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História sobre a Páscoa 11 a 12 anos Leitura 22 min.

O Tomás e o coelho de colete: a páscoa do brilho

Tomás encontra Bento, um coelho de Páscoa cansado, e juntos percorrem o prédio para corrigir confusões mágicas com chocolates, descobrindo que a partilha e a amizade fazem a Páscoa mais brilhante.

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Um menino de 12 anos, sorridente e maravilhado, cabelos castanhos curtos, camiseta listrada azul e mochila cáqui, segura delicadamente um grande ovo prateado aberto nas palmas; confetes luminosos dourados e prateados voam como pequenas estrelas; ao lado, um coelho mágico Bento com colete verde e óculos redondos observa atento; Sara, garota de 12 anos de cabelo castanho médio e jaqueta cinza, segura um pedaço de giz e um caderninho, levemente atrás; senhor Hélio, cerca de 70 anos, de rosto enrugado e suéter marrom, observa carinhoso desde a porta no pé da escada; dona Zulmira, cerca de 65 anos, cabelo grisalho preso e avental floral, sorri com um prato de bolinhos na janela; cena num balcão comum de prédio antigo com grade de metal, lanternas penduradas, vasos e paredes de tijolo sob um céu crepuscular violeta-rosa; abertura solene do "Ovo do Brillo" num círculo de vizinhos, atmosfera calorosa e festiva, luzes suaves, estilo colorido e texturas arredondadas de um render 3D de filme de animação. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O Plano do Tomás e a Caixa de Chocolate

Na sexta-feira antes da Páscoa, a escola cheirava a marcador de quadro, a chuva no casaco e… a chocolate imaginário. A professora dizia “tradições” e “partilha”, e o Tomás, com 11 anos e uma cabeça que nunca parava quieta, já via ovos a saltar como bolas de ténis pela sala.

No caminho para casa, ele passou pela mercearia do senhor Aníbal e ficou a olhar para uma torre de coelhos de chocolate embrulhados em papel dourado, a brilhar como se tivessem bebido luz ao pequeno-almoço.

— Olha, mãe… — o Tomás apontou, com aquele tom de “isto é importante para a humanidade”.

A mãe arqueou uma sobrancelha.

— Importante quanto?

— Importantíssimo. Tipo… salvar a Páscoa.

Ela riu-se e compraram uma caixa grande, daquelas com várias barras e miniovos. O Tomás levou-a como se fosse um tesouro frágil, mas a verdade é que já estava a pensar em como a abrir sem que a mãe ouvisse o “crac” do papel.

Em casa, o apartamento cheirava a sopa e a roupa lavada. O Tomás escondeu a caixa no fundo da mochila, entre o caderno de Matemática e uma meia perdida (ninguém sabia como uma meia perdida pode ter tanta presença).

O plano dele era simples: no sábado, ia distribuir chocolates pelo prédio. A dona Zulmira do 3.º esquerdo, que vivia sozinha e falava com as plantas. O senhor Hélio do rés-do-chão, que andava sempre com o rádio a tocar fado, mesmo quando não estava a tocar. E a Sara, a vizinha do 2.º, que era mais velha e dizia que já não ligava a “coisas de crianças”, mas ficava com olhos de quem ainda ligava.

O Tomás estava a ajustar mentalmente o número de chocolates por pessoa quando ouviu um som estranho na cozinha. Um “tic-tic-tic”, como unhas pequenas a bater no azulejo.

Ele aproximou-se devagar, em modo espião (modo espião é andar devagar e respirar como se se fosse uma vela).

A porta da despensa estava entreaberta.

E de lá saiu… uma pata.

Uma pata peluda.

Depois outra.

E, por fim, um coelho.

Mas não era um coelho normal. Tinha um colete verde com bolsos, óculos redondos na ponta do focinho e uma expressão de quem tinha muita coisa para fazer e pouco tempo para as fazer.

O Tomás piscou os olhos.

O coelho piscou de volta.

— Finalmente — disse o coelho, muito sério. — Onde guardaste os chocolates?

Capítulo 2 — O Coelho de Colete e a Lista dos “Ops”

— Desculpa… — o Tomás engoliu em seco — tu… falas?

— Claro que falo. O problema é que hoje estou a falar demais e a tempo de menos. — O coelho tirou um papel dobrado do bolso do colete e desdobrou-o como se fosse um mapa do tesouro. — Chamo-me Bento. Bento, o Coelho de Páscoa. Versão… cansada.

O Tomás soltou uma gargalhada nervosa.

— O Coelho de Páscoa está na minha cozinha. Isto é… — ele procurou a palavra — isto é completamente ridículo.

— Obrigado. — Bento ajeitou os óculos. — Fico feliz por reconhecermos a realidade.

— Mas porquê aqui?

Bento olhou para os lados, como se as colheres pudessem estar a escutar.

— Houve um problema no Armazém dos Ovos. Um ventinho mágico baralhou os endereços. Resultado: os chocolates estão a ir parar a sítios estranhos. Ontem, um ovo apareceu dentro de um sapato de futebol. O rapaz calçou-o e ficou com um “clac” de chocolate no calcanhar. Chorou e riu ao mesmo tempo. Foi comovente e pegajoso.

Tomás mordeu o lábio para não rir demasiado.

— E o que eu tenho a ver com isso?

— Tens uma caixa de chocolate, não tens? — Bento apontou com o focinho, como um detetive. — E tens cara de quem partilha.

O Tomás endireitou-se, ofendido e orgulhoso ao mesmo tempo.

— Eu ia distribuir pelo prédio.

— Excelente! — Bento bateu palmas… com as patas, o que fez um som fofinho. — Então precisamos de ti. Porque a magia está a falhar, mas a bondade não. E a Páscoa, sem partilha, fica só… um domingo com açúcar.

Bento abriu a lista e leu em voz alta, dramatizando:

“Objetivos urgentes: 1) Garantir chocolates para quem ficou sem. 2) Evitar que a dona Zulmira ofereça às plantas o ovo que devia ir para a neta. 3) Impedir que o senhor Hélio embrulhe um coelho de chocolate em papel de jornal e o use como peso para a porta.” — Ele suspirou. — O prédio de vocês é… criativo.

— A dona Zulmira fala com as plantas. — confirmou Tomás. — E o senhor Hélio faria mesmo isso.

Bento aproximou-se do Tomás, muito sério.

— Tomás, preciso de um ajudante. E não um ajudante qualquer. Um ajudante com cérebro rápido e pernas que sobem escadas sem reclamar.

O Tomás olhou para as escadas do prédio pela janela da cozinha e pensou nas suas pernas. Elas reclamavam um bocado, sim. Mas também gostavam de aventura.

— Está bem — disse ele, com um sorriso a nascer. — Mas com uma condição.

— Qual?

— Tu tens de prometer que não vais roer o meu caderno de Matemática.

Bento levantou uma pata como se fosse jurar num tribunal.

— Prometo roer apenas… cenouras imaginárias.

E, sem mais aviso, um miniovo rolou sozinho pelo chão, vindo de lado nenhum, e parou aos pés do Tomás.

O Bento arregalou os olhos.

— Vês? A magia está toda a escorregar.

Capítulo 3 — Escadas, Segredos e um Ovo que Faz “Plim”

No sábado de manhã, o prédio acordou com o som de passos, portas e cheiros de café. O Tomás saiu com a mochila (agora recheada de chocolates) e com o Bento escondido dentro de um saco de pano, só com as orelhas a espreitar. Pareciam duas antenas a captar “Páscoa” no ar.

— Se alguém me vir, diz que sou… — Bento sussurrou.

— Um peluche raro? — sugeriu Tomás.

— Um peluche com opiniões fortes? — Bento acrescentou, ofendido.

Primeira paragem: dona Zulmira, 3.º esquerdo.

A porta abriu-se com um rangido dramático, como se o prédio fosse um castelo.

— Tomásinho! Que surpresa! — Dona Zulmira tinha um avental com pintainhos estampados e farinha no nariz, como se tivesse levado uma nuvem de bolo à cara. — Entra, entra! As minhas begónias estão a ouvir uma novela, mas podem fazer pausa.

Tomás riu. No parapeito da janela, havia plantas alinhadas, e uma delas tinha um laço cor-de-rosa.

— Estou a distribuir chocolates de Páscoa — disse ele. — Para si.

Dona Zulmira levou as mãos ao peito.

— Ai, que querido! Vou já dizer à Mimosa. — E virou-se para a planta com o laço. — Ouviste, Mimosa? Solidariedade!

Dentro do saco, Bento sussurrou:

— Por favor, impede que a planta coma o chocolate.

Tomás pigarreou.

— Dona Zulmira… talvez seja melhor guardar para si… e para a sua neta, quando vier.

Ela ficou séria por um segundo.

— Tens razão. Às vezes, eu distribuo carinho para tudo e esqueço-me de mim. Obrigada, menino.

Quando saíram, Bento levantou o focinho.

— Missão um: concluída. E sem fertilizante de chocolate. Excelente.

No patamar seguinte, algo cintilou no chão. Um ovo pequeno, embrulhado em papel azul, fazia um som baixinho: “plim… plim… plim”.

Tomás agachou-se.

— Isto está a… tocar?

Bento saiu um pouco do saco, os óculos a escorregar.

— Ovo musical. Oh não. Esses são do lote “Surpresa”. Quando ficam sem destino, começam a chamar atenção. Se chegarem ao elevador, fazem concerto.

— E isso é mau?

— O elevador do teu prédio já é dramático. Se começa a cantar, nunca mais pára.

Tomás pegou no ovo. O “plim” acalmou.

— Então a magia fica quieta quando alguém cuida?

Bento olhou para ele, como quem descobria uma coisa simples e enorme.

— Sim. A magia, quando é bem tratada, deixa de fazer birra.

Capítulo 4 — O Senhor Hélio, o Rádio e o Coelho Disfarçado

No rés-do-chão, a porta do senhor Hélio estava aberta, como quase sempre. O rádio tocava uma música antiga, e o corredor cheirava a lustrador e a nostalgia.

O senhor Hélio apareceu com um pano na mão.

— Ó Tomás! Vens buscar o eco? Este prédio tem eco a mais, sabias? Digo “bom dia” e o “dia” volta só ao fim da tarde.

Tomás riu e tirou dois chocolates.

— Vim desejar boa Páscoa.

O senhor Hélio abriu um sorriso, daqueles que fazem rugas felizes.

— Ah! Páscoa! Antigamente, a minha mãe escondia ovos no quintal. Eu encontrava todos… menos um. E depois, em julho, encontrava chocolate derretido e achava que tinha descoberto petróleo doce.

Bento, no saco, espirrou. Um espirro de coelho é uma coisa discreta, mas o senhor Hélio ouviu.

— O que tens aí?

Tomás pensou depressa.

— Um… cachecol.

— Cachecol em abril?

— É… um cachecol emocional. — Tomás inventou. — Para dias frios por dentro.

O senhor Hélio ficou com os olhos húmidos, como se aquilo fosse a coisa mais bonita do mundo.

— Que ideia linda. O mundo precisa disso. Toma, espera. — Ele foi buscar uma moeda de chocolate (daquelas com cara de pirata) e entregou ao Tomás. — Para o teu… cachecol.

Tomás agradeceu, meio atrapalhado. Bento sussurrou, emocionado:

— Ele é um peso de porta em forma de pessoa. Mas tem coração.

Quando se afastaram, ouviram o elevador fazer um “ding” cansado. As portas abriram e… nada.

Só um brilho no chão.

Um coelho de chocolate enorme, embrulhado, bloqueava a entrada do elevador como se tivesse decidido morar ali.

Bento pôs as patas na cabeça.

— Não… não… Esse era para a festa da escola! Como foi parar aqui?

Tomás olhou para o elevador e depois para a mochila. Não ia caber.

— Temos de o levar pelas escadas?

Bento engoliu em seco.

— Pelas escadas.

Tomás apoiou o coelho gigante nos braços. Pesava como um segredo.

— Bento, isto é pesado!

— A solidariedade às vezes faz bíceps.

Eles começaram a subir. No primeiro lance, o papel dourado fez “crrrr” e o coelho pareceu sorrir, malandro.

— Se ele derrete em cima de mim, vou ficar com cheiro a sobremesa o mês todo! — queixou-se Tomás.

— Pior. Vais ficar com formigas fãs.

Capítulo 5 — A Sara, o Mapa de Giz e a Partilha em Equipa

No 2.º andar, a Sara estava sentada nas escadas, com fones ao pescoço e um caderno aberto. Tinha ar de quem estava a escrever uma coisa profunda… ou a fazer uma lista de compras dramática.

Ela levantou os olhos e viu o Tomás a carregar um coelho de chocolate gigante.

— O que é isso? Um novo desporto? “Levantamento de coelho”?

Tomás bufou.

— Ajuda, por favor. Antes que eu vire fondue humano.

A Sara levantou-se e, sem fazer grande espetáculo, pegou numa ponta.

— Ok. Mas depois explicas.

Bento espreitou do saco e sussurrou:

— Cuidado. Adolescente em aproximação.

— Ela tem 12 — murmurou Tomás. — Não é um vulcão.

— Ainda.

Os três subiram até ao 4.º andar, onde a porta do apartamento do senhor Ramiro estava fechada com um aviso: “Trabalho à noite. Bater de leve. Se bater forte, sonho que sou tambor.”

Tomás riu e bateu de leve. Ninguém respondeu.

No corredor, havia um quadro de cortiça com um desenho de giz: um mapa do prédio com setas e pequenas notas como “aqui mora a senhora que oferece bolachas” e “aqui mora o gato que julga toda a gente”.

A Sara apontou.

— Eu fiz esse mapa no ano passado. Para ajudar nas entregas da campanha de alimentos. Dá jeito.

Bento arregalou os olhos.

— Um mapa solidário! Gostei.

Tomás olhou para a Sara.

— Estás a ver? Tu ligas a coisas.

Ela encolheu os ombros, mas sorriu.

— Eu ligo a coisas úteis. E… — ela olhou para o coelho gigante — isso é útil? Ou só delicioso?

Nesse momento, o ovo musical no bolso do Tomás começou a fazer “plim-plim” mais alto, como se estivesse a aplaudir.

Bento saltou para fora do saco, esquecendo-se do disfarce.

A Sara ficou imóvel. Depois tirou os fones devagar.

— …Eu acabei de ver um coelho com colete?

Bento endireitou-se, muito digno.

— Bom dia. Sou o Bento. Estou a tentar salvar a Páscoa. Peço descrição e, se possível, uma cenoura.

A Sara piscou, duas vezes.

— Ok. Isto é oficialmente a coisa mais estranha que já aconteceu neste prédio. E eu já vi o senhor Hélio discutir com uma planta.

— Foi a Mimosa — disse Tomás, sem pensar.

A Sara soltou uma gargalhada.

— Então é verdade. — Ela respirou fundo e olhou para o Tomás. — Se é para salvar a Páscoa… eu ajudo. Mas vamos fazer isto direito.

Ela pegou num pedaço de giz do bolso (porque pessoas organizadas têm giz, aparentemente) e começou a marcar no mapa:

— Quem precisa mais? A dona Zulmira. O senhor Ramiro. A família do 1.º direito que chegou agora e ninguém conhece. E… — ela apontou — o Tiago do 5.º, que está de muletas. Não pode descer para procurar ovos.

Tomás sentiu uma coisa quente no peito, como quando a luz do sol bate numa janela.

— Vamos distribuir — disse ele. — Em equipa.

Bento fez uma vénia.

— Excelente. A magia adora equipas.

Capítulo 6 — O Ovo Perdido, a Última Porta e o Assobio Final

À tarde, o prédio parecia uma cesta de Páscoa gigante: fitas coloridas no corrimão, cheiro a bolo de cenoura a escapar de apartamentos, risos a subir e a descer como bolinhas de sabão.

O coelho de chocolate gigante foi entregue na escola (com a Sara a inventar uma história rápida sobre “projeto de voluntariado culinário” e ninguém teve coragem de perguntar mais). Os miniovos foram distribuídos com cuidado: um para o Tiago, que abriu um sorriso torto e disse:

— Obrigado… eu estava a achar que a Páscoa ia ser só fisioterapia e tristeza.

— Páscoa também é fisioterapia — respondeu Tomás. — Mas com chocolate ao lado, dói menos.

No 1.º direito, a família nova abriu a porta com cara de quem ainda não sabia onde ficava o interruptor da sala. Uma menina pequena espreitou atrás da mãe.

Tomás entregou chocolates e disse:

— Bem-vindos ao prédio. Aqui até o elevador quer ser cantor, mas a gente não deixa.

A mãe riu, aliviada.

Bento, agora mais visível e menos preocupado, caminhava ao lado deles como se fosse o dono do corredor. A magia parecia mais estável: nada rolava sozinho, nada fazia “plim” sem razão.

Só que, quando chegaram ao último patamar, Bento parou de repente.

— Falta um ovo — disse ele, olhando para a lista. — Um ovo especial. O “Ovo do Brilho”. Se ele não for entregue, a noite de Páscoa fica… meio apagada. Tipo lanterna sem pilhas.

Tomás franziu a testa.

— Mas nós distribuímos tudo.

A Sara apontou para o bolso do Tomás.

— E aquele?

Tomás tirou o ovo musical azul. Ainda brilhava um pouco.

Bento abanou a cabeça.

— Esse é só barulhento. O do Brilho é… diferente. Ele aparece quando alguém faz uma partilha difícil.

Tomás ficou quieto. Lembrou-se da moeda de chocolate do senhor Hélio, que estava guardada no fundo da mochila, como um pequeno tesouro.

— Difícil tipo… dar o que recebemos?

A Sara olhou para ele.

— Se queres guardar, guarda. Não tens de—

Tomás interrompeu, sorrindo.

— Eu quero é que a noite fique brilhante.

Ele pegou na moeda de chocolate do pirata e voltou ao rés-do-chão. Bateu à porta do senhor Hélio.

— Tomás? — o senhor Hélio abriu, surpreendido. — Já gastaste o cachecol emocional?

Tomás riu.

— Vim devolver isto. Para si.

— Mas eu dei-te.

— Eu sei. Mas… eu acho que você também merece uma surpresa.

O senhor Hélio ficou em silêncio. Depois, com muito cuidado, aceitou a moeda.

— Obrigado, rapaz. — Ele engoliu em seco. — Às vezes a gente pensa que já viu tudo. E depois vem um menino e prova que ainda há coisas novas.

Quando o Tomás se virou para ir embora, uma luz suave apareceu no corredor, como se alguém tivesse acendido uma estrela pequenina. No chão, bem no meio do tapete gasto do rés-do-chão, estava um ovo prateado, a brilhar sem fazer barulho nenhum.

Bento quase chorou (se coelhos choram, eles fazem isso com dignidade).

— O Ovo do Brilho. Encontrado.

Tomás pegou nele. O ovo era morno, como mãos ao sol.

— Para quem é?

Bento sorriu.

— Para todos. É para o prédio. Abre na varanda comum, ao anoitecer.

Ao anoitecer, os vizinhos juntaram-se na varanda do último andar. A dona Zulmira trouxe um prato de bolinhos e a Mimosa apareceu, sim, com o laço cor-de-rosa (ninguém perguntou como uma planta “apareceu”; aceitaram). O Tiago veio de muletas, com ajuda. A família nova trouxe sumo. O senhor Hélio trouxe o rádio, mas prometeu não pôr fado triste.

Tomás colocou o Ovo do Brilho no centro e abriu-o devagar.

Lá dentro não havia brinquedo nem bilhete. Havia… um punhado de confetes luminosos, pequeninos como pólen de estrela. Subiram no ar e espalharam-se pelo prédio, entrando pelas janelas como se soubessem o caminho. As luzes dos apartamentos pareceram mais quentes. Até o elevador fez “ding” com menos drama.

A Sara encostou-se ao parapeito.

— Ok — disse ela — isto foi… bonito.

Bento pôs-se ao lado do Tomás.

— Missão cumprida. A Páscoa não é só esconder coisas. É encontrar pessoas.

Tomás olhou para os vizinhos, para as mãos a partilhar bolinhos e chocolates, para as risadas que não pediam licença.

— Bento… e agora?

Bento ajeitou os óculos.

— Agora eu vou. Tenho mais endereços baralhados e mais sapatos de futebol ameaçados por chocolate.

O Tomás sentiu um aperto pequeno, mas bom, como quando uma música acaba e a gente queria mais um refrão.

— Vais voltar?

— A magia volta sempre — disse Bento. — Mas lembra-te: ela gosta de ser chamada com gestos. Não com gritos.

Antes de desaparecer pela escada de emergência (sim, porque coelhos mágicos têm saídas secretas), Bento virou-se:

— E, por favor… termina a noite como manda a tradição.

— Qual tradição? — perguntou Tomás.

Bento apontou para os lábios do Tomás e depois para o céu.

— A canção assobiada. A que diz “estamos juntos”, sem palavras.

O Tomás respirou fundo. A Sara aproximou-se. O senhor Hélio desligou o rádio. Até a dona Zulmira fez sinal às plantas para escutarem.

E o Tomás assobiou uma melodia simples, alegre, que subia e descia como degraus de luz: fiu-fiu, fiiu… fiu-fiu-fiu.

A Sara juntou-se, assobiando uma segunda voz, meio improvisada e meio perfeita. O senhor Hélio entrou com um assobio tremido mas valente. A varanda inteira virou uma pequena orquestra de vento.

E, lá em baixo, no silêncio contente do prédio, parecia que a Páscoa sorria, de orelhas bem levantadas, a ouvir.

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Tradições
Costumes ou ações que um grupo de pessoas faz sempre em certas épocas, por muitos anos.
Partilha
Ato de dividir coisas com outras pessoas para que todos tenham um pouco.
Mercearia
Loja pequena que vende alimentos e produtos do dia a dia.
Despensa
Lugar em casa onde se guardam alimentos e produtos secos.
Imaginário
Algo que existe na imaginação, não de verdade, só na cabeça das pessoas.
Armazém
Grande local onde se guardam muitos produtos, antes de serem distribuídos.
Endereços
Informações que dizem onde moram ou estão as pessoas ou lugares.
Patamar
Área plana entre lances de escadas, onde se pode parar ou entrar em portas.
Fertilizante
Substância que se põe na terra para ajudar as plantas a crescer melhor.
Solidariedade
Apoio e cuidado entre pessoas que pensam no bem dos outros.
Muletas
Aparelhos que ajudam alguém a andar quando tem uma perna magoada.
Confetes
Pequenas tiras ou pedaços coloridos usados em festas para atirar no ar.

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