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História sobre a Páscoa 11 a 12 anos Leitura 29 min.

O ovo estrelado e a promessa da Primavera

Durante uma caça aos ovos, Tomás, Sara e Malik seguem pistas de um ovo misterioso que os desafia a praticar justiça e partilha; juntos enfrentam provas que os aproximam e despertam um gesto de Primavera para a comunidade.

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Um menino de 12 anos, cabelo castanho‑claro despenteado, joelhos sujos e sorriso concentrado, ajoelhado a plantar uma semente num buraco com uma pequena pá de madeira na mão direita; à direita, uma menina de ~12 anos (Sara), cabelo castanho em rabo‑de‑cavalo, expressão travessa e calorosa, rega suavemente uma fila de buracos com um regador pastel; ligeiramente atrás, um menino de ~12 anos (Malik), pele mais escura e cabelo curto, tímido porém orgulhoso, segura uma caixinha de sementes aberta e oferece uma semente; ao fundo à esquerda, um idoso sentado num banco (cerca de 70 anos, bigode grisalho) sorri com um saco de amêndoas ao lado. Local: jardim comunitário ensolarado com pequena fonte de pedra pingando, escorrega metálico branco ao fundo direito, canteiros de terra escura, fitas coloridas nas árvores e placa escrita à mão. Cena: três crianças plantam sementes de um saquinho azul estrelado, mãos sujas, gestos sincronizados, atmosfera alegre e cooperativa; em primeiro plano, o saquinho azul aberto com estrelas e um cartão dobrado ao lado escrito "Para quem partilha". Paleta: tons pastéis quentes (amarelo pálido, menta, azul céu), detalhes dourados nas estrelas, texturas de papel e madeira, estilo cartoon retrô com traços pretos grossos e contornos suaves. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O ovo que parecia ouvir

Na manhã de sábado, a casa cheirava a pão doce e a chocolate derretido. O sol entrava pela janela da cozinha como se tivesse acordado com pressa, brilhando nas tigelas e nas fitas coloridas que a mãe do Tomás espalhara pela mesa.

Tomás tinha 12 anos e uma mania: dizer a verdade mesmo quando dava trabalho. Não era perfeito — às vezes resmungava, às vezes atrasava-se —, mas não conseguia engolir uma mentira sem sentir um nó na garganta.

— Tomás! — chamou a mãe, com um avental cheio de farinha. — Podes pôr os guardanapos? E sem fazer o “caminho de migalhas” pelo corredor, por favor.

— Eu? Migalhas? Eu sou uma alma limpa — respondeu ele, apanhando um pacote e fingindo ofensa.

No quintal, as crianças do prédio já andavam aos pulos. A tradição era sempre a mesma: esconder ovos de chocolate no jardim comum e fazer uma caça ao tesouro com risos, dedos pegajosos e algum drama.

— Este ano eu vou ganhar — anunciou a Sara, a vizinha do terceiro andar, assim que viu o Tomás.

— Vais ganhar… em “pessoas que falam alto”, talvez — devolveu ele, a rir.

Quando saíram para o jardim, havia cestos, papel colorido e um coelho de peluche pendurado numa árvore, como se tivesse tentado escalar e desistido a meio.

Tomás correu entre arbustos e canteiros. Apanhou dois ovos pequenos e um grande, embrulhado em papel azul com estrelas prateadas. O embrulho não tinha etiqueta, nem nome, nem nada. Só um laço tão bem feito que parecia ter sido treinado.

— Boa! — disse o pai, quando Tomás mostrou o ovo. — Esse é especial.

Tomás virou-o na mão. O chocolate parecia diferente: mais liso, mais brilhante, como se guardasse um segredo.

— Onde estava? — perguntou a mãe.

Tomás respirou fundo. Podia dizer “atrás do banco”, e ninguém ia confirmar. Mas o nó na garganta já começava.

— Estava… dentro do regador velho, ao lado da mangueira. Acho que alguém o colocou lá mesmo para não derreter ao sol.

A Sara aproximou-se, olhos afiados.

— Eu vi um embrulho azul perto do regador! — reclamou. — Eu ia lá agora!

Tomás encolheu os ombros, honesto como sempre.

— Eu fui primeiro. Mas… podemos dividir, se quiseres.

A Sara abriu a boca para dizer “não”, fechou-a, abriu outra vez.

— Dividir? Mesmo?

— Mesmo. Páscoa é para isso também, não é? Para não ser só “eu eu eu”.

Ela hesitou e, como se tivesse engolido uma nuvem, acabou por sorrir.

— Está bem. Meio a meio.

Tomás assentiu. Só que, quando foi partir o ovo, sentiu uma vibração pequenina. Quase como um “toc toc” vindo lá de dentro.

— Ouviste isso? — perguntou ele.

— Eu ouvi foi a minha barriga — respondeu a Sara, mas encostou o ouvido ao chocolate. — Ok… ouvi qualquer coisa.

Tomás procurou a junção do chocolate e, com cuidado, separou as metades. Em vez de um brinquedo, havia um envelope minúsculo, cor de primavera, com letras douradas:

“Para quem partilha com justiça.”

Tomás olhou para a Sara.

— Acho que isto é para nós dois.

Ela puxou uma ponta do envelope, como quem puxa a cortina de um palco.

— Abre, abre!

Tomás abriu. Lá dentro havia um papel dobrado em quatro e um desenho de um coelho a piscar o olho. No papel, uma mensagem:

“Desafio do Ovo Estrelado: encontra as Três Marcas da Primavera. Só com equidade o segredo se revela. Começa onde a água canta.”

Tomás sentiu o coração dar um salto.

“Onde a água canta”… Isso é onde?

A Sara apontou para o fontanário do jardim, aquele que fazia um som constante, tipo “plim-plim”, quando a torneira pingava.

— Lá. E anda depressa, antes que alguém descubra!

Tomás segurou o papel com cuidado, como se fosse um mapa de piratas. O dia parecia mais claro do que há cinco minutos. Ou talvez fosse só a Páscoa a fazer truques.

Capítulo 2 — Onde a água canta

O fontanário ficava encostado ao muro, com musgo nas pedras e uma torneira que pingava desde “sempre”, segundo o senhor Aníbal do rés-do-chão. Diziam que ninguém conseguia consertar, mas o Tomás suspeitava que o fontanário gostava de cantar e fingia estar estragado.

Tomás e Sara aproximaram-se como detetives.

“Começa onde a água canta” — leu a Sara, em voz baixa, como se a frase pudesse fugir.

— Ok. O que procuramos? Marcas da Primavera… tipo flores?

— Ou tipo… sinais secretos. Como em filmes.

Tomás agachou-se. Havia folhas secas, duas tampas de garrafa e um caracol a atravessar o mundo na velocidade de uma ideia preguiçosa. Ele afastou as folhas e viu algo brilhante: uma pastilha de metal, em forma de gota, presa entre as pedras. Tinha gravado um símbolo: uma flor simples com três pétalas.

— Achei uma marca! — sussurrou.

A Sara bateu palmas sem fazer barulho. Um talento raro nela.

— Tira!

Tomás tentou puxar, mas a pastilha não saía. Então reparou num risco ao lado, como uma fenda para encaixar algo.

— Deve precisar de… não sei. Uma moeda? Uma chave?

A Sara remexeu no bolso e tirou duas moedas e um rebuçado meio colado no papel.

— Tenho isto. E… um rebuçado heróico.

Tomás riu.

— A moeda serve.

Ele encaixou uma moeda na fenda e rodou. A pedra ao lado deslizou um milímetro — como se piscasse — e a pastilha soltou-se, caindo na mão dele com um “tic”.

No mesmo instante, a torneira pingou três vezes seguidas, mais rápidas, como aplausos.

— Ok… isto foi estranho — disse Tomás.

— Isto foi incrível — corrigiu a Sara, com os olhos a brilhar.

Tomás virou a pastilha. No verso, havia letras minúsculas:

“1ª Marca: A gota justa. Partilha sem contar, conta sem enganar.”

“Gota justa”… — murmurou ele. — Equidade, outra vez.

— Isso é tipo… dividir direito.

— Sim. Não é só dividir ao meio. É dividir de forma justa.

A Sara cruzou os braços.

— Então, se alguém tem mais fome, talvez precise de mais, mesmo que não seja metade.

Tomás olhou para ela, surpreendido.

— Uau. Isso foi… maduro.

— Não te habitues — respondeu ela, mas sorriu.

O papel do desafio tinha um espaço em branco no canto, como se fosse para colar algo. Tomás encostou a pastilha à folha. Ela prendeu-se sozinha, como um íman, e surgiu uma linha nova no papel, escrita como se uma caneta invisível estivesse a correr:

“Segue a cor que não é cor. Procura o arco que não é arco.”

Sara franziu o nariz.

— Cor que não é cor? Arco que não é arco? Isto é um poema ou um enigma?

— Talvez os dois.

Tomás levantou-se e olhou em volta. O jardim estava cheio de cores: amarelos, verdes, rosas, fitas e cestos. E havia uma coisa que “não era cor”: branco. Ou transparente.

— A cor que não é cor… pode ser o branco. E o arco que não é arco… um arco-íris falso? Ou um… arco de baloiço?

Sara apontou para o parque infantil.

— O escorrega! Tem aquela parte em arco. E é metálico, cinzento… “cor que não é cor”.

Tomás hesitou, mas o desafio parecia empurrá-los com a curiosidade.

— Vamos ao escorrega.

Ao correrem, Tomás notou que o senhor Aníbal os observava, sentado no banco, com um saco de amêndoas na mão e um ar de quem sabe coisas.

— Bom domingo, jovens exploradores — disse ele, com um sorriso.

Tomás parou um segundo.

— O senhor… sabe disto?

O senhor Aníbal piscou o olho, devagar.

— Eu só sei que a Primavera gosta de gente justa. E que o chocolate, às vezes, fala mais do que parece.

Sara puxou o Tomás pela manga.

— Anda! Antes que ele comece a falar em charadas também!

Tomás riu e correu. Mas a frase ficou a ecoar: “a Primavera gosta de gente justa”. Como se fosse uma regra antiga, escrita em folhas.

Capítulo 3 — O arco que não é arco

O escorrega brilhava ao sol e estava tão quente que dava vontade de o cumprimentar de longe. A parte de cima tinha um corrimão em arco, e o metal era quase branco, quase cinzento — uma “cor que não é cor”, talvez.

Tomás passou a mão pelo corrimão. Sentiu uma vibração leve, como quando se encosta a mão numa coluna de som.

— Não me digas que isto também “ouve” — murmurou.

— Se começar a cantar, eu fujo — disse a Sara. — Ou fico. Depende da música.

Eles procuraram por riscos, marcas, adesivos. Nada. Tomás subiu os degraus e olhou para baixo: o jardim parecia um tapete de festa, com as crianças a correr e os adultos a conversar.

— Talvez esteja por baixo — sugeriu ele.

A Sara, que já se tinha deitado no chão sem qualquer cerimónia, apontou.

— Aqui! Debaixo da plataforma!

Havia uma pequena placa, quase escondida, com um símbolo: um arco com uma estrela no meio. Mas a placa tinha dois espaços para colocar algo, como se precisasse de… duas peças.

— Só temos uma marca — disse Tomás.

— Então falta-nos outra para ativar isto — respondeu a Sara, com a lógica de quem joga videojogos demais.

Tomás tirou a pastilha da gota do papel e aproximou-a da placa. Nada aconteceu. A placa continuou muda, teimosa.

— Ok. Precisamos da segunda marca primeiro.

O papel do desafio ainda tinha a linha enigmática, mas talvez houvesse outra pista escondida. Tomás virou o papel contra a luz. Apareceram letras claras, como uma marca de água:

“Não corras sozinho. A justiça precisa de dois passos.”

Sara arregalou os olhos.

— Dois passos… dois de nós?

— Ou duas pessoas em geral. Talvez seja para não fazermos isto sozinhos.

Sara cruzou o olhar com ele, menos brincalhona por um segundo.

— Tomás… o ovo foi teu. Tu podias ter ficado com tudo.

— Mas não fiquei.

— Pois. Então vamos até ao fim juntos.

Tomás assentiu, sentindo uma espécie de calor bom no peito, que não era do sol. Eles olharam em volta, à procura de “onde” poderia estar a segunda marca.

Nesse momento, uma discussão começou perto da mesa dos doces. Dois miúdos mais novos, o Tiago e a Leonor, estavam de braços abertos sobre um cesto.

— Eu encontrei primeiro! — dizia o Tiago.

— Mas eu vi! E tu já tens muitos! — respondia a Leonor, quase a chorar.

A mãe deles tentava acalmar, mas os dois estavam presos numa batalha de “meu” e “meu”.

Tomás aproximou-se devagar.

— O que se passa?

A Leonor apontou para o cesto.

— Ele apanhou os ovos grandes todos!

Tiago apertou o cesto como se fosse um tesouro.

— Eu corri mais rápido!

Tomás olhou para os ovos: havia mesmo muitos no cesto do Tiago, e poucos no da Leonor. A mãe deles suspirava, cansada.

Sara aproximou-se também, e Tomás viu que ela estava a observar em silêncio, como se o desafio tivesse saltado para a vida real.

Tomás falou com calma:

— Tiago, podes ficar com alguns, claro. Mas… parece justo que a Leonor também tenha chance. Não é “metade por metade” só por ser bonito. É para ficar equilibrado.

Tiago franziu a testa.

— Mas eu ganhei!

— Ganhaste em correr — disse Tomás. — Não em fazer a Páscoa ser divertida para todos.

Sara acrescentou, surpreendendo até ela própria:

— Se tu tens dez e ela tem dois, a tua alegria já nem cresce com mais um. Mas a dela cresce muito. Isso é… justiça esperta.

Tiago olhou para os ovos, depois para a Leonor. A cara dele amoleceu.

— Tá bem… — murmurou. — Dou-te três grandes e… quatro pequenos.

Leonor limpou o nariz com a manga e assentiu.

— Eu dou-te uma amêndoa da minha parte — disse ela, generosa.

Tiago riu-se.

— Feito.

No instante em que os ovos mudaram de mãos, Tomás sentiu o papel do desafio vibrar no bolso, como um telemóvel em modo silencioso. Ele tirou-o: uma nova frase apareceu, brilhando por um segundo:

“2ª Marca: O equilíbrio. A alegria cresce quando é partilhada.”

E, como se a Páscoa estivesse mesmo a observar, uma coisa caiu do cesto da Leonor: uma pastilha de metal em forma de folha verde, com um símbolo de broto.

— Olha! — exclamou Sara. — Caiu daí!

Leonor piscou os olhos.

— Eu nem sabia que tinha isso…

Tomás apanhou a pastilha. Era leve e quente, como se tivesse sido guardada ao sol.

— Obrigado — disse ele à Leonor. — E… boa caça.

Ela sorriu, já sem lágrimas.

— Boa magia.

Tomás e Sara trocaram um olhar. “Boa magia” soava a… confirmação.

Capítulo 4 — A placa desperta

De volta ao escorrega, Tomás colocou a pastilha da gota num dos espaços da placa e a pastilha da folha no outro. A placa fez um “clac” suave, como uma porta a destrancar.

O metal do arco aqueceu, mas não como fogo — como mãos a aplaudir.

Uma linha de luz percorreu o corrimão, desenhando um arco brilhante que durou só um segundo. Depois, no centro da placa, surgiu uma pequena abertura. Lá dentro havia… uma terceira peça? Não. Havia um pequeno coelho de madeira, tão pequeno que cabia na palma da mão, com olhos pintados e uma mochila.

— Ele tem uma mochila! — disse a Sara, encantada.

Tomás abriu a mochilinha do coelho. Dentro, um pedaço de papel enrolado e um grão de chocolate em forma de estrela.

Ele desenrolou o papel:

“Se a justiça te guiou, falta-te a Marca do Recomeço. Procura onde o inverno ficou preso. Leva contigo alguém que ficou de fora.”

Sara leu por cima do ombro.

“Onde o inverno ficou preso”… Isso é… o quê? O congelador do senhor Aníbal?

Tomás riu.

— Talvez o sítio mais sombrio e frio do jardim. A garagem? Ou a arrecadação?

Eles olharam para o prédio. Havia uma porta metálica ao fundo do pátio, que dava para a arrecadação comum. Ficava quase sempre fechada, e era ali que guardavam as luzes de Natal fora de época — o que, tecnicamente, era “inverno” em versão elétrica.

— Pode ser ali — disse Tomás.

— E “leva contigo alguém que ficou de fora” — lembrou Sara. — Quem é que ficou de fora?

Tomás pensou. No jardim, havia um miúdo sentado sozinho no degrau da entrada, a ver os outros brincarem. Era o Malik, novo no prédio, que ainda falava português com cuidado, como quem atravessa uma poça para não molhar os pés.

Tomás aproximou-se.

— Olá, Malik. Estás bem?

Malik encolheu os ombros.

— Estou… só a ver.

Sara, que normalmente falava depressa, abrandou:

— Queres vir connosco numa coisa? É uma caça ao tesouro… mas diferente.

Malik olhou desconfiado.

— Eu não corro muito rápido.

Tomás abanou a cabeça.

— Não é de correr. É de… pensar e ajudar. E somos três. Fica mais justo.

A palavra “justo” pareceu dar ao Malik uma coragem pequena, mas firme.

— Eu vou — disse ele.

Os três caminharam até à porta metálica. A maçaneta estava fria. Tomás tentou abrir, mas estava trancada.

— Ótimo — disse Sara. — Agora precisamos de uma chave mágica.

— Ou de perguntar a um adulto — respondeu Tomás.

Sara fez uma careta.

— Adultos… sempre a estragar o clima.

Mas Tomás já tinha aprendido que pedir ajuda também podia ser justo, especialmente quando se trata de regras do condomínio.

Foram até ao senhor Aníbal, que continuava no banco.

— Senhor Aníbal, a porta da arrecadação está trancada. Precisamos de entrar… para uma coisa da Páscoa — disse Tomás, tentando não soar demasiado “maluco”.

O senhor Aníbal levantou uma sobrancelha, divertido.

— Uma coisa da Páscoa, hein? — Ele tirou um molho de chaves do bolso, como se fosse um feiticeiro urbano. — A chave certa não é a mais brilhante. É a que serve.

— Isso foi filosófico — comentou Sara.

— Eu tenho dias — respondeu ele, entregando a chave ao Tomás. — E levem uma lanterna. O “inverno” adora cantos escuros.

Dentro da arrecadação, o ar cheirava a cartão, tinta velha e pinheiro artificial. Havia caixas com letras: “NATAL”, “LÂMPADAS”, “ENFEITES”. Numa prateleira, um boneco de neve de plástico olhava para eles com um sorriso fora de época.

— Olha, o inverno preso — sussurrou Malik, apontando para o boneco de neve.

Tomás aproximou-se. No pescoço do boneco, pendia uma fita azul — igual ao embrulho do ovo misterioso. E na base havia um símbolo gravado: um sol a nascer atrás de uma colina.

— Deve ser a terceira marca — disse Tomás.

Mas havia um problema: o símbolo estava por trás de uma caixa pesada.

— Eu ajudo — disse Malik, puxando a caixa.

Sara tentou também. A caixa mal mexeu.

— Isto pesa mais do que os meus trabalhos de matemática — resmungou ela.

Tomás olhou para o Malik.

— Vamos fazer isto de forma justa. Não é o mais forte que faz tudo. É cada um fazer a sua parte.

Ele pensou rápido:

— Malik, tu és bom a encontrar jeito nas coisas. Consegues ver se há um lado mais leve? Sara, tu empurras comigo aqui, e o Malik puxa pelo outro lado.

Malik assentiu e examinou a caixa.

— Aqui tem uma alça. Se puxarmos por aqui, desliza.

— Boa! — disse Tomás.

Juntos, empurraram e puxaram. A caixa rangeu, deslizou uns centímetros e revelou o símbolo do sol. Ao lado, estava presa a terceira pastilha: dourada, redonda, quente como um raio de luz.

Quando Tomás tocou nela, ouviu-se um som suave — não vindo de um lugar específico, mas do ar: como sininhos muito ao longe.

No verso da pastilha, lia-se:

“3ª Marca: O recomeço. A Primavera é para todos.”

Sara respirou fundo.

— Ok. Isto está oficialmente… mágico.

Malik sorriu, finalmente solto.

— No meu país, a minha avó dizia que a Primavera é uma promessa. Talvez seja isso.

Tomás guardou as três pastilhas no papel do desafio. Elas encaixaram como peças num jogo. O papel brilhou, e uma frase final apareceu:

“Volta ao Ovo Estrelado. Abre-o com três mãos e uma regra: ninguém fica para trás.”

Capítulo 5 — Três mãos e uma regra

No jardim, a festa continuava. Havia crianças com chocolate na cara e adultos a fingir que não estavam a comer os doces “só para provar”. O sol estava mais alto, e o ar parecia cheio de confetes invisíveis.

Tomás trouxe o ovo azul — as duas metades embrulhadas de novo, porque ele era do tipo que tentava manter tudo inteiro mesmo quando já tinha sido partido. Sara trouxe o papel com as três marcas coladas. Malik trazia a lanterna, como se fosse um troféu.

Sentaram-se num banco. Tomás colocou o ovo no meio.

“Abre-o com três mãos” — leu ele. — Mas somos três pessoas. Devia dizer “seis mãos”.

Sara apontou para o detalhe:

— Diz “três mãos”. Talvez seja… uma mão de cada.

Malik colocou a mão direita no ovo, com cuidado.

Sara colocou a esquerda, sem dramatizar. Tomás colocou a sua por cima, fechando o “triângulo”.

— E a regra — lembrou Tomás. — “Ninguém fica para trás.”

Ele olhou para a Sara e Malik.

— Prometemos?

— Prometo — disse Malik, simples.

— Prometo… e se alguém tentar ficar para trás de propósito, eu vou puxá-lo — brincou a Sara, mas a voz dela estava quente.

Tomás respirou e levantou a metade de cima do ovo. A luz pareceu concentrar-se ali, como se o chocolate fosse uma lupa.

Lá dentro, em vez de brinquedo, havia um pequeno saquinho de pano com estrelas bordadas. E, preso ao saquinho, um cartão:

“O segredo do Ovo Estrelado não é um prémio. É um começo.”

Tomás abriu o saquinho. Dentro havia… sementes. Pequenas, castanhas, comuns. E um segundo papel, dobrado com cuidado:

“Planta estas sementes onde todos possam ver. Rega com paciência. Quando nascerem as primeiras flores, oferece chocolate a quem partilha o banco com alguém sozinho. A equidade é a magia que dura.”

Sara ficou a olhar para as sementes, confusa.

— Espera… o grande tesouro são… sementes?

Tomás segurou uma, entre dois dedos.

— Sementes viram jardim.

Malik inclinou-se para ler outra linha que aparecia no papel, como uma assinatura:

“Com carinho, o Coelho que não carrega tudo sozinho.”

Sara bufou uma risada.

— Um coelho sindicalista.

Tomás riu, e Malik também, mesmo sem entender completamente a palavra. O riso dos três ficou pendurado no ar como bandeirolas.

— Onde plantamos? — perguntou Malik.

Tomás olhou para o canteiro vazio ao lado do fontanário, onde a água “cantava”. Parecia certo voltar ao começo.

— Ali. E vai ser para todos. Sem “este pedaço é meu”.

Sara levantou um dedo.

— Mas temos de fazer direito. Se plantarmos tudo num canto, só um lado vai ver. Vamos espalhar, para ficar justo.

Tomás assentiu, admirado.

— Isso é equidade.

Com uma pá pequena emprestada pela mãe do Tomás e com a paciência do Malik, abriram pequenos buracos. Plantaram as sementes em linha, mas com espaço, como se estivessem a desenhar uma frase no chão.

Depois, cada um regou um pouco. A água pingou e o fontanário fez “plim”, “plim”, como se aprovasse.

O senhor Aníbal aproximou-se, devagar, como quem não quer assustar uma ideia.

— Então? O ovo falou?

Tomás mostrou as mãos sujas de terra.

— Falou com… sementes.

O senhor Aníbal sorriu.

— A melhor magia é a que dá trabalho. Parabéns. E… obrigado por não deixarem ninguém de fora.

Sara apontou com o queixo para o Malik.

— Ele ajudou muito. Sem ele, a caixa não saía.

Malik corou, mas manteve o sorriso.

— Eu gostei.

Tomás olhou para as sementes enterradas e sentiu algo estranho e bom: como se tivesse guardado o futuro num bolso.

Capítulo 6 — A promessa da Primavera

Na segunda-feira, o jardim já não tinha caça aos ovos, mas tinha uma coisa nova: três pauzinhos com fitas coloridas marcavam o lugar das sementes. A mãe do Tomás levou um pequeno cartaz escrito à mão: “Aqui nasce a Primavera de todos. Por favor, não pisar.”

Algumas crianças perguntaram o que era. O Tomás explicou, sem exagerar, porque sabia que a magia fica melhor quando não é empurrada pela garganta abaixo.

— São flores. Vão nascer daqui.

— Quando? — perguntou o Tiago, o mesmo que tinha guardado os ovos grandes.

— Quando a Terra quiser — respondeu Sara. — E quando a gente regar.

Nos dias seguintes, Tomás, Sara e Malik revezaram-se para regar. “Revezar” era uma palavra que o Tomás gostava: soava a jogo de equipa. E era justo. Não era sempre o mesmo a lembrar, nem sempre o mesmo a fazer.

Uma tarde, Malik chegou com um pacote pequeno.

— A minha mãe fez… bolinhos de mel. Para agradecer.

Sara mordeu um e ficou com os olhos redondos.

— Isto devia ser ilegal de tão bom.

Tomás riu e dividiu o dele ao meio, oferecendo uma parte ao Malik.

— Justiça do açúcar.

— Justiça do açúcar — repetiu Malik, a achar graça.

Uma semana depois, num dia em que o céu parecia ter sido lavado, o Tomás correu para o jardim e viu um pontinho verde a furar a terra. Depois outro. E outro.

— Nasceu! — gritou ele.

Sara veio a correr, quase tropeçando na própria pressa.

— Eu sabia! Eu sabia! Eu sabia!

Malik chegou logo a seguir, mais calmo, mas com um sorriso que lhe ocupava o rosto todo.

— É pequeno — disse ele, como se estivesse a falar com o broto.

Tomás ajoelhou-se. Aquele verde minúsculo era mais poderoso do que um ovo gigante de chocolate. Porque não desaparecia numa dentada.

O senhor Aníbal apareceu com o saco de amêndoas, como sempre, e ofereceu a cada um.

— Para celebrar o primeiro sinal.

Tomás pegou numa amêndoa e depois olhou para o banco onde um miúdo do primeiro andar estava sentado sozinho, a mexer no telemóvel. Era o Rui, que tinha faltado à caça aos ovos porque estava doente e ainda parecia meio fora da festa do mundo.

Tomás lembrou-se da mensagem: “oferece chocolate a quem partilha o banco com alguém sozinho.”

Ele não tinha chocolate naquele momento, mas tinha amêndoas. E tinha uma regra.

— Vamos? — perguntou ele aos dois.

Sara percebeu logo.

— Vamos.

Sentaram-se ao lado do Rui. No início, ele só levantou o olhar, desconfiado.

— Olá — disse Tomás. — Queres uma amêndoa?

Rui hesitou.

— Eu… posso?

— Podes — respondeu Malik. — É para todos.

Sara acrescentou:

— E não precisas dizer “obrigado” com voz de cerimónia. Só… fica.

Rui pegou numa amêndoa, devagar. Depois outra.

— Eu não sabia que vocês tinham plantado isto — disse ele, apontando para o canteiro.

— Foi uma aventura de Páscoa — disse Tomás. — Mas a parte mais fixe é que não acabou.

O vento mexeu nas fitas, e o fontanário pingou, pingou, pingou, como um metrónomo de paciência.

Tomás olhou para os brotos e sentiu que o segredo do ovo não era só um mistério resolvido. Era um convite.

Ele falou, baixinho, como se estivesse a fazer um pacto com o jardim:

— Prometo que, quando estas flores abrirem, vamos fazer uma festa aqui. E ninguém fica para trás.

Sara encostou o ombro ao dele.

— Promessa de Primavera.

Malik assentiu, olhando para o verde.

— Promessa de Primavera.

E, por um instante, o mundo pareceu exatamente do tamanho certo: grande o suficiente para aventuras, pequeno o suficiente para caber num banco partilhado.

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Avental
Peça de tecido usada na frente do corpo para proteger a roupa enquanto cozinha.
Regador
Recipiente com bico usado para levar água às plantas do jardim.
Mangueira
Tubo flexível que transporta água para regar ou lavar.
Embrulho
Papel ou material que protege algo antes de o dar a alguém.
Pastilha
Pequena peça plana, aqui de metal, que parece uma medalha ou ficha.
Fenda
Abertura estreita entre duas superfícies ou pedras.
Musgo
Planta verde e macia que cresce em lugares húmidos, como pedras.
Corrimão
Barra colocada ao lado de escadas ou escorregas para segurar e apoiar.
Plataforma
Superfície elevada onde as pessoas podem subir ou ficar em cima.
Ativar
Fazer algo começar a funcionar ou a produzir efeito.
Detetives
Pessoas que investigam mistérios e procuram pistas.
Vibração
Movimento rápido e pequeno que se sente ou se ouve.
Equidade
Idéia de dividir ou tratar os outros de forma justa, conforme as necessidades.
Aplausos
Som de palmas batidas juntas para mostrar aprovação ou alegria.
Enigma
Problema ou pergunta difícil que pede pensar para resolver.
Desafio
Tarefa difícil proposta para testar coragem ou habilidade.

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