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História sobre as férias de verão 11 a 12 anos Leitura 16 min.

O verão das pequenas coisas no campismo

Quatro amigas passam um verão num campismo onde, entre brincadeiras e pequenas descobertas na natureza, aprendem a olhar com mais atenção, a ter paciência e a valorizar os momentos simples que vivem juntas.

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Quatro meninas: Lara (12 anos) cabelo castanho-claro preso em rabo de cavalo, sardas, camiseta verde-pálido e shorts bege, em pé na pequena varanda à esquerda desenhando em um caderno; Inês (12) cabelo castanho liso na altura dos ombros, pele levemente bronzeada, camiseta às riscas azul e branco, sentada à direita numa cadeira de plástico com um livro olhando para o lago; Joana (11) cabelo preto cacheado preso em coque, sorriso largo, vestido amarelo com padrões brancos, agachada centro-esquerda rindo com um livro de piadas ao lado; Sofia (12) cabelo loiro comprido solto, olhar sereno, vestido azul claro, sentada centro-direita com um caderno azul mostrando um pequeno desenho de borboleta; cenário: mobil-home de madeira clara com pequena varanda desgastada, mesa branca de plástico, duas cadeiras, um lampião laranja, pinhais ao fundo, céu crepuscular rosado-violeta com algumas estrelas, relva curta e um caminho de terra para o lago; situação: última noite de férias na varanda com luz quente de uma lâmpada amarela iluminando rostos, atmosfera íntima e calma; detalhes visuais resumidos: texturas de madeira, sombras suaves, padrões das roupas nítidos, brilho nas páginas, uma xícara na mesa e uma borboleta na grade; estilo: ilustração vetorial colorida, contrastes suaves e paleta acolhedora (amarelos, verdes suaves, azul pastel, rosa crepúsculo). reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1

O calor da manhã fazia o ar tremer por cima do asfalto. No carro, as quatro amigas tinham as pernas coladas aos bancos e o cabelo preso com ganchos coloridos. Quando o portão do parque de campismo apareceu, todas se endireitaram.

— Chegámos! — disse a Lara, com os olhos atentos como se estivesse a procurar um segredo entre os pinheiros.

Lara era a observadora da natureza do grupo. Reparava em coisas pequenas: a sombra redonda de um chapéu de sol, a fila apressada de formigas, o jeito como o vento mexia as folhas como se fossem mãos.

A Inês, sempre prática, já contava quantos sacos tinham.

— Se deixarmos isto cair tudo, a minha mãe transforma-nos em malas humanas — avisou.

A Joana ria por tudo e por nada. Até do próprio suor.

— Eu já sou uma mala humana. Só falta a etiqueta: “Frágil, mas teimosa”.

A Sofia, mais silenciosa, segurava um caderno de capa azul. Gostava de escrever listas e guardar lembranças. Tinha trazido uma caneta com cheiro a morango, só porque sim.

O mobil-home estava no fim de uma rua de areia, com uma varanda estreita e uma mesa de plástico. Cheirava a madeira quente e protetor solar. Havia um barulho constante de cigarras, como um aplauso interminável.

— Parece uma casa em miniatura — disse Sofia, passando a mão pela cortina.

— Uma casa em miniatura com aventuras em tamanho real — respondeu Joana, já a abrir a porta do quarto.

Lara saiu para a varanda e respirou fundo. Ao lado, um arbusto de alecrim atraía abelhas. Mais longe, um lagarto rápido atravessou a sombra.

— Viram aquilo? — sussurrou ela.

— Eu vi um lagarto? — perguntou Inês, desconfiada. — Ou vi um fio de sombra a fugir?

Lara sorriu. Naquele primeiro dia, a vontade de fazer tudo depressa batia dentro dela como uma bola. Mas o verão parecia dizer o contrário: “Vai devagar. Ainda há tempo.”

Capítulo 2

À tarde, depois do mergulho na piscina, foram até à pequena biblioteca do campismo. Era uma sala fresca, com prateleiras baixas e um ventilador que fazia “vuup-vuup”. Havia livros com capas gastas e outros brilhantes, como novos.

A bibliotecária, uma senhora de óculos pendurados num cordão, olhou para elas por cima de um carimbo.

— Vieram buscar companhia para as noites? — perguntou.

— Para as noites e para os dias também — respondeu Lara, já a percorrer os títulos com o dedo.

Inês escolheu um livro de mistérios “para treinar a cabeça”. Joana agarrou um de piadas e histórias curtas.

— Este vai ser útil em emergências de tédio — declarou, muito séria.

Sofia ficou entre um diário de viagem e um livro sobre estrelas. Abriu o das estrelas e fechou logo, como se tivesse medo de o céu lhe saltar para as mãos.

— Acho que quero os dois… — murmurou.

— Só podes levar um de cada vez — disse a bibliotecária, sem dureza, mas com firmeza.

Sofia mordeu o lábio. Lara reparou naquele gesto, pequenino e conhecido. A vontade de ter tudo já, agora, sem escolher.

— Levas o das estrelas hoje — sugeriu Lara, em voz baixa. — Amanhã voltas e trazes o outro. Assim tens duas visitas à biblioteca.

Joana fez uma reverência exagerada.

— A Lara fala e o universo acalma.

Sofia riu, aliviada, e escolheu o livro das estrelas.

Na volta ao mobil-home, o sol começava a descer e a luz ficava dourada, como mel. Passaram por uma zona de ervas altas, onde se ouviam grilos.

Lara parou.

— Esperem. Escutem.

As outras pararam, primeiro a suspirar, depois a ouvir. O som era como uma pequena máquina invisível a trabalhar.

— Parece que estão a fritar pipocas no ar — disse Joana.

— São grilos — explicou Lara. — E estão a… sei lá, a conversar.

Inês cruzou os braços.

— Eu nunca tinha parado para ouvir grilos.

— Pois. — Lara encolheu os ombros, feliz. — A natureza fala baixo. A gente é que costuma falar alto.

Capítulo 3

No dia seguinte, decidiram fazer um “desafio de observação” como jogo de férias. A regra era simples: cada uma tinha de encontrar uma coisa da natureza que as outras não tivessem notado, sem arrancar nada, sem estragar nada. Só olhar, cheirar, ouvir, desenhar.

Foram até perto da cerca do campismo, onde havia um caminho de terra batida. O calor subia do chão. O ar cheirava a pinho e poeira.

Inês encontrou primeiro.

— Aqui, no chão. Vejam estas pegadas. — Apontou para marcas pequenas, com dedos finos. — Talvez de um gato?

Lara agachou-se devagar. Não tocou, só aproximou o rosto.

— Pode ser. Ou de um cão pequeno. — Depois levantou-se e acrescentou: — O importante é que alguém passou por aqui de madrugada.

Joana encontrou a seguir: uma teia de aranha entre dois ramos, com gotas minúsculas presas como brilhantes.

— É uma rede de pescar mosquitos — disse ela. — A aranha é uma pescadora paciente.

Sofia não disse nada durante algum tempo. Andava com o caderno aberto e a caneta pronta, mas parecia procurar algo que não sabia nomear. Parou junto a uma pedra e ficou quieta.

— Sofia? — chamou Lara.

Sofia apontou para uma borboleta pousada numa flor amarela. As asas abriam e fechavam devagar, como se respirassem.

— Ela não foge — sussurrou Sofia. — Se eu ficar quieta, ela fica.

Todas ficaram quietas também. O tempo ficou diferente, mais largo. A borboleta mexeu as antenas e, por um momento, parecia que confiava nelas.

Joana cochichou:

— Isto é mais difícil do que parece. Não rir, não mexer, não espantar…

Inês, que normalmente queria resultados imediatos, manteve-se imóvel. Os olhos dela brilhavam, concentrados.

A borboleta voou por fim, leve, e desapareceu na luz.

Sofia respirou fundo.

— Acho que aprendi uma coisa — disse ela. — Às vezes, para ver, é preciso esperar.

Lara sentiu um calor bom no peito, diferente do calor do sol. Um calor de “sim, é isto”.

Quando voltaram ao mobil-home, houve um problema pequeno, mas chato: a fila para os duches estava enorme. As quatro estavam cheias de areia, com o cabelo a colar no pescoço.

— Eu vou morrer antes de chegar a minha vez — dramatizou Joana, encostando-se à parede.

Inês olhou para a fila como se fosse um inimigo.

— Isto não é justo.

Lara abanou a cabeça, sem zangar.

— É só… verão em campismo. Toda a gente teve a mesma ideia.

Sofia abriu o livro das estrelas, ali mesmo, sentada no banco de madeira.

— Podemos ler enquanto esperamos.

Joana arregalou os olhos.

— Ler na fila do duche? Isso é… muito adulto.

— Ou muito inteligente — corrigiu Lara.

Começaram a ler e, de repente, a fila deixou de ser um monstro. Era só uma fila. Um lugar onde o tempo podia ser usado com calma.

Capítulo 4

Nessa noite, o mobil-home ficou cheio de sons suaves: talheres a bater, uma porta ao longe, risos de outros campistas. A luz do candeeiro era amarela e fazia sombras redondas nas paredes.

Depois do jantar simples — massa com tomate e queijo — sentaram-se na varanda. O ar estava morno, com aquele cheirinho a terra que arrefece devagar. As cigarras já tinham feito uma pausa, como se também precisassem de descanso.

— Vamos fazer a nossa “hora da biblioteca”? — perguntou Lara.

Inês deitou-se na espreguiçadeira com o seu livro de mistérios.

— Se eu descobrir o culpado antes do capítulo cinco, fico ofendida.

Joana abriu o livro de piadas e limpou a garganta como se fosse apresentar um espetáculo.

— Atenção, público: “Por que é que o peixe não gosta de computadores?” — Esperou meio segundo e respondeu: — “Porque tem medo da rede!”

Sofia fez uma careta e depois riu, apesar de tentar resistir.

— Essa foi… terrível.

— Obrigada. — Joana bateu palmas para si mesma.

Lara não lia nesse momento. Tinha um caderno pequeno e desenhava o que via: a linha escura dos pinheiros, uma estrela que aparecia, o formato do telhado do mobil-home contra o céu.

— O que estás a fazer? — perguntou Inês, sem levantar os olhos do livro.

— Estou a guardar o verão — respondeu Lara. — Para quando voltar a escola e eu estiver presa em salas fechadas.

Sofia apontou para o céu, onde uma estrela piscava mais forte.

— No meu livro diz que algumas estrelas que vemos já nem existem. A luz demorou tanto a chegar que é como receber uma carta antiga.

Joana pôs a mão no coração.

— Uma carta do espaço. Eu chorava, mas não quero estragar o ambiente.

Inês fechou o livro por um instante.

— Então… o tempo pode ser lento e rápido ao mesmo tempo.

Lara gostou daquela ideia. O verão ensinava isso: os dias pareciam compridos, mas, quando se dava por isso, já era noite outra vez.

Na hora de dormir, Lara escutou os sons através da janela entreaberta. Um grilo insistente, o vento a roçar as folhas, passos distantes. Sentiu-se segura. Sentiu-se pequena de um jeito bom, como quando se entra numa biblioteca e há tantas histórias que o mundo fica mais largo.

Antes de fechar os olhos, pensou na borboleta e na fila do duche. Paciência não era ficar parado sem sentir nada. Era escolher ficar, mesmo com vontade de correr.

Capítulo 5

No terceiro dia, decidiram ir até ao pequeno lago perto do campismo. Levaram garrafas de água, chapéus e bolachas. A manhã era clara e o chão ainda estava fresco da rega dos jardins.

No caminho, Joana viu uma placa: “Não alimentar os patos”.

— Coitados, passam fome? — perguntou, em tom teatral.

— Não passam — disse Lara. — Se alimentarmos, eles ficam dependentes e a água suja. É melhor observar.

Inês fez um “hm” de concordância, mas os olhos dela seguiram um pato que se aproximava da margem.

Sofia tirou o caderno.

— Vou anotar: “Ajudar nem sempre é dar coisas”. — Olhou para Lara. — Isso faz sentido, não faz?

— Faz — respondeu Lara. — Às vezes, ajudar é não atrapalhar.

Sentaram-se na sombra. A água tinha reflexos verdes e azuis. De vez em quando, uma rã mergulhava com um “ploc” rápido.

Inês tentou tirar uma fotografia, mas a imagem saía tremida.

— Eles não param — resmungou.

— Tu é que não paras — provocou Joana.

Inês ia responder, mas parou. Inspirou fundo. E fez algo raro: pousou o telemóvel no banco.

— Ok. Vou tentar como a Sofia fez com a borboleta.

Ficou quieta. Os ombros baixaram. O rosto dela, que muitas vezes parecia sempre a calcular, ficou mais leve. Um pato aproximou-se e começou a alisar as penas com o bico, com um cuidado paciente, como se estivesse a arrumar a própria vida.

Sofia escreveu:

“A paciência tem cara de pato.” — Depois riu baixinho. — Desculpem. Foi a minha frase mais estranha de sempre.

Lara olhou para as amigas e sentiu uma alegria tranquila. Não era uma alegria barulhenta de parque aquático. Era uma alegria de perceber que estavam a crescer, mesmo ali, sentadas, a fazer quase nada.

Na volta, passaram pela biblioteca para trocar livros. A bibliotecária reconheceu-as.

— Gostaram da companhia? — perguntou.

— Muito — disse Inês. — E descobri que ler na fila do duche funciona.

A senhora sorriu, como se guardasse aquela ideia num bolso.

Sofia devolveu o livro das estrelas e pegou no diário de viagem.

— Vou escrever o nosso também — disse.

Lara escolheu um livro sobre plantas do Mediterrâneo, com desenhos claros e nomes curiosos. Não para decorar, mas para observar com mais atenção.

Joana pegou outro livro de piadas.

— Nunca se sabe quando a humanidade vai precisar disto — afirmou.

Capítulo 6

Na última noite, o campismo parecia mais silencioso. Talvez fosse só a sensação de despedida, que faz tudo ficar mais nítido: o cheiro do jantar dos vizinhos, a luz das lanternas, o som distante de uma bola a bater num muro.

As quatro sentaram-se na varanda do mobil-home, enroladas em toalhas finas porque a noite tinha arrefecido um pouco. No céu, havia mais estrelas do que na cidade. Pareciam migalhas brilhantes espalhadas com cuidado.

Sofia abriu o diário de viagem e leu o que tinha escrito nos últimos dias: a teia com gotas, o pato paciente, a fila do duche transformada em sala de leitura, a borboleta que não fugiu.

— Escreveste mesmo tudo — disse Joana, admirada.

— Queria lembrar-me de como me senti — respondeu Sofia. — Não só do que aconteceu.

Inês mexeu num fio solto da toalha.

— Eu achei que ia ficar aborrecida num campismo. Tipo… sem grandes coisas. Mas afinal há muitas coisas pequenas.

Lara encostou as costas à cadeira e olhou para o escuro entre os pinheiros. Ainda conseguia ouvir um grilo, teimoso, como se não quisesse que o verão acabasse.

— As coisas pequenas são as que a gente leva para dentro — disse Lara. — As grandes a gente conta. As pequenas… a gente guarda.

Joana levantou o livro de piadas como se fosse um brinde.

— Um brinde às pequenas coisas e aos duches com fila!

Riram, baixinho, para não acordar ninguém.

Mais tarde, quando já estavam deitadas, Lara ouviu o movimento das amigas no quarto ao lado: um colchão a ranger, um suspiro, um “boa noite” murmuradinho.

Lara levantou-se devagar e abriu a janela só um pouco mais. O ar entrou fresco, com cheiro a pinho e alecrim. Ela pensou no primeiro dia, na pressa de fazer tudo. Agora, sentia-se diferente. Como se tivesse aprendido a caminhar ao ritmo do verão.

Do lado de fora, perto da varanda, ouviu um som muito leve. Um “cri-cri” pequenino, quase um segredo. Lara sorriu no escuro.

— Boa noite — sussurrou ela, para o grilo.

E, como resposta, veio outro chichinho minúsculo, insistente, que a fez sorrir ainda mais, como se o verão lhe tivesse contado a última piada ao ouvido.

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Mobil-home
Um tipo de casa pequena e móvel, como uma casa sobre rodas usada em férias.
Cigarras
Insetos que fazem um som alto e contínuo nas árvores durante dias quentes.
Alecrim
Uma planta aromática com folhas finas que cheira bem e é usada em comida.
Bibliotecária
A pessoa que cuida dos livros numa biblioteca e ajuda quem procura leituras.
Prateleiras
Superfícies horizontais onde se colocam livros ou objetos em ordem.
Carimbo
Objeto com desenho ou data usado para marcar papel com tinta.
Teia de aranha
Rede fina que a aranha faz entre ramos para apanhar insetos.
Antenas
Partes finas na cabeça de insetos que servem para sentir o mundo.
Espreguiçadeira
Cadeira longa para deitar e relaxar ao sol ou na sombra.
Reflexos
Imagens que se veem na água ou noutra superfície brilhante.
Dependentes
Que precisam de outra coisa para viver ou funcionar corretamente.
Paciência
Qualidade de esperar sem ficar zangado, mesmo quando demora.

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