Capítulo 1
Lia tinha cinco anos e um jeito muito organizado de ser. Ela gostava de guardar os lápis por cor, de alinhar os brinquedos antes de dormir e de fazer listas com desenhos. Quando o outono chegou, Lia fez uma lista especial: "Halloween — o que fazer". No topo, ela desenhou uma capa preta com estrelas. Por baixo, escreveu com cuidado: "Devolver a capa da Dona Violeta".
Dona Violeta morava na casa amarela da esquina. Todos sabiam que ela gostava de fazer chás com bolinhas de gengibre e usar uma capa que fazia um leve barulho de folha quando ela andava. Ninguém sabia por que a capa desapareceu, mas Lia ouviu dizer que Dona Violeta ficou triste. Lia, que gostava de arrumar as coisas, decidiu que devolver a capa seria sua missão de Halloween.
— Eu vou devolver a capa — disse Lia ao seu urso de pelúcia. — Mas antes eu faço um plano.
Ela desenhou o caminho até a casa amarela. Marcaram-se paradas: primeiro, lanterna; depois, doces; depois, perguntar ao gato; por fim, bater à porta. Lia colocou uma fita no cabelo, enfiou a capa que ela mesma tinha feito (uma capa azul com bolinhas de giz), e sorriu. A capa não era a da Dona Violeta, mas estava perfeita para andar com cuidado e esconder surpresas.
— Pronta? — perguntou a mãe.
— Prontíssima — disse Lia.
E assim começou a noite de Halloween, com o céu pintado de roxo e laranja. Havia risinhos nos jardins e abóboras com olhos brilhantes. Lia caminhou com passos pequenos e decididos, como quem segue uma trilha de estrelas.
Capítulo 2
No caminho, Lia encontrou o amigo Tomás, vestido de fantasma que ria muito.
— O que você tem na missão? — perguntou Tomás.
— Devolver a capa da Dona Violeta — respondeu Lia. — Você vem?
Tomás balançou o lençol. — Quero doces! — disse ele. — Mas posso ajudar.
Os dois seguiram, e logo ouviram um miado. Um gato preto pulou na cerca de uma casa. O gato olhou para Lia com olhos grandes e curiosos.
— Olá, Gatinho — disse Lia. — Você conhece a Dona Violeta?
O gato ronronou e, como se entendesse, correu na direção da casa amarela. Lia sorriu. Seguir um gato parecia um bom plano. Lia e Tomás seguiram o gato por caminhos de folhas que fizeram cócegas nos pés.
Quando chegaram, viram várias capas penduradas no varal da Dona Violeta. Havia capas de todas as cores: verde, vermelha, listrada. Lia ficou feliz, mas quando se aproximou, percebeu que a capa que procurava não estava ali. Só havia uma etiqueta com um nome: "Para quem precisa de calor". Lia franziu o cenho. Era estranho. Ela sabia ser metódica, então fez uma nova lista na cabeça: procurar pista, perguntar aos vizinhos, lembrar dos cheiros do chá da Dona Violeta.
— Talvez ela esqueceu onde pôs — disse Tomás, sacudindo o lençol. — Ou talvez a capa tenha saído para passear!
Lia sorriu. A ideia de uma capa que passeia sozinha era engraçada e um pouco assustadora. Mas Lia não tinha medo. Ela era curiosa. Curiosidade era uma luz, pensou ela, e a luz guia.
Lia sentou-se num degrau e cheirou o ar. Cheiro de rua molhada, de abóbora e — muito fraco — de gengibre. Isso fez seu coração bater diferente. Ela seguiu o rastro do cheiro até o jardim da frente, onde uma caixa de brinquedos estava aberta. Dentro havia um bilhete de papel cor-de-rosa com letras miúdas: "Se encontrar uma capa voadora, traga-a ao Sótão Escondido. — V."
— V de Violeta! — exclamou Lia. — O sótão escondido!
Tomás arregalou os olhos. — Onde fica?
— A Dona Violeta sempre fala de um sótão com uma janela pequena. Vamos procurar a entrada — disse Lia, com firmeza.
Eles procuraram e acharam uma portinha minúscula atrás de uma moita de lavanda. A porta tinha um sininho que tocava como um trinco de história antiga. Lia empurrou devagarinho e uma brisa cheirando a chá os recebeu. No sótão, havia luzinhas penduradas, potes com pólvora de brilho (sem perigo), e — no centro — uma pilha de capas enroladas, como se cada capa tivesse contado um segredo diferente.
Lia olhou e encontrou uma capa que parecia perfeita. Era preta com estrelas e um fio prateado. Ela esticou a mão... e a capa deu um pulo e se enroscou numa boneca. Lia interrompeu a respiração. O que aquilo significava? A capa movera-se? Era magia? O gato miou de cima de uma caixa, olhando para a capa com olhos de quem sabia de coisas.
— Talvez ela esteja brincando — murmurou Lia. — Talvez ela só queira voltar para casa.
Lia falou com calma, porque era assim que ela resolvia mistérios. Ela fez uma lista de perguntas suaves na cabeça e começou:
— Capa, você está perdida?
A capa não respondeu com palavras, mas os pingentes das estrelas cintilaram. Lia, então, tirou da bolsa um pedaço de bala de gengibre que havia guardado para emergências. Ela segurou a bala perto da capa. A capa inclinou-se, como uma folha que se curva ao vento, e pousou delicadamente nos ombros dela.
— Obrigada — sussurrou Lia, e riu baixo porque era engraçado. Uma capa que aceitava bala! Tomás bateu palmas, e o gato saltou para a capa como se fosse um grande cobertor.
Com a capa nos ombros, Lia sentiu um friozinho doce, como as primeiras notas de uma canção. Ela sabia que precisava levar a capa de volta à Dona Violeta. Mas, no caminho para a porta, ouviram passos e risadinhas. Duas crianças da rua estavam com lanternas e uma sacola de doces. Uma delas segurava um pedaço de tecido que parecia muito com a capa preta.
— Ei! — chamou a menina. — Acabamos de achar esta capa no parque. É a sua?
Lia sentiu o coração bater mais rápido. A capa na mão da menina era parecida, mas não era igual. Lia, metódica, explicou devagarinho:
— A capa que procuramos tem um fio prateado e canta quando alguém a chama — disse ela.
A menina olhou surpresa. — Canta? — perguntou.
— Sim. — Lia bateu palminhas. A capa nos ombros fez um som muito baixinho, como um sussurro de vento. A menina abriu um sorriso e deixou cair o tecido que tinha.
— Ah! Então essa aqui é só uma capa velha — disse a menina, rindo. — Vocês podem ficar com a verdadeira.
As risadinhas se transformaram em aplausos. Lia sentiu-se feliz, porque curiosidade e jeito metódico tinham resolvido mais um enigma.
Capítulo 3
Na casa amarela, Dona Violeta abriu a porta com olhos que brilhavam como duas velas. Ela usava um avental com rabiscos de chá e um penteado cheio de pétalas. Quando Lia colocou a capa nos ombros da senhora, Dona Violeta fez uma voz doce.
— Oh! Minha capa! — exclamou ela. — pensei que a tivesse perdido para sempre.
Lia entregou a bala de gengibre que havia usado para atrair a capa ao gato, que agora ronronava aos pés da senhora. Dona Violeta acariciou o gato e, com um sorriso, ofereceu bolinhas de gengibre a Lia e Tomás.
— Vocês são muito corajosos — disse Dona Violeta. — E muito curiosos. Obrigada por seguir o rastro do cheiro.
Lia sorriu. Seu plano havia funcionado. Mas havia outra coisa no ar: um pequeno mal-entendido. A menina que achara a capa no parque veio à porta, com a capa velha na mão.
— Eu só queria ajudar — disse ela, encolhendo os ombros.
Dona Violeta pegou a capa velha e a cheirou. — Ah, esta? É uma capa de brincar. Ela veio da família de lembranças. Obrigada por trazê-la — disse com ternura. — Cada capa tem seu lar e cada lar seu jeito de amar.
Lia percebeu algo importante. A capa verdadeira não estava perdida por maldade. Ela havia saído porque precisava de um lugar quentinho; a capa velha estava perdida e a menina queria ajudar. Todos tinham feito o melhor que puderam. Lia sentiu calor no peito. A missão não era só devolver um tecido. Era juntar entendimentos.
— Vamos fazer uma festa de Halloween — sugeriu Dona Violeta. — Com chás, dois bolinhos e uma história da capa.
As crianças aplaudiram. Havia velas em potes de vidro com rostinhos desenhados, e as luzes piscavam como olhos curiosos. Dona Violeta contou a história de quando a capa era jovem e gostava de dançar com as folhas. Lia ouviu com atenção, abraçada à sua capa azul de bolinhas. Ela achou tudo muito bonito: a capa que dança, o gato que sabe das coisas, as risadas que aparecem como luzinhas.
No fim da noite, quando as estrelas já piscavam alto no céu, Dona Violeta pegou a mãozinha de Lia.
— Você me trouxe algo mais valioso que a capa — disse ela. — Trouxe curiosidade, coragem e carinho. Isso aquece mais que qualquer tecido.
Lia sentiu-se timidamente feliz. Tomás dormiu no banco, com o lençol pendurado, e o gato enrolou-se no colo da menina que achara a capa velha. Todos tinham encontrado um lugar de volta. A capa estava em casa. O mal-entendido estava resolvido. E Lia aprendeu que ser metódica e curiosa ajudava a juntar peças de um quebra-cabeça que parecia assustador, mas que no fundo só queria ser entendida.
Antes de ir embora, Dona Violeta deu a Lia um pequeno sininho dourado.
— Para lembrares que a curiosidade toca campainhos — disse ela com sorriso.
Lia pendurou o sininho na sua capa azul. Ao caminhar para casa, o sininho tilintava baixinho, como uma canção de boas noites. Lia olhou para o céu, onde a lua fazia o contorno de uma abóbora brilhante, e pensou em todas as perguntas que ainda queria fazer no mundo. Ela sabia que, com calma e cuidado, cada pergunta poderia virar uma luz.
Quando chegou em casa, sua mãe a levou nos braços e disse:
— Conte-me tudo.
Lia contou cada passo, cada som e cada sorriso. A mãe riu e beijou sua testa. Lia, aconchegada no quarto, alinhou os brinquedos como sempre, pegou seu urso de pelúcia e fechou os olhos.
Na paz da noite, a capa azul de bolinhas descansava na cadeira, e o sininho dourado pendia, brilhando um pouco. Lia sonhou com capas que cantavam e com gatos que sabiam segredos. Era uma noite de Halloween com frissons doces, muitas risadas e um abraço quente no fim. Tudo estava de novo em seu lugar, e o mundo parecia mais curioso e mais bonito.
E assim, com um sussurro de estrelas, Lia adormeceu contente, pronta para sonhar e para, no dia seguinte, fazer outra lista colorida de pequenas aventuras.