Capítulo 1
Na véspera de Halloween, a rua cheirava a maçã assada e a folhas húmidas. Três amigas de seis anos saíram com sacos pequenos, passos leves e olhos curiosos. Marta tinha um vestido laranja com poás, Lia usava uma capa roxa e Bia trouxe uma lanterna com um rosto de abóbora. Todas tinham o mesmo objetivo daquela noite: inflar um balão especial que brilhava na caixa.
O balão não era comum. Era grande, azul-escuro, com pequenas estrelas desenhadas. A mãe de Marta disse que o balão guardava um sopro de coragem. As três tocaram o balão e sentiram um friozinho, como se ele estivesse adormecido. O desejo era simples: deixar o balão bem cheio para a porta da frente, para que os vizinhos vissem a luz suave de Halloween.
Elas caminhavam pelo jardim que parecia diferente com as sombras alongadas. As sombras pareciam fazer cócegas nos cortes de luz. Um vento cantava nas folhas. Nada de assustador demais, só um pouco de mistério. As meninas seguraram a caixa com cuidado e decidiram usar o pequeno canudo que veio dentro.
Capítulo 2
Marta tentou primeiro. Ela inspirou fundo, bem fundo, até a barriga subir. Expirou devagar, como a mãe mostrara quando se calma. O balão fez um somzinho estranho, como um suspiro. Cresceu só um pouquinho. Lia tentou em seguida. Seus lábios estavam frios. Bia soprou com força e o balão tremeu, mas parecia que uma telha invisível segurava o ar.
O caminho para encher foi cheio de pequenos desafios. Um arame no portão fez barulho metálico. Um gato preto passou e miou uma nota longa que soou como uma pergunta. As meninas sentiram um medo pequenino no peito. Suas mãos ficaram geladas. O balão parecia pesar mais do que a caixa dizia.
Elas lembraram do sopro de coragem. Fecharam os olhos por um segundo para lembrar de coisas que as faziam felizes: um sorvete no verão, a risada da avó, uma corrida no parque. Marta aprendeu que coragem não é não ter medo. É fazer um passo quando as pernas tremem. Respiração lenta, sorriso pequeno, e outra tentativa.
Um som suave veio do alto da árvore. Algo brilhava entre os galhos. Uma luz pequena e dourada desceu flutuando. Não era um bichinho comum. Era uma luz que piscava como se tivesse vontade de brincar. As meninas ficaram em silêncio. A luz pousou sobre o balão e fez cócegas. O balão piscou suas estrelas.
A luz era uma fada de Halloween, mas não de contos assustadores. Ela tinha olhos grandes e muito brilho no cabelo. Sem falar, ela soprou com sopros leves, quase risadinhas. Cada sopro fazia o balão crescer um pouquinho. As meninas aplaudiram em pensamento. Não havia perigo; só uma amiga tímida que gostava de ajudar.
A fada explicou com gestos que o balão só enchia quando as amigas enchessem o coração de coragem, quando respiravam juntas e pediam com ternura. Elas se entreolharam. Seguraram o canudo juntas, como um time. Inspiraram. Poderam ouvir o próprio coração, um tamborzinho firme. Sopraram juntas, devagar, e o balão começou a ficar redondo e cheio de estrelas.
Capítulo 3
O balão subiu, mas não fugiu. Flutuou suave, como uma nuvem pequena presa por um fio de lã. As meninas amarraram o fio à maçaneta da porta. A lanterna de Bia brilhou e projetou boquinhas sorridentes na parede. O jardim pareceu mais amigo. A abóbora da vizinha piscou uma luz laranja como sinal de aprovação.
Uma brisa leve trouxe risadinhas ao longe. Os passos que antes pareciam sombrios agora soavam como música. As três amigas sentiram o peito leve. Tinham vencido um friozinho interno. Com coragem pequena, cada uma fez uma coisa que a assustava: Marta abriu o portão sozinha, Lia atravessou o caminho escuro cantando baixinho, Bia contou uma história engraçada sobre um fantasma que gostava de biscoitos.
O balão ficou grande e calmo. As estrelas nele brilhavam como olhos amigos. As crianças olharam para o teto da rua iluminada por lampiões e imaginaram histórias gentis. Não houve gritos, nem sustos de verdade, só pequenos sustos que se transformaram em risos. Um vizinho, ao passar, sorriu e fez aceno com a mão. Ele disse "boa noite" com voz suave. As meninas responderam com acenos tímidos e orgulhosos.
Voltaram para a casa de Marta com o balão preso ao fio. A mãe colocou uma manta sobre os ombros de cada uma e serviu chá morno com um biscoito de gengibre. O sabor era doce e o calor do chá parecia dizer: "bom trabalho, pequenas corajosas". As meninas repartiram o biscoito, pedacinhos para cada uma.
Antes de deitar, cada uma olhou para o balão que flutuava próximo ao teto, derramando luz de estrelas no quarto. Sentiram que uma pequena magia tinha entrado dentro delas. Coragem não era um troféu; era um sopro que se compartilhava. Elas sussurraram um obrigada silencioso para a fada que tinha sumido entre as folhas da árvore.
Na cama, as três se aconchegaram. O mundo lá fora sussurrava noite. A abóbora na varanda piscava ainda. O balão balançava devagar como um barco no mar calmo. As meninas fecharam os olhos, felizes e um pouco cansadas. Um último pensamento: juntas, tudo é menos assustador.
E todas adormeceram com um último sorriso.