Parte 1
A Lia tinha 3 anos. Era noite de Halloween. A casa cheirava a sopa quentinha e a canela. Lá fora, o vento fazia “fuuu, fuuu”, mas era um vento brincalhão.
A Lia vestiu a sua capa de bruxinha. Era roxa e tinha estrelas amarelas. Na cabeça, um chapéu pontudo que escorregava um bocadinho.
“Fico gira?” perguntou a Lia.
“Ficas muito gira,” disse a mamã. “Uma bruxinha doce.”
O papá pôs uma abóbora de papel na mesa, com um sorriso desenhado.
“Olha, a abóbora também está a sorrir para ti,” disse ele.
A Lia riu. “Olá, abóbora!”
A abóbora não falou, claro. Mas parecia contente.
A mamã deu à Lia um cestinho pequeno.
“Para os doces?” perguntou a Lia.
“Sim,” disse a mamã. “E para uma missão especial.”
Lia abriu os olhos bem grandes. “Missão?”
O papá sussurrou, com voz de mistério, mas com sorriso: “Um papel voou. Um papel muito importante.”
“Um papel?” a Lia repetiu.
“Sim,” disse a mamã. “Voou da nossa caixa do correio. O vento levou-o a passear. Vamos apanhá-lo juntos.”
A Lia fez uma cara séria, de bruxinha em trabalho. “Eu apanho!”
“Apanhas tu, e nós ajudamos,” disse o papá.
Saíram para a rua. As luzes das casas eram laranjas e amarelas, como pequenas luas. Algumas portas tinham aranhas de brinquedo. Outras tinham fantasmas de pano, muito molinhos.
A Lia olhou um fantasma e acenou.
“Olá, fantasma fofinho.”
O fantasma balançou com o vento, como se acenasse de volta.
Parte 2
De repente, ali à frente, uma coisa branca dançou no ar.
“Olha!” disse a Lia. “O papel!”
O papel fez “flap flap” e voou, voou, como um passarinho cansado.
A Lia correu com passinhos curtos. O chapéu caiu para os olhos.
“Ui!” disse ela, meio a rir.
A mamã endireitou o chapéu. “Assim. Agora vês o mistério.”
“Vejo!” disse Lia.
O papel pousou no chão por um instante. A Lia quase tocou nele… mas o vento soprou de novo.
“Fuuu!” fez o vento.
E o papel: “flap!”
“Ahhhh… ele foge!” disse Lia.
“É um papel brincalhão,” disse o papá. “Quer jogar às escondidas.”
A Lia pôs as mãos na cintura. “Eu também sei brincar!”
Foram atrás do papel. Passaram por uma casa com uma luz em forma de gato.
“Miau,” disse a Lia.
“Boa noite, bruxinha,” disse uma vizinha, vestida de abelha.
“Boa noite,” disse a Lia, muito educada.
Mais à frente, um menino vestido de dinossauro apareceu.
“Roooar!” fez ele.
A Lia parou. Depois riu. “Dinossauro! Não assusta!”
O dinossauro riu também. “É só de brincar.”
O papá disse: “Estamos à procura de um papel voador.”
O dinossauro apontou com a cauda. “Foi por ali! Eu vi. Ele fez assim: uuuuu!”
“Obrigada!” disse a Lia.
“De nada!” disse o dinossauro. “Boa caça ao papel!”
A Lia ficou contente. “Ele foi simpático.”
A mamã apertou a mão da Lia. “Ser simpático é uma magia boa.”
O papel voou para perto de um jardim. Havia uma cerca baixinha e, em cima, uma teia de aranha de plástico com brilhos prateados.
A Lia aproximou-se devagar.
“Aranha?” ela sussurrou.
“É de brinquedo,” disse a mamã. “Olha, não mexe.”
A Lia tocou com um dedinho. “Não mexe.”
“Vês?” disse o papá. “Friozinho, mas seguro.”
A Lia respirou fundo. “Eu sou corajosa pequenina.”
O papel ficou preso numa folha grande. Parecia que a folha o abraçava.
A Lia esticou a mão, com cuidado.
Mas a folha fazia cócegas!
“Hi-hi!” riu a Lia. “Folha faz cócegas!”
O papá também riu. “O Halloween tem cócegas secretas.”
A Lia puxou devagar. O papel quase saiu… e o vento tentou outra vez.
“Fuuu!”
“Não, vento,” disse a Lia, com voz firme e gentil. “Agora é a minha vez.”
Ela abraçou o papel com as duas mãos. Bem apertadinho, como um abraço de ursinho.
Conseguiu! O papel ficou com ela.
“Apanhei!” disse Lia.
“Apanhaste!” disse a mamã. “Bravo!”
O papá bateu palmas baixinho. “Clap, clap, clap.”
A Lia olhou para o papel. Tinha letras e um desenho pequeno.
“É nosso?” perguntou.
“Sim,” disse a mamã. “Era uma carta para a avó. Agora podemos levar.”
Parte 3
A Lia pensou um bocadinho. Depois olhou à volta. Viu uma outra folha de papel no chão, toda amassada, perto do passeio.
“E aquele papel triste?” perguntou ela.
O papá agachou-se. “Esse é lixo. Podemos ajudar também.”
A Lia abriu o cestinho. “Põe aqui.”
O papá colocou o papel amassado no cestinho.
Mais à frente, viram uma senhora idosa com um chapéu de feiticeira verde. Ela procurava alguma coisa.
“Perdeu?” perguntou a Lia, baixinho.
A senhora sorriu. “Perdi um lenço pequenino. Era branco.”
A Lia apontou para uma grade onde um paninho branco estava preso.
“Ali!” disse a Lia.
A mamã pegou no lenço e entregou.
A senhora fez uma vénia engraçada. “Obrigada, bruxinha ajudante.”
A Lia riu. “Sou bruxinha doce.”
“E muito gentil,” disse a senhora.
A rua tinha risos e passos. As pessoas diziam “doce ou travessura?” com vozes alegres. A Lia ganhou dois rebuçados. Um era de morango.
“Para depois,” disse a mamã. “Depois da sopa.”
“Está bem,” disse Lia, muito séria. “Depois.”
Voltaram para casa. O vento ainda soprava, mas agora parecia dizer “até amanhã”.
A Lia entrou e tirou a capa. A sala estava quentinha. A abóbora de papel ainda sorria.
A mamã pôs a carta para a avó em cima da mesa.
“Missão feita,” disse o papá.
A Lia bocejou. “Missão… feita.”
A mamã deu um abraço grande. “Obrigada por apanhares o papel e por ajudares as pessoas.”
A Lia encostou a cabeça ao ombro da mamã. “Eu gosto de ajudar.”
Antes de dormir, o papá apagou as luzes grandes e deixou uma luz pequenina, cor de laranja, como uma mini abóbora.
A Lia na cama segurou o seu ursinho.
“Hoje o papel voou,” disse ela, quase a dormir.
“E tu voaste atrás dele com coragem,” disse a mamã.
A Lia sorriu, com olhos a fechar. “Coragem pequenina.”
Lá fora, o vento fez só um “fuuu” baixinho, como uma canção.
E a noite de Halloween ficou mansa, quentinha e feliz.