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História sobre a Páscoa 11 a 12 anos Leitura 21 min.

A caça aos ovos e o coelho estagiário de monóculo

Tomás e Leonor seguem pistas deixadas por um coelho estagiário numa caça aos ovos cheia de enigmas, descobrindo que a verdadeira magia da Páscoa está na paciência, nas pequenas surpresas e na partilha em família.

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Um garoto de 12 anos, rosto redondo e cabelos castanhos curtos, segura delicadamente um pequeno ovo de chocolate embrulhado em papel colorido sentado à beira de um grande sofá; sua irmã de cerca de 6 anos, cabelo loiro em rabo de cavalo com laço rosa, aplaude sorrindo; a avó idosa, cabelos grisalhos em coque e rosto enrugado, recebe o ovo com as duas mãos, olhos marejados e sorriso terna, sentada ao lado do garoto; um coelhinho de pelúcia com monóculo dourado e pequeno chapéu observa sobre uma cadeira; a sala é luminosa, com sofá de almofadas coloridas, mesa de madeira com alguns ovos de Páscoa e uma janela que deixa entrar luz suave da manhã; cena de partilha familiar, atmosfera calorosa e íntima, cores em tons pastéis e formas simples. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O Cheiro do Chocolate no Ar

Na manhã de Páscoa, a luz entrava no quarto do Tomás como se alguém tivesse derramado sumo de laranja pelo céu. Ele tinha 12 anos e uma paciência rara para a sua idade — não daquela paciência de “esperar sentado sem mexer um músculo”, mas a paciência curiosa de quem observa, respira fundo e deixa as coisas acontecerem no tempo certo.

Do corredor vinha um cheiro que não enganava ninguém: chocolate.

— Tomááás! — chamou a mãe, com uma voz que parecia sorrir. — O coelho passou… ou pelo menos deixou pistas.

Tomás calçou as meias com pressa controlada, como quem quer correr mas promete a si mesmo não tropeçar na própria ansiedade. Ao abrir a porta do quarto, viu fitas coloridas penduradas na maçaneta do armário e pequenas pegadas de farinha no chão, como se alguém tivesse feito um caminho secreto de propósito.

— Farinha? — murmurou Tomás, agachando-se. Tocou nas pegadas com a ponta do dedo. — Ou o coelho cozinha… ou alguém fez uma bela confusão.

O pai apareceu com uma tigela na mão, a mexer o café como se fosse uma varinha mágica.

— Hoje há caça aos ovos no quintal. Regras oficiais: sem empurrões, sem drama, sem… — olhou para Tomás — …comer a pista antes de a seguir.

Tomás levantou as mãos, inocente.

— Eu? Nunca.

A irmã mais nova, a Leonor, surgiu atrás, com o cabelo despenteado e um laço enorme, como uma prenda que se tinha soltado.

— Eu vou ganhar! — anunciou, apontando para o ar, como se já visse um ovo invisível a brilhar.

Tomás sorriu. Gostava daquela agitação, da casa a acordar com risos e cheiros doces. E, mesmo antes de começar, sentiu uma coisa quente no peito: gratidão. Pela família, pelo dia luminoso, pelo simples facto de haver uma tradição que voltava todos os anos como um abraço.

— Obrigado — disse baixinho, sem saber bem a quem.

A mãe ouviu, mesmo assim. As mães têm esse superpoder.

— De nada, meu querido. Agora vai buscar o teu casaco. Há vento, e o coelho não espera por ninguém.

No bolso do casaco, Tomás encontrou um papel dobrado. Não era dele. Abriu com cuidado. Lá dentro, uma frase escrita com letras caprichadas:

“Para encontrar o primeiro ovo, segue a cor que não faz barulho.”

Tomás franziu a testa.

— Cor que não faz barulho? — repetiu, e sentiu um arrepio bom, como quando se está prestes a entrar num sítio desconhecido mas seguro.

Capítulo 2 — A Cor que Não Faz Barulho

O quintal estava vestido de festa: fitas nos ramos da laranjeira, balões presos à vedação, e um cestinho de verga à espera em cima de uma mesa. A relva tinha pequenas gotas de orvalho que brilhavam como mini espelhos.

O pai bateu palmas.

— Atenção, caçadores! Cada um com o seu cesto. Quem encontrar ovos, partilha as pistas com os outros. Páscoa também é isso: ninguém fica sem chocolate.

Leonor fez um som dramático.

— Ai, que injustiça!

— É justiça com açúcar — respondeu o pai, piscando o olho.

Tomás apanhou o seu cesto. A primeira pista rodopiava na cabeça: “segue a cor que não faz barulho.” Ele olhou em volta. Quase tudo tinha cor. Os balões balançavam e faziam barulho. As fitas farfalhavam. Até as flores pareciam sussurrar.

Então reparou numa coisa: junto ao muro, havia um banco de madeira pintado de branco. Branco era uma cor. E, se fosse “a cor que não faz barulho”… o branco lembrava silêncio, como neve (mesmo que ali nunca nevasse).

Tomás foi até ao banco. Passou a mão pela madeira fria. Debaixo do assento, encontrou uma pequena caixa com um laço azul. Abriu. Dentro estava um ovo de chocolate embrulhado em papel prateado e outra nota:

“Boa escolha, Tomás. A próxima pista está onde a água faz cócegas à pedra.”

Tomás arregalou os olhos.

— Quem escreve isto sabe o meu nome…

Leonor apareceu, a espreitar por cima do ombro.

— Encontraste o primeiro! Mostra!

Tomás mostrou o ovo, mas não o comeu. Cheirou-o apenas, como se fosse um troféu perfumado.

— A pista diz… água a fazer cócegas à pedra.

Leonor apontou logo para a mangueira.

— Vamos molhar pedras!

— Não é isso — disse Tomás, rindo. — Se eu começar a molhar tudo, a mãe transforma-me num bacalhau.

Do outro lado do quintal, havia uma fonte pequena, com um bico de cerâmica por onde a água caía num tanque de pedra. A água fazia um som leve, tic-tic, como dedos a bater devagar numa mesa.

— A fonte — disse Tomás.

Quando se aproximaram, sentiram o ar mais fresco, salpicado de gotinhas finas. Tomás passou a mão pela borda do tanque. Debaixo de uma pedra solta, encontrou um ovo de chocolate em forma de estrela e mais um bilhete.

“Agora procura onde a sombra guarda segredos ao meio-dia.”

Leonor torceu o nariz.

— Ao meio-dia a sombra é pequenina!

— Exatamente — respondeu Tomás. — Então o segredo está num sítio onde a sombra fica mesmo minúscula. Um sítio alto.

Olharam para a laranjeira, para o telheiro e para o poste do varal. E foi aí que Tomás viu: no centro do quintal havia um velho relógio de sol, herdado do avô, que quase ninguém usava. Ao meio-dia, a sombra era uma agulha fininha.

Tomás engoliu em seco, sentindo a aventura crescer, colorida, dentro dele.

— Vamos ao relógio de sol — disse, e Leonor seguiu-o como uma pequena tempestade animada.

Capítulo 3 — O Relógio de Sol e o Coelho Desconfiado

O relógio de sol estava um pouco coberto de musgo, mas as linhas ainda eram visíveis. Tomás ajoelhou-se, limpou com a manga e procurou qualquer coisa escondida.

— Se eu fosse um coelho… — murmurou.

— Tu serias um coelho muito alto — comentou Leonor, tentando subir-lhe às costas.

— Desce, meu mini-papagaio.

No meio do musgo, havia um pequeno desenho gravado: uma cenoura e uma seta a apontar para uma fenda minúscula. Tomás enfiou o dedo e puxou um cilindro de papel, enrolado como um pergaminho.

Abriu com cuidado. O papel cheirava a erva e a… canela?

A mensagem dizia:

“Para o próximo ovo, precisas de paciência. Senta-te, fecha os olhos por dez respirações e ouve o som mais pequeno do quintal.”

Leonor bufou.

— Isso é impossível. O som mais pequeno é… o meu pensamento?

Tomás deu uma gargalhada.

— Vamos tentar. Só dez respirações.

Sentaram-se na relva, ao lado do relógio. Tomás fechou os olhos e começou a contar. Um… dois… três… A princípio, ouvia tudo: o vento, um carro ao longe, a voz da mãe dentro de casa. Depois, aos poucos, os sons foram ficando mais separados, como se alguém baixasse o volume do mundo.

Na oitava respiração, Tomás ouviu um som quase invisível: um “toc… toc…” delicado, como uma noz a bater noutra.

Abriu os olhos. Leonor também.

— Ouviste? — perguntou Tomás.

— Sim! Vem dali! — Leonor apontou para a casota do cão, que naquele dia estava vazia porque o Max tinha ido passar a manhã na casa da avó.

O “toc… toc…” vinha de dentro da casota. Tomás aproximou-se devagar. A entrada tinha um pano pendurado, como uma cortina improvisada. Ele afastou-o.

Lá dentro, sentado muito direito, estava… um coelho. Mas não um coelho normal. Era de peluche, com um chapéu minúsculo e um monóculo preso por um fio dourado. E, por alguma razão, parecia estar a olhar para eles com seriedade.

— Isto é assustador… e fofo — sussurrou Leonor.

Tomás esticou a mão, hesitou, e tocou no coelho. O “toc… toc…” parou. O coelho inclinou a cabeça, como se acordasse.

— Bom dia — disse uma voz fininha.

Tomás ficou tão quieto que até a sua paciência ficou surpreendida com ele.

— Tu… falas?

— Claro. Hoje é Páscoa. Não é dia de coisas comuns — respondeu o coelho, com ar ofendido. — E, antes que perguntem: sim, eu sou uma espécie de ajudante. Não sou o Chefe Coelho. Sou… um estagiário.

Leonor arregalou os olhos.

— Um coelho estagiário! Isso existe?

— Infelizmente — respondeu o coelho, suspirando. — Tenho tarefas, prazos e muita gente a pedir ovos extra. Um caos delicioso.

Tomás riu, e o riso tirou-lhe o peso do espanto.

— As pistas foste tu que escreveste?

— Algumas. Outras foram do Chefe. Ele gosta de poemas. Eu prefiro listas, mas ninguém me pergunta — disse o coelho, ajustando o monóculo. — Encontrei em ti uma coisa importante: paciência. E paciência abre portas. Às vezes, portas bem pequenas.

O coelho apontou com a patinha para um compartimento secreto na parede da casota. Tomás abriu e encontrou dois ovos de chocolate com desenhos pintados a açúcar: um com uma lua e outro com um sol.

Havia também uma nova nota:

“Para ires mais longe, leva contigo uma gratidão bem dita.”

Tomás olhou para Leonor. Depois para o coelho.

— Gratidão bem dita… tipo… dizer obrigado em voz alta?

— Exatamente — disse o coelho. — O mundo melhora quando alguém reconhece o que recebeu.

Tomás respirou fundo. Não era difícil, mas às vezes esquecia-se.

— Obrigado, coelho… estagiário. E obrigado por esta manhã.

O coelho sorriu e fez uma pequena vénia.

— Perfeito. Agora, a próxima pista está dentro de casa. E cuidado: há um lugar onde as migalhas contam histórias.

Capítulo 4 — Migalhas com Memória

Dentro de casa, a cozinha parecia um laboratório alegre: tigelas, colher de pau, cascas de ovos verdadeiros (dos da omelete), e um bolo de cenoura ainda morno em cima do balcão. As migalhas eram pequenas ilhas douradas.

A mãe estava a cortar fruta e olhou para os dois, que entraram com os cestos meio cheios.

— Então, exploradores? — perguntou ela.

Leonor falou primeiro, sem conseguir segurar as palavras.

— Mãe, há um coelho na casota! E ele tem monóculo! E fala!

A mãe levantou uma sobrancelha.

— Ah, sim. O coelho com monóculo. Um clássico da Páscoa. — E piscou o olho a Tomás, como se dissesse: “deixa a magia viver”.

Tomás mordeu o lábio para não se rir.

— A pista diz que há um lugar onde as migalhas contam histórias — disse ele.

O pai, que estava a lavar uma chávena, apontou com o queixo.

— Talvez a torradeira. As migalhas lá dentro devem ter escrito um romance.

Leonor já estava quase a enfiar a mão na torradeira.

— Nem penses! — disse Tomás, puxando-a pelo laço. — As migalhas não valem dedos tostados.

Tomás olhou para a mesa da cozinha. Havia uma toalha com padrões de coelhinhos e, em cima, um prato com fatias de pão-de-ló. Ao lado, um pano dobrado e, por cima do pano, um pequeno montinho de migalhas — como se alguém as tivesse deixado ali de propósito.

Ele levantou o pano. Debaixo estava um envelope amarelo, fechado com uma gota de cera cor-de-rosa. Tomás abriu. Lá dentro, uma folha com letras bonitas:

“Vai ao lugar onde guardas coisas que já quase esqueceste. Lá, a cor mais alegre vai estar à tua espera.”

Tomás pensou no seu quarto, mas a frase “coisas que já quase esqueceste” puxou-lhe outra imagem: a arrecadação, onde ficavam caixas antigas, jogos de tabuleiro sem peças, a bicicleta pequena de Leonor e uma mala com fotografias do avô.

— A arrecadação — disse ele.

Leonor fez um som de suspense, como se fosse narradora de filme.

— Tan-tan-tannnn!

Foram até à porta da arrecadação. Cheirava a madeira, pó e memórias. Tomás acendeu a luz. A lâmpada piscou uma vez, como se também estivesse a acordar.

No canto, havia uma caixa com o nome “PÁSCOA” escrito a marcador, provavelmente pelo pai há anos. Tomás abriu. Lá dentro: decorações antigas, ovos de plástico pintados, fitas, e um coelhinho de papel que ele tinha feito quando era mais pequeno. Ao lado do coelhinho, brilhava um ovo grande embrulhado em papel dourado, com uma etiqueta: “Para o Tomás, que sabe esperar.”

Tomás sentiu um nó bom na garganta.

— Isto… foi o pai e a mãe que fizeram? — perguntou, baixinho.

O pai apareceu à porta, fingindo casualidade, mas com os olhos a brilhar.

— Digamos que tivemos ajuda de um estagiário muito exigente.

Leonor cruzou os braços.

— Eu também quero um ovo com etiqueta!

A mãe riu.

— Ainda tens pistas para encontrar, minha caçadora.

Tomás segurou o ovo dourado com cuidado, como se fosse frágil. E, por um momento, percebeu: a magia não era só o coelho que falava. Era a família a construir um dia especial, com atenção e carinho.

— Obrigado — disse Tomás, olhando para os pais. — A sério.

O pai coçou a nuca, meio envergonhado.

— De nada, campeão. Mas… — apontou para o envelope — ainda falta uma coisa, não falta?

Dentro da caixa “PÁSCOA” havia mais um papel. Tomás pegou nele. Era a última pista:

“Para terminares a caça, entrega um ovo a alguém antes de comeres o teu. Depois, vai ao sofá. O final vai estar onde descansas a cabeça.”

Capítulo 5 — Um Ovo Oferecido

Tomás saiu da arrecadação com o ovo dourado no cesto e ficou parado no corredor, a pensar. “Entrega um ovo a alguém antes de comeres o teu.”

Leonor já estava a abrir um ovo pequeno, com uma rapidez impressionante.

— Leonor… — começou Tomás, com tom de irmão mais velho responsável.

— Eu sei, eu sei! — ela disse, a esconder o ovo atrás das costas. — Eu vou oferecer… depois de provar se não está estragado.

— Isso não é oferecer. Isso é… inspeção comestível.

Leonor deu uma gargalhada e correu para a sala.

Tomás olhou para o seu cesto. Tinha vários ovos: o prateado, o de estrela, o sol e a lua, e o dourado. Pegou no ovo em forma de estrela e pensou em quem oferecer.

A avó estava na cozinha, a chegar com um casaco leve e um saco de pano. Ela vinha sempre com qualquer coisa: um doce, uma história, uma palavra certa.

— Avó! — chamou Tomás.

Ela virou-se, com um sorriso que parecia conhecer todos os segredos do mundo.

— Oh, meu rapaz. Já tens o cesto cheio de tesouros?

Tomás estendeu o ovo de estrela.

— Este é para ti. Antes de eu comer qualquer um.

A avó ficou com os olhos húmidos, mas sem drama. Apenas ternura.

— Obrigada, Tomás. Sabes… há presentes que valem mais pelo gesto do que pelo chocolate.

Tomás encolheu os ombros, meio sem jeito.

— A pista mandou.

A avó riu, baixinho.

— E tu obedeceste com o coração. Isso nota-se.

Ela desembrulhou o ovo, partiu um pedaço e ofereceu-lho.

— Partilhamos?

Tomás aceitou. O chocolate derreteu na língua como uma pequena festa. E, nesse instante, a casa pareceu ainda mais luminosa.

Leonor apareceu, com chocolate no canto da boca.

— Avó, eu também te ofereci um ovo! — disse ela, muito séria.

A avó olhou para as mãos vazias.

— Ofereceste?

Leonor apontou para a própria barriga.

— Está aqui dentro. Guardei no lugar mais seguro.

O pai quase engasgou com o café.

— Leonor!

A avó abanou a cabeça, a rir.

— Muito bem. Para a próxima, guarda-me um bocadinho fora do estômago.

Tomás olhou para o papel da pista e sentiu que estavam a chegar ao fim.

“Depois, vai ao sofá. O final vai estar onde descansas a cabeça.” — leu ele.

O sofá da sala tinha almofadas grandes, macias, com capas coloridas. Tomás aproximou-se, curioso. Leonor veio atrás, como sempre.

— Será que há um ovo dentro da almofada? — perguntou ela.

— Espero que não derreta — disse Tomás.

Ele levantou uma almofada. Nada. Levantou outra. Nada. Depois olhou para a maior de todas, um almofadão quadrado onde costumava encostar a cabeça para ver filmes.

No centro do almofadão havia uma costura diferente, como uma boca escondida. Tomás enfiou os dedos e sentiu um papel.

Puxou. Era uma última nota, dobrada em quatro:

“Parabéns, caçador paciente. A verdadeira magia é reparar no que já tens. Agora, fecha os olhos por um segundo e agradece. E quando estiveres pronto, termina com um gesto suave: um coussin tapoté.

Tomás piscou. A frase final estava em francês, como se o bilhete tivesse viajado.

— O que é “coussin tapoté”? — perguntou Leonor, desconfiada.

A avó, atrás deles, respondeu como se estivesse a ler um dicionário invisível.

— Quer dizer… uma almofada dada com tapinhas. Um carinho.

Tomás fechou os olhos por um segundo. Pensou no sol, nos ovos, no coelho estagiário, na avó, nos pais, na irmã e até nas pegadas de farinha. Sentiu-se cheio de um tipo de alegria que não fazia barulho.

— Obrigado — disse, em voz baixa, deixando a palavra pousar no ar como pena.

E então, com cuidado e humor, deu dois tapinhas na almofada grande. Tap-tap. Um coussin tapoté, como mandava a pista.

Nesse mesmo instante, algo quase imperceptível aconteceu: a almofada pareceu suspirar, satisfeita. Ou talvez fosse só a imaginação de Tomás a brincar com o dia.

Leonor, obviamente, não aguentou.

— Eu também! — E começou a dar tapinhas na almofada, como se fosse um tambor. — Tap-tap-tap-tap!

O pai levantou as mãos.

— Atenção! Estamos a entrar em excesso de tapoté!

A mãe riu e puxou todos para um abraço apertado, com cheiro a bolo de cenoura e chocolate.

Tomás olhou à sua volta, para a sala cheia de cor, para a família junta, para o cesto no chão como um mapa de tesouros cumprido. E percebeu que a Páscoa tinha terminado do jeito certo: com doçura, partilha, gratidão… e uma almofada tapotada no momento exato.

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Paciência
Capacidade de esperar calmo, sem se irritar, quando algo demora.
Sumo
Líquido que se tira de frutas, como o de laranja para beber.
Orvalho
Pequenas gotas de água que aparecem nas plantas de manhã.
Pergaminho
Papel enrolado, antigo, usado para guardar mensagens ou notas.
Estagiário
Pessoa que aprende um trabalho, ajudando enquanto pratica.
Monóculo
Lente redonda que se usa num olho só para ver melhor.
Vénia
Gestor de respeito, tipo curvar-se ou inclinar a cabeça.
Arrecadação
Lugar em casa onde se guardam caixas, tralhas e coisas antigas.
Migalhas
Pedaços pequenos de pão ou bolo que ficam quando se come.
Coussin tapoté
Expressão em francês usada no texto que significa dar tapinhas na almofada.

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