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Fantasia Heroica 11 a 12 anos Leitura 25 min.

Dario Bravomoinho e a fome do fundo

Dario Bravomoinho enfrenta nevoeiro e uma criatura dos canais para cumprir a promessa de levar um pão ao vigia da torre, aprendendo pelo caminho que partilhar e lembrar podem vencer antigas fomes.

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Um homem adulto, Dario Bravomoinho, rosto burilado, cabelo castanho curto, barba de alguns dias, expressão resoluta e terna, estende com a mão direita uma meia‑rodela de pão dourado sobre a água; veste jaqueta de couro gasta, botas enlameadas e curta espada na bainha, encostado no parapeito de pedra de uma torre úmida. Atrás e à esquerda, Tomé, o vigia (c. 40 anos), rosto redondo e barbudo, casaco cinza grosso, segura a outra metade do pão junto ao peito, com olhar emocionado e aliviado. Abaixo, à direita nas escadas, Lino (c. 10 anos), chapéu grande e dente quebrado, braços cruzados, olhando Dario com admiração. A criatura aquática, a Fome do Fundo, é uma massa de correntes escuras, hera e correntes enferrujadas, com rosto feito por um círculo de água verde luminosa e algas como cabelos, emergindo do canal junto à base da torre, ondulações iluminadas em tons verde‑azulados. Local: topo de uma Torre das Sete Janelas em pedra cinzenta, parapeito coberto de musgo, canais enevoados e restos de madeira flutuando. Cena: trégua mágica enquanto Dario oferece pão, a criatura hesita e os aldeões observam; luz suave da manhã, contraste quente do pão dourado contra os tons frios da água e do nevoeiro. Estilo: cores em degradê suave, texturas de pedra úmida e água cintilante, iluminação cinematográfica, composição centrada no gesto de oferta. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O pão e o nevoeiro

No Ducado de Valcanais, a água mandava tanto quanto os duques. Corria em canais estreitos entre casas de telhas escuras, girava rodas de moinhos com um rangido paciente e fazia espelhos onde as nuvens se viam duas vezes. Ao amanhecer, o nevoeiro subia dos cursos de água como um lençol branco, e os sinos pareciam tocar lá de dentro, abafados, como se o mundo ainda estivesse a dormir.

Dario Bravomoinho não precisava de armadura para ser reconhecido. Bastava-lhe a maneira de andar: firme, como quem já atravessou pontes a cair, e leve, como quem aprendeu a ouvir o chão antes de pisar. Diziam que, em tempos, tinha derrubado um ogre com uma pá de padeiro e um insulto bem escolhido. Outros juravam que era exagero. Dario, quando ouvia, encolhia os ombros.

Naquela manhã, entrou na padaria de Dona Brígida com o seu sorriso de “não faço ideia do que vocês inventam sobre mim”.

— Chegaste cedo, lendário — disse Dona Brígida, limpando farinha da testa com as costas da mão. — O guetteur anda a bater com os pés na torre como se quisesse acordar os peixes.

— Se acordar os peixes, ainda lhe peço desculpa — respondeu Dario.

Ela riu, e a padaria cheirou ainda mais a trigo, mel e lenha. Dona Brígida colocou sobre o balcão um pão redondo, dourado, com a crosta estalada como um mapa de rios.

— Leva este. Ainda está a cantar.

Dario aproximou o ouvido e fingiu ouvir o pão a fazer serenatas.

— Ouço, sim. Diz que não quer ficar sozinho.

— Então anda depressa. O nevoeiro hoje tem más ideias.

Dario pendurou o pão numa sacola de couro, ao lado da sua espada curta — mais por hábito do que por necessidade. A missão parecia simples: levar o pão ao guetteur, o vigia da Torre das Sete Janelas, na margem norte, onde o canal principal se alargava e o ducado parecia um tabuleiro de xadrez molhado.

Ao sair, o ar frio mordeu-lhe as bochechas. O nevoeiro engolia tudo a dois passos, e os sons vinham de longe, sem corpo: a água, um moinho, um corvo que parecia reclamar do céu.

Dario avançou pela rua de pedra, seguindo os marcos de madeira que os barqueiros usavam para não se perderem. A cada esquina, a cidade mudava de forma como uma história contada por alguém sonolento.

E foi então que ouviu. Um sussurro, não de gente, mas de água a falar.

“Pão… pão…”

Dario parou. A sacola balançou.

— Não comeces — murmurou ele, como se o nevoeiro fosse um velho amigo com mania de assustar.

Uma sombra escorregou sobre o canal, rápida demais para ser peixe e grande demais para ser lontra. A água fez um “ploc” satisfeito, como quem acaba de engolir um segredo.

Dario apertou a sacola. A missão era só um pão. Mas em Valcanais, até um pão podia ser isco para uma aventura.

Capítulo 2 — O guetteur e a torre das sete janelas

A Torre das Sete Janelas ergui-se ao fim do bairro dos moinhos, onde as rodas rangiam como dentes a mastigar o tempo. Era alta e magra, feita de pedra cinzenta, com sete aberturas alinhadas em espiral — uma para cada direção do vento, dizia-se.

No portão, Dario encontrou Tomé, o guetteur, com uma manta enrolada nos ombros e olhos que pareciam ter passado a noite a discutir com as estrelas.

— Dario! Finalmente. Pensei que o nevoeiro te tinha convencido a ir pescar.

— Eu só pesco quando os peixes pedem por favor. — Dario ergueu a sacola. — Aqui está. Pão quente. Ainda está… a cantar.

Tomé cheirou o ar como um cão feliz.

— Oh, santo trigo! Entra, entra. Lá em cima está um frio que faz os pensamentos encolherem.

Subiram os degraus em caracol. A pedra estava húmida, e a luz entrava em lâminas pelas janelas, cortando o nevoeiro em fatias pálidas. Lá no alto, o mundo devia ser um mapa — mas naquele dia era apenas uma mancha branca com sombras que se mexiam.

Tomé rasgou um pedaço de pão e mordeu. Fechou os olhos.

— Isto devia ser proibido para menores de idade. Dá demasiada alegria.

Dario riu, mas logo o riso ficou preso, porque uma das janelas — a que dava para o Canal do Duque — mostrou algo que não combinava com o resto do dia: uma linha escura a riscar o nevoeiro, como uma cicatriz em água.

— Vês aquilo? — perguntou Dario.

Tomé limpou migalhas da barba.

— Vi. Desde a madrugada. Primeiro pensei que era uma barca. Depois pensei que era o meu medo a fazer arte.

A linha escura aproximava-se. E, à medida que vinha, o nevoeiro parecia recuar, como gente a abrir caminho para alguém importante.

Um som subiu do canal: um murmurinho de vozes sem bocas.

— Não gosto disso — disse Tomé, mais baixo. — Há histórias antigas… sobre a Fome do Fundo.

Dario apoiou a mão no parapeito.

— Conta.

Tomé engoliu outro bocado, como quem precisa de coragem com crosta.

— Dizem que, quando os canais foram cavados, os primeiros duques fizeram um pacto com algo que vivia debaixo da água. Algo que não come peixe nem alga. Come… o que é feito para ser partilhado. Come comida, sim. Mas principalmente come o gesto. A entrega. O “trouxe-te isto”.

Dario olhou para o pão restante, tão simples e tão valioso.

— Então a minha missão pode estar a cheirar a tentação.

— Exatamente. — Tomé apontou. — Aquilo no canal… não é barco. É rasto.

Nesse instante, uma pancada surda fez tremer a torre, como se alguém tivesse dado uma cabeçada no alicerce. Poeira caiu do teto. Tomé quase deixou cair o pão.

— Pela barba do duque! — exclamou.

Do lado de fora, no nevoeiro, uma forma enorme ergueu-se da água por um segundo: uma crista negra, feita de lodo e correntes, com olhos de luz verde como lamparinas vistas debaixo de água.

Dario sentiu o coração acelerar, não de pânico, mas daquela velha emoção de batalha, como quando o mundo decide testar se a tua coragem é de verdade.

— Tomé — disse ele. — Fecha as janelas. Não por medo. Por respeito. Isto vai tentar entrar pelos olhos.

Tomé obedeceu, trémulo.

— E agora?

Dario prendeu a sacola ao peito.

— Agora… vou terminar o que comecei. Um pão entregue é uma promessa. E promessas, em Valcanais, são pontes.

Capítulo 3 — A ponte que não estava lá

Dario desceu da torre e tomou o caminho do Canal do Duque. O nevoeiro parecia mais denso, como se alguém tivesse despejado leite no mundo. Os moinhos estavam silenciosos demais, e isso era quase ofensivo: em Valcanais, as rodas nunca descansavam.

Na esquina do Arco das Enguias, encontrou uma criança sentada num barril virado, com um chapéu enorme e um olhar que não combinava com a idade: esperto e antigo.

— Senhor Bravomoinho — disse ela, como se o conhecesse há séculos. — Vai seguir o rasto, não vai?

Dario parou.

— E tu vais dizer-me para não seguir.

— Não. Vou dizer-lhe onde ele acaba. — A criança apontou com o queixo para uma ruela estreita. — Há uma ponte ali que não estava lá ontem.

Dario franziu o sobrolho.

— Pontes não aparecem.

— Aparecem quando a água decide ser esperta. — A criança encolheu os ombros. — Eu chamo-me Lino. E não, não vou consigo. Tenho medo de me afogar em coisas que não são água.

Dario gostou daquela honestidade.

— Fica aqui, Lino. E se vires alguém a ser puxado pelo canal, grita. Grita tanto que até o duque acorde.

Lino sorriu, mostrando um dente partido.

— Eu grito bem. Sou quase profissional.

Dario seguiu a ruela. O chão estava escorregadio, e as paredes suavam humidade. Ao fundo, surgiu mesmo uma ponte — estreita, feita de tábuas negras, com cordas brilhantes como cabelo molhado. A ponte atravessava um canal que Dario juraria não existir ali. Era como se o ducado tivesse decidido desenhar um novo risco no seu próprio mapa.

Ele colocou um pé na ponte. A madeira gemeu, não como madeira, mas como garganta.

— Ah — disse Dario, encarando o nevoeiro. — Então és tu que andas a abrir caminhos.

A água por baixo mexeu-se, e uma voz, muito baixa, respondeu dentro da cabeça dele.

“Entrega.”

Dario apertou a sacola com o pão.

— Vou entregar, sim. Mas não a ti.

A ponte inclinou-se, tentando desequilibrá-lo, como um cavalo maldomado. Dario abriu os braços e avançou, passo a passo, com a calma de quem já lutou contra coisas mais parvas — como portas que não queriam abrir e duques que não queriam ouvir.

No meio da ponte, uma mão de lodo surgiu da água e agarrou a tábua, puxando. A ponte desceu, e os sapatos de Dario tocaram água gelada. O frio subiu-lhe pelas pernas como uma ameaça.

Dario puxou a espada, não para cortar água — isso seria ridículo — mas para cortar cordas. Com um golpe rápido, cortou uma das cordas laterais. A ponte torceu-se, e a mão de lodo perdeu força, confusa.

— Desculpa — disse Dario. — Eu respeito a água, mas não respeito truques.

Ele saltou para a outra margem, molhado até aos joelhos, e a ponte atrás dele dissolveu-se em tábuas que viraram espuma. O canal falso fechou-se como uma boca a fingir que nunca esteve aberta.

À frente, o rasto negro continuava, guiando-o para fora da cidade, onde os canais se alargavam em pântanos e juncos. O nevoeiro ali tinha cheiro de ferro e segredo.

Dario sentiu, pela primeira vez, que o pão na sacola não era só pão. Era calor humano embalado. E algo lá em baixo queria devorá-lo para que o mundo ficasse um pouco mais frio.

Capítulo 4 — O moinho submerso

O caminho levou-o ao Moinho de Santa Maré, que já não trabalhava havia anos. Diziam que, numa enchente, a água engolira o piso de baixo e nunca mais devolvera o que levou. As pessoas passaram a contornar aquele lugar como se fosse uma palavra proibida.

As pás do moinho estavam paradas, tortas, cobertas de algas secas. A porta rangia sozinha, aberta a meio, como se o moinho respirasse.

Dario entrou. O interior cheirava a madeira velha e farinha fantasma. A luz entrava por frestas, desenhando riscos dourados no pó.

No centro, havia uma escada que descia para a parte submersa. E da escada vinha o mesmo sussurro:

“Entrega… entrega…”

Dario aproximou-se. A água lá em baixo brilhava com uma luz verde. Não era bonita. Era sedutora, como uma joia no fundo de um poço.

— Quem és tu? — perguntou ele, alto, para se ouvir a si mesmo.

A superfície da água abriu-se como pele e, lentamente, ergueu-se uma figura. Não era peixe, nem serpente, nem homem. Era uma coisa feita de correntes, lodo e pedaços de madeira arrancados de pontes antigas. No lugar do rosto, um círculo de água girava, e dentro dele flutuavam migalhas, tal como estrelas num céu estranho.

“Sou a Fome do Fundo.”

— Nome feio — disse Dario. — Parece doença.

A criatura inclinou-se. A água subiu pelas paredes.

“Fui esquecida. Eu guardava o pacto. Eles davam-me o primeiro pão do ano, e eu mantinha os canais mansos. Depois acharam-se fortes. Cortaram a oferta. Esqueceram.”

Dario pensou em Dona Brígida, no forno, no cuidado com que marcava a crosta com uma lâmina, como quem assina uma carta.

— Então queres o pão. Para te lembrarem.

“Quero o gesto. Quero que a entrega seja minha. Se eu comer a tua promessa, as promessas dos outros apodrecem. O ducado ficará de mãos vazias.”

Dario sentiu raiva, mas era uma raiva limpa, como água fria: não para destruir, mas para agir.

— Não vou deixar.

A Fome avançou, e uma onda lamacenta subiu a escada, tentando lamber-lhe as botas. Dario recuou um passo, mas não fugiu. Tirou o pão da sacola.

A crosta estalou ao ar, e o cheiro quente encheu o moinho. Por um segundo, até o nevoeiro pareceu parar para cheirar.

A Fome tremeu, atraída.

“Entrega.”

— Vou entregar, sim — disse Dario. — Mas primeiro vou partir.

Com as mãos, que já tinham segurado espadas e pás, Dario partiu o pão em duas metades. A Fome hesitou, confusa, como um cão que vê duas bolas ao mesmo tempo.

— O gesto é partilhar — disse ele. — Não é roubar.

E, antes que a criatura percebesse, Dario atirou uma metade para trás, para o chão seco do moinho, longe da água. A outra metade ficou na mão dele.

A Fome investiu para a metade mais próxima — a que Dario segurava. Correntes de lodo tentaram agarrar-lhe o pulso.

Dario sorriu, com um brilho teimoso nos olhos.

— Apanhaste o isco errado.

Ele lançou a metade do pão para cima, para uma viga de madeira, e no mesmo instante puxou a espada e cortou a corda que sustentava um velho saco de farinha endurecida. O saco caiu com estrondo, rebentou, e uma nuvem de farinha explodiu no ar, cobrindo tudo de branco.

A Fome recuou, tossindo… se é que uma coisa de água consegue tossir. A farinha colou-se ao lodo e fez uma massa pesada, dificultando-lhe os movimentos. A luz verde ficou mais fraca, como se alguém tivesse tapado uma lanterna.

Dario aproveitou. Pegou na metade do pão que tinha atirado para trás e enfiou-a na sacola, protegida. A outra, lá em cima, ficou como distração.

— Eu não vim lutar por glória — disse ele, subindo a escada. — Vim levar comida a um homem que guarda o ducado. E tu… tu vais aprender que nem toda a fome manda.

A Fome gritou dentro da cabeça dele, um som de água a partir pedra.

“Não podes fugir do fundo!”

Dario saiu do moinho e fechou a porta com uma tranca. Do lado de dentro, a água bateu, irritada. Mas o moinho, velho e teimoso, aguentou.

Lá fora, o nevoeiro abriu um pouco. E, ao longe, ouviu-se finalmente um moinho recomeçar a girar, como se o ducado respirasse aliviado.

Capítulo 5 — A corrida pelos canais

Dario voltou pela margem do canal, agora com passos rápidos. O rasto negro acompanhava-o pela água, como uma sombra que se recusa a ficar para trás. A Fome não estava presa; estava atrasada. E uma coisa faminta não desiste facilmente.

Perto do mercado das barcas, Lino apareceu outra vez, escondido atrás de um poste.

— Eu gritei — disse ele, ofegante. — Mas o duque não acordou. Acho que ele tem travesseiros muito bons.

— E fizeste bem — respondeu Dario. — Agora preciso de outra coisa: sabes qual canal chega mais depressa à torre?

Lino apontou para um atalho de água estreito, entre dois armazéns.

— O Canal da Roda Pequena. Mas cuidado… tem correntes que parecem mãos.

— Hoje já vi mãos piores.

Dario saltou para uma barca vazia amarrada ao cais. Cortou a corda com um movimento rápido e empurrou-se com um remo. A barca deslizou, e a água bateu nas bordas com um som de tambor baixo.

O Canal da Roda Pequena era apertado, coberto por pontes baixas. Dario tinha de se dobrar para não bater com a cabeça. O nevoeiro vinha em fios, agarrando-se ao rosto como teias.

Atrás, a água começou a borbulhar. A linha negra apareceu, mais grossa, e a luz verde piscou sob a superfície.

— Já vens? — resmungou Dario. — Não tens mais nada para fazer?

A Fome respondeu com um golpe de água que empurrou a barca, quase virando-a. Dario agarrou-se e riu, não por achar graça, mas por desafiar o medo.

— Tomé vai ficar sem pão se eu cair! E ele morde.

A barca passou por baixo de uma ponte tão baixa que Dario teve de se deitar. No escuro da ponte, ouviu sussurros, como se as pedras comentassem.

“Entrega… entrega…”

— Já chega — disse ele, entre dentes.

Quando saiu do outro lado, viu à frente uma roda de moinho girar, ligada a uma comporta. Se conseguisse abrir a comporta, a corrente puxaria a barca com força, acelerando-o até à torre. Mas a alavanca ficava na margem, e a margem estava coberta de lama.

Dario encostou a barca e saltou. A lama quase lhe roubou a bota. Ele avançou, puxando a alavanca com as duas mãos. A comporta gemeu e abriu-se. A água rugiu, feliz por ter caminho.

A corrente apanhou a barca como um braço gigante e arrastou-a. Dario correu e saltou para dentro a tempo, caindo de joelhos.

Atrás, a Fome tentou segui-lo, mas a corrente forte misturou a farinha que ainda flutuava do moinho submerso e turvou a água. A luz verde ficou confusa, como olhos a pestanejar.

— Obrigado, Dona Brígida — murmurou Dario, pensando na farinha. — Até os truques de cozinha salvam o ducado.

A torre surgiu ao longe, as sete janelas como olhos atentos. Tomé estava na varanda, acenando os braços.

— Dario! O canal está a… a fazer caretas!

— Mantém-te firme! — gritou Dario. — E prepara… o apetite!

A barca bateu no cais com um “toc” seco. Dario saltou, correu escada acima, dois degraus de cada vez, com a sacola bem presa ao peito. Sentia a Fome atrás dele, subindo pelo canal, batendo contra pedras, furiosa por estar tão perto e tão longe.

No topo, Tomé abriu a porta, pálido.

— Achei que tinhas virado lenda de verdade.

— Ainda não — respondeu Dario. — Primeiro, o pão.

Capítulo 6 — A entrega e o pacto novo

No alto da Torre das Sete Janelas, o vento era mais frio, mas também mais limpo. O nevoeiro começava a levantar, como uma cortina cansada. Dario tirou a metade do pão da sacola e colocou-a nas mãos de Tomé.

Tomé ficou quieto por um instante, como se segurar aquele pão fosse segurar o próprio ducado.

— Conseguiste — sussurrou.

— Consegui entregar — corrigiu Dario. — A aventura foi só o caminho.

Lá em baixo, o canal escureceu. A água levantou-se numa crista, e a Fome do Fundo apareceu, maior do que antes, com correntes a tilintar como armadura molhada. Os olhos verdes fixaram-se no pão.

“É meu.”

Tomé deu um passo atrás.

Dario pôs-se à frente, espada na mão, mas o olhar calmo.

— Não é.

A Fome subiu mais, batendo contra a base da torre. A pedra tremeu. Um dos vidros de uma janela estalou.

Dario respirou fundo. A heroicidade, ele sabia, não era só lutar. Às vezes era falar com o monstro como quem fala com um vizinho zangado, sem se rebaixar.

— Ouve — disse Dario, alto, para que a água ouvisse e as pedras também. — O ducado esqueceu-te. Isso é verdade. E esquecer dói. Mas devorar promessas não vai curar o esquecimento; vai espalhá-lo.

A Fome hesitou, e o círculo de água no rosto girou mais devagar.

“Eu guardava. Eu exigia.”

— Então guarda de outra forma. — Dario apontou para o pão nas mãos de Tomé. — Este pão é para o guetteur, porque ele vigia por todos. Mas eu posso dar-te outra coisa: um pacto novo, sem medo.

Tomé engoliu em seco.

— Dario… estás a negociar com um… com um canal com dentes!

— Canais fazem parte de nós — disse Dario, sem tirar os olhos da criatura. — E nós fazemos parte deles.

Dario tirou um pequeno pedaço de pão da metade que restava — só uma migalha grande, nada mais — e colocou-a no parapeito, na beira da janela aberta, onde a chuva às vezes entrava.

— Isto é para ti — disse ele. — Não como pagamento por ameaças. Como sinal de lembrança. E, em troca, tu deixas os caminhos livres. Deixas as entregas acontecerem.

A Fome aproximou-se. A água subiu, delicada por um momento, como uma mão que não sabe se pode tocar. A migalha tremeu no parapeito.

Tomé segurou o pão com força.

— Se ela pegar… e quiser mais?

— Então eu volto a partir — respondeu Dario, quase a sorrir. — E o ducado aprende a não esquecer.

A Fome tocou na migalha. Ela dissolveu-se na água com um brilho breve, como sol no canal. A luz verde dos olhos suavizou, menos lamparina, mais vaga-lume.

O nevoeiro abriu-se de vez. O mundo apareceu: telhados, moinhos, canais brilhando como fitas, gente saindo às portas para ver por que razão a manhã demorara tanto.

A Fome recuou. Não desapareceu como num truque; simplesmente afundou-se, lenta, como alguém que decide ir embora antes de dizer algo de que se arrependa.

A torre parou de tremer.

Tomé soltou o ar que prendia.

— Isso… isso foi a coisa mais maluca e mais bonita que já vi.

Dario guardou a espada.

— Agora come. Antes que o pão decida cantar ópera.

Tomé riu, e mordeu. E, lá em baixo, o canal pareceu correr com mais leveza, como se tivesse aceitado um novo ritmo.

Ao descerem, viram Lino à porta da torre, de braços cruzados, tentando parecer muito adulto.

— Então? — perguntou ele. — Salvou o ducado com… padaria?

— Com entrega — disse Dario. — E um pouco de farinha.

Lino fez uma careta admirada.

— Quando eu crescer, quero ser guerreiro.

Dario olhou para os canais, para os moinhos, para as pessoas que recomeçavam o dia.

— Então aprende isto primeiro: ser guerreiro é levar o que prometeste, mesmo quando o caminho inventa monstros.

Lino assentiu, sério, como quem recebe uma espada invisível.

E assim, num ducado onde a água tinha memória, a maior façanha do lendário Dario Bravomoinho ficou escrita não em pergaminhos de batalha, mas no cheiro de um pão entregue a tempo.

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Nevoeiro
Névoa espessa que cobre a terra e dificulta ver longe.
Guetteur
Pessoa que vigia um lugar, ficando atento a perigos.
Rangido
Som alto e áspero que madeira ou metal fazem ao ranger.
Crosta estalada
Parte dura e quebradiça da superfície do pão.
Alicerce
Base forte que sustenta uma construção ou muro.
Parapeito
Pequena parede ou proteção numa varanda ou janela.
Correntes
Tiras de metal ligadas entre si, também movimento forte da água.
Submersa
Algo completamente coberto ou mergulhado na água.
Pântanos
Terreno encharcado com água e vegetação lenta.
Algas
Plantas que vivem na água, parecidas com folhas molhadas.
Comporta
Porta que controla a passagem de água num canal ou represa.
Trémulo
Que treme ou mostra medo; com movimento leve e inseguro.
Migalhas
Pequenos pedaços de pão que ficam depois de partir.
Pacto
Acordo entre duas partes com regras a cumprir.

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