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História sobre a Páscoa 11 a 12 anos Leitura 17 min.

O ovo especial: a caça ao tesouro que ensinou a partilhar

Quatro amigos seguem um mapa com cheiro a chocolate que os leva por pistas pela vila, encontrando desafios que os obrigam a ajudar os outros. Pelo caminho, aprendem que a verdadeira aventura está na partilha e nas pequenas escolhas.

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Quatro crianças: Tiago, 11 anos, cabelos castanhos curtos, camiseta amarela, olhos curiosos, segura um pequeno ovo dourado no centro; Rúben, 11 anos, cabelos pretos despenteados, sweat vermelho, sorriso largo, à esquerda de Tiago, aponta para o céu rindo, mão numa bolsa com amêndoas; Martim, 11 anos, cabelos castanho-claro, camisa xadrez verde, olhar pensativo, à direita de Tiago, estende um cartão colorido para uma família ao fundo; Duarte, 12 anos, cabelos loiros, casaco azul, expressão calma e protetora, fica atrás de Tiago com um pequeno saco. Local: miradouro gramado no topo de uma colina ao pôr do sol, pedras de uma cruz antiga cobertas de musgo, céu alaranjado com nuvens rosadas, alguns fitilhos e ovos pendurados nos arbustos, vista de casinhas abaixo. Situação: os quatro compartilham um ovo dourado brilhante que deram a uma família mais adiante; luz suave do crepúsculo faz o papel dourado cintilar, atmosfera calorosa e generosa, expressões de alegria e surpresa, composição centrada na mão estendida e no ovo luminoso. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O mapa com cheiro a chocolate

Na véspera de Páscoa, o bairro parecia ter levado um banho de confettis invisíveis. Havia fitas coloridas nas varandas, coelhos de papel nas montras e um cheiro a açúcar que se metia no nariz como quem pede licença… e não espera resposta.

O Tiago, que tinha 11 anos e uma curiosidade que dava cambalhotas, abriu o armário da cozinha à procura de cereais e encontrou uma coisa bem menos nutritiva: um envelope amarelo, selado com cera verde, como nos filmes antigos.

— Mãe, isto é teu? — gritou ele, segurando o envelope como se pudesse explodir em purpurinas.

A mãe espreitou por cima da chávena de café. — Não… mas se for uma multa, eu não vi.

O Tiago rasgou o envelope. Lá dentro havia um papel dobrado e uma migalha de chocolate (sério!) colada no canto. O papel era um mapa desenhado à mão, com setas, rabiscos e uma frase escrita em letras inclinadas:

“PROCURA O OVO ESPECIAL. NÃO É O MAIOR. É O MAIS PARTILHADO.”

Abaixo, uma assinatura: “C.B.”

— C.B. é… Coelho Bravo? Coelho Barulhento? — o Tiago murmurou, já a sentir a cabeça a encher-se de teorias.

Minutos depois, ele correu para a rua e encontrou os amigos no banco em frente ao prédio: o Rúben, que tinha 11 e uma gargalhada que parecia um motor a arrancar; o Martim, que também tinha 11 e era o rei das perguntas; e o Duarte, que tinha 12 e fazia sempre cara de quem está a avaliar o mundo como um juiz simpático.

— Pessoal! — Tiago abanou o mapa. — Isto apareceu no meu armário. E cheira a chocolate!

O Rúben aproximou o nariz do papel. — Confirmo. Cheira a… esperança.

“Ovo especial” — leu o Martim. — Deve ser daqueles com brinquedo raro lá dentro. Eu aposto num mini-dragão.

O Duarte apontou para a frase final. — “O mais partilhado.” Isso não soa a mini-dragão. Soa a… moral.

— Moral também pode vir com chocolate — disse o Rúben, sério. Depois piscou o olho. — Vamos?

E foram, com o mapa na mão, a Páscoa a fazer cócegas no ar.

Capítulo 2 — A primeira pista e a senhora dos sinos

A primeira seta do mapa apontava para a praça principal, onde a Igreja tinha as portas abertas e os sinos faziam “DONG” como se estivessem a contar piadas para as nuvens.

Ao lado da escadaria, a Senhora Eulália vendia amêndoas e coelhinhos de açúcar numa banca tão colorida que parecia ter engolido um arco-íris.

— Meninos! — chamou ela. — Hoje tenho amêndoas que estalam como fogos de artifício… mas na boca.

O Tiago mostrou o mapa. — Senhora Eulália, conhece isto? Está assinado “C.B.”.

A Senhora Eulália ajustou os óculos e fez um sorriso misterioso. — C.B… hum. Conheço muitos “C” e muitos “B”. Um deles mordeu-me um dedo uma vez. Não recomendo.

— Então não sabe? — perguntou o Martim, desapontado.

Ela inclinou-se, como se fosse contar um segredo ao próprio vento. — Não sei tudo, mas sei observar. E vejo-vos com cara de caça ao tesouro. Por isso, aqui vai uma pista: ovos especiais gostam de sítios onde as pessoas se ajudam.

O Duarte franziu a testa. — Tipo… uma associação?

— Ou tipo um lugar onde alguém perde uma coisa e alguém a devolve — completou ela, apontando com o queixo para o chão da praça.

No chão havia uma moeda brilhante, solitária, a piscar ao sol.

O Rúben apanhou-a e olhou em volta. — Ok, teste de solidariedade. Quem perdeu isto?

Uma criança pequena, com o nariz melado de chocolate, levantou a mão a tremer. — Eu… era para comprar uma fita para o cesto…

O Rúben entregou-lhe a moeda com uma reverência exagerada. — Toma, jovem investidor. Compra a fita e não compres… uma trompete.

A criança riu e correu, e naquele instante, o mapa do Tiago fez uma coisa que mapas normais não fazem: a pequena migalha de chocolate no canto derreteu e desenhou, sozinha, uma nova seta castanha.

— Viram? — Tiago arregalou os olhos. — Isto é… mágico.

— Ou o teu mapa está a babar chocolate — disse o Duarte. — Mas pronto, aceito “mágico”. Dá mais estilo.

A nova seta apontava para a Biblioteca Municipal.

Capítulo 3 — A biblioteca, o coelho de papel e um “shhh” suspeito

A Biblioteca cheirava a livros antigos e a silêncio recém-lavado. Havia cartazes de Páscoa com coelhos a ler e ovos com óculos. O que, sinceramente, parecia a coisa mais lógica do mundo ali dentro.

A bibliotecária, Dona Clara, fez o gesto clássico: dedo nos lábios. “Shhh.” Mas o “shhh” dela soou tão teatral que o Rúben teve de morder a própria manga para não rir.

— Viemos por causa disto — sussurrou o Tiago, mostrando o mapa.

A Dona Clara olhou para os quatro e, em vez de dizer “shhh” outra vez, apontou para um canto onde havia uma caixa de “Achados e Perdidos”. Em cima dela, um coelho de papel, dobrado em origami, com uma cenoura desenhada.

O Martim pegou no coelho e leu o que estava escrito por baixo da cenoura: “Se quiseres avançar, devolve algo que não é teu.”

— Isso é fácil — disse o Duarte. — Eu nunca devolvo nada porque nunca empresto nada. Estratégia.

— É por isso que és bom a guardar segredos — picou o Rúben.

O Tiago olhou para o “Achados e Perdidos”. Dentro havia luvas desencontradas, uma fita do cabelo, um cachecol e um livro com uma etiqueta: “Pertence ao Simão, 6.º B”.

O Martim arregalou os olhos. — O Simão é da minha turma! Ele anda há semanas a dizer que o livro desapareceu.

— Então vamos devolver — disse o Tiago.

Foram até à escola ali perto, onde decoravam o pavilhão para a caça aos ovos do dia seguinte. O Simão estava a pendurar coelhinhos de cartolina com ar de quem preferia estar a jogar bola.

— Simão! — chamou o Martim. — Olha o teu livro!

O Simão recebeu o livro como se fosse um tesouro. — A sério? Vocês encontraram? Obrigado! Eu já achava que o livro tinha fugido por causa dos trabalhos de casa.

— Livros não fogem — disse o Duarte. — Eles planeiam. É diferente.

O Simão riu e, em troca, ofereceu-lhes quatro fitas coloridas para os pulsos.

— Para dar sorte amanhã — disse ele. — E… obrigado.

Quando os quatro saíram, o mapa voltou a reagir. A seta de chocolate transformou-se num pequeno desenho de sino e numa palavra: “JARDIM.”

— Próxima paragem — anunciou o Rúben — o jardim. E se houver patos, eu vou negociar com eles.

Capítulo 4 — O jardim dos ovos escondidos e a pista que fala

O Jardim Municipal estava todo enfeitado: ovos pintados pendurados nas árvores, fitas a dançar ao vento e uma fonte a brilhar como se alguém tivesse derramado prata líquida.

No centro do jardim havia uma tenda com voluntários a preparar cestos para crianças que, segundo um cartaz, “não podem receber ovos em casa”. A frase era simples, mas deu ao Tiago uma pontada no peito — não de tristeza, mas de vontade de ajudar.

— Olhem — disse ele. — Faz sentido com “o mais partilhado”.

Um voluntário, um senhor com barba de algodão-doce (não literalmente, mas quase), acenou-lhes. — Querem ajudar a encher os cestos?

O Duarte olhou para o mapa, depois para os cestos. — A caça ao ovo especial pode esperar cinco minutos.

— O Duarte acabou de dizer uma coisa que parece… generosa — murmurou o Rúben, teatral. — Alguém registe.

Os quatro começaram a trabalhar: colocar ovos de chocolate, amêndoas, cartões com mensagens. O Martim escreveu num cartão: “Que a tua Páscoa seja tão doce como um intervalo sem testes.” O Rúben escreveu: “Se um coelho te pedir a tua cenoura, negocia.” O Duarte escreveu apenas: “Força.” O Tiago desenhou um ovo com um sorriso.

Quando terminaram, o senhor da barba quase de algodão-doce entregou-lhes uma coisa: um pequeno apito dourado, em forma de cenoura.

— Isto apareceu aqui esta manhã — disse ele. — E agora parece querer ir convosco. Não perguntem porquê. Hoje, até as pombas têm planos.

O Tiago pegou no apito. Ao soprar, em vez de um som normal, ouviu-se uma voz fininha, como se o vento tivesse aprendido a falar:

“Quaaase. Procurem onde o sol se esconde antes de dormir.”

O Rúben deu um salto para trás. — Ok. Apitos normais não falam. O meu apito da escola só grita “corram”.

“Onde o sol se esconde” — repetiu o Martim. — Isso é… o pôr do sol. O lado oeste.

O Duarte apontou para o mapa, que agora tinha desenhado uma colina com uma cruz no topo: o Miradouro da Cruz Velha.

— Lá — disse ele. — E é a subir. Excelente para queimar o chocolate antes de o comer. Crueldade pura.

— Vamos — disse o Tiago. — O ovo especial está mesmo a chamar por nós.

Capítulo 5 — O miradouro, a caixa e a escolha difícil

A subida ao miradouro foi uma mistura de respiração ofegante e piadas para disfarçar.

— Se eu desmaiar, não comam os meus chocolates — pediu o Rúben, dramaticamente.

— Se desmaiares, eu como por ti, em tua honra — respondeu o Martim.

Quando chegaram ao topo, o mundo parecia maior. O sol começava a descer, alaranjado, e as casas lá em baixo pareciam peças de um jogo. A Cruz Velha estava ali, silenciosa, com musgo nas pedras e um ar de quem já tinha ouvido mil segredos.

Ao pé da cruz, meio escondida entre arbustos, havia uma caixa de madeira com um laço azul. O Tiago ajoelhou-se e levantou a tampa.

Dentro, não havia um ovo gigante nem um dragão. Havia quatro ovos médios, embrulhados em papel dourado, e uma carta.

O Tiago leu em voz alta:

“Se chegaram aqui, fizeram mais do que seguir setas: escolheram ajudar. O Ovo Especial não se encontra sozinho. Ele aparece quando se decide partilhar. Levem estes ovos… mas apenas se prometerem fazer uma coisa: multiplicar a alegria.”

Assinado: “C.B. — Coelho do Bairro”.

O Rúben coçou a cabeça. — Coelho do Bairro? Então existe mesmo?

O Duarte olhou em volta. — Eu não vejo coelho nenhum. Só vejo… um arbusto suspeito.

O arbusto mexeu-se. Por um segundo, pareceu que duas orelhas compridas apareceram. Depois, nada. Talvez fosse vento. Ou talvez o vento tivesse um ótimo sentido de humor.

O Martim pegou num dos ovos e sentiu-o mais pesado do que esperava. — Aposto que tem surpresa.

— Não é só isso — disse o Tiago, com o coração acelerado. — “Multiplicar a alegria.” Como?

Nessa hora, ouviram vozes na trilha: duas crianças mais novas subiam com uma senhora. Uma delas choramingava.

— Eu queria um ovo… — dizia o miúdo. — Mas cheguei tarde à caça…

A senhora tentava consolar. — Amanhã ainda há, querido.

Os quatro trocaram olhares. O chocolate, de repente, pareceu menos importante e mais… ferramenta.

— Temos quatro ovos — disse o Duarte, devagar. — Somos quatro. Matemática cruel outra vez.

O Tiago respirou fundo, como se estivesse a segurar uma decisão na boca. — Podemos dividir.

— Partilhar o ovo? — perguntou o Rúben, como quem fala de um crime delicioso.

— Sim — disse o Martim. — Ou… dar um.

O silêncio durou um segundo. Depois o Rúben encolheu os ombros. — Ok. Eu consigo viver com metade de um ovo. Mas vou reclamar alto, só para manter a minha reputação.

O Tiago agarrou um dos ovos e desceu dois passos até à família.

— Olá — disse ele, sorrindo. — Vocês querem um ovo? É… especial.

O miúdo parou de chorar como se alguém tivesse carregado num botão. Os olhos dele brilharam.

— A sério?

— A sério — confirmou o Tiago, e entregou o ovo.

As outras crianças olharam, e o Martim e o Duarte aproximaram-se também.

— Esperem — disse o Duarte. — Nós temos mais ideias do que ovos, mas… dá para improvisar.

O Rúben tirou do bolso as amêndoas que tinha comprado (sem ninguém notar) e deitou-as na mão da outra criança. — Toma. Explodem na boca. Não literalmente. Acho eu.

A senhora ficou com a voz presa num sorriso. — Obrigada, a sério.

Quando a família se afastou, aconteceu a coisa mais estranha e bonita da tarde: o ovo que o Tiago tinha dado começou a brilhar dentro do papel dourado, como se guardasse um pedacinho de pôr do sol. E os ovos que ficaram na caixa pareceram… mais leves, como se a alegria tivesse perdido peso e ganho asas.

— Então é isto — sussurrou o Tiago. — O ovo especial é o que se partilha.

Capítulo 6 — A Páscoa acende-se e a respiração final

No dia seguinte, a caça aos ovos no pavilhão foi uma confusão feliz: crianças a correr, pais a filmar, ovos escondidos em lugares tão óbvios que viravam piada.

— Este ovo estava atrás de um cone laranja — disse o Rúben, indignado. — Quem esconde um ovo atrás de um cone? Isso é tipo esconder um elefante atrás de um palito.

O Tiago trouxe o mapa no bolso, mas já não precisava dele como antes. A sensação era outra: como se agora ele tivesse um mapa por dentro, apontando para pessoas, não para lugares.

A bande de quatro juntou-se perto da mesa das doações — a escola tinha organizado, inspirada pelos voluntários do jardim, uma recolha de chocolates e brinquedos para famílias do bairro.

— Olha — disse o Martim, mostrando uma pilha de cestos a crescer. — Estão a multiplicar a alegria. Funcionou.

O Duarte assentiu, sério. — E ninguém morreu por partilhar chocolate. Eu, sinceramente, esperava mais drama.

— O drama está aqui — disse o Rúben, apontando para a própria barriga. — Estou vazio como um ovo de plástico.

Eles riram, e o Tiago tirou do bolso um pequeno embrulho: metade de um dos ovos dourados que tinham dividido na noite anterior.

— Eu guardei — disse ele. — Para nós.

Sentaram-se no banco do recreio, abriram o chocolate e partiram em quatro pedaços imperfeitos. O chocolate estalou com um som que parecia aplauso.

— Ao Coelho do Bairro — brindou o Rúben, levantando o pedaço.

— À solidariedade — disse o Martim.

— À matemática que afinal é gentil — acrescentou o Duarte.

O Tiago não disse nada por um instante. Olhou o céu limpo, as fitas a dançar, as crianças a rir, e sentiu que a Páscoa era isso: um brilho simples a passar de mão em mão.

Ele fechou os olhos e fez uma respiração profunda.

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Véspera
O dia antes de um evento importante, como a festa ou feriado.
Confettis
Pequenos pedaços de papel colorido usados para decorar festas.
Cera verde
Material mole e brilhante usado para selar cartas ou fazer velas.
Migalha
Pequena porção de comida, como um pedaço minúsculo de pão ou chocolate.
Letras inclinadas
Letras escritas com uma leve inclinação para um dos lados.
Origami
Arte de dobrar papel para criar figuras, como animais ou objetos.
Achados e Perdidos
Local onde se põem objetos que foram encontrados e não têm dono conhecido.
Voluntários
Pessoas que ajudam sem ganhar dinheiro, por boa vontade.
Apito dourado
Pequeno objeto que se sopra para fazer som, com aparência dourada.
Miradouro
Lugar alto onde se vai para ver a paisagem inteira da cidade.
Musgo
Planta pequena e macia que cresce sobre pedras e troncos em lugares húmidos.
Arbusto
Planta mais baixa que uma árvore, com muitos ramos e folhas.
PARTILHADO.
Algo que foi dividido entre várias pessoas, dado ou usado por todos.

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