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Fantasia Heroica 11 a 12 anos Leitura 28 min.

Lira e o vento ciumento no círculo das pontes

Lira parte numa jornada para unir reinos e enfrentar Zelo, o Vento Ciumento, procurando compreender e apaziguar o espírito do vento através de coragem, honestidade e pactos entre povos.

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Lira, jovem e vivaz, determinada e serena, cabelo preto curto em coque, casaco marrom gasto, broche em forma de asa quebrada, empunha uma adaga de vidro opalescente apontada para uma sombra escura no centro de uma plataforma de pedra; o velho Mestre Orun (~70 anos), rosto enrugado e longa bigode grisalho, com grande sacola de couro, está recuado à esquerda, preocupado mas orgulhoso; Timo, adolescente magro de ~16 anos, cabelo desgrenhado, segura seu capacete com ambas as mãos e observa Lira à direita; Ina, cavaleira de ~25 anos com tranças apertadas e armadura leve, segura uma bandeira verde junto a um arco da ponte; Brasa, uma égua alazana de focinho sujo e olhar manso, está amarrada perto de tábuas ao fundo, respirando calmamente; o local é um círculo de sete pontes de pedra cinza-claro sobre um rio veloz, plataforma central pavimentada, molhada e salpicada de folhas, bandeiras azul, verde e dourada ondulam, e uma névoa negra rasteja pelas pedras; Lira corta uma nebulosidade sombria de forma humanoide (orgulho) com sua adaga enquanto um vento visível de folhas e poeira luminosa gira ao redor e os líderes dos reinos largam seus emblemas (bandeira, medalha, fita) no chão, a tensão cedendo para a calma esperada. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A Rebeldia de Lira e o Vento com Olhos

No Reino de Arveluz, a noite parecia mais pesada do que devia. Não era só falta de sol: era como se as sombras tivessem aprendido a ficar. As tochas tremiam, as janelas gemiam, e as bandeiras nos castelos estalavam de raiva, puxadas por um vento que soprava como quem quer mandar em tudo.

Chamavam-no de Zelo, o Vento Ciumento.

Lira caminhava pela muralha da cidade com a capa presa ao pescoço por um broche de ferro em forma de asa partida. Tinha os cabelos escuros presos num nó apressado e os olhos atentos de quem já fugiu e já voltou, muitas vezes. Diziam que era rebelde porque não obedecia a lordes nem a profecias. Ela dizia que era rebelde porque alguém tinha de dizer “não” quando o medo mandava dizer “sim”.

Ao longe, os sinos do Templo do Candeeiro tocavam devagar. Um toque para avisar: mais uma aldeia ao norte perdera o telhado. O vento arrancara palha, madeira e até uma chaminé inteira, como se estivesse com ciúmes de tudo o que se erguia.

— Outra vez… — Lira murmurou.

Uma voz surgiu atrás dela, áspera como casca de árvore.

— Não é “outra vez”. É “ainda”. O vento não se cansa, menina.

Era Mestre Orun, o velho mensageiro que não largava a sua mochila cheia de mapas, selos e histórias. O seu bigode parecia sempre preocupado.

— Não sou menina — respondeu Lira, sem virar. — E o vento vai cansar. Eu vou fazê-lo cansar.

Orun soltou um riso curto.

— Vais discutir com o ar?

— Não — disse ela, finalmente encarando-o. — Vou falar com o que está dentro dele.

Orun ergueu uma sobrancelha.

— Há quem diga que o Vento Ciumento tem olhos.

— Então que me olhe bem — Lira apertou o broche da asa partida. — Porque eu vou unir estes reinos, um por um. E quando estivermos juntos, o vento vai ter de escolher: ou nos protege… ou aprende a soprar em silêncio.

Nessa noite, Lira desceu às ruas estreitas. O povo fechava portas, segurava telhas com pedras, amarrava cordas às chaminés. No centro da praça, um estandarte rasgado batia como um peixe fora de água.

Ela subiu à fonte e falou alto:

— Arveluz não vai cair por causa de um vento birrento! Amanhã parto para as Terras Divididas. Quem quiser ajudar, que me encontre ao nascer do sol, junto ao Portão da Seda!

Alguns riram, outros fizeram o sinal contra mau-olhado. Mas uma rapariga pequena, com um saco de pão, gritou:

— Leva este, senhora Lira! Se o vento te morder, morde de volta!

Lira sorriu, e o sorriso foi como uma chama num corredor escuro.

Na madrugada, um assobio atravessou a cidade. Não era o vento normal. Era um assobio que parecia pronunciar o nome dela, prolongando a última sílaba.

Li-raaaa…

Lira respirou fundo. O Vento Ciumento tinha ouvido.

Capítulo 2 — O Pacto do Carvalho Partido

O caminho para fora de Arveluz era uma fita de pedra e lama que serpenteava por colinas cinzentas. Lira seguia com Orun e com dois companheiros inesperados: Timo, um escudeiro magro que falava demais quando estava nervoso, e Brasa, uma égua cor de cobre que tinha a mania de bufar como se desse opiniões.

— Eu só digo que… se o vento tem olhos, ele deve ter pestanas. E se tem pestanas, pode entrar-lhe poeira — Timo tagarelava, segurando o elmo como se fosse um pote de sopa. — Pó é terrível para pestanas.

— Timo — Lira interrompeu, divertida. — Se encontrares as pestanas do vento, avisa-me. Eu trago uma vassoura.

Orun abriu um mapa sobre uma pedra.

— O primeiro reino a convencer é Valdória. Eles fecham as portas a qualquer um que cheire a “união”. Acham que união é desculpa para cobrar impostos.

— E não é? — Timo perguntou.

Lira deu-lhe um olhar.

— Pode ser. Mas também é desculpa para não morrermos sozinhos.

A meio do dia, o céu escureceu como se alguém tivesse derramado tinta. O vento começou a girar. Não soprava numa direção: rondava. E o som… era um riso abafado.

As árvores inclinaram-se. Um carvalho antigo, enorme, rachado ao meio, estava no alto de uma elevação. Diziam que ali se ouvia a voz dos espíritos do bosque.

Lira subiu, sentindo o ar puxar-lhe a capa.

No tronco aberto do carvalho, havia um brilho azul como gelo. E, cravada na madeira, uma adaga de vidro opaco, com inscrições que pareciam ondas.

Orun engoliu em seco.

— A Lâmina do Sussurro. Pertence às lendas. Dizem que corta… promessas.

— Ou ata promessas — respondeu Lira, tocando o cabo com cuidado. Um tremor percorreu o ar, como se o mundo prendesse a respiração.

Uma voz surgiu, não de uma garganta, mas de todos os espaços entre folhas e vento:

— Rebelde de asa partida… por que me procuras?

Timo deu um saltinho.

— Eu não estou aqui! Quero dizer… estou, mas não queria estar!

Lira ignorou. Falou firme, mas sem arrogância:

— Procuro Zelo. O vento que destrói telhados e faz reinos fechar punhos. Quero apaziguá-lo.

A voz riu, e o carvalho estalou.

— Apaziguar o que nasceu de ciúme? O vento inveja as chamas que não são dele, as torres que desafiam o céu, os juramentos que não lhe pertencem.

Lira apertou o cabo da adaga.

— Então eu vou dar-lhe algo que ele possa guardar sem destruir.

— E o que darias ao vento? — perguntou a voz, curiosa.

Lira olhou o horizonte: campos partidos por cercas, castelos isolados como ilhas.

— Um nome verdadeiro. E um pacto.

O ar ficou mais frio.

— Para falar o nome de um espírito, precisas de uma lâmina que corte mentiras. Leva a Lâmina do Sussurro, mas lembra-te: ela exige coragem e honestidade. Uma mentira, e a lâmina corta… o teu caminho.

Lira puxou a adaga. O som foi como um suspiro longo. De repente, o vento parou por um segundo, como se tivesse medo do silêncio.

Orun fechou o mapa, impressionado.

— Isso vai causar problemas.

— Melhor problemas do que ruínas — Lira guardou a lâmina. — Vamos a Valdória.

E enquanto desciam, o vento voltou, mas agora soprava em volta deles como um cão desconfiado, acompanhando, farejando.

Capítulo 3 — Valdória e as Bandeiras Amarradas

Valdória surgia entre montanhas, com muralhas de pedra clara e bandeiras tão apertadas aos mastros que mal mexiam. Não era por disciplina: era por medo de Zelo. Cada bandeira estava amarrada com cordas grossas, como se o vento fosse ladrão.

Na porta principal, guardas com lanças cruzadas barraram o grupo.

— Identifiquem-se! — gritou um capitão de barba trançada. — Aqui não entram agitadores nem… poetas.

Timo sussurrou:

— Eu não sou poeta, mas já rimou “pão” com “dragão” uma vez…

Lira avançou um passo.

— Sou Lira de Arveluz. Venho propor um acordo entre reinos. Zelo está a destruir as nossas terras. Se continuarmos separados, ele vai escolher um reino por vez, como quem arranca penas de um pássaro.

O capitão cuspiu para o lado.

— Nós amarramos as bandeiras. Reforçamos os telhados. Não precisamos de união. União traz guerra.

— Guerra já está aqui — Lira apontou para o céu, onde nuvens rodopiavam como lã suja. — Só que é invisível.

Uma rajada bateu na porta, fazendo as tábuas tremerem. Os guardas olharam em volta, nervosos.

Lira tirou a Lâmina do Sussurro. O vidro opaco captou a luz, e por um instante, a adaga parecia conter um céu inteiro.

— Isto não é ameaça — disse ela. — É prova. Zelo tem nome. E eu vou descobri-lo. Mas para isso preciso dos reinos juntos. Preciso de mensageiros, de comida, de proteção. E em troca, prometo que Valdória não ficará sozinha quando o vento voltar com mais fome.

O capitão hesitou. Atrás dele, uma figura mais velha aproximou-se: a Duquesa Mirvena, com um manto azul-escuro e um olhar que não piscava.

— Deixem-na entrar — ordenou, e as lanças abriram caminho.

No salão de pedra, as chamas das lareiras dançavam inquietas. Mirvena sentou-se num trono simples, mas sólido.

— Rebelde de Arveluz — disse ela. — Ouvi falar. Dizem que não te ajoelhas.

— Ajoelho-me quando faz sentido — Lira respondeu. — Diante de pessoas, não de orgulho.

Um murmúrio correu entre os nobres. Timo quase engasgou.

Mirvena inclinou-se um pouco, interessada.

— Queres unir reinos. Difícil. Queres apaziguar um vento ciumento. Ainda mais difícil. Porquê?

Lira respirou. A sua voz ficou mais baixa.

— Porque Zelo nasceu do nosso próprio ego. Cada reino ergueu a sua torre para provar que era o mais alto. Cada senhorio fez juramentos só para si. O vento aprendeu isso. Ele quer ser o único a tocar tudo. Se lhe mostrarmos que há coisas que se tocam sem dominar… talvez ele pare.

Mirvena caminhou até uma janela. Lá fora, as bandeiras amarradas pareciam aves presas.

— E o que queres de Valdória?

— Um estandarte — disse Lira. — Um estandarte livre. Para levar comigo. Uma bandeira que não esteja amarrada, que aceite o vento sem lutar contra ele.

Um nobre riu.

— Isso é pedir para perder a bandeira!

— Ou para ganhar um caminho — Lira respondeu.

Mirvena ficou em silêncio. Depois, com um gesto rápido, soltou o fecho do próprio manto azul-escuro e rasgou uma tira.

— Leva isto. Não é estandarte, mas é Valdória. E levas também dois cavaleiros e provisões.

Os nobres protestaram. Mirvena ergueu a mão.

— Se o vento quer ciúme, nós damos-lhe coragem. Vai, Lira. E se falhares… pelo menos Valdória terá tentado algo além de amarrar cordas.

Quando Lira saiu, o vento soprou. A tira azul no seu braço tremulou. E, por um instante, o assobio pareceu menos zombeteiro. Quase… curioso.

Capítulo 4 — A Travessia do Brejo que Ri

Para alcançar o segundo reino, Sernáuria, era preciso atravessar o Brejo que Ri. Chamavam-no assim porque as bolhas na lama estouravam com um som que parecia gargalhadas.

— Eu odeio lugares que gozam comigo — Timo queixou-se, enfiando o pé numa poça que fez “plóc” com entusiasmo.

Brasa avançava com cuidado, sacudindo as orelhas para afastar mosquitos do tamanho de uvas.

Os dois cavaleiros de Valdória, Ina e Ser Rodel, seguiam atrás. Ina tinha tranças apertadas e um humor seco.

— Se o brejo rir, ri de volta — disse ela. — Assim ele pensa que és parente.

Orun consultava o mapa, mas o vento tentava arrancá-lo das mãos, como um miúdo birrento.

— Zelo está perto — Orun resmungou. — Sinto-o no papel.

Lira sentiu também. O ar tinha uma espécie de tensão, como corda de arco. E, às vezes, um sussurro deslizando pelo ouvido, como se alguém contasse segredos sem querer que fossem ouvidos.

À noite, montaram acampamento numa pequena ilha de terra firme. O fogo mal se mantinha aceso; o vento insistia em soprar de lado, enciumado das chamas.

Lira afastou-se um pouco e tirou a Lâmina do Sussurro. A lâmina vibrou, respondendo ao ar.

— Mostra-me o que escondes — sussurrou ela, apontando a adaga para o vento.

O ar ondulou. E, no meio da escuridão, formou-se uma figura feita de bruma e folhas, com um rosto sem traços, mas com olhos claros, brilhantes como gotas de chuva.

Timo acordou com um grito contido:

— Ah! O vento tem mesmo olhos!

Ina puxou a espada. Rodel ergueu o escudo. Orun ficou pálido como farinha.

A figura inclinou-se, como se cheirasse o fogo.

— Lira… — disse o vento, e a voz era múltipla, como muitas flautas ao mesmo tempo. — Levas cores de outros reinos. Rouba-los?

Lira ergueu o braço com a tira azul de Valdória.

— Não roubei. Pedi. E deram.

O vento rodopiou, zangado. O fogo quase apagou.

— Eles deram-te… porque te querem. Querem-te como símbolo. Querem-te como torre. Eu vejo. Eu sei. Eles vão disputar-te.

Lira sentiu o peito apertar. O vento acertava onde doía: ela temia virar bandeira humana, usada por reis e duquesas.

— Eu não pertenço a ninguém — disse, firme. — Sou leal ao povo, não ao poder. E sou leal ao meu objetivo: acalmar-te, Zelo.

O vento pareceu rir, mas o riso saiu triste.

— Acalmar-me? Eu sou o que sobra quando todos querem ser os únicos. Eu sopro porque ninguém escuta.

Lira aproximou-se um passo, sem baixar a lâmina.

— Então fala. O que queres, de verdade?

O vento aproximou-se também. As folhas no chão levantaram voo e dançaram ao redor.

— Quero que parem de erguer coisas para me desafiar. Quero que parem de fazer promessas sem me incluir. Quando fazem juramentos, fecham-nos em caixas. Eu odeio caixas.

Timo, a tremer, sussurrou:

— Eu também odeio caixas… sobretudo as com aranhas.

Lira ignorou o comentário, mas quase sorriu. Depois, falou ao vento:

— Não te posso prometer que o mundo deixará de construir. Mas posso prometer isto: vamos construir juntos. Não contra ti. Contigo.

O vento estagnou, como se alguém tivesse prendido a respiração dele.

— Promessas… — murmurou.

Lira levantou a Lâmina do Sussurro.

— A lâmina corta mentiras. Se eu mentir, ela corta o meu caminho. Eu aceito. Mas tu também tens de aceitar algo: não podes continuar a destruir.

O vento recuou um pouco, desconfiado. Os olhos brilhavam.

— Mostra-me um lugar onde reinos se encontrem sem guerra — disse ele. — Mostra-me, e talvez eu abrande.

Lira olhou para Orun.

— O Círculo das Pontes — Orun disse, como se a resposta estivesse presa na garganta há anos. — Entre Sernáuria e Eltor. Um vale onde sete pontes se cruzam sobre um rio, feito para encontros antigos. Agora está abandonado. Dizem que a escuridão mora lá.

Lira voltou-se para o vento.

— Lá. No Círculo das Pontes. Vou chamar os reinos. E tu vens. Sem derrubar nada.

O vento hesitou, depois girou num redemoinho suave.

— Eu vou. Mas se me mentires… eu sopro até apagar nomes.

A figura dissolveu-se. O brejo voltou a rir ao longe, como se tivesse ouvido um segredo delicioso.

Capítulo 5 — O Círculo das Pontes e a Sombra do Orgulho

Sernáuria aceitou juntar-se quando Lira salvou a sua ponte principal. Zelo, impaciente, tentou arrancar as cordas que seguravam as traves. Lira subiu ao arco da ponte com Ina e gritou para os trabalhadores:

— Não apertem mais cordas! Cordas são jaulas para o vento! Usem pedras, traves bem encaixadas, mãos em conjunto!

Os carpinteiros obedeceram, desconfiados. E, quando a ponte não cedeu, Sernáuria viu que havia outro jeito: construir firme sem prender o ar.

O seu príncipe, um rapaz de rosto sardento chamado Cael, ofereceu-lhe um estandarte verde com uma árvore bordada.

— Não gosto de lordes — Lira avisou.

— Eu também não gosto de mim quando finjo ser lorde — Cael respondeu, arrancando uma risada de Timo. — Vai. Leva. E chama-nos quando for hora.

Do terceiro reino, Eltor, veio menos generosidade e mais desafio: um torneio. Queriam ver se Lira era coragem ou só fala.

Ela lutou no pátio de areia com espada curta e escudo leve. Não era a mais forte, mas era rápida e pensava. Quando um cavaleiro enorme tentou empurrá-la, ela usou o peso dele contra ele. Ele caiu sentado, a armadura a fazer “clonc” como panela.

— Ganhaste por esperteza! — protestou o cavaleiro, vermelho.

— É uma forma de força — Lira respondeu, ajudando-o a levantar.

O rei de Eltor, severo, não gostou do tom… mas gostou do gesto. Deu-lhe uma fita dourada e cinquenta homens.

Assim, a comitiva cresceu: cavaleiros, mensageiros, artesãos, duas curandeiras que discutiam receitas o tempo todo, e um bardo que só sabia cantar sobre queijo. Timo declarou que isso era “cultura”.

No dia marcado, chegaram ao Círculo das Pontes. Sete pontes de pedra cruzavam-se sobre um rio rápido. O vale era belo, mas havia uma mancha nele: uma névoa escura, rasteira, que se agarrava às pedras como teia.

— Esta é a escuridão do reino — Orun murmurou. — Não é só noite. É o orgulho que apodrece.

Lira caminhou para o centro do círculo, onde as pontes se encontravam numa plataforma ampla. Os estandartes azul, verde e dourado tremularam juntos. Um momento simples… mas o ar vibrou, como se o mundo se lembrasse de algo antigo.

Então Zelo chegou.

Não como brisa, mas como tempestade em forma de coroa. O vento girou em volta do vale, levantando folhas, poeira e gotas do rio. A névoa escura também se mexeu, viva, como se respondesse.

E dessa névoa surgiu uma sombra com forma humana, alta e afiada, feita de fumo e de palavras não ditas.

— Quem ousa chamar o vento e os reinos ao mesmo lugar? — a sombra perguntou, com voz de ferro.

Lira sentiu a garganta secar.

— Eu — disse ela, e ergueu a Lâmina do Sussurro. — E tu és quem?

A sombra riu.

— Sou o Orgulho Antigo. Eu dividi estes reinos antes de ti nasceres. Eu alimento Zelo. Sem mim, ele seria só vento. Comigo, ele é fome.

Zelo rodopiou, indeciso, como se fosse puxado por duas cordas invisíveis: a promessa de Lira e o chamamento do Orgulho.

Os soldados seguraram as armas. Os reis e príncipes trocavam olhares desconfiados. Bastava uma faísca para virar guerra.

Lira levantou a voz, clara como sino.

— Não viemos para lutar entre nós. Viemos para lutar contra a parte de nós que quer ser única.

A sombra inclinou-se.

— Palavras bonitas. Mostra-me um reino que cede sem perder.

Lira olhou os líderes. Alguns desviaram o olhar. Outros apertaram punhos.

Ela percebeu: se pedisse que cedessem terras ou ouro, tudo acabaria ali. Precisava de algo simbólico e verdadeiro.

— Cada reino vai soltar uma coisa que prende — disse Lira. — Uma coisa pequena, mas que mostra confiança.

Mirvena deu um passo à frente e desamarrou, diante de todos, a bandeira mais apertada do seu estandarte. Cael tirou do pescoço um medalhão que só os príncipes usavam e colocou-o na mão de uma criança do povo. O rei de Eltor retirou a coroa por um instante, e esse gesto fez o vale inteiro prender a respiração.

— Eu… — começou ele, e a palavra custou. — Eu não sou maior do que o meu povo.

A névoa escura tremelicou, ofendida. O Orgulho Antigo rangeu, como porta velha.

Zelo parou de girar um pouco. Os olhos de chuva fixaram-se em Lira.

— Isso é… abrir caixas — murmurou o vento.

— Sim — disse Lira. — E agora falta a minha parte.

Ela tirou o broche da asa partida e colocou-o no chão de pedra, no centro do círculo.

Timo arregalou os olhos.

— Mas isso é teu!

— Era — Lira respondeu, com a voz suave. — Eu usei esta asa partida para me lembrar de que não devo pertencer. Mas também usei para me proteger de confiar. Hoje, eu confio. E isso assusta-me mais do que qualquer lâmina.

A Lâmina do Sussurro vibrou, reconhecendo a verdade. E a sombra recuou um passo, como se a sinceridade a queimasse.

O Orgulho Antigo gritou e lançou um golpe de névoa contra o círculo. Os soldados avançaram, mas o ataque não era contra carne: era contra o vínculo. A névoa tentou enroscar-se nos estandartes, separar as cores, sussurrar desconfiança.

— Eles vão trair-te! — sibilava. — Eles querem mandar em ti! Eles vão usar-te!

Lira sentiu o medo tentar entrar como água fria. E ali, no meio do vale, ela fez o que nunca tinha feito sem ironia: falou com o coração aberto, sem armadura.

— Talvez — disse ela, e a palavra foi uma lâmpada acesa. — Talvez alguém tente. Mas eu não vou governar por eles. Vou caminhar ao lado. E se eu cair, outro levanta. Isso é união. Não é coroa.

O Orgulho Antigo vacilou. Zelo aproximou-se, como um animal curioso, e soprou diretamente sobre a sombra.

O vento, pela primeira vez, não destruiu. Ele varreu a névoa como quem limpa uma mesa para começar de novo.

A sombra gritou, afinando, rasgando-se em fios.

— Não! Eu sou o primeiro! Eu sou o melhor!

— Não és — disse Lira, calmamente. — És só o mais barulhento.

A Lâmina do Sussurro brilhou. Lira não cortou a sombra com violência: traçou no ar um círculo, como quem desenha uma porta. A lâmina cortou a mentira principal do Orgulho: a ideia de que só um pode ser grande.

A névoa explodiu em poeira escura e desapareceu no rio.

O vale ficou silencioso. Um silêncio que não era vazio, mas cheio de possibilidade.

Capítulo 6 — O Nome Verdadeiro e o Vento Apaziguado

Zelo não se foi. Ficou ali, pairando, como se não soubesse o que fazer com a própria liberdade. Sem o Orgulho a puxá-lo, parecia menor, mais leve… e muito mais triste.

Lira apanhou o broche da asa partida. Estava frio, mas intacto.

Ela olhou para os olhos do vento.

— Agora podes escolher — disse. — Podes continuar a ser ciúme… ou podes ser guarda.

O vento soprou de leve, como uma pergunta.

Orun aproximou-se com cuidado, como quem se chega a um animal ferido.

— Os antigos diziam que todo espírito tem um nome verdadeiro — falou. — Um nome que não é insulto nem medo, mas função. Propósito.

Lira assentiu. Ergueu a Lâmina do Sussurro, e a sua voz tornou-se firme e musical, como se o vale inteiro fosse um salão.

— Tu não és só Zelo — disse ela ao vento. — Esse é o nome que te deram quando te tiveram medo. Eu vi-te proteger o fogo agora. Vi-te limpar a névoa. Vi-te… ouvir.

O vento estremeceu.

— Diz — murmurou, inseguro.

Lira fechou os olhos por um instante. Pensou em telhados arrancados, mas também em sementes espalhadas pelo ar. Pensou em velas de navios, em moinhos, em pipas no céu. Pensou em como o vento podia derrubar… e também levar.

Quando abriu os olhos, falou com certeza:

— Teu nome verdadeiro é Bravento. Porque és bravio, sim… mas também és vento que leva adiante.

A Lâmina do Sussurro vibrou como corda de harpa. O ar mudou de sabor. O vento soltou um longo suspiro, e esse suspiro cheirou a chuva limpa.

— Bravento… — repetiu, experimentando o nome como quem prova pão quente. — Um nome que não me prende.

— Não — disse Lira. — Um nome que te guia.

Os líderes dos reinos aproximaram-se, ainda cautelosos. O rei de Eltor pigarreou, como se falar com o vento fosse coisa que arranhava a garganta.

— Se… se ele é guarda… pode guardar as nossas colheitas? — perguntou, meio envergonhado.

Timo sussurrou para Ina:

— Ele está a negociar com o tempo.

Ina respondeu, séria:

— O tempo sempre ganha. É bom começar cedo.

Lira ergueu a tira azul de Valdória, a fita dourada de Eltor e o estandarte verde de Sernáuria. Juntou-os num só nó, não apertado demais — um nó que podia ser desfeito sem rasgar.

— Este é o pacto — anunciou. — Não é prisão. É ponte. Cada reino mantém a sua cor, mas nenhum puxa sozinho.

Bravento rodopiou por entre as pontes, tocando cada uma com delicadeza. As bandeiras tremularam sem serem arrancadas. As tochas acenderam-se mais firmes, como se o ar as tivesse aprendido a respeitar.

E, num gesto quase tímido, o vento soprou para cima, empurrando as nuvens. Um feixe de luz atravessou o vale e bateu na pedra onde Lira estava. Não era um sol completo, ainda não — mas era uma promessa.

Orun limpou os olhos, fingindo que era poeira.

— Uniste reinos — disse ele. — E apaziguaste um vento.

— Ainda falta muito — Lira respondeu, olhando para as pontes e para os rostos. — Mas hoje começámos sem cordas.

Timo levantou o elmo como se brindasse.

— Ao Bravento! Que ele sopre quando for preciso… e que pare quando eu estiver a tentar comer sopa!

Bravento soprou de leve, e a sopa de Timo (que ninguém sabia de onde ele tirara) fez uma ondinha. Como resposta, o vento assobiou algo que soou muito parecido com uma gargalhada.

Lira prendeu novamente o broche da asa partida ao pescoço. Mas agora ele não parecia uma ferida. Parecia um lembrete: até uma asa partida pode apontar o caminho.

Quando o grupo voltou a caminhar — reis, rebeldes, soldados e povo — o vento acompanhou, não como inimigo, mas como companheiro inquieto. E por onde passavam, as sombras recuavam um pouco, como se também estivessem a aprender a escutar.

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Rebeldia
Atitude de não obedecer ou de querer fazer as coisas de outro modo.
Muralha
Parede grande e alta que protege uma cidade ou castelo.
Tochas
Bastões com fogo usados para iluminar à noite.
Estandarte
Bandeira grande usada para representar um reino ou grupo.
Mensageiro
Pessoa que leva notícias ou cartas entre lugares ou pessoas.
Adaga
Pequena espada ou faca usada como arma ou defesa.
Opaco
Algo que não deixa passar a luz, que não é transparente.
Inscrições
Palavras gravadas ou escritas numa superfície, como pedra ou metal.
Névoa
Camada de ar úmido e baixa que torna tudo meio escondido.
Pacto
Acordo combinado entre pessoas ou grupos, como uma promessa formal.

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