A Noite dos Sustinhos Doces
Marina, Tiago, Lili e Bento caminhavam pela rua com passos de folhas secas. Era noite de Halloween. O céu estava escuro como um cobertor. As janelas tinham velas nas abóboras, a piscar devagar. Cheirava a doce de abóbora e a chocolate.
Marina era uma bruxinha de chapéu torto. Lili era uma abóbora redondinha, com um laço verde. Tiago era um pirata com uma espada de plástico que fazia “clac, clac”. Bento era um fantasma de lençol, com dois buracos para os olhos. O lençol era comprido. Às vezes ele pisava a ponta. Ele ria, um riso baixinho.
— Doces ou travessuras! — gritou Tiago numa porta.
— Só travessuras de rir! — disse Marina, piscando.
As pessoas davam doces e desejos bons. Lili segurava um saquinho com estrelas. O saquinho estava a ficar pesado.
Bento seguia um pouco atrás. Ele gostava dos amigos. Mas sentia o coração apertadinho. Queria saber qual era o seu lugar. Marina batia à porta com coragem. Tiago falava alto e fazia rir. Lili lembrava os porquês e o mapa das ruas. E Bento? O que podia ele fazer?
— Está tudo bem, Bento? — perguntou Lili, com olhos doces.
— Está. Só estou a ouvir a noite — respondeu ele, e sorriu por baixo do lençol.
A noite fazia “uuuuu” de vento. Os galhos das árvores dançavam. Uma coruja piou ao longe. Pio. Pio. Parecia uma canção.
De repente, as luzes da rua piscaram. Uma casa mais adiante acendeu uma luz azul, redonda, como uma lua baixinha no jardim. O portão chiou. Quiiiii.
— Vejam! — disse Marina, parando. — Que luz diferente.
Tiago ergueu a espada de plástico. — Se for um tesouro, eu protejo!
— E se for uma pista? — disse Lili. — Gosto de pistas.
Bento olhou. A luz parecia chamar. O coração dele bateu mais forte. Não de medo. De curiosidade.
— Vamos ver? — perguntou, com voz baixinha, mas certa.
Os quatro aproximaram-se. As lanternas de papel na varanda faziam sombras redondas na parede. Uma aranha de brinquedo pendia por um fio. Caiu no nariz do Tiago.
— Ah! — gritou Tiago, e depois riu. — É só borracha! Eu sabia. Quase sabia.
Marina bateu no portão com os nós dos dedos. Toc, toc. O portão abriu devagar, como se bocejasse. A luz azul brilhou um pouco mais.
— Que casa bonita — disse Lili. — E é só um pouco assustadora.
— Assustadora boa — respondeu Bento, sentindo um calor no peito, como quando alguém nos chama pelo nome.
A Casa do Sussurro Doce
Eles entraram no jardim. As pedras do caminho eram frias. Havia cheiros de folhas, de chuva de ontem e de bolo de canela. O vento sussurrou. Uuu… uuuu… Mas o sussurro parecia dizer “venham”.
Um gato preto apareceu. Tinha olhos amarelos, grandes e gentis. Passou pelo lençol do Bento e roçou na sua perna. Purrrr.
— Olá, gatinho — disse Bento, fazendo uma festinha. O gato piscou e foi andando, como um guia elegante.
— Deve ser o guarda da casa — disse Tiago, com voz de pirata muito sério.
— Ou um amigo — disse Marina, com um sorriso.
Chegaram à varanda. Havia um varão com lençóis a secar. Os lençóis mexiam devagar com o vento. Uma sombra alta balançou na parede.
— Um monstro! — disse Tiago, meio a rir, meio a abanar a espada.
Bento respirou fundo. Chegou perto. Tocou no tecido suave. O lençol cheirava a sabão e a sol de manhã.
— É só um lençol — disse ele. — O vento faz truques.
— O vento é muito brincalhão — disse Lili. — Eu gosto dele.
De trás de uma abóbora com dentes desenhados veio uma risadinha. Hee hee. Marina levantou a tampa da abóbora. Lá dentro, uma vela pequena dançava, a luz tremia como língua de gato.
— Hee hee! — repetiu a abóbora, porque uma gota de cera caiu e fez som.
— Até as abóboras riem hoje — disse Marina.
No canto da varanda, havia uma caixa de cartão. Era castanha, com fita laranja. Tinha estrelas desenhadas de caneta prateada. E um bilhete colado na tampa: “Para quem procura um lugar”.
Os quatro olharam uns para os outros. Bento sentiu os pés quentinhos, como se estivesse num tapete macio.
— Alguém aqui procura um lugar? — perguntou Tiago, olhando para o céu, como se o céu pudesse responder.
Bento levantou a mão devagar.
— Às vezes, eu procuro — disse, sincero. — Procuro o meu lugar.
O gato preto miauuuou como se soubesse um segredo. Marina acenou.
— Então abre, Bento.
Bento puxou a fita laranja. A fita fez um barulho bom. Ffff. Abriu a caixa com cuidado. Lá dentro havia lanternas de papel, redondas, algumas azuis, outras amarelas. Havia autocolantes que brilhavam no escuro, em forma de lua e estrela. Havia um pano leve, uma capa com pontinhos que pareciam constelações. E havia um pequeno caderno. Na capa do caderno, em letras brilhantes: “Manual do Guardião das Luzes”.
Bento tocou na capa. Era macia.
— Lê! — disse Lili.
Bento abriu. As letras eram grandes e gentis.
“Se a noite escurecer, acende uma luz. Se o medo aparecer, conta uma piada. Se alguém ficar para trás, dá a mão. Guardião das Luzes é quem guia com curiosidade e carinho.”
Bento sorriu. O gato deu uma voltinha. Purrrr.
— Acho que encontrei o meu lugar — disse Bento.
— Uhu! — gritou Tiago, fazendo a espada bater no chão. Clac!
— Sabia que o vento nos chamou por um motivo — disse Marina.
Nesse instante, a luz azul no jardim piscou duas vezes. Um sussurro doce correu pelo ar, como papel de seda. “Obrigada”, parecia dizer.
Lili apontou para uma outra linha no caderno. — Olha: “Devolve a magia. Partilha a luz. Uma casa que assusta de brincar precisa de uma mão pequenina a mostrar o caminho.”
— Então vamos mostrar — disse Bento, com a capa às costas e as lanternas nas mãos.
O Lugar Brilha, a Noite Sorri
Bento pendurou as lanternas na varanda. Uma no corrimão. Outra no prego da parede. Outra na maçaneta da porta. As luzes acenderam sozinhas, como pirilampos obedientes. A luz era suave, quente. O jardim ficou menos escuro. O medo ficou mais pequeno.
— Está tão bonito — disse Lili. — Parece um céu de bolso.
— E eu sou o capitão do céu! — disse Tiago, orgulhoso, e tropeçou no tapete. — Eu queria fazer isto mesmo! — acrescentou, rindo.
Marina leu mais uma regra do caderno. — “Quando alguém tiver medo, faz um sustinho de rir.”
— Como? — perguntou Bento.
Marina pôs a aranha de borracha no ombro, fez uma careta de bruxa boazinha e disse: — Bu!
Bento deu uma gargalhinha. Hee hee. Ele ergueu o lençol do fantasma e fez uma voz fininha: — Sou um fantasma muito educado. Digo “com licença” ao passar pelas paredes.
Os quatro riram. O riso foi como sinos leves. A casa respondeu com um brilho a mais.
Chegaram outras crianças à porta. Olhos redondos. Passos tímidos. Bento acenou.
— Venham. A luz está boa. É uma casa de sustinhos doces — disse.
As crianças entraram devagar. Viram as lanternas, a abóbora que ria, o gato que ronronava, os lençóis que dançavam.
— Uuuu — disse uma voz, do lado do balde das folhas.
— Fantasma! — disse Tiago, a fingir.
Bento foi até lá. Levantou o balde. Um monte de folhas caiu no chão, macias. Debaixo, um boneco de pano fazia “uuu” porque o vento passava pelo nariz costurado.
— É só um boneco respirando vento — disse Bento, com cuidado. — Olhem como ele gosta de brincar.
As crianças sorriram. Uma menina mais pequena deu a mão a Bento.
— Obrigada — disse ela. — Eu tinha um bocadinho de medo.
— Eu também às vezes tenho — admitiu Bento. — Mas a curiosidade tem mãos. E as mãos dão luz.
A menina apertou a mão dele. A luz azul brilhou outra vez e parou, calminha, como um coração a descansar.
Depois de muitas campainhas e risos, a rua ficou mais silenciosa. A lua subiu um pouco mais. As velas nas abóboras eram agora só brasas mansas. O gato preto enrolou-se num tapete da varanda.
— Acho que ajudámos a casa — disse Marina.
— Acho que a casa nos ajudou também — disse Lili.
Bento guardou o caderno. Tirou a capa de constelações e dobrou-a com cuidado. Pôs as lanternas de papel de volta na caixa. Sentiu uma vontade boa de partilhar.
— Esta caixa encontrou-me hoje — disse Bento. — Amanhã pode encontrar outra criança.
Tiago coçou a cabeça por baixo do chapéu de pirata.
— É como um tesouro que viaja — disse.
— Um tesouro de luz — completou Lili.
Bento pegou numa caneta que estava no fundo da caixa. Escreveu um bilhete novo, com letras grandes: “Para quem procura um lugar. A curiosidade é uma lanterna. Usa-a com carinho.”
Marina colou o bilhete por fora, por cima da tampa. Lili arrumou os autocolantes brilhantes dentro. Tiago alisou a fita laranja com a palma da mão.
O vento soprou leve, cheirando a canela. A varanda suspirou feliz. O gato abriu um olho e fechou de novo. Purrrr.
— Prontos? — perguntou Bento.
— Prontos — disseram os três.
Bento puxou as abas da caixa de cartão. Dobraram para dentro com um som fofo. Tap, tap. Ele passou a fita laranja por cima, devagar, como quem fecha um segredo bonito. Ffff.
Os quatro ficaram a olhar por um instante. Era uma caixa castanha, com estrelas prateadas, com um bilhete simpático. Por dentro, dormia a magia boa das luzes e dos sorrisos.
— Até amanhã, caixa — sussurrou Bento.
Eles desceram os degraus, de mãos dadas, o lençol do fantasma a roçar no chão. As folhas fizeram música de papel. A lua seguiu-os, redonda e calma. No alpendre, quieta e brilhando um bocadinho, a caixa de cartão ficou fechada.