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História sobre as férias de verão 11 a 12 anos Leitura 18 min.

O cais dos comboios e o caderno do Tomás

Tomás, um rapaz tímido, descobre durante as férias, com a avó e novos amigos, que desenhar e observar os comboios o ajuda a abrir-se ao mundo e a criar pequenos planos cheios de significado.

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Um menino de 12 anos de rosto redondo e cabelos castanhos despenteados sorri timidamente enquanto observa um trem chegando, segurando um pequeno caderno de desenhos; ao lado no banco está a avó de cerca de 70 anos, cabelos grisalhos em coque e chapéu de palha, tocando-lhe o ombro com carinho; à frente, Inês, cerca de 12 anos, rabo de cavalo castanho e camiseta amarela, aponta para o trem convidando-o, e Rui, 9–10 anos, cabelos curtos negros e expressão entusiasmada, agacha-se com uma bola pronta para correr; a cena passa num cais de estação ao pôr do sol, com plataforma longa, faixa amarela no chão, bancos de madeira, trilhos brilhantes, folhas levantadas pelo vento, malas e passageiros desfocados ao fundo, atmosfera serena e descoberta, em cores quentes e estilo tipo comics americano com linhas grossas e texturas granuladas. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O primeiro dia de férias

O Tomás tinha doze anos e um jeito calmo de ocupar pouco espaço. Quando a escola fechou para o verão, ele não saiu a correr pela rua como alguns colegas. Ficou à janela, a ver o sol bater nos telhados, como se o calor tivesse um som próprio, baixo e contínuo.

Na cozinha, a avó Lurdes abanava-se com um jornal.

— Hoje o calor está a fazer caretas — disse ela. — E tu, Tomás? Que planos tens para estas férias?

Tomás encolheu os ombros. Era a pergunta que ele sempre temia, porque os planos, na cabeça dele, eram grandes, mas na boca ficavam pequenos.

— Não sei… — murmurou.

A avó pousou o jornal e olhou para ele como quem abre uma porta devagar.

— Então vamos descobrir. Há uma coisa que ajuda: desenhar.

Tomás foi buscar o caderno de folhas lisas e o estojo. O cheiro a madeira dos lápis misturou-se com o cheiro a melão que a avó cortava. Sentou-se à mesa e desenhou uma página em branco, como se fosse um mapa ainda sem caminhos.

— Desenha o que gostavas de fazer — insistiu a avó, com um sorriso simples.

Tomás desenhou uma bola de gelado gigante, depois um mar com ondas pequenas, e, sem saber bem porquê, uma linha comprida com dois traços paralelos: carris. Em cima, um comboio com janelas retangulares. Ao lado, um banco de estação.

Quando a avó se aproximou, ele tentou tapar o desenho com a mão.

— Está feio.

— Está vivo — corrigiu ela. — E eu reconheço isso. Um comboio… gostavas de ir à estação?

Tomás levantou os olhos, surpreendido.

— Só… ver passar. Não precisa de ser para ir embora.

A avó assentiu como se fosse a coisa mais importante do mundo.

— Ver passar também é uma viagem. Amanhã, depois do almoço, vamos ao cais. E hoje, para treinar as férias, vamos caminhar até ao parque e comer uma fatia de melancia.

Tomás sentiu uma coisa leve no peito. Uma mistura de nervos e curiosidade. Talvez as férias pudessem caber nele, mesmo que ele fosse reservado.

Capítulo 2 — O caderno ganha cor

Na manhã seguinte, o calor chegou cedo. O ar parecia mais espesso, como sopa. Tomás levou o caderno para a varanda. Os pardais saltavam no muro, discutindo migalhas.

Ele abriu numa nova página e escreveu, no canto, “Ideias”. A palavra ficou torta, mas ele gostou dela.

Desenhou um guarda-sol às riscas, uma bicicleta com cestinho, uma banca de limonada. E depois desenhou-se a si próprio, pequeno, sentado num banco, a observar pessoas a passar. A figura tinha um sorriso discreto.

A mãe passou com um cesto de roupa.

— Estás a desenhar o quê, artista?

Tomás corou, como se lhe tivessem apanhado um segredo.

— Só… coisas.

Ela inclinou-se.

— Coisas boas. Gosto desse guarda-sol. E desse comboio de ontem. Sabes, eu também era tímida na tua idade. Achava que tinha de ser como os outros. Mas aprendi que dá para ser como nós.

Tomás não respondeu logo. Ficou a olhar para o lápis azul entre os dedos.

— E se eu não souber conversar com as pessoas?

— Aprende-se aos bocadinhos — disse a mãe. — Começa com uma frase curta. “Olá.” “Posso sentar-me aqui?” “Que horas são?” O resto vem.

Mais tarde, no parque, Tomás e a avó sentaram-se à sombra. O chão estava cheio de manchas de luz, como se as folhas fossem um filtro.

Uma rapariga da idade dele jogava à bola com um rapaz mais novo. A bola fugiu e rolou até aos pés do Tomás.

Ele ficou imóvel por um segundo, a pensar em todas as maneiras de devolver a bola sem dizer nada. Mas a mãe tinha falado em frases curtas.

Tomás levantou a bola e disse:

— Toma.

A rapariga aproximou-se, ofegante.

— Obrigada! Chamo-me Inês. — Apontou para o rapaz. — E este é o meu irmão, o Rui. A bola tem vontade própria.

Tomás quase sorriu.

— Eu sou o Tomás.

— Queres jogar? — perguntou o Rui, com os olhos a brilhar.

Tomás sentiu o velho instinto de recuar. Mas a avó, ao lado, não o empurrou. Só lhe tocou no ombro, como quem diz “decide tu”.

— Posso… tentar — disse Tomás.

Jogaram uns minutos. Tomás não era um craque, mas apanhou a bola duas vezes e até fez um passe decente. Quando o jogo acabou, porque o sol estava a subir demasiado, Inês abanou a mão.

— Talvez amanhã estejamos aqui.

Tomás fez um gesto tímido, mas firme. Quando voltou para casa, abriu o caderno e desenhou uma bola e três pessoas debaixo de uma árvore. A sombra, dessa vez, ficou muito bem.

Capítulo 3 — O cais e o vento quente

Depois do almoço, a avó Lurdes arrumou a mesa e disse:

— Está na hora do teu comboio que não sai.

Tomás levou o caderno na mochila. Caminharam pelas ruas quentes. As paredes das casas pareciam guardar o sol. À medida que se aproximavam da estação, o som mudava: mais passos apressados, mais ecos, mais anúncios ao longe.

O cais tinha um cheiro particular. Ferro quente, poeira, e uma brisa que vinha de algum lugar entre as linhas. Tomás gostou logo daquele espaço comprido, com pessoas a chegar e a partir, mas também com cantos onde se podia ficar quieto.

Sentaram-se num banco. Ao lado, um senhor com bigode lia um jornal dobrado com cuidado. Mais à frente, duas crianças lambiam gelados que começavam a derreter.

Tomás tirou o caderno e começou a desenhar o cais: a linha amarela no chão, a placa com o número da plataforma, o banco de madeira. Desenhar ajudava-o a respirar melhor. Era como falar sem palavras.

— Estás a fazer a estação toda — comentou a avó.

— É para… não me esquecer — disse Tomás.

O senhor do bigode inclinou-se ligeiramente, curioso.

— Bonito traço. — A voz dele era grave, mas simpática. — Os comboios mudam, mas as estações guardam histórias.

Tomás engoliu em seco. Uma pessoa desconhecida a falar com ele. A resposta ficou presa, mas ele tentou a tal frase curta.

— Gosta de comboios?

O senhor sorriu, como se aquela pergunta abrisse uma gaveta antiga.

— Gosto. Trabalhei anos na manutenção. Este cais é como um rio, só que de metal. Vês? Cada comboio é uma corrente diferente.

Tomás olhou as linhas e imaginou água a correr. Achou graça.

— E… como sabe quando um comboio vem?

O senhor apontou para um sinal ao fundo e para a vibração quase invisível do chão.

— Primeiro, a terra avisa. Depois, o ar muda. Repara.

Tomás ficou muito quieto. De repente, sentiu mesmo: um tremor leve no banco, como um coração a aproximar-se. O som apareceu, distante, e foi crescendo. Um comboio entrou na estação com um sopro de vento quente. As portas abriram, pessoas saíram, outras entraram. Um homem carregava uma mochila enorme, uma senhora puxava uma mala que fazia “clac-clac” no chão.

Tomás desenhou depressa, tentando apanhar o movimento. Depois, sem pensar muito, levantou a mão num aceno para o comboio, como se ele fosse uma pessoa.

A avó riu baixinho.

— Estás a despedir-te?

— Não — disse Tomás. — Estou só a dizer… boa viagem.

Quando o comboio arrancou, o vento trouxe um cheiro a travões e a verão. Tomás sentiu-se estranhamente contente, como se tivesse viajado sem sair do lugar.

Capítulo 4 — Um pequeno desafio, uma grande tarde

No dia seguinte, Inês e Rui estavam no parque, como tinham prometido. A bola, dessa vez, ficou mais obediente. Tomás já sabia o nome deles, já conhecia o jeito do Rui de chutar com força demais e o jeito da Inês de gozar com ele sem maldade.

— Então, Tomás, és da equipa dos que chutam ou dos que fazem desenhos? — perguntou Inês, com um sorriso.

Tomás sentiu o rosto aquecer.

— As duas coisas, acho eu.

— Mostra lá — pediu Rui. — Desenhas o quê?

Tomás hesitou. O caderno era o lugar onde ele guardava vontades. Mostrar era quase como abrir a janela do quarto para a rua. Mas lembrava-se do comboio e do senhor do bigode, que olhara para o desenho sem rir.

— Posso mostrar uma página — disse ele, cauteloso.

Sentaram-se no banco. Tomás abriu no desenho do cais. Inês inclinou-se, atenta.

— Uau… parece mesmo a estação! Até a linha amarela está igual. — Ela apontou para o canto. — E quem é este senhor?

— Um homem que conheci lá. Disse que o cais é um rio de metal.

Rui franziu a testa.

— Rio de metal? Isso é esquisito.

— Esquisito bom — corrigiu Inês. — Dá para imaginar.

Tomás sentiu-se visto, sem ser empurrado. Isso era novo.

— Podemos ir à estação um dia destes? — perguntou Rui, com a impaciência alegre típica dele. — Quero ver os comboios de perto.

Tomás olhou para Inês, depois para a avó, que estava a ler num banco próximo. O coração dele bateu mais rápido. Levar pessoas ao seu lugar favorito parecia uma responsabilidade.

— Podemos ir amanhã — disse Tomás, surpreendendo-se com a própria coragem. — Eu e a minha avó vamos às vezes.

Inês sorriu.

— Combinado. E levo uma garrafa de água bem fria. O calor não perdoa.

No caminho de volta, Tomás sentiu-se alto, mesmo sem crescer um centímetro. Em casa, desenhou mais uma página: três crianças e uma avó num cais, todos a olhar na mesma direção. E escreveu, por baixo, com letras cuidadosas: “Amanhã”.

Capítulo 5 — Comboios, conversas e um futuro que cabe no bolso

No dia marcado, encontraram-se à entrada da estação. O sol brilhava tanto que parecia insistente. A avó Lurdes trouxe um chapéu e ofereceu a Tomás.

— Hoje és o guia — disse ela.

Tomás engoliu em seco.

— Não sei guiar…

— Sabes mostrar o que gostas — respondeu a avó. — Isso chega.

Entraram. O senhor do bigode estava lá, como se fizesse parte do lugar. Quando viu Tomás com Inês e Rui, levantou o jornal.

— Olha o artista com companhia!

Tomás apresentou-os, com as palavras a saírem aos tropeções, mas a saírem.

— Esta é a Inês. Este é o Rui. Eles queriam ver os comboios.

— Muito bem — disse o senhor. — Ver é aprender.

Sentaram-se no banco. Rui não conseguia ficar quieto.

— Qual é o mais rápido?

— Depende — disse o senhor. — Mas o importante é que todos têm destino.

Tomás ficou a pensar nessa frase: “todos têm destino”. Ele imaginou as férias como um comboio: não precisava de correr para o apanhar; bastava estar atento às paragens pequenas.

Quando um comboio passou sem parar, o vento levantou os cabelos do Rui e fez a Inês apertar os olhos.

— Uau! — gritou Rui. — Pareceu um trovão comprido!

Tomás riu, um riso curto, mas verdadeiro.

— Um trovão com janelas.

Inês tirou do bolso uma caneta.

— Tomás, posso escrever uma coisa no teu caderno? Uma frase.

Tomás hesitou. Depois, ofereceu o caderno aberto numa página em branco.

— Pode.

Inês escreveu: “Planos também podem ser pequenos.”

E devolveu-lhe a caneta.

— Porque os teus desenhos são assim. Pequenos no papel, mas dá para entrar neles.

Tomás ficou com um nó na garganta, mas era um nó bom. Para disfarçar, começou a desenhar os três, sentados, com os pés a balançar. A avó, ao lado, bebia água devagar. O senhor do bigode apontava para o fundo da linha, como um maestro de silêncios.

— Sabes — disse a avó, baixinho, para o Tomás — quando eu era nova, tinha medo de apanhar comboios sozinha. Achava que me ia perder.

Tomás olhou para ela.

— E perdeste-te?

— Uma vez — confessou ela, divertida. — E encontrei uma pastelaria ótima. Às vezes, perder-se é só mudar de plano.

Tomás guardou aquela ideia como quem guarda uma pedrinha bonita no bolso.

No fim da tarde, antes de se despedirem, Rui perguntou:

— Amanhã há mais?

Tomás sentiu a resposta crescer dentro dele como uma planta.

— Amanhã posso desenhar mais coisas que quero fazer. E depois… fazemos uma.

Inês levantou o polegar.

— Fechado.

Quando Tomás chegou a casa, o calor já estava mais manso. Ele sentou-se na cama, abriu o caderno e desenhou uma lista em imagens: uma ida à biblioteca, um mergulho na piscina municipal, um piquenique com melancia, uma visita ao mercado, e um passeio de bicicleta ao entardecer.

Ao lado, escreveu, com calma: “Tenho tempo.”

Capítulo 6 — A canção do fim de tarde

As férias continuaram com dias simples. Houve uma ida à biblioteca, onde Tomás escolheu um livro de viagens e percebeu que viajar também pode ser ler devagar. Houve uma tarde na piscina municipal, em que ele aprendeu a mergulhar sem tapar o nariz, porque Rui garantiu que “a água não entra se tu mandares nela”. Entrou um pouco, e todos riram, mas Tomás riu também.

Houve um piquenique no parque. A melancia estava tão fresca que parecia ter guardado a sombra por dentro. A avó trouxe sandes e sumo, e Inês levou uvas. Rui trouxe guardanapos, amassados no bolso, como se fossem um tesouro.

No último domingo antes de voltarem a pensar em cadernos da escola, Tomás pediu para irem mais uma vez ao cais. Queria desenhar aquele lugar com as férias quase completas.

Foram os quatro: Tomás, a avó, Inês e Rui. O senhor do bigode apareceu mais tarde e acenou de longe, como alguém que sabe respeitar o silêncio.

Sentaram-se no banco. O céu tinha uma cor de fim de dia, meio laranja, meio dourada. O ar cheirava a poeira quente e a alguma coisa doce, talvez das árvores do outro lado da linha.

Tomás desenhou sem pressa. Desenhou o chão com a linha amarela, o banco, a placa, as sombras compridas. Desenhou um comboio a aproximar-se, mas desta vez desenhou também o que não se vê: a sensação de esperar sem medo.

Inês observou o papel.

— Estás diferente desde o primeiro dia no parque.

Tomás pensou um pouco.

— Acho que… continuo reservado. Só que agora não parece uma prisão. Parece… um jeito de estar.

A avó apertou-lhe a mão.

— É isso, meu querido. E tens gente à tua volta.

Rui deitou-se no banco, com os braços atrás da cabeça.

— Quando voltarem as aulas, eu vou dizer que vi um rio de metal.

Tomás sorriu.

— E eu vou desenhar as aulas também. Para não parecerem tão grandes.

— E os planos para o próximo verão? — provocou Inês.

Tomás fechou o caderno com cuidado.

— Posso desenhar depois. Agora… quero só olhar.

Ficaram os quatro em silêncio, a ver um comboio passar devagar e parar. Pessoas desceram com pressa, outras com calma. Uma criança pequena segurava um balão. Um senhor acenou para alguém no cais. A vida, ali, era feita de encontros curtos e promessas pequenas.

Quando o comboio partiu, deixou um vento morno que fez a avó puxar o chapéu para a testa.

— Lembrei-me de uma cantiga antiga — disse ela, num tom leve. — A minha mãe cantarolava quando o dia acabava.

Tomás aproximou-se.

— Canta.

A avó não cantou alto. Só começou a trautear, como quem embala o ar. Era uma melodia simples, com notas que subiam e desciam devagar, como ondas pequenas.

Tomás acompanhou com um “hum-hum”, tímido ao início. Depois, Inês entrou na melodia, e Rui também, desafinado mas feliz. Os quatro ficaram ali, a cantarolar para ninguém em especial, só para o verão.

E Tomás, enquanto o sol baixava, sentiu uma confiança tranquila: o futuro vinha como os comboios. Às vezes rápido, às vezes lento. Mas vinha. E ele sabia esperar, desenhar, e seguir viagem.

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Comboio
Veículo que anda sobre carris e transporta pessoas ou coisas.
Cais
Lugar junto às linhas onde as pessoas esperam e entram no comboio.
Plataforma
Parte elevada na estação onde as pessoas ficam para entrar no comboio.
Manutenção
Trabalho para cuidar e reparar máquinas ou equipamentos.
Vibração
Pequeno movimento que se sente ou se vê quando algo se aproxima.
Travões
Peças que fazem o veículo abrandar ou parar.
Ofegante
Que respira rápido e com dificuldade, por esforço ou cansaço.
Migalhas
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