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História sobre a festa de ano novo 11 a 12 anos Leitura 13 min.

As doze passas e o relógio Zeca na noite de Ano Novo

Um relógio de pulso chamado Zeca acompanha Leonor e a sua família numa véspera de Ano Novo cheia de rituais, desejos e pequenas surpresas, enquanto cada um partilha votos e guarda esperanças num frasco especial. A história fala de confiança, coragem e da magia simples de recomeçar juntos.

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Personagem principal: uma menina de 10–12 anos (Leonor), rosto redondo e olhos brilhantes, expressão de maravilhamento e esperança, cabelo castanho-claro apanhado em rabo de cavalo, relógio de pulso gasto cujo ponteiro forma um pequeno sorriso, braço erguido segurando uma lanterna de papel acesa; personagens secundários: avó Maria, idosa de rosto enrugado e sorriso caloroso, com mancha de farinha na bochecha segurando uma colher de pau e uma tigela de passas; o pai, homem de meia-idade com barba rala e ar divertido mas distraído, oferecendo um prato de rabanadas; o irmão adolescente Tiago, cabelo bagunçado e olhar malicioso, segurando uma caixa etiquetada "ABRIR À MEIA‑NOITE" e uma bala pronta para lançar na boca; cenário: sala familiar acolhedora à noite com mesa de madeira cheia de pratos (rabanadas, passas), guirlandas luminosas, pequena árvore de festa inclinada, janela aberta para um céu escuro com lanternas subindo, tapete e almofadas; situação: último segundo do Ano Novo enquanto a família conta até doze, lanternas de papel iluminadas subindo, rostos iluminados pela chama e abraços cheios de esperança. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O Guardião do Armário

No fundo de um armário, entre toalhas dobradas e um saco de pinhões que insistia em furar, vivia o Relógio de Pulso Zeca. Tinha a pulseira um pouco gasta, o vidro com um risco fininho e uma mania: sorria com os ponteiros. Era um sorriso discreto, daqueles que só se vêem quando se olha com atenção—e a Zeca gostava de atenção, mas sem fazer barulho.

Na véspera de Ano Novo, a casa cheirava a aletria e a canela, e o chão brilhava como se tivesse sido polido por um exército de escovas felizes. De repente, a porta do armário abriu-se num estalo.

—Ah! Aqui estás tu, Zeca! —disse a Leonor, a dona do pulso mais apressado da família.

Zeca endireitou-se, importante. Ser escolhido para a noite da passagem era como ser promovido a comandante de foguetes. Leonor fechou a pulseira no pulso e Zeca sentiu o calor da pele, o coração ali perto, e a música da casa a crescer.

—Hoje és tu que mandas —sussurrou ela, com um ar de segredo.

“Eu mando... mas com gentileza”, pensou Zeca, e os ponteiros fizeram uma curvinha que parecia um sorriso.

Capítulo 2 — A Cozinha dos Desejos

A cozinha era um palco. A avó Maria estava de avental, com farinha na bochecha como se tivesse levado um beijo de nuvem.

—Leonor, passa-me as passas. E não as comas todas no caminho —avisou, sem olhar.

—Eu? Comer? Nunca! —Leonor respondeu com uma inocência tão perfeita que até o açúcar se riu.

Zeca observava tudo do pulso dela: a mesa cheia de rabanadas, o prato de uvas alinhadas como soldados, e doze passas preparadas ao lado, uma por cada badalada. Ao lado da janela, os vizinhos testavam foguetes com o entusiasmo de quem descobriu fogo pela primeira vez.

Chegou o pai, a fingir que estava calmo.

—Este ano vou desejar uma coisa simples —anunciou. —Que o meu telemóvel pare de cair ao chão.

—Isso não é desejo, é milagre —comentou o irmão mais velho, Tiago, com um sorriso torto. —Eu desejo… hã… passar a Matemática sem precisar de negociar com o universo.

A avó apontou-lhes uma colher de pau, como se fosse um microfone.

—Desejos não se discutem. Ouve-se. E depois guarda-se com carinho.

Zeca gostou disso. Ouvir. Guardar. Ele já era bom a guardar tempo; talvez também pudesse guardar esperanças.

Leonor apoiou o cotovelo na mesa e olhou para o relógio.

—Zeca, tu ouves todos os desejos do mundo, não ouves?

Se Zeca pudesse falar alto, teria dito: “Ouço os que me contam.” Em vez disso, fez o seu sorriso de ponteiros e ficou atento.

Capítulo 3 — Um Plano com Doze Passas e Três Riscas

À medida que a tarde escorregava para a noite, a sala encheu-se de luzes. Havia uma fita brilhante na estante e uma estrela torta no topo da pequena árvore que insistia em inclinar-se como se estivesse cansada de ser estrela.

A mãe, Clara, entrou com um saco de papel.

—Trouxe um extra para a noite: lanternas de papel! Para soltarmos na varanda. São biodegradáveis, prometo.

—Se o condomínio reclamar, eu digo que foi o vento com tendências artísticas —disse o pai.

Zeca, do pulso de Leonor, viu uma caixa misteriosa pousada na mesa. A caixa tinha uma etiqueta: “ABRIR À MEIA-NOITE”.

—O que é isso? —perguntou Tiago, tentando espreitar como um gato curioso.

—Uma surpresa —respondeu a mãe. —E surpresa que se preze não se cheira, não se sacode e não se tenta adivinhar.

—Então só posso sofrer em silêncio —resmungou Tiago, dramatizando.

Leonor, mais pensativa, encostou o ouvido à caixa.

—Ouço… nada.

Zeca também ouviu. Nada. E esse “nada” parecia cheio, como uma folha em branco prestes a receber um desenho.

Ela levantou o pulso e falou baixinho, como se Zeca fosse um confidente.

—Eu gosto do Ano Novo porque é como um botão de reiniciar. Mas sem apagar as coisas boas.

Zeca sentiu um orgulho estranho. Ele não reiniciava nada, mas marcava o momento exato em que as pessoas acreditavam que podiam recomeçar.

A avó apareceu com uma tigela enorme.

—Aqui estão as passas. Doze. Quem engolir treze fica com um desejo extra… e uma dor de barriga de oferta.

Tiago fez cara de quem estava a fazer contas perigosas.

—Desafio aceite.

—Tiago! —ralhou a mãe.

—Estou a brincar. Acho eu.

Zeca riu por dentro. O tempo, às vezes, era uma piada bem contada.

Capítulo 4 — Os Votos a Cheirar a Canela

A noite caiu, e com ela a energia de festa. A televisão murmurava um concerto, mas a casa tinha a sua própria música: pratos a tilintar, passos apressados, gargalhadas que batiam nas paredes e voltavam mais altas.

Antes do jantar, a avó propôs um ritual novo.

—Cada um diz um voto em voz alta. Um voto para si, outro para alguém, outro para o mundo. Três, como quem dá três pancadinhas na madeira.

—E se eu der três pancadinhas na minha cabeça, conta? —perguntou o pai.

—Só se o eco trouxer juízo —respondeu a avó, sem perder a pose.

Sentaram-se em círculo, perto da janela, onde se via a rua cheia de luzes e promessas.

A mãe começou:

—Para mim, desejo mais calma. Para vocês, desejo saúde e risos. Para o mundo… desejo que as pessoas se lembrem de ser gentis, mesmo quando ninguém está a ver.

Tiago pigarreou, a fingir maturidade.

—Para mim, desejo coragem para não adiar tudo. Para a Leonor… desejo que ela continue a sorrir mesmo quando está a pensar em mil coisas. Para o mundo… desejo menos barulho de ódio e mais música boa.

Leonor olhou para o pulso, como se pedisse ajuda ao Zeca. O relógio sentiu a atenção e esticou os ponteiros com cuidado.

—Para mim, desejo não ter medo de errar —disse ela. —Para a avó, desejo que a tua canela nunca acabe. E para o mundo… desejo esperança. Daquelas que não são só palavras, mas coisas que se fazem.

A avó piscou um olho, emocionada e divertida.

—Canela e esperança, minha menina. Isso é um menu respeitável.

O pai ficou por último, coçando a nuca.

—Para mim, desejo… não perder as chaves. Para vocês, desejo que sejamos uma equipa, mesmo quando estamos a discutir quem deixou a luz da casa de banho acesa. Para o mundo… desejo que as pessoas encontrem um lugar onde se sintam em casa.

Zeca ouviu todos. E guardou. Não em gavetas, mas naquele tic-tac silencioso que parecia dizer: “Ainda há tempo. Ainda dá.”

Capítulo 5 — Meia-Noite, Quase a Escapar

Faltavam quinze minutos para a meia-noite e a casa entrou num modo especial: o modo “de repente tudo é urgente”.

—As uvas! —gritou a mãe.

—As passas! —gritou a avó.

—Onde está a caixa da surpresa? —gritou Tiago, como se a caixa tivesse pernas.

O pai, com um prato na mão, tropeçou num tapete.

—Alguém viu o meu equilíbrio?

—Perdeste-o em 2014 —disse a avó.

Leonor subiu ao sofá para ver melhor a televisão, mas acabou por ver o reflexo da família no vidro da janela: todos juntos, meio atrapalhados, completamente reais.

Zeca marcava os segundos com a seriedade de um maestro. E, no entanto, havia uma coisa diferente: os ponteiros pareciam mais leves, como se a casa estivesse a empurrar o tempo com um sopro de alegria.

—Zeca —murmurou Leonor, muito baixo—, não deixes a meia-noite escapar.

“Não escapa”, pensou ele. “Ela chega sempre.” Mas compreendeu o que ela queria dizer: não deixar o momento passar sem o sentir.

Na rua, ouviu-se uma contagem num prédio vizinho, alguém a começar cedo demais:

—Dez! Nove! Oito!

—Ainda falta! —gritou Tiago, indignado.

—É o treino —disse o pai. —Eles estão a aquecer a voz.

A família aproximou-se da mesa com as passas. Doze pequenas bolinhas escuras, prontas para virar futuro.

Zeca viu o pulso de Leonor tremer um pouco. Não de medo, mas de expectativa, como quando se vai abrir um presente que talvez seja uma coisa simples… e por isso mesmo perfeita.

Capítulo 6 — A Caixa, as Lanternas e o “Até Muito Breve”

Faltavam cinco segundos. A televisão começou a contagem certa, e desta vez toda a sala entrou no ritmo.

—Cinco! —disse a mãe.

—Quatro! —disse Tiago, com a passa já na ponta dos dedos.

—Três! —disse a avó, erguendo a colher de pau como uma varinha mágica.

—Dois! —disse o pai, a segurar as chaves no bolso, como se o universo o estivesse a testar.

—Um! —disse Leonor, a olhar para Zeca, como se ele fosse o guardião daquele portal invisível.

Meia-noite.

Engoliram a primeira passa, e de repente a sala explodiu em abraços. Beijos na testa, risos, “Feliz Ano Novo!” a saltar de boca em boca como pipocas.

Zeca sentiu o pulso de Leonor apertar-se num abraço coletivo. O tempo, ali, tinha cheiro a canela e som de gargalhada.

—Abram a caixa! —ordenou Tiago, já com duas passas a caminho, como se quisesse ser o primeiro a desejar tudo.

A mãe abriu a tampa. Lá dentro havia um monte de papéis dobrados e uma caneta dourada.

—São bilhetes de futuro —disse ela. —Cada um escreve um desejo para alguém da família e coloca num frasco. No próximo Ano Novo, abrimos e vemos o que aconteceu… e o que ainda podemos fazer acontecer.

A avó levantou uma sobrancelha.

—Se eu escrever “que o Tiago lave a loiça”, isso conta como desejo?

—Conta como provocação —respondeu Tiago. —Mas gosto da ideia.

Sentaram-se à mesa, agora com a seriedade divertida de quem está a fazer algo importante. Leonor pegou na caneta e escreveu devagar, a língua de fora, concentrada.

Zeca não conseguia ler tudo, mas apanhou algumas palavras: “coragem”, “amizade”, “saúde”, “paz”. E, num canto, uma frase pequenina: “que a esperança seja teimosa”.

Quando terminaram, foram à varanda com as lanternas de papel. O vento estava frio, mas limpo, como uma página recém-lavada. Acenderam as pequenas chamas protegidas, e as lanternas começaram a subir, muito devagar, como se estivessem a aprender a voar.

—Olha, Zeca —disse Leonor, levantando o pulso para o céu—, isto parece magia.

E parecia mesmo. Não uma magia de dragões e castelos, mas aquela que nasce quando as pessoas decidem acreditar no melhor, mesmo sabendo que nem tudo é fácil.

A avó abraçou Leonor por trás.

—A esperança é como estas lanternas —disse. —Sobe com calor, não com barulho.

Tiago apontou para uma lanterna que quase se encostava ao parapeito.

—Essa está a tentar voltar para pedir mais passas!

—Ou para ouvir mais desejos —disse Leonor, a sorrir.

Zeca, no pulso dela, marcou os primeiros minutos do novo ano como quem abre uma porta com cuidado. Ele tinha ouvido os votos, guardado as promessas e sentido o mundo, por instantes, mais leve.

Dentro de casa, o pai chamou:

—Venham! Temos rabanadas e um sofá pronto para nos engolir de felicidade!

Leonor deu uma última olhada ao céu. As lanternas eram pontos de luz a afastar-se, e cada ponto parecia dizer: “Continua.”

Ela encostou o pulso ao peito, como se agradecesse ao Zeca por ser o guardião daqueles segundos.

—Até muito breve —sussurrou, para o novo ano e para tudo o que vinha aí.

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Pinhões
Sementes de pinheiro que se podem comer e às vezes furam sacos.
Estalo
Um som curto e seco, como quando algo se abre rápido.
Aletria
Doce feito com massa fina, leite e açúcar, típico em festas.
Avental
Peça de pano usada na frente do corpo para proteger a roupa ao cozinhar.
Tilintar
Som leve e repetido de objetos metálicos a bater uns nos outros.
Biodegradáveis
Coisas que se decompõem na natureza sem poluir.
Frasco
Recipiente de vidro ou plástico para guardar papéis, líquidos ou objetos pequenos.
Tic-tac
Som que um relógio faz, marcando os segundos do tempo.
Contagem
A ação de contar números em ordem, por exemplo antes de um momento.
Provocação
Ato de provocar alguém, com intenção de irritar ou brincar.

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