Capítulo 1 — Cores na mesa da cozinha
Na manhã de sábado, a luz entrava pela janela como sumo de laranja: viva, quente e cheia de promessas. Na cozinha, a Beatriz alinhava pequenos chocolates sobre uma toalha aos quadradinhos. Tinha mãos cuidadosas, como quem arruma conchas na praia sem partir nenhuma.
A Inês chegou de meias diferentes (uma com coelhinhos, outra com cenouras) e ficou a olhar, com ar de quem acabou de descobrir um planeta.
— Estás a fazer… uma exposição? — perguntou, inclinando-se para ver melhor.
— Não. Estou a pôr ordem no caos — respondeu a Beatriz, séria, mas com um brilho divertido nos olhos. — É Páscoa. E a avó disse que este ano há um “jogo de pistas”.
Na mesa, havia ovos de chocolate embrulhados em papéis brilhantes: vermelhos, azuis, verdes, dourados, lilases. Beatriz separava-os por cores, formando montinhos perfeitos, como se cada cor tivesse a sua própria pequena família.
Inês apontou para o monte dourado.
— Esses são os mais importantes, aposto.
— São os mais suspeitos — corrigiu Beatriz. — Repara: são menos. E sempre que há menos, há segredo.
A avó Amélia entrou com uma cesta de vime e um avental com pintainhos bordados. Cheirava a pão doce e canela.
— Meninas, hoje o jardim vai virar mapa — anunciou. — Mas antes, uma regra: nada de pisar os canteiros. As flores não são degraus.
Inês fez continência.
— Respeito máximo pela natureza, comandante.
A avó riu.
— E outra coisa: encontrei isto na caixa das fitas. — Deu-lhes um papel dobrado com desenhos simples: círculos coloridos e números pequeninos ao lado.
Beatriz esticou o papel sobre a mesa. Havia uma sequência: vermelho-3, azul-1, verde-4, dourado-2. E, em baixo, uma frase: “Arruma para ler.”
— “Arruma para ler”… — repetiu Inês. — Isso soa a ti, Bia. Tu arrumas até o ar.
— É um código — disse Beatriz, já a puxar os chocolates para mais perto. — Se cada cor tiver uma letra… ou uma palavra… vamos descobrir.
E, sem ninguém ter dito “começou a aventura”, já a aventura tinha começado.
Capítulo 2 — O código que cheira a chocolate
Beatriz pegou num caderno e fez quatro colunas com as cores do papel. Inês mastigava uma torrada, mas olhava como se estivesse a ver uma série cheia de suspense.
— Vermelho-3, azul-1, verde-4, dourado-2 — disse Beatriz. — Pode ser ordem de leitura.
— Ou ordem de… ataque — sugeriu Inês, dramática, segurando uma colher como espada.
— Ataque só às amêndoas, talvez — respondeu Beatriz. — Olha: se eu contar os chocolates de cada cor e escolher o número indicado…
Começou pelo vermelho. Contou: um, dois, três… e escolheu o terceiro ovo vermelho. Tinha um autocolante minúsculo, quase escondido no brilho do papel: a letra “C”.
— Ahá! — Beatriz sorriu, vitoriosa.
No azul, escolheu o primeiro ovo: letra “A”. No dourado, o segundo: letra “I”. No verde, o quarto: letra “X”.
Inês juntou as letras no ar, como se as apanhasse com os dedos.
— C… A… I… X… “CAIX” — leu, e depois abriu mais os olhos. — “CAIXA”! Falta o “A”!
Beatriz voltou ao monte vermelho, como quem volta ao início de um labirinto.
— Talvez haja mais uma cor. Lilás?
Pegou no papel outra vez e viu, no canto, um pontinho lilás com um número tão pequeno que parecia um mosquito: lilás-2.
— Olha! Estava a fazer-se de tímido.
O segundo ovo lilás tinha a letra “A”.
— “CAIXA” — disse Inês, triunfante, e logo a seguir fez uma cara de dúvida. — Mas… que caixa?
A avó Amélia limpava as mãos ao avental, a ouvir tudo com um sorriso escondido.
— Há uma caixa na arrecadação — disse ela, sem revelar mais. — Mas a arrecadação tem as suas próprias regras.
— Tipo… “não mexer no aspirador”? — perguntou Inês.
— Tipo “não assustar as aranhas”. Elas trabalham aqui mais tempo do que nós — respondeu a avó, com toda a seriedade do mundo.
Beatriz assentiu, respeitosa.
— Então vamos com calma. Aranhas são parte da equipa.
As duas trocaram um olhar cúmplice. O código não era só uma brincadeira: era um convite. E a casa, de repente, parecia ter corredores mais longos, portas mais misteriosas e um cheiro a chocolate que dizia: “Segue-me.”
Capítulo 3 — A caixa e o coelho de papel
A arrecadação era fresca e cheirava a madeira e limões esquecidos. A luz entrava por uma janelinha alta, formando um retângulo no chão, como um palco pequeno.
Beatriz abriu a porta devagar.
— Olá, aranhas — sussurrou Inês. — Não vamos incomodar.
No fundo, em cima de uma prateleira, estava a tal caixa: de cartão grosso, com fita verde e desenhos de folhas. Não tinha pó, como se alguém a tivesse visitado há pouco.
Beatriz esticou-se na ponta dos pés e trouxe-a para baixo com cuidado, como se carregasse um segredo frágil. Na tampa, havia outra frase escrita à mão:
“Para encontrar, não é preciso correr. É preciso ver.”
— Isso é quase filosofia de Páscoa — comentou Inês. — Vou tatuar na testa. A minha mãe vai adorar.
Beatriz abriu a caixa. Lá dentro havia: um coelho de papel dobrado (origami), uma pequena lupa e um mapa desenhado do jardim com símbolos: uma árvore, um banco, a horta, o lago pequeno onde as rãs faziam concertos à noite. Ao lado do mapa, um saquinho com sementes e um bilhete:
“Planta antes de procurar o próximo passo.”
Inês franziu o nariz.
— Isto é… uma caça aos ovos ecológica.
— É melhor — disse Beatriz, encantada. — É uma caça aos ovos com respeito.
A avó apareceu à porta, como se fosse parte do cenário.
— A Páscoa também pode ser um agradecimento — disse ela. — À terra que dá, às abelhas que trabalham, à água que corre.
Beatriz pegou no saquinho de sementes.
— O que é que são?
— Girassóis. E algumas flores que gostam de borboletas — explicou a avó. — Se as plantarem hoje, daqui a uns tempos vão ver o resultado.
Inês apertou o coelho de origami e, de repente, jurou ter sentido uma espécie de tremor, como se o papel respirasse.
— Bia… — murmurou. — O coelho piscou?
— Não piscou. É papel — disse Beatriz, mas disse baixo, como se não quisesse estragar a possibilidade.
O coelho de papel tinha um pontinho dourado no olho, que brilhava quando a luz batia. E, por um segundo, parecia mesmo um olhar.
— Vamos plantar — decidiu Beatriz. — Depois seguimos o mapa.
Inês sorriu, com aquele entusiasmo que dá vontade de correr, mas lembrou-se da frase: não é preciso correr. É preciso ver.
— Está bem. Vou ver muito bem.
E saíram para o jardim como quem entra num livro ilustrado, onde as páginas cheiram a relva.
Capítulo 4 — Sementes, terra e pistas escondidas
O jardim da avó era um lugar que parecia sempre acordado. Havia flores a esticar-se ao sol, folhas a mexerem-se com o vento e um som de pássaros como risos pequeninos.
Perto da horta, havia um cantinho de terra já soltinha, pronta para receber novas vidas. A avó deu-lhes uma pazinha e um regador.
— Só o suficiente — avisou. — A terra gosta de carinho, não de afogamentos.
Inês abriu um buraco e fez cara séria.
— Estou a construir um apartamento para girassóis.
Beatriz riu e começou a colocar as sementes com cuidado, uma a uma, como se fossem pequenas promessas.
— Pronto — disse ela. — Agora cobre.
Inês cobriu e deu duas palmadinhas leves na terra.
— Boa sorte, bebés plantas.
Quando regaram, a água entrou na terra com um som suave, como uma conversa secreta. E então aconteceu uma coisa estranha, mas tão discreta que podia passar por imaginação: a luz que refletia na água pareceu desenhar, por um instante, uma seta no chão.
Beatriz inclinou-se.
— Viste?
— Vi… acho eu — respondeu Inês, a meio caminho entre “que fixe” e “será?”. — Para ali?
A seta apontava para a velha macieira. No mapa, a árvore tinha um símbolo de estrela.
As duas foram devagar, desviando-se dos canteiros, respeitando as plantinhas como se cada folha fosse um “por favor”. Junto à macieira, havia ovos escondidos: um atrás de um vaso, outro num buraco do tronco, outro mesmo pendurado num ramo baixo, como se fosse um fruto de chocolate.
— Uau — disse Inês. — Quem faz isto tem tempo e imaginação.
Beatriz apanhou um ovo verde e, ao virar, viu uma letra escrita num autocolante: “S”.
Inês apanhou um azul: “O”.
Beatriz pegou num dourado: “L”.
— “SOL” — juntou Beatriz. — Isso é uma pista ou um elogio ao tempo?
Inês levantou a cara para o céu.
— Pode ser os dois. Mas no mapa… onde é que há sol?
Beatriz abriu o mapa e procurou. Havia um desenho do banco do jardim com um círculo à volta.
— O banco apanha sol o dia todo — disse ela. — Vamos.
No caminho, passaram por um caracol que atravessava a pedra lentamente, como quem não está com pressa nenhuma.
Inês ia dar um passo maior, mas travou.
— Senhor Caracol, com licença — disse, e contornou-o como se fosse um rei.
Beatriz sorriu.
— A avó ia ficar orgulhosa.
— Eu também — respondeu Inês. — Respeito máximo pelos trabalhadores lentos.
Chegaram ao banco. A madeira estava morna e cheirava a verão a caminho. Beatriz passou a mão por baixo e encontrou fita adesiva colada.
— Há outra coisa aqui.
Era um envelope pequeno com mais uma sequência de cores e números. Inês aproximou a cara.
— Isto está a ficar sério.
Beatriz abriu o envelope e leu em voz alta:
“Azul-2, Verde-1, Dourado-3. Depois, olha com a lupa.”
— Voltamos à mesa? — perguntou Inês.
— Ou fazemos isto aqui com os ovos que já temos — respondeu Beatriz, e começou a separar os chocolates por cores dentro da cesta.
Inês ajudou, orgulhosa de ter uma missão tão importante como “organizar chocolate”.
— Nunca pensei dizer isto na vida — comentou — mas… adoro arrumar.
Capítulo 5 — A lupa e a mensagem no brilho
Sentaram-se no banco ao sol, com a cesta entre elas. Beatriz contou os ovos azuis que tinham apanhado: escolheu o segundo. Tinha um risquinho quase invisível: uma letra “P”.
No verde, escolheu o primeiro: “A”. No dourado, o terceiro: “Z”.
— “PAZ” — leu Inês, baixinho, como se fosse uma palavra que merece cuidado.
Beatriz pegou na lupa da caixa e observou o ovo dourado. No brilho do papel, havia linhas finíssimas, como se alguém tivesse desenhado um caminho de formiga. Com a lupa, as linhas viraram letras.
Beatriz foi lendo devagar.
— “A paz mora onde…” — parou, porque o resto estava noutro lugar.
Inês pegou noutro ovo e, sem pedir, já estava a investigar como uma detetive.
— Aqui também tem linhas!
As duas passaram ovos de mão em mão, aproximando a lupa, mudando o ângulo para o sol bater de lado. Era quase como conversar com a luz.
No ovo azul, apareceu: “…onde se escuta…”
No verde: “…o jardim…”
No vermelho: “…sem pressa.”
No fim, juntaram tudo, e a frase ficou completa:
“A paz mora onde se escuta o jardim sem pressa.”
Inês encostou-se ao banco.
— Isto é bonito. E um bocado… mágico.
Beatriz olhou para a horta, para as sementes recém-plantadas, para as folhas a dançar.
— Talvez a magia seja isso: reparar.
Nesse momento, o coelho de origami, que Inês trazia no bolso do casaco, escorregou e caiu no colo. O papel abriu um bocadinho, como se espreguiçasse. Dentro, escondida na dobra, havia uma última letra, minúscula: “N”.
— “N”? — Inês franziu a testa. — Isso não encaixa na frase.
Beatriz pegou no mapa. Havia um símbolo que parecia um “N” ao lado do desenho do lago das rãs.
— Lago! — disse ela. — O “N” é para… norte? Ou para… “ninho”? Mas no mapa está junto ao lago.
Inês levantou-se num salto.
— Vamos ao lago! Se houver ovos perto das rãs, eu vou negociar com elas.
— Negociar?
— Sim. Eu digo: “senhoras rãs, por favor não saltem para cima de mim” e elas dizem “coax” — explicou, com muita lógica.
Beatriz riu e arrumou os chocolates por cores outra vez, automaticamente, como se isso desse coragem. Depois, guardou a lupa e o mapa.
— Vamos, então. Sem pressa — lembrou.
— Sem pressa — repetiu Inês, e tentou andar devagar… durante três segundos.
Capítulo 6 — O lago, o último ovo e o silêncio contente
O lago era pequeno, redondo, com pedras à volta e juncos que pareciam pincéis verdes. A água refletia o céu e, de vez em quando, fazia “ploc” quando uma rã decidia participar no mundo.
As duas aproximaram-se com cuidado, pisando só as pedras grandes, sem esmagar musgos nem plantinhas.
— Senhoras rãs — sussurrou Inês. — Somos visitantes pacíficas.
Uma rã gorda apareceu na borda, imóvel, como uma estátua com olhos.
Beatriz olhou para o mapa. Havia uma marca em forma de meia-lua junto a uma pedra específica.
— Ali — apontou.
A pedra tinha uma fenda. Beatriz enfiou a mão, devagar, e sentiu algo frio e liso: um ovo de chocolate embrulhado em prata, diferente de todos os outros. Ao puxá-lo, a luz fez o papel brilhar como água.
Inês segurou a respiração, como se o momento fosse um segredo.
Beatriz virou o ovo. Não tinha letra. Tinha um pequeno desenho de folha e, por baixo, uma frase curta:
“Partilha.”
— Isso eu consigo — disse Inês, imediatamente. — Mas partilhar o quê? O ovo?
Beatriz olhou para o jardim, para a avó lá ao longe a pendurar fitas coloridas num ramo, para a terra recém-regada.
— Partilhar o dia — disse ela. — A caça, o riso… e também cuidar.
Inês fez um ar pensativo e, depois, tirou do bolso o coelho de origami.
— Então partilho isto contigo. — Estendeu-o à Beatriz. — Metade da magia para ti.
Beatriz aceitou e, com cuidado, endireitou as orelhas do coelho.
— E eu partilho a minha coisa preferida — disse Beatriz, e empurrou a cesta para o meio. — Organizar. Tu escolhes primeiro, por cores.
Inês arregalou os olhos.
— Uau. Isso é amizade nível avançado.
Sentaram-se numa pedra ao sol e começaram a dividir os chocolates: vermelhos para um lado, azuis para outro, dourados no meio “porque são suspeitos”, verdes “porque lembram o jardim”, lilases “porque sim”. Beatriz gostava de ver as cores em ordem; Inês gostava de inventar histórias para cada monte.
— Estes azuis são ovos de céu — dizia Inês. — Se comeres, ficas a assobiar como pássaro.
— E estes verdes são ovos de relva — respondeu Beatriz. — Se comeres, começas a notar caracóis a três metros de distância.
A avó aproximou-se e sentou-se com elas por um momento, sem pressa, olhando o lago.
— Plantaram bem — disse, baixinho.
Beatriz sentiu uma alegria tranquila, como um cobertor leve. O vento passou, mexeu nas folhas, e o jardim pareceu responder com um suspiro.
Elas comeram um pedaço de chocolate cada uma, devagar, deixando derreter um pouco, como se o tempo também fosse doce. Depois ficaram a olhar a água, as rãs, as sombras das nuvens a passar.
E, pouco a pouco, sem necessidade de mais palavras, a tarde fechou-se num silêncio contente.