A noite cheirosa
A noite estava fresca. O vento soprava folhas secas. Havia doces no ar. Havia um cheiro de canela e abóbora. A lua mostrava um sorriso fino. As estrelas piscavam como lâmpadas pequenas.
Lia tinha seis anos. Seus olhos brilhavam como molas. Ela segurava um laço laranja e roxo. O laço tinha pontinhos dourados. Estava macio entre os dedos dela. Lia queria prender o laço. Queria que ele dançasse na árvore da esquina. Era para a festa de Halloween do bairro.
A árvore era velha e soltava sons. Galhos estalavam. Às vezes pareciam dedos que batucavam. Lia sentiu um friozinho de medo. Mas sentiu mais curiosidade. Ela aproximou-se devagar. Cheirou a casca. A casca cheirava a terra molhada. À volta, crianças riam com voz de sino. Fantasias balançavam. Um gato preto espreguiçava-se perto de uma abóbora.
Lia falou baixinho para o laço. A voz saiu como um sopro. O laço parecia feliz. Ele cintilou com o toque dela. Havia passos leves atrás da árvore. Não havia nada assustador. Só um som curioso. Lia ficou mais curiosa. A curiosidade fez-lhe coragem. Ela tentou subir. O galho estava alto.
O plano curioso
Lia não tinha escada. Pensou em muitas ideias. Uma penca de balões? Muito alto. Uma cadeira? Instável. Pediu ajuda, mas não queria incomodar os adultos. Eles decoravam as mesas com velas. Lia tinha uma ideia pequena e esperta. Pegou um cabide de madeira no bolso da mãe. Pegou também um palito comprido do jardim. Prendeu o laço no cabide. O palito virou uma vara. A vara parecia uma varinha.
Ela empurrou o laço para cima. Tocou o galho. O laço balançou. Caiu quase perto de uma coruja de brinquedo que pendia de um fio. A coruja abriu um olho de plástico. Lia riu baixinho. Riu de si mesma. A vara tremeu. O laço escapou. Caiu sobre uma abóbora sorridente. A abóbora parecia uma bochecha laranja. Lia sentiu vontade de chorar um bocadinho. Mas logo sorriu outra vez.
Do outro lado do parque, um som de panelas fez uma música engraçada. Alguém tocava com colher. O som lembrou um sapo que cantava. Lia ouviu passos leves. Era o gato preto que vinha com um fio brilhante preso no rabo. O fio parecia mágico. Brilhava em verde e azul. O gato parou e olhou para Lia. Mia suave, como se desse um encorajamento.
Ela amarrou o fio ao cabide. O fio parecia um pequeno rio luminoso. Com cuidado, puxou. O laço subiu devagar. A vara esticou-se, o fio guiou, e o laço ficou perto do galho. Um vento pequeno soprou e trouxe folhas douradas. O laço tremulou. Passou uma borboleta de papel. O mundo parecia um teatro de sombras doces.
Mas ainda faltava prender bem. O laço tocou um botão de musgo e escorregou. Caiu quase no lago de plástico onde luzes pequenas nadavam. Lia fechou os olhos um segundo. Contou até três. Reabriu e sentiu o calor de coragem dentro do peito. Decidiu tentar uma vez mais. Pensou em amarrar o laço ao galho com um nó firme. Pegou uma pequena pedra para segurar o cabo. A pedra parecia um coração de pedrinha.
Tudo parecia silencioso. Até o som do vento parecia escutar. Lia fez o nó com as mãos pequenas. Foi difícil. Seus dedos tremeram. Mas a curiosidade guiava as mãos. Ela queria saber se conseguia. O laço entrou por entre ramos finos. O nó fechou. O laço ficou preso.
Um aplauso suave veio de trás de um arbusto. Um esquilo fez uma pirueta e escondeu uma noz. O gato miou outra vez. A abóbora sorriu. Lia pulou de alegria. O laço dançava e fazia sombras laranjas no chão. O bairro inteiro parecia suspirar de alegria.
Lanterna e adeus da noite
Quando o laço ficou firme, Lia percebeu algo diferente. A lanterna da árvore, uma casquinha de abóbora vazia com vela dentro, tremia com o vento. Havia muitas luzes pequenas por todo lado. Algumas eram amarelas, outras eram azuladas. Um menino passou com uma capa que fazia um som de papel. Todos olhavam o laço. Todos sussurravam coisas boas.
Lia sentiu um carinho no rosto. Era a brisa que cheirava a canela. Ela tocou a abóbora-lanterna. A cera por dentro estava mole. A chama parecia um bichinho quente. Lia colocou a mão perto e sentiu calor. A luz da lanterna fazia sombras de mãos na calçada. Eram mãos de monstros engraçados. Nenhuma era feia demais. Todas eram como desenhos de brinquedo.
O gato empoleirou-se perto da abóbora. O gato olhou a chama e esticou a pata com cuidado. Parecia querer brincar. Lia riu e tirou o gato com delicadeza. O gato ronronou como um motor pequeno. O laço balançava ao vento. Os vizinhos aplaudiam com as mãos. Uma avó trouxe biscoitos em formato de caveira. O sabor era doce e não assustador.
O tempo passou como um relógio lento. As estrelas ficaram mais brilhantes. A lua abriu um sorriso maior. As crianças começaram a guardar as máscaras. As coisas se aquietaram. Os risos tornaram-se suspiros calmos. Lia sentiu os olhos pesarem um bocadinho. A aventura tinha dado sono bom.
Ela sabia que devia voltar para casa. Antes de ir, ficou mais um momento junto à lanterna. Apertou a fita do laço com cuidado. Deu um beijo invisível no ar. Agradeceu à árvore por emprestar um galho. Agradeceu ao gato e ao esquilo e à coruja de brinquedo. Agradeceu ao laço que agora brilhava com a noite.
Quando Lia se afastou, alguém apanhou a abóbora-lanterna para guardar. A vela dentro dela já estava pequena. A pessoa chamou suavemente: "Boa noite." A chama fez um último aceno. Ficou mais baixa como uma música que vai terminando. Depois, num suspiro de ar, a luz se apagou.
A noite ficou um pouquinho mais escura. Mas não deu medo. A escuridão parecia um cobertor macio. As estrelas brilharam ainda mais. No lugar da lanterna havia uma sombra amiga. Lia olhou para trás. Viu o laço dançando ainda. Viu o brilho das velas distantes. Sentiu o coração quentinho.
Ela caminhou com passos pequenos até a porta de casa. A mãe abriu e sorriu. A casa cheirava a biscoitos. Lia contou a história do laço, do gato e do esquilo. Contou sem pressa. A mãe ouviu como se cada palavra fosse um tesouro.
Antes de deitar, Lia olhou pela janela. O laço ainda pendia na árvore. A lua fazia um quadro sobre ele. A lanterna estava apagada. A escuridão dizia que a festa terminara bem. Lia fechou os olhos com um sorriso. Sonhou com laços que voavam e gatos que dançavam. Sonhou com noites curiosas e gentis.
A casa fez silêncio. O vento embalou as folhas. A noite guardou tudo com cuidado. E a lanterna apagada cuidou também do sonho de Lia.