Carregando...
História sobre as férias de verão 11 a 12 anos Leitura 23 min.

O mar de girassóis e a lição da paciência

Tomás e os amigos exploram o bairro nas férias e aprendem, entre pêssegos, gelados e um campo de girassóis, que coragem também é saber esperar, seguir regras e cuidar dos outros.

Baixar esta história em PDF

Ideal para compartilhar ou imprimir esta história!

Baixar o e-book (.epub)

Leia esta história no seu leitor de e-books.

Há 5 personagens: Tomás, 11 anos, cabelo castanho curto, camiseta amarela e calções azuis, ao centro tocando suavemente um girassol com olhar maravilhado; Rui, 11 anos, cabelo preto liso, camisa aos quadrados e caderno na mão esquerda, à direita de Tomás, um pouco recuado, anotando com expressão concentrada; Léo, 11 anos, cabelo loiro desalinhado, camiseta verde e ténis vermelhos, à esquerda de Tomás, mãos na cintura, sorriso surpreso e postura entusiasmada; Tio Paulo, homem cerca de 35 anos, barba rala, boné e jaqueta kaki, segura uma garrafa de água e está ligeiramente atrás das crianças com atitude protetora; um cão perdido de porte médio, pelo castanho-avermelhado e coleira gasta, língua de fora e postura hesitante, junto ao caminho de terra voltado para as crianças. Local: grande campo de girassóis no verão, fileiras altas de flores amarelas com centros castanhos, caminho de terra na borda, céu azul claro, brisa leve que dobra as hastes, sombras longas, alguns pinheiros e uma velha cerca de madeira ao longe. Situação: os três rapazes descobrem o vasto campo e avistam o cão perdido à beira do caminho; estão calmos e atentos, o adulto mantém postura tranquilizadora atrás; ambiente suave e luminoso, cores quentes e contrastes claros, expressões de admiração e cuidado. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O primeiro dia sem campainha

O Tomás acordou antes do despertador. O quarto ainda cheirava a noite, mas pela janela já entrava uma luz clara, quente, quase dourada. Lá fora, uma andorinha riscou o céu e ele sentiu uma coisa boa no peito: férias.

Na cozinha, a mãe mexia o café e o som da colher na chávena parecia mais lento do que nos dias de escola.

— Hoje não tens pressa — disse ela, a sorrir. — Mas tens regras na mesma.

O Tomás fez um “ahhh” dramático, encostando a testa à mesa.

— Regras no verão deviam derreter.

— Algumas derretem — respondeu a mãe. — Outras ficam. Tipo: água, chapéu, e avisar sempre antes de ires para longe.

O pai entrou a apertar o nó das sapatilhas.

— E paciência, campeão. O verão não é uma corrida. É mais… uma caminhada.

O Tomás engoliu uma fatia de pão com manteiga e pensou na palavra “paciência”. Parecia uma coisa para adultos. Para ele, o verão era uma porta aberta e ele queria atravessar a correr.

Às dez, o Rui e o Léo apareceram no portão do prédio. Os três tinham a mesma idade, a mesma energia, e mochilas leves, como se estivessem a ir numa expedição. Na verdade, iam só descobrir o bairro com olhos de férias.

— Hoje fazemos o “mapa secreto” — anunciou o Rui, que adorava planos.

— E sem a tua irmã a mandar em nós — acrescentou o Léo, com um suspiro teatral.

O Tomás riu.

— Ela manda porque sabe onde estão as coisas.

— Pior! — o Léo levantou as mãos. — Saber coisas devia ser proibido em irmãos mais velhos.

Saíram pela rua. O asfalto brilhava. O ar cheirava a protetor solar e a pão quente da padaria da esquina. No inverno, aquele caminho era só “o caminho para a escola”. No verão, parecia outro lugar.

A fonte da praça fazia um som constante, e os pombos caminhavam como donos do mundo. A senhora Celeste regava plantas num balde azul e levantou a cabeça.

— Bom dia, rapazes. Não vão derreter?

— Ainda não, dona Celeste! — respondeu o Tomás.

— Então levem isto — ela estendeu três pêssegos. — Para dar força.

O Léo cheirou o dele, como se fosse um perfume raro.

— Cheira a férias.

O Rui já tirava um caderno do bolso.

— Primeiro ponto do mapa: “Praça dos Pêssegos”.

O Tomás olhou à volta. Nunca tinha reparado que a sombra da figueira na praça parecia uma ilha. Nunca tinha notado que o som da fonte abafava os carros. E, por um instante, ele sentiu que o bairro podia ser gigante, se ele tivesse tempo para ver.

Capítulo 2 — O plano rápido e o passo lento

Depois da praça, seguiram pelo quarteirão onde ficava a mercearia do senhor Álvaro. A porta tinha um sino que tilintava sempre, e o interior cheirava a fruta, detergente e papelão.

— Três gelados — disse o Léo, sem respirar.

O senhor Álvaro levantou uma sobrancelha.

— Gelados antes do almoço? Isso é conversa de férias. Mas a fila é real, como no resto do ano.

Havia duas pessoas à frente. O Léo começou a bater o pé.

— Isto vai demorar uma eternidade.

O Rui apontou para o relógio de parede, que fazia tic-tac como se estivesse a ensinar algo.

— Eternidade é muito mais do que dois minutos.

O Tomás mordeu o pêssego e sentiu o sumo escorrer pelo queixo. Limpou com o braço, meio envergonhado.

— O meu pai disse que o verão é uma caminhada.

— O teu pai é poeta? — perguntou o Léo.

— Não, é só… pai.

A fila andou devagar. O Léo bufou mais uma vez, depois parou. Olhou para o chão, onde havia um quadradinho de luz a entrar pela montra, como um tapete.

— Se calhar eu fico nervoso porque quero aproveitar tudo.

O Rui fechou o caderno um segundo.

— Aproveitar não é engolir. É… saborear.

O Tomás gostou daquela palavra. Saborear. Era o que ele fazia com o pêssego.

Quando finalmente receberam os gelados, sentaram-se num banco de pedra. O gelado de limão do Tomás era ácido e frio, e ele sentiu um choque bom nos dentes.

— Próximo ponto do mapa — disse o Rui, mais calmo. — A rua dos gatos.

A “rua dos gatos” era uma travessa estreita onde, no inverno, o Tomás só via muros e portas fechadas. No verão, as janelas estavam abertas, e saíam cheiros: arroz a refogar, roupa acabada de lavar, um perfume de sabonete.

Um gato laranja dormia em cima de um carro, a barriga a subir e descer devagar.

— Ele está a praticar paciência — sussurrou o Léo, como se o gato pudesse acordar e dar uma lição.

No fim da travessa, havia uma placa amarela: “Cuidado: obras”. Atrás dela, uma rua nova estava a ser preparada. No chão, montinhos de areia e tubos.

O Rui apontou.

— Se formos por aqui, chegamos mais depressa ao campo.

— Que campo? — perguntou o Tomás.

— O meu tio disse que há um campo de girassóis do outro lado da estrada velha. Disse que parece um mar.

O Tomás imaginou um mar amarelo, ondas paradas. O coração fez-lhe cócegas.

— Vamos já!

O Léo deu um passo grande.

— Agora sim, aventura!

Mas, ao lado da placa das obras, havia outra coisa: um cartaz com letras vermelhas: “Proibida a passagem”.

O Rui travou.

— Proibido é proibido.

— É só um bocadinho — insistiu o Léo. — Nós somos pequenos, passamos por baixo.

O Tomás ficou no meio. Sentiu o desejo de ir rápido, de chegar ao “mar” de girassóis. E sentiu também a voz da mãe: “avisar sempre antes de ires para longe”.

Ele olhou para o céu, tão azul que parecia pintado. O sol não tinha pressa, pensou. Mas eu tenho.

— Podemos ir pelo caminho normal — disse o Tomás, devagar. — Demora mais, mas… é seguro.

O Léo fez uma cara de tragédia.

— O Tomás ficou adulto.

O Rui sorriu.

— Ele ficou esperto. Vamos pelo caminho normal e, no mapa, escrevemos: “Atalho proibido — não entrar”.

O Tomás respirou, aliviado. A aventura continuava. Só ia ter mais passos.

Capítulo 3 — O bairro com cheiro a menta

Foram pela avenida principal. O calor ondulava no ar por cima do chão. Passaram pela papelaria, pela banca de jornais e pelo café onde o dono varria a esplanada.

— Bom dia, campeões! — gritou o dono. — Hoje há bolo de chocolate.

O Léo virou a cabeça como um cão a ouvir um apito.

— O universo está a tentar alimentar-me.

— O universo também quer que voltes a casa a horas — disse o Rui, apontando para o telemóvel. — Já está quase meio-dia.

O Tomás lembrou-se do combinado: almoço em casa, depois saída outra vez. Não era uma prisão. Era uma âncora. E âncoras, no fundo, servem para não nos perdermos.

Pararam na pequena horta comunitária ao lado do parque. No inverno, aquilo era um lugar de passagem. Agora, havia tomates vermelhos, folhas de alface e um cheiro fresco de terra molhada.

A senhora Inês, que cuidava de um canteiro, acenou-lhes com a luva suja.

— Querem provar?

Ela arrancou uma folha de hortelã e estendeu ao Tomás. Ele esfregou-a nos dedos e cheirou. Era como respirar água fria.

— Uau.

— A hortelã ensina uma coisa importante — disse a senhora Inês. — Cresce devagar, mas quando chega, perfuma tudo.

O Rui, que gostava de frases para o caderno, escreveu logo.

“Perfuma tudo.” Boa.

O Léo mastigou um pedaço de hortelã e fez uma careta.

— Isto parece pasta de dentes sem escova.

Riram os três.

O Tomás sentiu o verão em camadas: o calor no braço, a sombra do plátano no rosto, o gosto do limão na boca, e aquele cheiro de menta a ficar no nariz.

No caminho para casa, passaram pelo prédio do Tomás. A mãe estava na janela, a estender lençóis que balançavam como velas.

— Tomás! Almoço em dez minutos!

O Tomás levantou o braço.

— Já vou!

O Léo cochichou:

— A tua mãe tem radar.

— Não é radar — disse o Tomás. — É… cuidado.

O Rui assentiu.

— E nós vamos avisar sobre os girassóis, certo?

O Tomás engoliu em seco. Ia ter de pedir autorização para ir mais longe. A palavra “paciência” voltou, sentada ao lado dele como uma mochila.

— Sim — respondeu. — Depois do almoço.

Subiu a correr as escadas. Em casa, a mesa já estava posta. Havia salada fresca e frango assado. O pai colocou uma jarra de água com rodelas de limão.

— Então, explorador — perguntou ele —, o que descobriram?

O Tomás contou da praça, dos pêssegos, da rua dos gatos e do atalho proibido. Quando mencionou o campo de girassóis, a mãe pousou o garfo.

— Do outro lado da estrada velha?

— Sim… mas nós íamos pelo caminho normal — apressou-se ele.

O pai olhou para a mãe e depois para o Tomás.

— Essa zona é tranquila, mas é fácil distrair-se. Se forem, vão com um adulto. Ou pelo menos avisem e levem telemóvel.

O Tomás sentiu uma pontada de frustração.

— Mas nós já temos onze…

A mãe respondeu com voz calma:

— Ter onze dá-te muitas capacidades. Mas não te dá o poder de prever tudo. A paciência também serve para isso: esperar pelo momento certo.

O Tomás olhou para o copo com limão. As rodelas boiavam devagar, sem pressa. Ele respirou fundo.

— Podemos ir com o tio do Rui? — sugeriu. — Ele conhece.

O Rui tinha dito que o tio trabalhava perto e às vezes passava lá. O pai do Tomás acenou.

— Se o tio puder, sim. E eu posso ir convosco ao fim da tarde.

O Tomás sentiu a frustração a amolecer, como gelado ao sol. Não era um “não”. Era um “ainda não”.

— Está bem — disse ele. — Então… esperamos.

E, por mais estranho que fosse, esperar já parecia parte da aventura.

Capítulo 4 — A tarde que quase não passava

Depois do almoço, o tempo ficou lento, como se alguém tivesse baixado a velocidade do mundo. O Rui mandou mensagem ao tio. O Léo insistiu em jogar futebol no pátio para “o relógio andar mais depressa”.

— O relógio não tem pernas — disse o Rui, sentado à sombra com o caderno.

— Então eu dou-lhe um empurrão! — respondeu o Léo, chutando a bola.

O Tomás jogou com eles, mas a cabeça estava a saltar para os girassóis. A cada remate, imaginava o campo. A cada defesa, via um mar amarelo.

Quando o sol desceu um pouco, o telemóvel do Rui apitou.

— Ele pode! — gritou o Rui. — Às cinco, no parque.

O Léo fez uma dança esquisita com a bola nos pés.

— Vitória!

O Tomás sentiu uma alegria quente, mas também um orgulho calmo. Eles tinham esperado. E o mundo não tinha acabado. Pelo contrário: a alegria agora parecia maior, como se tivesse crescido durante a espera.

Às cinco, encontraram-se no parque. O tio do Rui, o senhor Paulo, tinha um boné e uma garrafa de água grande. Cumprimentou-os com um aperto de mão a cada um, como se fossem mesmo uma equipa.

— Prontos para o mar de girassóis? — perguntou ele.

— Prontíssimos! — disseram os três ao mesmo tempo.

— Então vamos com regras de expedição — continuou o tio. — Andar juntos, atravessar só onde eu disser, e nada de entrar em terrenos sem autorização.

O Léo abriu a boca para protestar, mas o Rui deu-lhe um cotovelo discreto.

— Paciência — murmurou o Rui.

O Léo fechou a boca e fez um gesto de fecho com uma chave imaginária.

Caminharam pela estrada velha. O ar ali cheirava a poeira quente e pinheiros. O som da cidade foi ficando para trás, substituído pelo zumbido de insetos e pelo canto fino de um pássaro escondido.

O Tomás sentia-se pequeno e, ao mesmo tempo, importante. Como se estar ali fosse um privilégio.

— Está quase — disse o tio Paulo, apontando para uma curva.

O Tomás acelerou o passo, mas obrigou-se a não correr. “Caminhada”, lembrou. E, por dentro, repetiu: “devagar também é chegar”.

Capítulo 5 — O campo de girassóis

Quando passaram a curva, o Tomás parou. Não por ordem de ninguém, mas porque o corpo dele decidiu sozinho.

À frente, o campo de girassóis parecia mesmo um mar. Não mexia como ondas, mas tremia um pouco com a brisa. As flores eram grandes, com pétalas amarelas vivas, e todas viradas para o mesmo lado, como se estivessem a ouvir uma história.

— Uau — disse o Léo, baixinho, sem piadas.

O Rui tirou o caderno, mas ficou com a caneta no ar, sem saber por onde começar.

O tio Paulo sorriu.

— Bonito, não é? Mas lembram-se: vamos ficar na margem. O dono não gosta que pisem as linhas.

Havia um caminho de terra ao lado do campo. Seguiram por ali. O sol batia nos girassóis e fazia sombras redondas no chão.

O Tomás aproximou-se de uma flor e viu o centro cheio de sementes, como um padrão perfeito. Um inseto pequeno pousou e desapareceu lá dentro.

— Parece uma galáxia — disse ele.

— Uma galáxia que dá pipocas de sementes — respondeu o Léo, recuperando o humor.

Riram. O riso deles parecia leve, como se não pesasse no ar.

A certa altura, o vento aumentou e fez um “shhh” nas folhas. O Tomás sentiu um arrepio. Não era medo. Era respeito. A natureza ali parecia maior do que o bairro.

O Rui apontou para um espantalho ao longe, com uma camisa velha a abanar.

— Olhem, ele está a acenar-nos.

— Ou a mandar-nos embora — disse o Léo.

O Tomás ficou a olhar. E, nesse momento, ouviu um som diferente: um latido curto, apressado.

Do outro lado do caminho, apareceu um cão castanho, médio, com a língua de fora e uma coleira a arrastar no chão. Parecia perdido. Cheirava o ar, andava em círculos, e voltava a latir.

— Está assustado — disse o Tomás, dando um passo.

O tio Paulo levantou a mão.

— Calma. Não sabemos como ele reage.

O Tomás parou, mas o coração queria ajudar. O cão olhou para eles e recuou.

— Coitadinho — sussurrou o Rui.

O Léo, que muitas vezes fazia piadas quando não sabia o que sentir, falou mais baixo do que o normal:

— E se ele foge para a estrada?

O tio Paulo agachou-se, deixando o corpo menor.

— Vamos fazer isto com cabeça. Tomás, tens o telemóvel?

O Tomás tirou do bolso, as mãos um pouco suadas.

— Tenho.

— Liga para a tua mãe e diz onde estamos. Depois ligamos para a associação de animais da junta. Eu também vou ligar para um contacto daqui. E ninguém corre atrás dele. A paciência aqui é segurança.

O Tomás respirou fundo. Era difícil ficar parado quando via um animal nervoso. Mas ele percebeu: ajudar não era agir depressa. Era agir bem.

Ligou para a mãe.

— Mãe, estamos no caminho dos girassóis com o tio do Rui. Apareceu um cão perdido. Estamos bem, mas vamos ligar para ajuda.

Do outro lado, a voz da mãe saiu firme, mas doce.

— Fizeste bem em ligar. Mantém-te com o tio. Não se aproximem demasiado. Eu e o teu pai vamos já para aí.

O Tomás sentiu um alívio enorme. Como se alguém tivesse acendido uma luz.

Enquanto esperavam, o tio Paulo falou com calma, sem movimentos bruscos. Pegou numa garrafa de água e despejou um pouco num prato de plástico que trazia na mochila.

— Rui, põe isto no chão, devagar.

O Rui obedeceu. O cão cheirou, deu dois passos, recuou, depois voltou. Bebeu depressa e olhou em volta, ainda tenso.

— Vês? — disse o tio Paulo. — Devagar. Deixa o cão decidir.

O Tomás percebeu que a paciência era isto: dar tempo ao outro. Mesmo que o outro fosse um cão a tremer.

Ao longe, ouviu-se o som de um carro a abrandar na estrada. Era o pai do Tomás. A mãe saiu do carro primeiro e correu só o suficiente para chegar rápido, mas sem parecer uma tempestade.

— Estou aqui — disse ela, tocando no ombro do Tomás.

Ele sentiu-se de repente mais leve.

O pai avaliou a situação num instante e falou com o tio Paulo.

— Vou pôr o triângulo e ficar atento à estrada. Vocês fiquem no caminho.

A mãe ligou para um número e explicou onde estavam. Depois, ajoelhou-se ao lado do Tomás.

— Orgulho-me de ti por teres avisado. E por não teres ido atrás.

O Tomás engoliu em seco.

— Eu quis ir. Mas… lembrei-me das regras.

— As regras não são para tirar liberdade — disse ela. — São para proteger a tua liberdade.

O cão, mais calmo com tanta gente quieta, aproximou-se outra vez do prato. Um carro parou: era uma carrinha com o símbolo da associação local. Uma senhora de colete refletor saiu com uma trela e uma voz tranquila.

— Olá, campeão — disse ela ao cão, como se se conhecessem. — Vamos para casa.

Com paciência, aproximou-se, esperou o cão cheirar a mão, e prendeu a trela à coleira arrastada. O cão não resistiu. Parecia até aliviado por alguém decidir por ele.

O Tomás soltou o ar que nem sabia que estava a prender.

— Conseguimos — murmurou o Rui.

— Sem corridas — acrescentou o Léo, admirado consigo próprio.

O tio Paulo piscou-lhes o olho.

— A aventura de hoje foi mais do que ver flores.

O Tomás olhou para o campo. Os girassóis continuavam lá, brilhantes, como se a vida fosse simples e enorme ao mesmo tempo.

Capítulo 6 — A volta para casa com o coração no sítio

No caminho de regresso, o sol já estava mais baixo e o ar cheirava a fim de tarde. O Tomás caminhava entre o pai e a mãe. O Rui e o Léo iam à frente com o tio Paulo, ainda a comentar o cão.

— Eu achei que ia morder — confessou o Léo.

— E eu achei que tu ias fazer uma piada má — respondeu o Rui.

— Fiz por dentro — disse o Léo, sério. — Por fora, tentei ser… responsável.

O Rui riu.

O Tomás ouviu e sorriu também. Sentia-se cansado de um jeito bom, como depois de nadar.

Quando chegaram ao bairro, a praça estava mais vazia. A fonte continuava a cantar. A sombra da figueira tinha mudado de lugar, como se tivesse viajado durante o dia.

A dona Celeste ainda estava por lá, agora a arrumar o balde.

— Então, exploradores? — perguntou ela.

O Tomás respondeu com uma voz mais calma do que de manhã.

— Vimos um mar de girassóis. E ajudámos um cão, sem correr.

A dona Celeste fez um gesto de aprovação.

— Às vezes, o melhor é ir devagar, para não pisar o que é importante.

O Tomás pensou nisso enquanto subia para casa. No corredor do prédio, o ar era fresco e cheirava a sabonete. Lá dentro, a mãe abriu a janela e deixou entrar a brisa da noite.

O pai sentou-se no sofá e esticou as pernas.

— Hoje fizeste escolhas boas — disse ele. — Mesmo quando era mais difícil.

O Tomás encolheu os ombros, tentando fingir que não era nada demais, mas por dentro sentia um calor diferente, como uma fogueira pequena.

— Eu percebi que… vocês não dizem “não” só para chatear — confessou ele. — Vocês… estão a olhar por nós.

A mãe sentou-se ao lado dele.

— Sempre.

O Tomás ficou uns segundos em silêncio. Depois falou, com honestidade simples:

— Eu confio.

Lá fora, as primeiras estrelas começaram a aparecer. O verão continuava, comprido, aberto, cheio de dias por viver. E o Tomás não sentia mais necessidade de atravessá-lo a correr. Ele podia caminhar. Podia esperar. Podia olhar.

E, acima de tudo, sabia que os adultos à sua volta eram como uma cerca invisível e boa: não para prender, mas para manter seguro o caminho onde ele podia crescer.

Sem publicidade 3 € por mês

Deseja uma leitura sem interrupções? Apoie Oh My Tales, remova todos os anúncios e aproveite outras vantagens incluídas a partir de 3€ por mês.

Veja os planos e tarifas
Compartilhar

reportar um problema com esta história

O que você achou desta história?

Dê sua opinião atribuindo uma nota a esta história com base no que você e/ou seu filho acharam. Obrigado antecipadamente!

Obrigado! Sua nota foi levada em conta!

O quiz: você entendeu bem a história?

Expedição
Viagem ou saída com um objetivo de descoberta ou aventura.
Mercearia
Loja pequena que vende alimentos e produtos do dia a dia.
Montra
Vitrine de uma loja onde se mostram os produtos aos clientes.
Hortelã
Planta com cheiro forte e fresco, usada em comidas e bebidas.
Canteiro
Pequena área de terra onde se plantam flores ou verduras.
âncora
Objeto pesado que segura um barco para não se mover.
Frustração
Sentimento ruim por não conseguir algo que se queria.
Travessa
Rua estreita ou passagem entre prédios ou muros.
Proibida a passagem
Aviso que indica que não se pode entrar naquele local.
Despertador
Relógio ou aparelho que faz barulho para acordar alguém.

Crie uma história mágica e única para o seu filho!

Crie em poucos minutos uma aventura personalizada onde seu filho se torna o herói. Com nossa ferramenta exclusiva, é fácil, gratuito e divertido!

Criar uma história

Baixe esta história:

Baixar esta história em PDF Baixar o e-book (.epub)

Receba novas histórias todos os domingos à noite!

Receba 7 histórias emocionantes e cativantes, adaptadas à idade e aos gostos do seu filho, todo domingo às 17h*. É grátis e garantido sem spam!
*E-mail enviado às 16h00, hora de Lisboa.
Nós também não gostamos de spam. Assim, nós só lhe enviaremos histórias. Você poderá se descadastrar quando desejar.