Capítulo 1: A Lâmpada Laranja
Na véspera de Halloween, Luís, um rapaz de seis anos com cabelo bagunçado e olhos curiosos, olhava pela janela. A rua estava toda iluminada por abóboras sorridentes e pequenas luzes que pareciam vagalumes. Ele segurava uma folha de papel e um lápis colorido: a missão da noite era desenhar um mapa de "doces ou travessuras" para a sua turma.
— Vou fazer o melhor mapa do mundo! — disse Luís para o seu gato preto, Sombra, que ronronou e se enrolou nos pés dele.
A mãe de Luís apareceu com uma tigela de biscoitos quentinhos.
— Lembra de fazer um plano seguro — disse ela, com a voz doce. — Escolham ruas senhoriais, conheçam rotas curtas e não se separem.
Luís sorriu. Ele queria ajudar os amigos a encontrarem as casas com as melhores decorações e, principalmente, a volta para casa em segurança. Pegou o lápis e começou a rabiscar. Desenhou a escola, a praça com o grande carvalho, e a padaria com luzes laranjas. Em cima do papel, escreveu: "Mapa de Doces de Luís — para corajosos e amigos!"
Sombra pressionou a pata no desenho, deixando marcas engraçadas. Luís riu.
— Vai ficar perfeito — prometeu. — Vamos convidar o Tomás e a Clara para ajudarem a melhorar.
Havia um cheiro de canela no ar. Fora, um vento leve fazia a luz das abóboras dançar. Luís fechou o lápis e guardou o mapa; amanhã seria uma grande aventura.
Capítulo 2: A Caçada ao Mapa
No dia seguinte, Luís colocou a sua capa de vampiro (que na verdade tinha bolinhas azuis) e a sua lanterna de mão. Tomás apareceu vestido de astronauta e Clara, de bruxa com um chapéu que parecia maior do que ela.
— Então o que temos? — perguntou Tomás, já pulando um pé só.
Luís estendeu o mapa.
— Vamos seguir por aqui, depois damos a volta na rua do Carvalho e passamos pela casa da padaria. Tem uma casa com fantasmas de pano que costuma dar muitos doces — explicou, apontando com o lápis.
Clara olhou com cuidado.
— E se a casa dos fantasmas estiver vazia? — sussurrou ela.
— Aí a gente toca a campainha e diz "doces ou travessuras" bem alto — respondeu Luís, com confiança. — E se tivermos medo, ficamos junto, de mãos dadas.
Sombra corria atrás de folhas que o vento espalhava, como se fizesse parte da equipe.
Enquanto caminhavam, o mapa balançou no bolso de Luís. Um gato malandro de rua saltou e levou a ponta do papel num pulo. O mapa voou e caiu atrás de uma lixeira. Os três crianças quase foram atrás, mas a lixeira rangeu e um barulho fez todos prenderem a respiração.
— Buu! — gritou uma sombra que parecia um gigante.
Luís respirou fundo. "Courage, Luís", pensou. Ele foi o primeiro a se aproximar, com a lanterna a tremer um pouco.
Da sombra saltou um bicho de pelúcia esquecido, com olhos de botão que brilhavam ao luar. Era um velho ursinho que alguém tinha deixado cair. Uma senhora, que varria a calçada, riu com ternura.
— Perdão, minha querida! — disse a senhora. — Não quis assustar ninguém. Procurem aí... Ah, encontraram o mapa!
Luís pegou o mapa com alegria. O susto virou risada. A senhora ofereceu-lhes balas de menta, e os três agradeceram. Luís fez uma lista mental: sempre verificar os cantos antes de ficar assustado.
Eles seguiram. Pelo caminho, uma casa com cortinas roxas parecia protegida por corujas de plástico. Havia um portão entreaberto, luzes azuis e um morcego de papel que girava no ar. Tomás segurou a mão de Luís.
— E se tiver um monstro? — perguntou ele, meio divertido, meio preocupado.
— Os monstros de verdade gostam de risadinhas — respondeu Luís, com um sorriso que fez os olhos de Tomás brilharem —. Vamos ser educados: "doces ou travessuras" com muita coragem e um sorriso.
Quando chegaram à tal casa, ouviram um uivo baixinho. Um cão grande, mas com olhos amigáveis, saiu abanando o rabo e rosnou só de leve. Uma senhora no portão ofereceu pacotes coloridos. Luís disse com voz firme:
— Obrigado! Feliz Halloween!
E quando a senhora devolveu o sorriso, a casa deixou de parecer tão assustadora.
Perto do carvalho, o vento trouxe folhas que dançavam como fantasmas miniatura. Luís e os amigos seguiram as setas do seu mapa. De repente, um pedaço dele rasgou-se por onde o gato de rua tinha puxado antes. Uma faixa importante com "Casa do Amigo da Padaria" ficou solta.
Clara ficou preocupada.
— E agora? Como sabemos para onde ir?
Luís respirou fundo. Sentiu as mãos pequenas dos amigos nas suas.
— Vamos perguntar — disse ele. — Não temos de saber tudo. Somos corajosos quando pedimos ajuda.
Eles bateram na porta da casa onde um senhor fazia pães. Ele saiu, com farinha no cabelo, e reconheceu a turma.
— Eu sei onde fica — disse o padeiro. — Venham, eu posso guiá-los.
O padeiro levou-os num caminho curto e iluminado por lâmpadas alegres. No caminho, contou uma história engraçada sobre um pão que se disfarçou de abóbora. Todos riram. Luís anotou no mapa o caminho ajustado, com desenhos simples de pão e abóboras.
Enquanto caminhavam para a última rua, ouviram um silêncio diferente. A casa ao fundo da rua estava com janelas fechadas e uma cortina pesada. Uma coruja de madeira empoleirada dava a volta com os olhos esculpidos. Tomás segurou a mão de Luís mais forte que antes.
— Talvez seja o lugar que todas as crianças evitam — sussurrou Tomás.
Luís olhou para os amigos. Havia uma luz pequena na janela, como se alguém estivesse esperando.
— Vamos devagar — disse Luís, com voz calma. — Eu vou à frente. Se parecer muito assustador, recuamos juntos.
Eles aproximaram-se. A campainha rangeu como se fosse um instrumento musical antigo. A porta abriu devagar. Um senhor com uma barba branca sorriu. Ele vestia uma velha capa e tinha uma pilha de sacos coloridos.
— Ah! Visitantes! — exclamou o homem, com olhos brilhantes. — Tenho histórias e doces para corajosos.
Luís engoliu o medo. Levantou o queixo.
— Doces ou travessuras! — disse, e seus amigos repetiram.
O senhor bateu palmas e ofereceu a cada um um saquinho com doces e um bilhete que dizia: "Para quem partilha, sempre sobra mais". Luís sorriu. Este foi o momento em que ele se sentiu muito, muito corajoso — não por não sentir medo, mas por estar com amigos e continuar.
Capítulo 3: A Mesa e a Partilha
Ao voltar para casa, as lanternas tremiam e as sacolinhas faziam um som divertido. Sombra correu na frente, contente. Os três amigos sentaram-se na cozinha de Luís, onde a mãe tinha estendido um pano listrado laranja e preto sobre a mesa.
— Hora de contar os tesouros! — disse Luís, já tirando os doces das sacolas com cuidado.
Cada doce parecia uma pequena joia: pirulitos, balas brilhantes, chocolates embrulhados em papel prateado. Tomás puxou uma balinha em forma de estrela e Clara encontrou um saquinho de jujubas.
— Quantos temos? — perguntou a mãe, com um olhar meigo.
Luís olhou para o mapa, agora cheio de pequenos desenhos a lápis colorido: caminhos que levavam a portas amigas, uma casa que ofereceu histórias, outra que tinha biscoitos quentinhos. Ele lembrou-se de cada lugar e de cada pessoa gentil.
— Vamos partilhar por igual — decidiu Luís. — Eu desenho no mapa onde cada um ajudou e, depois, dividimos.
Eles alinharam os doces em filas sobre a mesa. Luís começou a contar alto, e todos repetiam depois de ele: um, dois, três... Quando chegaram a um número que não dava para dividir por três, houve um pequeno silêncio.
— O que fazemos com os extras? — perguntou Tomás.
Luís pensou. Olhou para Sombra a dormir, para a mãe sorrindo, para a janela onde a abóbora piscava.
— Damos aos que não puderam sair — sugeriu ele. — Podemos deixar um saquinho para os vizinhos, para o padeiro, para a senhora que varreu a calçada e para o senhor com a barba — explicou. — E partilhamos o resto por igual entre nós.
Clara bateu palmas com alegria. Era uma ideia simples e bonita. Eles colocaram pequenas etiquetas desenhadas à mão: "Para os vizinhos", "Para o padeiro", "Para o senhor com barba". O gesto deixou todos quentinhos por dentro.
— E o mapa? — perguntou a mãe.
Luís mostrou o desenho final. Agora havia uma nova nota: "Caminhos de coragem e de gentileza". Cada lugar tinha uma pequena estrela e um desenho daquilo que tornara a casa especial — uma abóbora, um pão, um ursinho.
— Excelente trabalho, Luís — disse a mãe, orgulhosa. — Tu foste de excelente conselho e, sobretudo, corajoso.
Os amigos fizeram um brinde de copinhos com suco de maçã. Riram das pequenas surpresas da noite: o gato que roubou o papel, o ursinho na lixeira, o padeiro que contou a história do pão abóbora, o senhor com a barba que tinha olhos brilhantes. Havia até uma piada: Sombra, o gato, era agora o "guardião do mapa".
Antes de irem para a cama, Luís colocou um saquinho de doces na janela, com um bilhete que dizia: "Para quem não pôde sair esta noite — com carinho". Fez o mesmo do lado de fora da casa do padeiro e deixou outro no banco da praça, onde às vezes as pessoas descansavam.
Quando as luzes se apagaram, Luís sentiu-se calmo e feliz. O mapa estava dobrado, com marcas de pequenos dedos aventureiros. Ele percebeu que coragem não era não ter medo, mas seguir em frente com cuidado e pedir ajuda quando necessário. E que partilhar fazia a aventura ficar ainda melhor.
— Boa noite, Sombra — murmurou Luís, antes de fechar os olhos.
Sombra ronronou como se respondesse.
Fora, a rua ficou serena. As abóboras continuaram a sorrir. E, no papel do mapa, as linhas coloridas brilhavam como se guardassem segredos doces. Luís dormiu com um sorriso, sabendo que naquela noite tinha desenhado mais que um caminho de doces: tinha desenhado caminhos de amizade, coragem e partilha.