Capítulo 1 — O ducado das águas cantoras
No Ducado de Vassouras-d'Água, as ruas não eram ruas: eram canais. A cidade inteira parecia um instrumento de música, e cada ponte, cada roda de moinho, tirava notas diferentes quando a corrente passava. De manhã cedo, o nevoeiro subia devagar, como se o rio bocejasse, e os telhados de ardósia brilhavam com gotinhas alinhadas como contas.
Líria caminhava sobre as tábuas do cais com a capa cinzenta colada aos ombros. Era uma mulher feita de calma por fora e tempestade por dentro. No cinto, trazia um pequeno estojo de couro, e nele — com o cuidado que se dá a um pássaro ferido — guardava agulhas de prata, fios de linho, carvão de salgueiro e uma pedrinha azul que era quase transparente. Ferramentas de briseira de maldições.
Ela parou diante da estátua na Praça dos Moinhos: um cavaleiro em pedra verde, ajoelhado, com o elmo sob o braço e a mão livre estendida, como se pedisse perdão ao vento. Os pombos faziam dele um trono e as crianças, um escorrega proibido. Mas o que fazia o peito de Líria apertar não era a sujeira nem as brincadeiras — era o silêncio.
Porque aquela estátua, chamada Sir Aureliano, tinha sido um homem de verdade. E, segundo as velhas do mercado, ele tinha morrido de um jeito estranho: não como quem cai na batalha, mas como quem apaga por dentro. Diziam que uma maldição lhe roubara o sopro, e depois, com o tempo, o mundo esquecera a diferença entre homem e pedra.
Líria passou os dedos pela superfície fria do peito do cavaleiro. A pedra tinha pequenas ranhuras, como se respirasse por engano, tentando lembrar um gesto antigo.
— Eu também me esqueci de respirar uma vez — murmurou. — Mas voltei.
Uma voz apressada respondeu atrás dela:
— Voltar é fácil… quando o corpo aceita.
Era Tomé, o aprendiz de moleiro mais curioso do ducado, com farinha no cabelo e olhos do tamanho de duas luas. Ele não era criança pequena, nem adulto: era exatamente aquela idade em que o mundo inteiro parece um desafio.
— Não devia estar aqui — disse Líria, sem se virar.
— E a senhora não devia falar com estátuas — respondeu Tomé, com um sorriso teimoso. — Mas fala.
Líria suspirou, e o ar saiu como se carregasse um pedaço do passado.
— Estou a tentar dar um sopro a quem perdeu o seu.
Tomé olhou para a estátua como quem olha para um enigma.
— Um sopro… tipo… vida?
— Não é bem vida. É presença. É o primeiro empurrão para o coração lembrar o caminho.
O sino do moinho maior bateu. Uma roda começou a girar, e a água, ao passar, fez um som de gargalhada de criança. Líria fechou o estojo de couro.
— Se queres ajudar, não faças perguntas agora. Traz-me notícias. Ouve o que as águas dizem, o que as pessoas escondem.
Tomé ergueu o queixo.
— As águas dizem muita coisa. Só não sei se gostam de mim.
— As águas gostam de quem escuta — respondeu ela. — E as maldições odeiam isso.
Antes de ir embora, Líria encostou a testa ao peito de pedra do cavaleiro, como se pedisse licença. No seu íntimo, a promessa nasceu com a força de uma espada desembainhada: naquele ducado de canais e moinhos, ela não deixaria Sir Aureliano terminar como apenas mais um banco para pombos. Ela devolveria um sopro à estátua — nem que tivesse de atravessar o mundo para encontrar o ar certo.
Capítulo 2 — A marca do fôlego roubado
Naquela noite, Líria foi ao Arquivo das Marés, um edifício estreito e alto onde os livros cheiravam a algas secas e tinta antiga. As janelas davam para um canal escuro, e, quando o vento mudava, as páginas pareciam virar sozinhas, inquietas.
O velho arquivista, Mestre Onofre, tinha sobrancelhas como duas escovas e uma paciência que rangia.
— Outra vez maldições, Líria? — resmungou ele. — O ducado já tem problemas suficientes com ratos e impostos.
— Ratos não mordem almas — disse ela.
Onofre apontou para uma mesa.
— Está bem. Mas não me tragas um demónio escondido num livro, como da última vez.
Líria abriu um volume pesado, “Crónicas da Pedra que Respira”, e procurou o nome do cavaleiro. Tomé, que aparecera sem ser convidado, estava sentado ao lado, tentando fingir que não estava a roer a ponta de uma pena.
— Aqui — disse Líria, com o dedo sobre uma gravura. — “Sir Aureliano, jurado ao Duque de Vassouras-d'Água, enfrentou o Feiticeiro do Vento Oco na Ponte das Sete Rodas.”
Tomé arregalou os olhos.
— Feiticeiro do Vento Oco… isso soa horrível.
— E é — confirmou Onofre, inclinando-se. — Um tipo que colecionava sopros. Diziam que guardava respirações em frascos.
Tomé fez uma careta.
— Que nojo.
Líria continuou a leitura. Havia uma frase sublinhada em tinta desbotada: “A maldição não mata; ela suspende. Quem perde o sopro fica preso entre o agora e o nunca.”
Líria sentiu a pedrinha azul no estojo aquecer, como se concordasse.
— Suspende… — repetiu ela. — Então ele está preso, à espera de um ar que o reconheça.
Onofre coçou o nariz.
— Aureliano venceu o feiticeiro, mas pagou caro. Dizem que o Vento Oco lhe sussurrou uma palavra final.
Tomé inclinou-se tanto que quase caiu da cadeira.
— Qual palavra?
— Não está aqui — respondeu Líria. — Mas a maldição deixa sinais.
Ela abriu o estojo e tirou uma agulha fina de prata. Sem cerimónia, picou de leve o próprio dedo e deixou cair uma gota de sangue sobre a gravura. O papel brilhou por um instante. As linhas do desenho tremeram e, onde antes havia o peito do cavaleiro, apareceu um símbolo: um círculo atravessado por uma espiral, como um redemoinho a engolir ar.
Onofre fez um som entre espanto e reprovação.
— Estás a usar sangue no meu livro!
— Só uma gota — disse Líria, limpando o dedo. — E prometo que a maldição não deixa manchas.
Tomé apontou para o símbolo.
— O que significa?
Líria fechou o livro com cuidado.
— Significa “Câmara do Sopro”. É um feitiço antigo. O ar roubado não desaparece: fica guardado num lugar.
— Onde? — perguntou Tomé, num fôlego só.
Líria olhou pela janela. No canal, a água arrastava folhas como pequenos barcos perdidos.
— Onde o vento não entra. Onde o som morre antes de nascer. — Ela ergueu o olhar, firme. — No Pântano das Velas Apagadas.
Onofre empalideceu.
— Não. Nem penses nisso. Lá, até os corvos sussurram para não acordar o que dorme.
Líria guardou o estojo e prendeu a capa.
— Eu não vou acordar. Vou devolver.
Tomé levantou-se, decidido.
— Eu vou consigo.
— Não vais — disse ela, seca.
— Vou sim. Se a senhora vai ao pântano, alguém tem de lhe lembrar de comer, e… — ele hesitou, tentando soar sério — e alguém tem de fazer perguntas, senão a senhora vira estátua também.
Líria quase sorriu. Quase.
— Está bem. Mas se te afundas, não puxes a minha capa.
— Prometo afundar com educação — respondeu Tomé, e Onofre suspirou como um moinho cansado.
Capítulo 3 — Estradas de caniço e sombras
Saíram ao amanhecer. O ducado ficou para trás, com os seus moinhos girando como gigantes tranquilos. A estrada seguia ao lado de canais menores, depois virava para campos de cevada e, por fim, para terras baixas onde o chão parecia sempre húmido, mesmo quando o sol brilhava.
Tomé andava ao lado de Líria, carregando uma mochila grande demais para ele e um orgulho maior ainda.
— Então… como é que se quebra uma maldição? — perguntou, não aguentando mais o silêncio.
Líria respondeu sem olhar para ele:
— Primeiro, descobres o que a maldição quer. As maldições são como nós: fazem coisas por um motivo. Às vezes, por raiva. Às vezes, por medo. Às vezes… por saudade.
Tomé franziu a testa.
— Saudade pode virar maldição?
— Pode. Se alguém agarra uma coisa com força demais, aquilo deixa de ser carinho e vira corrente.
O vento trouxe cheiro de água parada. O chão começou a ceder sob os passos, e o som das botas mudou: tchlap, tchlap, tchlap. À frente, o Pântano das Velas Apagadas abria-se como um mar de lama e caniço, com poças escuras que refletiam o céu como espelhos quebrados.
Havia, aqui e ali, pequenos montículos com velas derretidas e negras, como se centenas de pessoas tivessem tentado iluminar o lugar e desistido.
Tomé engoliu em seco.
— Não gosto disto.
— Eu também não — disse Líria. — Mas gosto menos de desistir.
Avançaram por uma passadeira de tábuas antigas. As rãs coaxavam como guardas mal-humorados. Uma névoa rasteira enrolava-se nos tornozelos e tentava subir, curiosa.
A meio do pântano, ouviram um som que não era de animal nem de vento. Era… respiração. Um suspiro comprido, triste, vindo de todos os lados.
Tomé apertou a alça da mochila.
— Está a… respirar?
— Está a roubar respirações perdidas — corrigiu Líria. — O pântano coleciona o que cai nele.
Um movimento rápido no caniço. Depois outro. E então, figuras surgiram: guerreiros altos, feitos de barro e junco, com olhos de água parada. Empunhavam lanças que pareciam feitas de ossos de peixe.
Tomé deu um passo atrás.
— Isso são… pessoas?
— São Guardiões do Lodo — disse Líria, a voz baixa. — Feitos para impedir que alguém encontre a Câmara do Sopro.
O primeiro guardião apontou a lança e falou com um som de bolhas:
— Fôlego… não devolve. Fôlego… pertence ao pântano.
Líria tirou do estojo um fio de linho e uma pequena roda de madeira, talhada como a de um moinho. Prendeu o fio na roda e, com um gesto rápido, fez girar. O fio cantou no ar, uma nota aguda que cortou a névoa.
Os olhos dos guardiões tremeram, como se a música lhes doesse.
— Vocês foram feitos de silêncio — disse Líria, firme. — Eu trago som.
Tomé, sem pensar muito, pegou numa pedrinha e atirou-a para uma poça ao lado. Ploc. A água espalhou círculos.
— E eu trago distração! — gritou ele, com coragem que parecia emprestada.
Dois guardiões viraram-se para a poça, confusos, como cães a seguir um cheiro. Líria aproveitou: puxou o fio com força, e a roda girou mais rápido. A nota mudou, ficou grave, como um tambor distante. O lodo sob os pés dos guardiões endureceu por um instante, prendendo-os.
— Corre! — disse Líria.
Eles correram, saltando tábuas quebradas e desviando de raízes. Atrás, o pântano gemeu, irritado, e a respiração triste ficou mais forte, quase chorosa.
Chegaram a um círculo de pedras cobertas de musgo. No centro, havia uma porta baixa, de ferro antigo, meio engolida pela terra. No metal, o mesmo símbolo do livro: círculo e espiral.
Tomé apontou, ofegante.
— É isso?
Líria ajoelhou-se e tocou a porta. O ferro estava frio como medo.
— É.
Ela fechou os olhos e, por um instante, ouviu o som do ducado: as rodas dos moinhos, a água cantando, as pontes gemendo. Pegou nesse som dentro de si como quem pega numa tocha.
— Aureliano — sussurrou. — Estou a chegar.
Capítulo 4 — A Câmara do Sopro
A porta não tinha fechadura visível. Tinha, em vez disso, uma pequena cavidade em forma de pulmão.
Tomé olhou para Líria, alarmado.
— Não me diga que tem de… soprar aí.
— Tenho — respondeu ela. — Mas não é qualquer sopro. Tem de ser um sopro que não minta.
Tomé fez uma careta.
— Os meus sopros às vezes cheiram a cebola.
— A verdade também pode cheirar mal — disse Líria, e colocou a mão no peito, como se procurasse o lugar onde a coragem mora.
Ela inclinou-se e soprou na cavidade. O ar saiu quente, com a força de uma promessa. O metal vibrou. A porta rangeu e abriu-se com um suspiro longo, como alguém que acorda depois de séculos.
Lá dentro, a Câmara do Sopro era um túnel de pedra molhada que descia. As paredes estavam cobertas de pequenas garrafas penduradas, centenas, talvez milhares. Em cada uma, uma bruma diferente tremia: alguns sopros eram claros como manhã, outros escuros como raiva.
Tomé caminhava devagar, com olhos brilhando.
— Isso tudo é… respiração?
— É — disse Líria. — Sopro roubado, guardado, esquecido. E cada frasco é uma história.
Ao fundo, numa plataforma circular, havia um grande jarro de vidro, do tamanho de um barril. Dentro dele, a bruma não era bruma: parecia uma tempestade presa, girando sem parar.
No jarro, preso com correntes enferrujadas, estava um pedaço de pano antigo: um estandarte com o símbolo do ducado, as sete rodas.
— O sopro dele — murmurou Líria.
Antes que se aproximassem, uma figura se destacou da sombra: um homem alto, com manto rasgado e um rosto tão pálido que parecia feito de fumo. Os olhos eram vazios, mas atentos. Quando falou, a voz soou como vento passando por um corredor vazio.
— Quem vem roubar o que foi guardado?
Tomé engasgou.
— A senhora disse que ele estava morto.
— Eu disse que era um feiticeiro — corrigiu Líria, erguendo-se. — Alguns não aceitam morrer. O Vento Oco.
A criatura sorriu, e o sorriso não tinha alegria, só fome.
— Briseira de maldições… sempre tão corajosa. Queres devolver um sopro a uma estátua? Que ternura. — Ele inclinou a cabeça. — O sopro é meu. Eu o ganhei com uma palavra.
Líria apertou a pedrinha azul entre os dedos. Ela era fria, mas parecia ter um coração.
— Nenhuma palavra ganha um coração para sempre — disse ela. — Maldições são contratos sujos. Eu vim rasgar o papel.
O Vento Oco estendeu a mão. O ar ao redor ficou pesado, difícil de puxar.
Tomé levou as mãos ao pescoço, assustado.
— Está… sem ar…
Líria deu um passo à frente, entre ele e o feiticeiro.
— Não. Não vais levar mais nenhum sopro.
Ela tirou do estojo o carvão de salgueiro e desenhou no chão o símbolo inverso: uma espiral a devolver ao círculo. Depois, com a agulha de prata, picou de leve a própria palma. O sangue caiu no desenho e brilhou como rubi.
— Eu ofereço o meu fôlego por um instante — disse, a voz tremendo só um pouco. — Mas não te ofereço a minha alma.
O Vento Oco riu, e a risada era tão vazia que parecia eco sem voz.
— Uma troca? Que romântico. Vamos ver se aguentas.
O ar foi sugado, como se a câmara inteira prendesse a respiração. Líria sentiu o peito apertar. A visão começou a escurecer nas bordas. Tomé tentou puxá-la, desesperado.
— Líria! Pare!
Mas ela continuou, mesmo sem ar suficiente. Porque havia uma coisa que maldições não entendiam bem: a teimosia bondosa. O tipo de coragem que nasce quando alguém decide não abandonar ninguém.
Ela encostou a pedrinha azul ao desenho de carvão. A pedra aqueceu de repente e emitiu um som fino, como o primeiro apito de um moinho ao começar a girar.
O Vento Oco recuou, irritado.
— O que é isso?
— Um pedaço do meu ducado — respondeu Líria, e a voz, apesar de fraca, carregava água e música. — Lá, o vento nunca está sozinho. Ele dança com rodas e canais.
O som cresceu, enchendo a câmara. As garrafas nas paredes começaram a vibrar, como se cada sopro preso quisesse sair para cantar junto.
Tomé, ainda sem ar, conseguiu dizer, entrecortado:
— Então… solte tudo!
Líria olhou para ele, e nos olhos dela havia medo — mas também confiança.
— Não tudo — sussurrou. — Só o que foi tomado.
Ela estendeu a mão para o grande jarro e tocou a corrente. A agulha de prata brilhou, e as correntes estalaram como galhos secos. O jarro tremeu. A tempestade lá dentro girou mais rápido, procurando saída.
O Vento Oco gritou, e o grito era vento a rasgar tecido.
— Não!
A tempestade de sopro explodiu para fora em forma de bruma luminosa. Encheu a câmara, empurrando o ar de volta para os pulmões de Líria e Tomé com a força de uma onda.
Tomé caiu de joelhos, respirando como quem volta à vida.
— Ufa… isso foi… horrível.
Líria respirou também, e cada fôlego parecia uma vitória pequena.
O Vento Oco tentou agarrar a bruma, mas ela atravessou seus dedos como se ele fosse apenas um buraco.
— Devolve — disse Líria, com firmeza. — O teu nome é vazio, e vazio não segura nada.
A bruma luminosa subiu em espiral, passou pela porta aberta e fugiu pelo pântano como um bando de pássaros invisíveis.
O feiticeiro ficou menor, como uma sombra ao meio-dia. Sua forma tremeluziu.
— Sem sopros… eu… — Ele não terminou. Desfez-se num redemoinho fraco, e o silêncio que deixou não era pesado: era apenas descanso.
Líria colocou a mão no coração.
— Aureliano, agora falta o caminho de volta.
Capítulo 5 — A corrida das sete rodas
Saíram da Câmara do Sopro e encontraram o pântano acordado. A névoa se movia em ondas, e os Guardiões do Lodo avançavam, libertos da prisão momentânea, com passos lentos, porém numerosos. A bruma luminosa do sopro roubado estava à frente, seguindo para o norte — para o ducado — como se conhecesse a casa.
Tomé apontou, ofegante.
— Ela sabe para onde vai!
— Sim — disse Líria. — Mas o pântano não vai deixá-la ir fácil.
As tábuas da passadeira rangiam e algumas afundavam. Um guardião levantou a lança e, desta vez, não falou: soltou um som surdo que fez a água tremular como pele arrepiada.
Líria puxou a roda de madeira e fez o fio cantar outra vez. A nota atravessou o ar, e os caniços se curvaram. Os guardiões hesitaram, confusos com a música.
Tomé pegou numa vela apagada de um montículo e a brandiu como se fosse uma espada.
— Fora! — gritou. — Isto é… isto é uma vela guerreira!
Líria, mesmo no meio do perigo, soltou uma risada curta.
— Isso não é uma arma.
— É simbólica! — disse ele, tentando parecer importante. — E simbolicamente eu estou a ganhar.
Correram. O pântano tentou agarrá-los com lama, com raízes, com medo. Em certo ponto, Tomé escorregou e afundou até o joelho. Os olhos dele se arregalaram.
— Ai! Ai! Ai!
Líria voltou, segurou-o pelo braço e puxou com força.
— Mexe-te como se estivesses a dançar, não como se estivesses a lutar — disse ela, e aquilo, estranhamente, funcionou: Tomé começou a mover as pernas em pequenos círculos e conseguiu soltar-se.
— Dançar para não morrer — resmungou ele. — Vou contar isso no moinho e ninguém vai acreditar.
Quando enfim alcançaram terra firme, o sol já estava alto. A bruma luminosa seguia adiante, mais fraca, como se precisasse de ajuda para não se dissipar.
Líria abriu o estojo e tirou um frasco vazio.
— Vamos levar um pouco — disse ela.
— Para quê? — perguntou Tomé.
— Para guiar o resto. — Ela capturou uma parte da bruma no frasco, e a luz dentro pulsou como um vagalume. — Sopros gostam de companhia.
Seguiram pela estrada de volta, quase sem parar. Passaram por campos, por pequenos povoados que os olharam com desconfiança, por uma ponte onde um mercador tentou vender-lhes “amuleto contra pântanos” (era uma batata com um buraco), e Tomé quase comprou só para ver a cara de Líria.
Ao fim do segundo dia, as torres do ducado apareceram no horizonte, e o som dos moinhos veio ao encontro deles como uma saudação. A bruma luminosa acelerou, ansiosa.
Na praça, a estátua de Sir Aureliano esperava no mesmo lugar, com pombos e tudo. Tomé espantou os pássaros com um gesto amplo.
— Com licença, senhores pombos, isto agora é assunto de heróis.
Líria aproximou-se do cavaleiro de pedra. O ar ao redor parecia diferente, como se a própria praça prendesse a respiração para assistir.
Ela ergueu o frasco e abriu-o. A luz subiu em fios delicados e entrou no peito de pedra, pelas ranhuras invisíveis.
Por um instante, nada aconteceu.
Tomé mordeu o lábio.
— Funcionou?
Líria encostou a mão no peito da estátua.
— Falta a última parte — disse ela, baixinho. — O sopro não é só ar. É vontade.
Ela fechou os olhos e falou como quem faz confidência a alguém que dorme:
— Aureliano… eu não te conheci em carne, só em pedra. Mas o ducado lembra de ti, mesmo quando finge que não. Eu lembro. E… — a voz dela falhou um pouco — eu sei como é ficar suspenso entre o agora e o nunca. Volta. Nem que seja só para dizer adeus como deve ser.
O vento passou entre as pontes e as rodas dos moinhos. O som da água subiu, claro, e pareceu formar uma melodia antiga. A pedrinha azul, no bolso de Líria, aqueceu outra vez, como se sorrisse.
Então a pedra do peito do cavaleiro estalou — não quebrando, mas abrindo caminho. Um sopro invisível saiu, curto e forte, como o primeiro choro de um bebê ou a primeira gargalhada depois de uma tristeza longa.
Tomé recuou, de boca aberta.
— Ela… respirou!
Capítulo 6 — O cavaleiro entre a pedra e a manhã
A praça inteira pareceu ouvir. As rodas dos moinhos, ao longe, giraram com mais vigor, e a água nos canais fez um som de palmas.
Os olhos da estátua, antes cegos, ganharam brilho por um segundo — não de carne, mas de presença. A pedra não virou pele. O cavaleiro não desceu do pedestal como num conto fácil. Mas algo dentro dele despertou, e isso era mais raro e mais bonito.
A mão estendida de Sir Aureliano moveu-se um dedo, quase imperceptível. Depois, uma pequena fissura no elmo se fechou, como se o tempo recuasse um passo.
Líria ficou imóvel, sentindo o peito doer de alívio. Não era a vitória barulhenta das batalhas; era uma vitória silenciosa, dessas que só quem se importa entende.
Uma voz surgiu, baixa, como vento atravessando folhas:
— Ducado… ainda canta?
Tomé arregalou os olhos e procurou de onde vinha.
— Foi ele? Foi ele mesmo?
Líria aproximou-se, falando com respeito, como se falasse com um velho rei.
— Canta, Sir Aureliano. E sentiu a tua falta.
Houve uma pausa. Depois a voz, mais clara:
— O Vento Oco…?
— Não tem mais mãos para agarrar — respondeu Líria. — O teu sopro voltou para ti.
A estátua pareceu pesar menos. Uma sombra de sorriso desenhou-se nos traços de pedra.
— Eu… falhei no fim. Não protegi o meu próprio ar.
Líria tocou a pedra com gentileza.
— Não falhaste. Fizeste o que pudeste. E agora… agora estás aqui. Isso basta.
Tomé, que até então segurava as palavras como se fossem bolhas prestes a estourar, não se aguentou:
— Desculpe, Sir Aureliano, mas… o senhor vai virar pessoa de novo?
A voz da estátua respondeu com uma calma inesperadamente divertida:
— Rapaz… até eu gostaria de saber.
Tomé corou, mas riu.
Líria observou a praça. As pessoas tinham começado a se aproximar, primeiro com medo, depois com curiosidade. Mestre Onofre vinha correndo, indignado e fascinado ao mesmo tempo. Um padeiro deixou cair um cesto inteiro de pães e ninguém reclamou, o que no ducado era sinal de acontecimento sério.
Onofre parou diante de Líria, ofegante.
— Eu senti… eu senti o ar mudar nos meus livros! — Ele olhou para a estátua. — Isto… isto é impossível.
— Impossível é só uma palavra que ainda não aprendeu música — disse Líria.
A voz de Aureliano chamou-a de novo, mais fraca, como se o sopro recém-recuperado fosse uma chama que precisa ser protegida do vento.
— Briseira… por que fizeste isso?
Líria engoliu em seco. A verdade veio sem enfeites:
— Porque eu também já fui estátua por dentro. E alguém… — ela hesitou, mas continuou — alguém me deu um sopro quando eu não merecia.
Tomé olhou para ela, surpreso. Era a primeira vez que ele ouvia algo tão pessoal.
Aureliano ficou em silêncio por um instante, e então disse:
— Então guarda o teu coração. Ele é uma arma rara.
O brilho nos olhos de pedra começou a diminuir, como crepúsculo. A presença não desapareceu totalmente, mas ficou mais distante, como uma voz do outro lado de um rio.
— Não… — sussurrou Tomé. — Está a ir embora?
Líria levantou o frasco vazio e o colocou aos pés da estátua.
— Não é embora — disse ela. — É descanso. Ele agora pode respirar quando o ducado precisar lembrar.
Aureliano falou uma última frase, quase um sopro:
— Quando o vento voltar a ser oco… chamem-me.
E então a praça voltou ao seu ritmo normal. Os moinhos giraram como sempre. Os canais correram como sempre. Mas “como sempre” já não significava o mesmo, porque, no meio do ducado, havia uma estátua que tinha respirado — e todos sabiam.
Tomé soltou o ar devagar.
— Então… nós salvámos… uma respiração.
Líria colocou a mão no ombro dele.
— Salvámos uma história. E isso, às vezes, é ainda mais difícil.
Ele fez um sorriso torto.
— E eu ainda tenho a vela guerreira.
— Guarda-a — disse Líria, e desta vez sorriu de verdade. — Vai te lembrar que até no pântano dá para ser corajoso e ridículo ao mesmo tempo.
Ao cair da noite, as luzes do ducado acenderam-se, refletidas nos canais como constelações líquidas. Líria ficou mais um pouco diante da estátua, ouvindo o som das rodas, sentindo a cidade respirar com ela.
E, lá no fundo, bem leve, quase como imaginação, ouviu de novo um pequeno fôlego de pedra — um lembrete de que nenhum sopro, quando é amado, se perde para sempre.