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Fantasia Heroica 11 a 12 anos Leitura 33 min.

O sopro da clareira da Lua Baixa

Um cavaleiro e um jovem guia partem numa jornada pela floresta para encontrar um sopro mágico que pode dar vida a uma estátua antiga, enfrentando provações e segredos que testam coragem, verdade e sacrifício.

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Um homem adulto de rosto marcado pela fadiga e determinação, cabelo castanho curto e capa escura, sopra num pequeno frasco de vidro brilhante junto aos lábios com expressão concentrada e peito ofegante, inclinado para uma grande estátua de bronze; um rapaz de ~16 anos, magro, capuz leve e cabelo castanho-claro, observa a poucos passos com espanto e preocupação segurando um pergaminho ondulante à esquerda; um homem idoso de ~60 anos emerge viva de uma estátua de bronze ao centro, pele parcialmente coberta por armadura bronze fissurada, cabelo grisalho e expressão grave e terna; cena numa clareira circular gramada com pedra branca polida no centro, árvores antigas negras e retorcidas ao redor, lua baixa e enorme, corvos em voo e neblina rasteira; momento dramático em que o sopro dourado do frasco encontra o bronze iluminando-o enquanto uma sombra fumacenta e ameaçadora surge na borda das árvores; paleta noturna de azuis profundos, verdes escuros e bronze quente com dourado luminoso, iluminação focal no frasco e na estátua, traços nítidos, contornos finos e texturas simples, composição centrada em leve perspectiva aérea. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A Profecia na Clareira

A floresta negra de Várnion não era apenas escura: era antiga. As árvores erguiam-se como colunas de uma catedral esquecida, e o vento, ao atravessar os ramos, fazia um cântico grave, como se o mundo respirasse devagar para não acordar alguma coisa.

Sir Edrin de Lúmen caminhava ali com a capa presa ao ombro por um broche de bronze, a mão firme na rédea do cavalo e os olhos atentos ao chão coberto de folhas. O elmo pendia do lado da sela; preferia sentir o ar no rosto, mesmo que o ar cheirasse a musgo e a segredos.

A profecia tinha-o trazido. Uma velha inscrição no mosteiro de Pedra-Clara, onde os monges copiavam mapas e estrelas, dizia:

“Quando o bronze calar e o bosque se fechar,

um cavaleiro buscará o sopro que não sabe dar.

Na clareira sagrada, onde a lua faz lei,

uma estátua pedirá vida — e pagará com o que o coração tem de rei.”

Edrin repetia aqueles versos como quem morde um pedaço de pão duro: para ganhar força.

Ao fim de duas horas, as sombras abriram-se de súbito. A floresta recuou e surgiu uma clareira circular, perfeita, como se alguém a tivesse desenhado com compasso. No centro, uma pedra branca erguia-se, lisa e alta, e sobre ela estava a estátua.

Era um homem esculpido em bronze esverdeado, de joelhos, com as mãos abertas como quem oferece algo invisível. O rosto tinha uma serenidade que irritava e consolava ao mesmo tempo. Os lábios, finos e fechados, pareciam segurar uma palavra há séculos.

Edrin desmontou. Sentiu o silêncio a apertar-lhe as orelhas.

— Então és tu… — murmurou.

A estátua não respondeu. Claro que não. Ainda assim, Edrin aproximou-se como se esperasse que o bronze piscasse.

No limite da clareira, uma figura mexeu-se. Um jovem com capuz, magro como uma vara de freixo, surgiu com um sorriso que misturava coragem e atrevimento.

— Se veio falar com o bronze, recomendo paciência. Ele tem um humor… bastante imóvel.

Edrin levou a mão ao punho da espada, por hábito.

— Quem és?

— Tomael. Às vezes guia, às vezes problema. Depende do dia. — O rapaz apontou para a clareira com um gesto amplo. — Esta é a Clareira da Lua Baixa. E essa estátua… bem, dizem que escuta. Só não responde.

Edrin observou-o. O rapaz tinha olhos vivos e pés leves, desses que sabem onde pisar sem fazer barulho.

— Procuro um sopro — disse Edrin, simples. — Um sopro para devolver vida a isto.

Tomael assobiou, impressionado.

— Ah. Isso é… grande. Como tentar acender uma fogueira debaixo de chuva com um fósforo molhado.

Edrin não sorriu, mas a frase arrancou-lhe um canto de leveza do peito.

— A profecia manda-me. E eu obedeço.

Tomael inclinou a cabeça, como quem ouve uma música distante.

— As profecias mandam em muita gente. — Aproximou-se mais, sem medo. — Mas, se quer mesmo dar um sopro, precisa saber de onde ele vem.

Edrin tocou no bronze frio. A palma da mão sentiu um tremor quase imperceptível, como um coração muito lento.

— Vem de mim? — perguntou, sem querer parecer fraco.

Tomael encolheu os ombros.

— Pode vir de si… ou do que o mundo deve. Aqui, as coisas raramente são baratas.

No alto, uma nuvem partiu-se e a luz derramou-se sobre a estátua. Por um instante, o bronze brilhou como ouro velho.

Edrin sentiu a clareira a prender-lhe o destino, como uma fivela.

— Então que comece — disse ele. — Mostra-me o caminho.

Capítulo 2 — O Mapa que Não Quer Ser Lido

Tomael levou Edrin por um trilho que só existia para quem soubesse procurar. Era estreito, cheio de raízes, e o escuro ali parecia mais pesado, como se estivesse à espera de cair em cima deles.

— Há três coisas que se dizem sobre o “sopro” — explicou Tomael, saltando um tronco caído. — Uma: está preso no Lago do Espelho, guardado por algo que detesta rostos. Duas: está no Fole do Gigante, um objeto antigo que respira vento. Três: está em si, mas trancado.

— E qual é a verdadeira? — perguntou Edrin.

— Provavelmente as três. O mundo gosta de confusão. — O rapaz puxou de uma bolsa um pedaço de pergaminho amassado. — Encontrei isto numa arca que não era minha. Antes que pergunte: eu ia devolver. Um dia.

O pergaminho mostrava um mapa desenhado a tinta azul e preta. Só que as linhas mexiam-se, como cobras preguiçosas. O norte mudava de lugar. A clareira parecia fugir.

Edrin franziu a testa.

— Um mapa encantado.

— Um mapa teimoso — corrigiu Tomael. — Ele só mostra o caminho a quem diga a verdade… ou a quem minta bem. Eu ainda estou a treinar.

Edrin respirou fundo, olhando para o papel como se encarasse um adversário.

— Mostra-me o caminho para o sopro que dará vida à estátua — disse, com voz firme.

O mapa ficou imóvel por um segundo. Depois, uma linha vermelha apareceu, traçando uma rota sinuosa até um símbolo: um círculo com ondas desenhadas.

— Lago do Espelho — disse Tomael. — Claro. Detesta rostos. Eu também detesto, sobretudo de manhã, mas não faço drama.

Edrin voltou a montar. Tomael caminhava ao lado, com a energia de quem não sabe ficar quieto.

— Porque te metes nisto? — perguntou o cavaleiro. — Não tens dever para com profecias.

Tomael fez uma careta.

— Tenho dever para com a minha barriga. E, sendo honesto… — olhou para as árvores, como se elas pudessem ouvir — …ninguém gosta quando a floresta começa a fechar-se. Animais fogem, caminhos desaparecem, pessoas somem. Se essa estátua tem alguma ligação com tudo isto… talvez valha a pena mexer no bronze.

O céu escureceu mais cedo do que devia. Edrin notou: o dia parecia encolher.

No meio do caminho, encontraram pegadas. Grandes demais para um homem, profundas demais para um lobo.

Tomael agachou-se e tocou numa marca.

— Isto é recente.

Edrin levantou o olhar, a mão na espada.

— Estamos a ser seguidos.

Um estalo soou à esquerda. Depois outro, à direita. Não eram ramos a cair. Eram passos.

Da sombra saiu um grupo de três salteadores com capas esfiapadas e olhos brilhantes de ganância. Um deles trazia uma besta apontada. Outro segurava uma lança curta. O terceiro sorria como quem já contou o dinheiro.

— Boa noite, viajantes — disse o da besta. — A floresta cobra portagem.

Tomael suspirou.

— Eu sabia. Nunca ninguém diz “bom dia” em Várnion. Sempre “entrega tudo”.

Edrin puxou a espada com um som limpo, como um sino de metal.

— Voltem para as sombras — disse ele. — Antes que a floresta vos engula por vergonha.

O salteador riu.

— Um cavaleiro poeta! Isso paga extra.

A besta disparou. Edrin desviou-se num passo curto; o virote passou onde ele estivera um instante antes e cravou-se num carvalho com um estalo.

Edrin avançou. O primeiro golpe afastou a lança, o segundo cortou a correia da besta. O homem soltou um grito e recuou. O terceiro tentou agarrar Tomael, mas o rapaz escorregou como peixe e deu-lhe uma pancada com um pedaço de pau que, por coincidência, estava “mesmo ali”.

— Desculpe! — disse Tomael, muito educado, enquanto o salteador caía.

O último, ao ver a vantagem perder-se, fugiu floresta adentro.

Edrin não o perseguiu. Guardou a espada devagar, sentindo o coração bater.

— Estás bem? — perguntou a Tomael.

— Estou. Só fiquei com a minha coragem um pouco amassada. — O rapaz apontou para o virote no carvalho. — Vamos embora antes que tragam amigos. Salteadores são como mosquitos: um aparece, depois a noite inteira parece interessada em você.

Continuaram. A linha vermelha do mapa tremia, impaciente.

Capítulo 3 — O Lago que Engole Rostos

O Lago do Espelho surgiu entre rochas brancas, encaixado como uma moeda num cofre. A água era tão lisa que parecia vidro escuro. Não havia pássaros. Até o vento parou na margem, como se não quisesse entrar.

Edrin aproximou-se, sentindo um frio por dentro.

— Por que detesta rostos? — perguntou.

Tomael apontou para a superfície.

— Olhe e verá.

Edrin olhou. A água devolveu-lhe o reflexo… mas não era o dele. Era um rosto parecido, sim, porém mais duro, com um olhar de pedra e uma cicatriz que Edrin não tinha. O reflexo sorriu, devagar, como se conhecesse segredos.

Edrin recuou, a boca seca.

Tomael fez o mesmo e soltou um “oh”. O reflexo dele era um Tomael mais velho, com olhos cansados e uma expressão de quem já foi traído.

— Está a mostrar… o que podemos ser? — sussurrou o rapaz.

A água ondulou, apesar de não haver vento. Da superfície ergueu-se algo como uma máscara líquida, um rosto sem corpo, feito de água e sombras. Tinha olhos profundos, e uma voz que parecia vir de dentro da pedra.

— Nomes — disse a coisa. — Verdadeiros.

Edrin endireitou-se.

— Sir Edrin de Lúmen.

A máscara aproximou-se e, por um instante, a água brilhou.

— Nome de ferro. Mas não é o primeiro. Diz o primeiro.

Edrin engoliu em seco. Havia um nome que ele escondia, não por vergonha, mas por dor. Antes de ser cavaleiro, fora apenas um rapaz de aldeia, com mãos cheias de terra e sonhos pequenos.

— Edrin, filho de Maor — disse, por fim.

A máscara tremeu, satisfeita.

— E tu? — perguntou a voz a Tomael.

O rapaz abriu a boca, fechou, abriu de novo.

— Tomael… o… Tomael.

A água fez um som como riso abafado.

— Mentira.

Tomael corou.

— Está bem! Eu… eu não sei o meu primeiro nome. Fui apanhado por gente errada e… — olhou para Edrin, pedindo ajuda com os olhos — …fui chamado de muitas coisas. Tomael foi a que ficou.

A máscara inclinou-se, como se o examinasse.

— Verdade triste.

A água abriu-se numa pequena espiral e um objeto subiu, flutuando: um frasco de cristal com algo dentro — não líquido, mas ar. Um ar visível, com brilhos minúsculos, como poeira de estrela.

Edrin estendeu a mão, mas a voz deteve-o.

— O sopro não é para ser guardado como moeda — disse a máscara. — É para ser dado.

— Eu vou dá-lo — prometeu Edrin. — À estátua.

A máscara aproximou-se do cavaleiro. A água subiu-lhe ao pulso, fria como inverno, e apertou como uma mão.

— Para dar vida, paga-se com vida — murmurou a voz.

Edrin ficou imóvel. Não por medo, mas por compreensão. A profecia tinha avisado: “pagará com o que o coração tem de rei”.

— Se tiver de pagar, pagarei — disse ele.

A água soltou-o. O frasco pousou na sua palma, leve demais para conter algo tão importante.

Tomael soltou o ar, como se só agora se lembrasse de respirar.

— Vamos embora daqui — disse, baixinho. — Não gosto quando a água fala comigo.

No caminho de volta, o mapa parecia mais calmo, como se tivesse conseguido o que queria.

Mas a floresta não estava calma. O escuro parecia mais fechado, e havia um zumbido distante, como muitos sussurros misturados.

Edrin apertou o frasco contra o peito, sentindo o brilho lá dentro pulsar, como um coração pequenino.

— Estás a tremer — notou Tomael.

— Não estou — mentiu Edrin.

Tomael ergueu uma sobrancelha.

— O mapa gosta de verdade, lembra?

Edrin expirou.

— Estou. Mas não por medo do combate. — Olhou para as árvores, para as sombras que se esticavam. — Estou a tremer porque não sei o que vou perder.

Capítulo 4 — A Ponte dos Corvos e a Primeira Batalha

A rota levou-os a um desfiladeiro. No meio, uma ponte de pedra estreita cruzava o vazio. Corvos alinhavam-se nas bordas, imóveis, como sentinelas com penas.

— Bonito — disse Tomael, tentando parecer despreocupado. — Só falta alguém cobrar bilhete.

Do outro lado da ponte, havia uma figura encapuzada, alta e rígida. Quando se moveu, o som foi de metal roçando metal. Não era um homem: era uma armadura vazia, guiada por algo invisível. Os olhos do elmo eram duas fendas negras.

A coisa ergueu uma espada antiga.

— O sopro — disse uma voz oca, como vento em túmulo. — Devolve-o ao bosque.

Edrin avançou um passo, mantendo o frasco seguro.

— Não. Ele é para a estátua.

A armadura inclinou a cabeça, como um animal que decide atacar.

— A estátua é prisão. O sopro é chave. O bosque quer a chave.

Tomael sussurrou:

— Eu não gosto de “o bosque quer” nada. Bosques não deviam querer.

Edrin posicionou-se na entrada da ponte. Era estreita demais para manobras largas. Ali, um cavaleiro era mais parede do que espada.

— Fica atrás de mim — ordenou.

— Eu fico atrás… mas com opiniões — respondeu Tomael, agarrando uma pedra do chão, como se fosse um argumento.

A armadura avançou. Cada passo fazia a ponte vibrar.

Edrin levantou a espada. O primeiro choque ecoou no desfiladeiro, um som que acordou os corvos. Eles levantaram voo num turbilhão escuro.

A armadura era forte e incansável. Não sentia dor, não hesitava. Edrin, sim. Mas Edrin tinha algo que o metal não tinha: escolha.

Ele recuou um passo, atraindo a armadura para o centro da ponte. O vento lá em baixo subia como um rugido.

— Tomael! — gritou. — Agora!

— Agora o quê?! Eu não sou um manual de guerra!

— O fecho da ponte!

Tomael olhou e viu uma pedra maior na lateral, como um pino. Com um esforço ridículo e um palavrão engolido a meio, empurrou-a. A pedra cedeu um pouco. A ponte gemeu.

Edrin percebeu: aquela ponte era antiga e tinha segredos de construção. Se o pino saísse…

A armadura atacou com força. Edrin aparou, o braço a vibrar. O frasco no peito parecia aquecer.

— Mais! — berrou Edrin.

Tomael empurrou de novo, com as duas mãos e o peso do corpo. A pedra soltou-se com um estalo.

A ponte inclinou-se imperceptivelmente. A armadura vacilou, surpreendida. Edrin aproveitou, não para matar, mas para empurrar. Um golpe com o ombro, um empurrão decidido.

A armadura deslizou. Tentou agarrar o ar. O elmo virou-se para Edrin, e por um segundo pareceu haver raiva… ou medo.

Caiu no desfiladeiro e desapareceu na escuridão, sem grito, apenas com o som distante de metal a bater em pedra.

A ponte estabilizou, embora agora tivesse uma fenda.

Tomael deixou-se cair sentado, ofegante.

— Eu… eu acabei de derrubar um inimigo com uma pedra. Isto conta como heroísmo ou como vandalismo?

Edrin riu — um riso curto, cansado, humano.

— Conta como viver mais um dia.

Do outro lado, a floresta parecia mais próxima. As árvores estavam densas, como se tentassem fechar o caminho.

Edrin tocou no frasco. A luz dentro dele tremia, como se pressentisse o fim.

— A estátua é prisão, disseram — murmurou Tomael, levantando-se. — E se… e se ao dar o sopro você libertar algo que não devia?

Edrin olhou para o rapaz.

— Se eu não tentar, a floresta fecha-se e engole tudo à mesma. Prefiro escolher o risco do que aceitar o medo.

Tomael engoliu em seco.

— Está bem. Eu… eu vou consigo.

Edrin pousou uma mão no ombro dele, pesada e breve.

— Já estás.

Capítulo 5 — Confissões na Clareira da Lua Baixa

Voltaram à clareira quando a noite já tinha caído. A lua estava baixa, enorme, e parecia uma moeda prateada deixada no céu por um gigante distraído. A estátua esperava, imóvel, com as mãos abertas.

Edrin aproximou-se. O bronze parecia mais escuro agora, como se tivesse absorvido a noite.

Tomael manteve-se a poucos passos, inquieto.

— Antes de fazer isso… — disse o rapaz. — Diga-me a verdade. Por que quer tanto dar vida a uma estátua? Não me diga só “profecia”. Profecias são desculpa de gente que não quer explicar.

Edrin ficou em silêncio. O vento passou na clareira e fez a relva ondular, como mar.

— Quando eu era jovem — começou —, havia uma estátua na praça da minha aldeia. Um antigo herói. Eu sentava-me aos pés dela quando não tinha com quem falar. Achava que, se eu contasse os meus medos, a pedra guardava e não ria.

Tomael ouviu, quieto.

— Um inverno, veio a fome. E depois veio a guerra. Eu fui embora para ser escudeiro, para ganhar pão e espada. Quando voltei… a praça tinha sido queimada. A estátua, partida. — Edrin apertou o frasco. — Eu não consegui salvar ninguém. Virei cavaleiro, ganhei medalhas, nomes, canções… e mesmo assim, lá dentro, sempre fui aquele rapaz a falar com pedra.

Tomael engoliu em seco.

— Então quer… corrigir isso.

— Quero provar a mim mesmo que nem tudo o que é frio tem de ficar frio para sempre — disse Edrin. — Se eu conseguir dar um sopro a esta estátua… talvez eu consiga respirar melhor.

A clareira pareceu escutar. As sombras ficaram mais quietas.

Tomael aproximou-se mais um passo.

— E o preço?

Edrin olhou para as mãos abertas de bronze.

— Não sei. Mas sei o que tenho: o meu fôlego, o meu juramento… e o meu coração teimoso.

Ele destapou o frasco. Um brilho escapou, delicado, como a primeira faísca numa lareira.

Por um instante, a clareira encheu-se de um som fino, como flauta distante.

— Edrin… — chamou uma voz.

Não era Tomael. Não era a água.

A voz vinha do bronze.

Edrin congelou.

— Quem…?

Os lábios da estátua não se mexeram, mas o som estava ali, dentro do ar, entre as folhas.

— Eu fui rei — disse a voz, calma. — Fui guardião desta floresta. Tranquei nela uma fome antiga, um espírito que devora caminhos e memórias. Para o prender, prendi-me também. Virei bronze. Virei silêncio.

Tomael deu um passo atrás.

— Eu sabia. Sempre há uma “fome antiga”.

Edrin ergueu o frasco.

— Se eu te der o sopro, acordas. Mas a fome… solta-se?

— Não por completo — respondeu o rei de bronze. — Mas acordará o bastante para tentar escapar. E tu, cavaleiro… terás de escolher: dar-me vida e enfrentar o que vem, ou deixar-me aqui e ver a floresta morrer lentamente.

Edrin fechou os olhos por um segundo. Sentiu o peso do mundo e, ao mesmo tempo, a leveza de um ato simples.

— Eu escolho dar vida — disse.

Tomael arregalou os olhos.

— Mesmo sabendo que pode piorar?!

— Especialmente por saber — respondeu Edrin. — Porque piorar com escolha é diferente de piorar por abandono.

Ele colocou o frasco junto aos lábios da estátua e soprou.

Não um sopro comum. O ar saiu dele como se arrancasse uma história de dentro do peito: quente, firme, cheio de lembranças. A luz do frasco entrou no bronze como água entrando em terra seca.

A estátua brilhou. As mãos tremeram. Um som de metal a ceder, como gelo a partir.

Edrin sentiu o peito apertar. O seu fôlego ficou curto, como se tivesse corrido uma colina inteira.

O bronze abriu os olhos.

E nesse mesmo instante, a floresta ao redor soltou um suspiro… e um rosnado.

Capítulo 6 — O Espírito que Devora Caminhos

Das bordas da clareira, as sombras juntaram-se, formando um corpo. Não era um animal, nem um homem. Era como uma fumaça com dentes, um vento escuro com vontade. Onde tocava, a relva murchava. As árvores inclinavam-se, como se quisessem afastar-se.

O rei de bronze — agora rei vivo — levantou-se com dificuldade. O bronze ainda cobria parte do corpo como uma armadura colada à pele.

— A Fome de Trilhos — disse ele. — Ela quer o sopro de volta. Quer que tudo volte a ser silêncio.

Tomael agarrou o braço de Edrin.

— Eu voto por corrermos. É um voto muito bem pensado.

Edrin tentou respirar fundo e falhou. O ar não vinha com facilidade.

— Eu… dei demais — sussurrou.

A Fome avançou, e o ar da clareira ficou pesado, como se alguém tivesse posto um cobertor molhado sobre o mundo. Tomael começou a tossir.

O rei ergueu a mão.

— Cavaleiro, ouve-me! O sopro que deste não é só ar. É intenção. É coragem. Se te esvaziaste, enche-te de novo — não com magia, mas com memória. Lembra-te por que respiras.

Edrin olhou para a sombra e sentiu medo, sim. Mas por trás do medo havia outra coisa: a aldeia que ardeu, as vozes que se calaram, o juramento feito sob um teto de pedras. E havia Tomael, ali, a tossir e a tentar brincar com a morte para não chorar.

Edrin endireitou-se, mesmo com o peito a arder.

— Eu respiro… por eles — disse, rouco.

A Fome lançou-se. Edrin puxou a espada, mas o golpe atravessou a sombra sem a ferir. A Fome riu, um som como folhas secas.

— Espada não corta vento! — gritou Tomael, como se isso ajudasse.

O rei avançou com passos pesados e colocou-se ao lado de Edrin.

— Há uma forma — disse. — Não com lâminas. Com nome.

— Nome? — repetiu Edrin, confuso.

— Ela devora caminhos porque não tem caminho. Devora memórias porque não tem memória. Dá-lhe um nome verdadeiro, e ela terá forma. E, com forma, poderá ser presa outra vez.

Tomael arregalou os olhos.

— Dar nome a um monstro… Isso é como adotar um cão raivoso.

A Fome rodopiou, tentando envolver o rei. O rei abriu os braços e a sombra hesitou, como se lembrasse do bronze.

— Cavaleiro! — gritou o rei. — Diz o nome que ela foi antes de ser fome. Eu guardei-o… mas esqueci parte. A prisão também me roubou.

Edrin fechou os olhos. Sentiu a clareira, a lua, o peso das árvores. E sentiu o mapa teimoso no bolso de Tomael, como se vibrasse.

— Tomael! — chamou Edrin. — O mapa!

O rapaz entendeu a meio, mas puxou o pergaminho. As linhas dançaram e formaram palavras rápidas, como se o mapa finalmente quisesse falar.

“S… Sibil…” — leu Tomael, tropeçando nas letras que mudavam. — “Sibilara”! Acho que é isso! Ou “Sibil… arara”. Não, espere—

— Sibilara — repetiu Edrin com firmeza, como quem crava uma estaca no chão. — Esse é o teu nome!

A sombra estremeceu. Pela primeira vez, ganhou contorno. Um rosto apareceu, feito de nevoeiro: olhos assustados, não maldosos. A boca abriu-se num grito sem som.

— Sibilara — disse o rei, com voz emocionada, como quem reconhece um velho inimigo e um velho amigo ao mesmo tempo. — Foste guardiã dos caminhos. Eras quem guiava viajantes perdidos. Foste corrompida pela solidão e pelo medo.

A Fome — Sibilara — hesitou, tremendo.

Edrin deu um passo à frente, apesar do peito.

— Não te vou deixar devorar tudo — disse ele, com calma cansada. — Mas também não te vou chamar apenas de monstro. Volta ao teu caminho.

Sibilara lançou um sopro escuro, que quase apagou a lua por um instante. Edrin cambaleou. Tomael gritou o nome de Edrin, assustado.

O rei ergueu as mãos e a clareira brilhou. Símbolos antigos apareceram no chão, círculos que pareciam feitos de luz lunar.

— A prisão! — disse o rei. — Ajuda-me, cavaleiro. Com o teu fôlego… o que resta.

Edrin sentiu o ar entrar, pequeno, mas suficiente. Um fôlego curto pode segurar uma palavra grande.

Ele ajoelhou, pousou a mão na terra e soprou — não para dar vida agora, mas para firmar o selo. O sopro saiu como promessa.

Os círculos acenderam-se. Sibilara gritou sem som, a sombra puxada para o centro. Não era um grito de dor, mas de despedida.

E então, com um último tremor, a sombra encolheu e entrou na terra, como fumaça sugada por um buraco.

O silêncio voltou. Desta vez, um silêncio que respirava.

Edrin caiu sentado, exausto, e por um segundo achou que não teria mais ar.

Tomael correu até ele.

— Não morra, por favor. Eu… eu ainda não decidi se gosto de profecias.

Edrin conseguiu rir, fraco.

— Ainda… respiro.

O rei ajoelhou ao lado deles, o bronze nos ombros brilhando à luz da lua.

— O preço foi alto — disse ele a Edrin. — Mas não te levou. Ainda não.

Edrin levantou os olhos.

— E a floresta?

O rei olhou ao redor. As árvores pareciam menos inclinadas. O ar cheirava a relva molhada e não a medo.

— A floresta abriu uma fresta — respondeu. — Não está salva para sempre. Nada está. Mas está viva.

Capítulo 7 — Um Sopro para o Amanhã

A madrugada chegou devagar, como um animal tímido. A luz azulada entrou na clareira e fez o bronze do rei parecer menos pesado. Ele levantou-se com cuidado, como quem reaprende o próprio corpo.

— O teu sopro acordou-me — disse ao cavaleiro. — E o teu nome prendeu a fome. Fizeste mais do que a profecia pedia.

Edrin estava de joelhos, respirando melhor agora, embora com uma estranha sensação de vazio e espaço novo no peito, como uma sala que foi limpa e ainda cheira a madeira.

— Eu não fiz sozinho — disse ele, olhando para Tomael.

Tomael, que estava a mastigar um pedaço de pão duro, quase engasgou.

— Eu? Eu só empurrei uma pedra e li um mapa mal-educado.

— E ficaste — respondeu Edrin. — Quando podias fugir.

O rapaz abriu um sorriso torto, meio orgulhoso, meio envergonhado.

O rei caminhou até o lugar onde antes ficava imóvel e pousou a mão na pedra branca.

— Esta clareira é um nó do mundo — explicou. — Aqui, promessas pegam raiz. Cavaleiro, o teu desejo era dar um sopro a uma estátua. Conseguiste. Mas há outro sopro que tens de aprender: o teu.

Edrin franziu o cenho.

— O meu?

— Passaste anos a respirar por dever. Por culpa. Por uma profecia. — O rei pousou a mão no peito de Edrin, com respeito. — Agora respira por escolha.

Edrin fechou os olhos e inspirou. Sentiu o ar entrar sem luta. Sentiu o mundo caber dentro dele, não como peso, mas como música baixa.

Quando expirou, foi como se uma parte da noite saísse com o ar.

Tomael bateu palmas, exagerado.

— Bravo! Ele respirou! Devíamos fazer isso mais vezes.

Edrin abriu os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, não sentiu vontade de discutir com o destino.

O rei endireitou-se.

— Eu voltarei a guardar os caminhos. Não como prisão, mas como vigia. E tu, cavaleiro, levarás notícia ao mosteiro e às aldeias: a floresta não está a fechar-se sozinha. Ela reage ao medo dos homens. Quanto mais vocês a temerem, mais ela se fecha. Quanto mais a respeitarem, mais ela abre.

Edrin assentiu. Depois olhou para a estátua — ou melhor, para o espaço vazio onde ela estivera. A pedra branca agora parecia apenas pedra, finalmente livre de segurar silêncio.

— E tu, Tomael? — perguntou Edrin. — Vens comigo?

O rapaz hesitou e olhou para a floresta como quem olha para uma porta.

— Eu acho… — disse, devagar — …que vou ficar um pouco. Alguém precisa ensinar o mapa a ser menos arrogante. E talvez… talvez eu encontre o meu primeiro nome.

O rei sorriu, e o sorriso dele tinha a tristeza e a beleza de uma canção antiga.

— Os caminhos devolvem o que foi perdido, quando se anda com verdade.

Edrin montou o cavalo. Antes de partir, inclinou-se para Tomael.

— Se descobrires o teu nome, guarda-o bem.

Tomael fez continência de forma desajeitada.

— E se o meu nome for horrível, tipo “Bartolomeu”?

— Então serás um herói chamado Bartolomeu — respondeu Edrin.

Tomael riu, aliviado.

Edrin virou o cavalo para o trilho. A floresta, antes negra e fechada, parecia agora um pouco menos ameaçadora. As sombras ainda existiam, claro. Mas já não mandavam sozinhas.

Enquanto cavalgava, Edrin inspirou e expirou, sentindo o fôlego como uma espada invisível — não para ferir, mas para abrir caminho.

E, atrás dele, na Clareira da Lua Baixa, o rei recém-desperto ergueu a mão para o céu e murmurou algo que soou como gratidão.

A floresta respondeu com um vento suave, como se o mundo inteiro, por um instante, tivesse aprendido a respirar.

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Clareira
Espaço aberto numa floresta, sem árvores, com luz do céu.
Profecia
Dizimento sobre algo que pode acontecer no futuro.
Mosteiro
Lugar onde moram e rezam monges ou religiosas.
Rédea
Cinta usada pelo cavaleiro para guiar o cavalo.
Elmo
Peça de metal que protege a cabeça do cavaleiro.
Broche
Pequeno objeto que prende roupas ou decora a capa.
Musgo
Planta verde e macia que cresce em lugares úmidos.
Serenidade
Calma profunda, sentimento de paz e tranquilidade.
Pergaminho
Folha antiga de pele ou papel usada para escrever mapas.
Virote
Flecha curta e grossa disparada por uma besta.

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A ler em seguida em Fantasia Heroica (Medieval-Fantástica) para 11 a 12 anos

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