ar passou por eles, mas o ar não tinha som. E, por um instante, Tomás teve a certeza absoluta de que algo observava, por trás do silêncio, com paciência.

— Há qualquer coisa na mata — disse ele, sem saber como sabia. — Algo que está a puxar os sons para lá, como um íman.

— Então vamos — decidiu Inês, apertando as alças da mochila. — Antes que o silêncio descubra que nós também fazemos barulho.

A Coisa na Mata

A mata começava atrás da escola, com árvores altas que pareciam colunas de uma catedral que ninguém construiu. Normalmente, ouviam-se os grilos, um carro distante, alguém a treinar saxofone mal; naquela noite, nada. O silêncio invadiu até as folhas, que mexiam sem se pronunciarem.

— Eu não gosto disto — disse Duarte, mas continuou a andar, com a lanterna a abrir um túnel tremido de luz.

Foi aí que aconteceu. Um objeto caiu aos pés de Tomás, de lado, como um peixinho sem água. Ele deu um salto, e os outros também.

— Mas… de onde é que isto veio? — Inês baixou-se e apanhou a coisa com cuidado. Era uma caixinha de música, redonda, de lata, pintada com pequenos cavalos a galopar. A tampa estava rachada e faltava-lhe uma parte da base. — Está partida.

— Apareceu do nada — murmurou Tomás. — Alguém a deitou? Ou… ela veio sozinha?

— Uma caixinha de música num mundo sem sons — Duarte franziu o sobrolho. — É uma piada?

Tomás pegou na caixinha. Era leve, mas tinha um peso estranho, como um segredo. Rodou a chave, que resistiu e depois cedeu com um clique. Não se ouviu música. Em vez disso, um fio de luz muito ténue, azulada, escapou pela fenda e desenhou no ar uma seta a apontar para o coração da mata.

— Isto é novo — disse Inês, semicerrando os olhos. — Uma caixinha de música que aponta caminhos?

— Ou uma bússola de sons perdidos — sugeriu Tomás, quase sem brincar. — Se calhar temos de a seguir.

Caminharam atrás da luz, que tremia como um bichinho tímido, mas teimava na direção. À medida que avançavam, o silêncio parecia crescer e ganhar textura, como uma teia. A floresta tornava-se… comum demais, repetida demais. Uma pedra igual à outra, um tronco igual ao outro. Era o tipo de repetição que engana, que quer fazer uma pessoa dar meia-volta.

— Estamos a andar em círculos — disse Duarte, com um arrepio.

— Não. Repara — Inês apontou. Havia pequenos frascos, pendurados nas árvores por cordéis finíssimos, quase invisíveis. Dentro de cada frasco, algo se mexia e… não se ouvia. Eram redemoinhos de fumo transparente, que pareciam prender vozes.

Tomás aproximou-se de um dos frascos. O seu nome apareceu no vidro, embaciado por um segundo: TOMÁS. A seguir, apagou-se.

— Vamos embora — sussurrou Duarte, mas ninguém ouviu o sussurro. Nem mesmo o próprio Duarte.

A luz da caixinha de música intensificou-se, como se tomasse coragem. Apontou para uma clareira. No centro, uma estrutura abandonada: o antigo coreto de madeira, que em criança parecia um palco de gigantes. Agora, coberto de musgo e unhas de gato, era um monumento ao silêncio.

No chão do coreto, debaixo de tábuas soltas, viram um alçapão com um ferrolho torto. Tomás ajoelhou-se, sentindo a madeira áspera no joelho, e puxou. O ferrolho deu com um gemido que não se ouviu, apenas se sentiu como uma vibração no braço. A tampa levantou-se, revelando uma escada a descer para um buraco sem tempo.

— Isto é uma péssima ideia — Duarte sacudiu a lanterna. — E é exatamente por isso que vamos, não é?

Tomás sorriu de lado. Sim, era exatamente por isso. Às vezes, as coisas que metem medo são as que mais precisam de ser feitas.

O Teatro dos Ecos

Desceram devagar, contando degraus no pensamento. Abaixo, o ar era mais frio, cheirava a ferro e a chuva antiga. A luz azul da caixinha mostrava-lhes uma sala redonda, escavada na terra, como um teatro secreto. Bancos de pedra formavam semicírculos, e no centro, em pedestais, estavam alinhados frascos e mais frascos como os da floresta, centenas deles, de tamanhos diferentes. Era como se alguém tivesse decidido guardar o mundo em pequenos potes.

— É aqui que os sons estão presos — disse Inês, com a voz a tremer e os olhos a brilhar por causa disso.

Tomás passou a mão nos rótulos. Alguns tinham etiquetas escritas a caneta: “Riso da D. Arminda”; “Badalada das nove”; “Pios do João-Pedro”; “Mar em agosto”. Outros não tinham nada, só o vidro frio.

— Quem faria uma coisa destas? — Duarte deu um passo atrás, como se os frascos pudessem estalar com um susto.

— Alguém que gosta de colecionar — respondeu uma voz, clara e suave, mas que vinha de todo o lado e de lado nenhum.

Os três voltaram-se ao mesmo tempo. A luz azul roçou a figura que surgia como neblina que ganha forma: um homem alto, ou um vulto com um casaco comprido, em cuja bainha parecia haver… nada. Nada mesmo, uma borda que engolia a luz. O rosto era normal demais, como os rostos que não queremos lembrar.

— Quem é você? — Tomás apertou a caixinha de música até sentir a lata fria.

— Chamam-me muitas coisas — disse o vulto, passeando entre os pedestais com leveza. — Guardador. Restaurador. Protetor. Eu guardo os sons que se comportam mal. Os que fazem o mundo cansado. Uma vila sem barulho é uma vila descansada, não acham?

— O riso da D. Arminda comporta-se mal? — Inês cruzou os braços. — A brisa no meu cortinado comporta-se mal?

— O riso é barulhento — explicou o homem, com a paciência de um professor. — A brisa mexe tudo e faz poeira. Os sinos acordam quem precisa dormir. Eu limpo. Arrumo. Silêncio é ordem.

— Silêncio é… solidão — corrigiu Tomás, surpreendendo-se com a coragem na própria voz. — O meu pai trabalha de noite. Eu sei o que é uma casa silenciosa demais.

O homem suspirou, sem som, mas o suspiro mexeu todos os frascos, que vibraram.

— Medo — disse ele, inclinando a cabeça. — Medo do vazio. E no entanto, o silêncio é teu amigo, rapaz. O medo… esse é o que manda.

Tomás deu um passo à frente. A losango de luz no chão, projetada pela caixinha, tocou a bota do homem e… apagou-se por uma fração de segundo. O homem sorriu com os olhos.

— E essa pequena caixa? É defeituosa. O que esperas que te diga?

— Que nos mostre a saída — murmurou Inês.

— Minas não têm saída — disse Duarte.

— Tudo tem uma saída — respondeu Tomás. — Mas primeiro, acho que temos de libertar algo.

O homem, ou o que quer que fosse, ergueu-se, um pouco mais alto.

— Ninguém abre frascos aqui — disse, com uma doçura que arranhou. — A não ser eu. E não tenho vontade.

O Colecionador

O silêncio ficou mais denso, como se o ar fosse uma sopa onde não se mastiga nada. O homem aproximou-se, os olhos como duas moedas sem valor, mas brilhantes.

— Ficam comigo — disse. — Por um tempo. Para aprender a não fazer barulho. Para aprender que o mundo é mais limpo quando se é cuidadoso.

— Nós já sabemos arrumar o quarto — respondeu Duarte, erguendo a lanterna como uma espada. — E agora vamos arrumar esta bagunça.

A luz da lanterna falhou, e dessa vez não voltou. O Colecionador estalou os dedos. O som desse estalar não aconteceu. Em vez disso, a sensação do estalar arrepiou-lhes o couro cabeludo.

— Eu vou ficar com as tuas palavras primeiro — disse ele a Tomás. — Fico com as palavras dos teimosos primeiro. São as que fazem mais barulho.

Tomás sentiu as palavras a pesarem na língua, como se fossem pedras. Abriu a boca e nada saiu. A sua voz tinha sido puxada, um fio invisível, para um frasco vazio que se colocou a si mesmo no pedestal.

— Pára! — gritou Inês, mas o grito era uma chama que não queimava. — Devolve!

O Colecionador apontou para outro frasco. Um sussurro do riso da Inês prendeu-se lá, como uma borboleta sem vento.

— Podem ficar aqui — repetiu ele, suave, convincente. — No silêncio, ninguém se magoa. No silêncio, nada muda.

As mãos de Tomás tremiam. Não era só a falta de voz. Era o medo de ficar sem dizer aos amigos quando tinha uma ideia tonta, o medo de nunca mais ouvir a mãe cantarolar, o medo de o pai entrar em casa e achar que o mundo tinha ido embora.

A caixinha de música vibrou-lhe na palma, como um coração pequeno a lembrar que estava ali. E, na cabeça, onde o silêncio não dominava tudo, uma memória acendeu-se: a avó a enrolar a chave de uma caixinha parecida, o som fino a percorrer a noite do seu quarto, quando ele tinha pesadelos. A avó dizia: “Canta baixinho por dentro, Tomás. A música de dentro, ninguém te tira.”

Ele não podia falar com a boca, mas podia cantar por dentro. Olhou para Inês e Duarte. Fez um gesto com a mão, um desenho no ar. Eles entenderam, como só os amigos entendem coisas sem palavras.

Inês fechou os olhos e começou a bater com a ponta dos dedos no próprio braço, devagar, depois mais rápido, um ritmo simples. Duarte bateu com a sola da bota no chão, tum-tum, tum-tum, como um coração gigante a lembrar que existia. Tomás encostou a caixinha de música ao peito e imaginou a melodia da avó, nota atrás de nota, como se estivesse a desenhar uma linha azul dentro de si.

O Colecionador inclinou a cabeça, curioso.

— Tocar sem som? Que brincadeira é essa?

A Fenda no Silêncio

A brincadeira cresceu. O ritmo do braço de Inês encontrou o tum-tum do pé de Duarte e, juntos, eram uma espécie de ponte. Tomás respirou fundo, sentindo a melodia interior a clarear. E a caixinha rachada respondeu de um modo que ninguém esperava: a fenda brilhou, a lata esfarelada vibrou e… uma nota saiu. Uma única nota, quase tímida, quase um pedido de desculpa por interromper. Mas foi suficiente para abrir uma fissura no ar, como uma pequena racha num vidro.

O Colecionador recuou um passo, o casaco a ondular como água.

— Não. Eu disse… silêncio.

Estendeu a mão, e a sala toda tremeu. Os frascos oscilaram, e um, com a etiqueta “Mar em agosto”, deixou escapar uma espuma de luz que se colou ao teto. Mas a fissura cresceu, alimentada pelo ritmo e pela melodia invisível. A caixinha tocou uma segunda nota, mais segura. E uma terceira.

— Continua — disse Inês, com os lábios sem som, mas as mãos a dizer tudo.

Duarte tirou do bolso um botão vermelho que tinha sobrado do casaco e mostrou-o a Tomás, como se fosse uma ideia. Tomás percebeu. Abriu a caixinha, as mãos a tremer, e viu lá dentro as entranhas de metal: dentinhos de rodas, um espaço vazio onde algo devia encaixar. Colocou o botão ali, improvisando uma engrenagem. Não estava perfeito — nada feito às pressas está perfeito —, mas era feito com as mãos de um amigo.

Rodou a chave. O botão rodou também, tropeçando, mas rodando. As notas saíram, quebradas e lindas, como crianças a aprender a correr. A fissura abriu-se em linha, e a linha em fenda. Os frascos vibraram mais. Um estalou. Depois outro. O riso da D. Arminda escapou-se numa gargalhada sem som que, assim mesmo, os fez sorrir. O som corria sem som — paradoxo que só o coração percebe.

O Colecionador ergueu os braços, e paredes de silêncio ergueram-se também, como paredes invisíveis a empurrar os miúdos para trás, a achatar os ritmos, a roubar as notas. Tomás cambaleou. O medo voltou, aquela coisa que sussurra que é melhor desistir. Nessa altura, uma imagem acendeu-se. Ele, sozinho no quarto escuro. E depois, ele e os amigos na praça, a jogar ao peixinho, a falhar pontaria, a rir. Ele ouviu as vozes deles dentro de si. Não as podia ouvir fora, mas dentro, o som estava vivo.

— Tomás! — a boca de Inês formou o seu nome, e o nome dela foi um cordel que o puxou.

— Aguenta! — disse Duarte, batendo o pé com mais força, fazendo caretas para se animar, a língua de fora num desafio ao medo.

Tomás abraçou a caixinha de música com as duas mãos e cantou por dentro o mais alto que conseguiu, oferecendo à caixa tudo o que tinha: os dias de chuva, os gols falhados, os segredos partilhados, os pequenos valentões vencidos com piadas, a mão da mãe no seu cabelo. A caixa tremeu tanto que quase lhe saltou das mãos. A fenda rasgou-se, e um dos frascos no pedestal central — aquele que tinha a etiqueta “Badalada das nove” — explodiu em mil brilhos invisíveis.

E a primeira badalada caiu do teto, como uma estrela. Foi um som que não tinham ouvido desde o começo da noite, mas que estava tão dentro deles que reconheciam: o bronze ao longe, a vibração no ar. Veio uma segunda badalada. E a terceira. Os frascos começaram a estalar em sequência. Os grilos acordaram como se alguém lhes tivesse dado cócegas. As folhas resolveram que era boa ideia farfalhar. A água, nos canos da vila, suspirou.

O Colecionador tinha deixado de estar alto. O casaco murchou, a bainha deixou de engolir a luz. Ele tentou agarrar a fenda com as mãos, mas a fenda era feita de coisas que não se agarram: risos, chamados, “mãe!”, “espera!”, “já vou!”. Coisas que o mundo não permite empacotar sem se tornar cinzento.

— Não! — disse, e dessa vez, ouviram mesmo. A sua voz era pequena, cansada. — O barulho… o barulho dói.

Tomás sentiu, de repente, a pena chegar, escondida no meio do medo e da coragem.

— Nem todo o barulho — disse, e a sua voz voltou, saltando-lhe da garganta como um pássaro que se esqueceu que tinha asas. — Há barulhos que curam.

Inês assentiu.

— Nós podemos ensinar. Um pouco de silêncio, um pouco de som. Equilíbrio.

Duarte piscou um olho.

— Prometemos não tocar bombo às três da manhã.

O Colecionador olhou em volta, para as paredes que respiravam de novo, para os frascos partidos que choravam luz. O que quer que fosse que ele sentiu, ninguém sabia. Mas deu um passo atrás. Mais um. A bainha do casaco deixou de existir, e ele… desfocou. Tornou-se um risco no ar. E desapareceu pela fenda, como a água que encontra o rio.

O Mundo a Voltar

A sala ficou cheia de som devagar, como quando acendemos uma luz e os olhos demoram um bocadinho a habituarem-se. Primeiro, os sons pequenos: um fio de ar a entrar por uma fenda; uma gota de água a cair algures; o roçar das roupas nos corpos. Depois, os maiores: o coro decidido dos grilos, a respiração acelerada deles três. A melodia da caixinha de música, consertada com um botão vermelho, tocando aos soluços e, por isso mesmo, irresistível.

— Conseguimos — disse Inês, muito baixo, só para experimentar o gosto da própria voz.

— Conseguimos — repetiu Duarte, muito alto, só porque sim, porque podia.

Tomás riu-se, e o riso soou e subiu, e bateu no teto, e caiu em cima deles. A caixinha, ainda vibrando, apontou agora uma luz nova, não para a mata, mas para a escada. A saída. Subiram a correr, tropeçando, empurrando-se com amizade. Lá fora, a noite estava de verdade. As estrelas, antes imóveis como pregos, piscavam. O vento apertava os ramos como mãos que se cumprimentam.

Na praça, as cadeiras da esplanada tinham virado, sozinhas, a tempo de assistirem à primeira badalada de verdade do relógio da torre, que recomeçara do nove e parecia muito orgulhoso do feito. Gente espreitava pelas janelas, confusa e aliviada.

A mãe de Tomás veio a correr, de chinelos e coração na boca.

— Onde estavas? — perguntou, puxando-o para um abraço que cheirava a sopa.

— A trazer o barulho de volta — disse ele, e a mãe riu-se, sem perceber bem, mas percebendo o suficiente.

Inês estava com a mão na barriga, como se tivesse corrido o dobro, e Duarte imitava o som de um trombone, exagerado, só para irritar a irmã que agora ressonava como uma gata satisfeita.

— E a caixa? — Inês apontou.

Tomás mostrou-lhes a caixinha. O botão vermelho nem parecia fora do lugar. A tampa rachada tinha uma marca nova, um risco azul claro que não era tinta, não era luz — era aquilo que as coisas guardam quando passam por momentos difíceis e não partem.

— Fica contigo — disse Inês. — Mas é de todos, na verdade.

— Eu prometo não a usar para acordar o Duarte cedo — disse Tomás, sério. — A não ser que seja uma emergência mesmo grande, tipo ataque de panquecas.

Duarte fingiu indignação.

— Panquecas são uma emergência comestível. Nesse caso, autorizo.

Riram. E a vila, como alguém que esteve a segurar a respiração e finalmente solta, riu com eles: janelas que se fecham, passos que se atrasam, um cão que decide odiar a roda de uma bicicleta outra vez.

Nos dias que se seguiram, o silêncio voltou ao lugar certo. Havia silêncio quando o sol caía atrás do monte e os chapins se calavam; havia silêncio na biblioteca, quando a D. Luísa passava os dedos nos livros e dizia “psiu” sem exagerar; havia silêncio quando era preciso ouvir o outro. Mas não havia aquele silêncio pesado, mandão.

Tomás, Inês e Duarte voltaram ao coreto numa tarde, para ver se o alçapão continuava lá. Estava. E também havia frascos nas árvores, mas agora estavam vazios, a luz do fim da tarde atravessava-os e desenhava círculos no chão. No ar, ficou um restinho de respeito.

— Sabes — disse Inês, olhando para a mata —, acho que o Colecionador não era mau. Era… medroso.

— Como nós às vezes — respondeu Duarte, sem vergonha nenhuma de admitir. — Mas nós temos uns aos outros.

Tomás segurou a caixinha de música contra o peito. Sentiu o frio da lata e o calor das mãos.

— E enquanto tivermos uns aos outros, nenhum silêncio nos engole.

Ao longe, a torre bateu cinco. A vila continuou a ser vila: torta, barulhenta, com cães a ladrarem ao nada, crianças a fazerem apostas sobre quem corre mais depressa, velhos a discutirem a diferença entre sombras e penumbras como se fossem cientistas. O medo, quando aparecia, era menor, porque tinha sido visto de frente. E, com amigos ao lado, o escuro parecia sempre um pouco menos escuro.

Nessa noite, antes de fechar os olhos, Tomás rodou a chave da caixinha, só um bocadinho. A música saiu com soluços, com espaço entre as notas, como quem corre e para para olhar a paisagem. A melodia encheu o quarto, e o silêncio de dormir, o silêncio que guarda, que arrebata sem levar, sentou-se a um canto e sorriu. Porque naquela casa, naquela vila, naquela história, alguém tinha aprendido que não se vence o medo ao mandar calar o mundo, mas ao ouvi-lo com coragem. E tinha amigos para cantar junto, mesmo que às vezes fosse só por dentro.

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