Parte 1: O plano da Leonor
Leonor tinha seis anos e um sorriso tão grande que parecia iluminar tudo à volta. Naquela tarde, ela olhava pela janela do seu quarto, onde já se viam folhas castanhas a voar pelo jardim. Era quase Halloween, e Leonor sentia o coração a bater mais depressa só de pensar.
— Mamã, falta muito para o Halloween? — perguntou ela, mexendo nos seus caracóis dourados.
— Só mais dois dias, querida — respondeu a mãe, enquanto arrumava uns chapéus engraçados numa caixa. — Já pensaste no teu disfarce este ano?
Leonor já tinha pensado muito! No ano passado, tinha sido uma abóbora sorridente. No outro, uma bruxa com uma vassoura que não voava nada bem. Mas este ano, Leonor queria algo diferente. E, mais importante ainda, queria ajudar alguém.
— Mamã, posso emprestar um dos meus fatos a um amigo? — perguntou Leonor, com os olhos a brilhar.
— Que ideia tão bonita! — sorriu a mãe. — O Halloween é mais divertido quando partilhamos.
Leonor ficou toda contente. Já sabia a quem queria emprestar um disfarce: ao seu novo vizinho, o Tiago. Ele era tímido e ainda não tinha muitos amigos na rua.
Na manhã seguinte, Leonor foi rápida a tomar o pequeno-almoço. Pegou numa caixa cheia de disfarces e foi bater à porta do Tiago.
— Olá! — disse, abanando a caixa. — Queres escolher um fato comigo?
Tiago abriu a porta devagarinho. Trazia uns óculos redondos e um ar curioso.
— Eu nunca me mascarei no Halloween... — confessou, baixinho.
— Então este vai ser o primeiro ano! — exclamou Leonor. — Vem, temos disfarces para todos os gostos!
Parte 2: O Baú dos Disfarces
Leonor e Tiago sentaram-se no tapete da sala. Abriram a caixa e começaram a tirar fatos um a um.
— Olha, este é de pirata! — disse Leonor, colocando um chapéu de três pontas na cabeça do Tiago. — Capitão Tiago, ao ataque!
Tiago sorriu, mas tirou o chapéu.
— Acho que não sou muito bom a dar ordens... — murmurou.
Leonor riu-se.
— Então e este? — mostrou-lhe um fato de fantasma feito de um lençol branco com olhos desenhados a marcador.
Tiago experimentou, mas tropeçou e caiu sentado, com um "puff!" tão engraçado que os dois desataram a rir.
— Este fantasma precisa de aulas de flutuar! — brincou Leonor.
Foram experimentando mais disfarces: um de gato preto, outro de super-herói, um de dinossauro e até um de bruxa com um nariz torto de borracha.
Tiago divertia-se cada vez mais. Já quase não parecia o menino tímido do início.
— E se eu fosse um morcego? — perguntou, ao encontrar umas asas pretas de tecido.
— Perfeito! — aplaudiu Leonor. — Vou ser uma bruxa e tu o meu morcego ajudante!
Tiago vestiu o fato de morcego e rodopiou pela sala, a fingir que voava. Leonor pôs o chapéu pontudo e pegou numa vassoura mágica.
— Prontos para a noite mais assustadoramente divertida do ano? — perguntou ela, piscando o olho.
Parte 3: A Caminhada Misteriosa
Chegou finalmente o dia de Halloween. Leonor e Tiago encontraram-se ao anoitecer. As ruas tinham abóboras a sorrir nas janelas, e luzinhas brilhantes piscavam em todo o lado.
— Vamos bater às portas e pedir doces? — perguntou Tiago, um bocadinho nervoso, mas muito entusiasmado.
— Vamos sim! — disse Leonor, pegando-lhe na mão. — E lembra-te: se alguém disser "doces ou travessuras", tu dizes "doces, por favor!" com o teu melhor sorriso de morcego.
Foram de porta em porta, sempre juntos. Os vizinhos riam-se com os seus disfarces e enchiam-lhes os sacos com rebuçados e chocolates.
A certa altura, passaram por uma casa muito antiga. As janelas estavam iluminadas por velas e havia uma aranha gigante feita de papel na porta.
— Uau, que casa misteriosa! — disse Tiago, apertando um bocadinho a mão de Leonor.
Leonor fez uma voz fininha, a fingir que era uma bruxa verdadeira:
— Morcego Tiago, esta casa parece esconder segredos mágicos!
— Achas que há monstros lá dentro? — perguntou Tiago, com um sorriso nervoso.
— Só monstros simpáticos! — respondeu Leonor, a rir.
Bateram à porta. Ouviu-se um som de passos, e a porta abriu-se devagar. Era a Dona Albertina, a velhota que fazia bolachas de chocolate para toda a vizinhança.
— Olá, pequenos monstros! — exclamou ela, com uma gargalhada. — Que disfarces tão bonitos! Entrem, tenho bolachas quentinhas para vocês.
Leonor e Tiago entraram e sentaram-se à mesa. Dona Albertina tinha chá de maçã e bolachas acabadas de sair do forno.
— Sabem, quando eu era pequena, também adorava o Halloween — contou ela. — Uma vez, mascarei-me de abóbora tão redonda que quase não conseguia passar pelas portas!
Os três riram-se tanto que até o gato da Dona Albertina veio espreitar.
— O Halloween é mais divertido quando estamos juntos — disse Tiago, com a boca cheia de bolacha.
— E quando partilhamos os nossos fatos — acrescentou Leonor, dando um sorriso ao amigo.
Parte 4: O Mistério dos Chapéus e o Regresso a Casa
Depois de se despedirem da Dona Albertina, Leonor e Tiago continuaram a sua caminhada. As estrelas já brilhavam lá no alto, e as lanternas de abóbora piscavam como olhos de dragão, mas não metiam medo a ninguém.
— Sabes, Leonor — disse Tiago —, adorei ser morcego hoje. Obrigado por me emprestares o fato.
Leonor deu-lhe um abraço apertado.
— Eu também adorei ser bruxa contigo! — respondeu. — E amanhã podemos trocar outra vez, se quiseres.
Antes de irem para casa, passaram pelo parque. No escorrega, estavam outros meninos mascarados: uma múmia, um vampiro e até uma princesa com coroa de papel.
— Olhem, ali está a Leonor! — gritou a princesa.
Leonor e Tiago juntaram-se ao grupo. Todos contavam histórias assustadoras, mas ninguém se assustava a sério. Só davam gargalhadas.
— Queres experimentar o meu chapéu de princesa? — perguntou a menina da coroa.
— Eu empresto-te as minhas asas de morcego! — ofereceu Tiago ao vampiro.
E assim, todos começaram a trocar chapéus, coroas e máscaras. O parque ficou cheio de risos e chapéus a voar pelo ar. Até os pais, sentados nos bancos, se riam ao ver tanta confusão divertida.
Quando chegou a hora de ir embora, cada um procurou o seu chapéu. Leonor encontrou o chapéu pontudo atrás do escorrega. Tiago achou as suas asas perto do baloiço. E todos ajudaram a arrumar os fatos e chapéus numa caixa grande.
— Vamos guardar tudo bem direitinho — disse Leonor —, assim para o ano podemos partilhar outra vez!
Tiago acenou com a mão, feliz.
— O melhor do Halloween é podermos ser quem quisermos... e partilhar com os amigos!
Leonor sorriu, cheia de orgulho. Sabia que, naquele Halloween, tinha feito mais do que vestir um disfarce: tinha ajudado um amigo a sentir-se incluído e feliz.
— Boa noite, morcego Tiago! — disse ela, já a caminho de casa.
— Boa noite, bruxa Leonor! — respondeu ele, rindo.
E assim, com os chapéus arrumados e os corações quentinhos, todos foram dormir, prontos para sonhar com novas aventuras. Porque o Halloween pode ser misterioso, mas é ainda melhor quando é partilhado com respeito, alegria e amizade.