Parte 1: A Menina e o Símbolo
Lia tinha seis anos e fazia tudo com cuidado. Quando escovava os dentes, contava até vinte. Quando guardava os brinquedos, alinhava as cores. E quando o pai polia o capacete prateado do trabalho, Lia passava um pano macio só para “ajudar um bocadinho”.
O pai trabalhava no Porto Azul, uma estação espacial brilhante que parecia uma bolha de sabão gigante, presa no céu. Às vezes, ele trazia panfletos com desenhos de planetas e avisos importantes.
Numa tarde, ele trouxe um cartão pequeno, do tamanho da mão da Lia. No centro havia um símbolo: um círculo com três riscas curvas dentro, como um sorriso com ondas.
— Isto é o Símbolo de Paz Galáctica — explicou o pai, com voz calma. — Quando o vês, quer dizer: “Sou amigo. Venho em paz.”
Lia aproximou o nariz do cartão, como se o símbolo tivesse cheiro.
— Parece um caracol a rir — disse ela.
O pai riu.
— Também pode ser. Mas lembra-te: é para todos se sentirem seguros.
Lia treinou o símbolo no ar com o dedo. Círculo… três riscas… e pronto. Fez dez vezes. Depois mais dez.
Nessa noite, antes de dormir, Lia guardou o cartão debaixo da almofada, como quem guarda um segredo brilhante.
No dia seguinte, o pai disse:
— Hoje vais comigo ao Mercado Interestelar.
Os olhos da Lia acenderam-se como luzinhas.
O Mercado Interestelar era um lugar calmo, cheio de caminhos largos e lanternas flutuantes. Cheirava a pão doce de cometa e a chá de nuvem. Havia bancas com frutas que mudavam de cor, robôs a vender fitas que cantavam, e criaturas de todo o tipo: altas, baixas, com penas, com antenas, com três narizes.
Lia segurou firme na mão do pai. Ela era aplicada e cuidadosa, e aquele mundo novo era grande. Mas também era bonito.
— Olha sempre para os sinais — lembrou o pai. — E se vires o símbolo…
— Paz galáctica — completou Lia, orgulhosa.
Parte 2: O Mercado e o Mal-Entendido
Enquanto passeavam, Lia reparou que muitas bancas tinham símbolos diferentes. Um tinha um triângulo com uma gota: “água fresquinha”. Outro tinha uma estrela com um garfo: “comida quente”. Lia ia apontando com o dedo, baixinho, para não se perder.
De repente, viu algo que a fez parar.
Num poste perto de uma banca de chapéus, havia o símbolo dela: o círculo com as três riscas curvas. Bem grande. Bem claro.
Lia deu um passo à frente.
Perto do poste, um extraterrestre pequeno tentava subir numa caixa para alcançar uma corda de sinos coloridos. Ele era redondo como uma bolinha, com pele verde-menta e olhos enormes, como duas azeitonas brilhantes. Tinha um saco nas costas e, quando se mexia, fazia um som engraçado: “plim-plim”.
Os sinos, no entanto, estavam a cair. Um deles rolou pelo chão e parou mesmo ao pé da Lia.
Lia apanhou o sino com cuidado. Era azul e tremia um bocadinho, como se estivesse a rir.
O extraterrestre olhou para ela, assustado. Os olhos dele ficaram ainda maiores. Ele começou a apontar para o sino e a dizer coisas rápidas numa língua cheia de “glup” e “zip”.
Lia não entendeu. Mas viu o símbolo no poste. “Sou amigo”, pensou ela. “Venho em paz.”
Ela levantou o sino devagar, com as duas mãos, para mostrar que não queria ficar com ele.
— Eu… devolvo — disse Lia, bem devagar.
O extraterrestre deu um salto pequeno. “Plim!” O saco dele balançou e caiu um objeto no chão: um rolo de fita brilhante.
A fita desenrolou-se sozinha e colou-se no sapato da Lia.
E foi aí que aconteceu o mini-desastre.
A fita era tão pegajosa que, quando Lia tentou mexer o pé, o sapato fez um som alto e comprido:
— CREEEEC!
Várias cabeças viraram. Um robô vendedor parou de piscar. Uma senhora com três tranças e dois chapéus deixou cair uma bolacha.
Lia ficou vermelha até às orelhas. Ela não queria chamar atenção. Ela só queria ser cuidadosa.
O extraterrestre tapou a boca com as mãos e… começou a rir. Um riso fininho, como bolhinhas a estourar. “Plim-plim-plim!”
Lia piscou. O som do sapato não era perigoso. Era só… engraçado.
Mas Lia sentiu um aperto no peito. E se alguém achasse que ela tinha roubado a fita? E se achasse que ela tinha estragado os sinos?
O pai aproximou-se.
— O que aconteceu aqui?
Lia olhou para ele e respirou fundo, como tinha aprendido quando ficava nervosa.
— Eu apanhei o sino para devolver. E a fita colou no meu sapato. Eu não queria.
Ela falou a verdade, direitinho, sem inventar nada. Honestidade era como escovar os dentes: fazia-se mesmo quando dava preguiça.
O pai assentiu e olhou para o extraterrestre. O pequeno ser apontou para o símbolo no poste e fez um gesto com as mãos, como se abraçasse o ar. Depois abriu o saco e mostrou vários rolos de fita iguais, todos brilhantes.
O pai sorriu.
— Acho que ele está a dizer que a fita é dele… e que é uma fita para concertos. Para prender coisas sem magoar.
O extraterrestre abanou a cabeça com entusiasmo. “Zip-zip!” E ofereceu outro rolo ao pai, como pedido de desculpa.
Lia devolveu o sino com cuidado. O extraterrestre colocou-o de volta na corda, e os sinos ficaram quietinhos, como se nada tivesse acontecido.
Mas a fita continuava no sapato da Lia.
E o sapato continuava a fazer:
— CREEEEC!
Lia suspirou. Aquilo era embaraçoso.
Parte 3: A Marcha que Não Guincha
O extraterrestre fez sinal para que a Lia o seguisse. Ele andava a saltitar, “plim-plim”, guiando-a por um corredor cheio de luzes suaves. O pai veio junto, tranquilo.
Foram até uma banca pequena com frascos alinhados. Dentro deles havia líquidos de cores diferentes: dourado como mel, lilás como uva, azul como o céu.
Um letreiro tinha o Símbolo de Paz Galáctica. Lia sorriu. Ali era um lugar seguro.
O extraterrestre pegou num frasquinho transparente com brilhantes prateados a boiar. Abriu-o e colocou uma gotinha na fita que estava no sapato da Lia. A gota fez “tchic” e a fita soltou-se como se fosse feita de algodão.
Lia mexeu o pé, devagar. Nenhum som.
Ela deu um passo. Silêncio.
Depois outro passo.
Nada de “CREEEEC”.
Lia soltou uma risadinha. O pai também. O extraterrestre bateu palmas pequenas e fez uma reverência exagerada, quase caindo para trás. Foi tão engraçado que Lia riu mais alto.
Lia olhou para o frasquinho e depois para o extraterrestre.
— Obrigada — disse ela. — E… desculpa se eu assustei.
O extraterrestre pousou a mão no próprio peito e apontou para o símbolo no poste, como quem diz: “Amigo”. Depois tirou do saco um autocolante com o mesmo símbolo e colou-o suavemente na manga da Lia.
Lia tocou no autocolante. Sentiu-se importante, como uma pequena guardiã da paz.
O pai inclinou-se ao nível dela.
— Fizeste bem em dizer a verdade. E viste? O símbolo ajudou-te a saber que era um encontro amigo.
Lia assentiu. Ela olhou ao redor: o mercado parecia ainda mais luminoso agora. As lanternas flutuavam como peixes dourados no ar. Uma banca vendia balões que mudavam de forma. Um robô espirrava confetes sem querer e pedia desculpa a toda a gente.
Antes de irem embora, Lia fez uma coisa com muito cuidado. Voltou à banca dos sinos e deixou o rolo de fita que tinha colado no sapato, bem dobrado, ao lado do extraterrestre.
Ela não queria levar nada que não fosse dela. A honestidade também era devolver.
O extraterrestre fez um “plim” feliz e colocou uma das fitas no alto, longe de cair outra vez. Depois apontou para os pés da Lia e fez um gesto de marcha, como um soldadinho. Ele queria ver.
Lia endireitou as costas. Segurou na mão do pai. E começou a andar pelo corredor principal do Mercado Interestelar.
Um passo. Dois passos. Três passos.
A marcha da Lia era silenciosa, leve, e não guinchava nada.
Ela passou por criaturas com penas, por criaturas com antenas, por criaturas com três narizes. Algumas acenaram. Outras sorriram. E uma até fez um som de “plim-plim” em resposta, como se fosse um cumprimento.
Lia sentiu-se corajosa, mas de um jeito macio, como uma manta quentinha.
Quando chegaram à saída do mercado, Lia olhou para trás uma última vez e viu o símbolo de paz brilhando no poste, redondo e simples, como um caracol a rir.
E ela sabia, com clareza no coração: o desconhecido podia ser amigo, quando a gente caminha com cuidado, diz a verdade, e presta atenção aos sinais.