Capítulo 1 — A lista das doze badaladas
No último dia do ano, o ar parecia ter cheiro a laranja e canela, mesmo antes de alguém acender a vela na sala. Lá fora, a rua estava molhada de uma chuva miudinha, e as luzes da varanda piscavam como se praticassem para a meia-noite.
A Lara equilibrava o telemóvel na prateleira dos livros, testando ângulos com cara séria, como se estivesse a preparar um grande filme.
— Se a avó Rosa receber isto tremido, vai dizer que eu gravei dentro de um sismo — resmungou ela.
A Inês, que já tinha quase doze e um riso que aparecia antes das piadas, pousou um saco de uvas na mesa.
— O sismo és tu. As uvas é que vão salvar o mundo. Doze uvas, doze desejos. É ciência do Ano Novo.
A Marta rodou as rodas da cadeira com um toque rápido e elegante, como quem faz uma pirueta discreta, e aproximou-se do tripé improvisado (um monte de caixas de jogos).
— Então, realizadora, qual é o plano? — perguntou. — Videozinho de votos para a família toda, certo?
A Lara abriu um caderno cheio de rabiscos e corações mal desenhados.
— Sim. Para a tia Paula no Luxemburgo, para o primo Tomás no Porto, para o avô Zé que está no Alentejo… — Ela suspirou. — E para a madrinha, que acha que “vídeo” ainda se escreve com “ph”.
A Inês levantou um dedo, como professora:
— Regras do nosso filme: tem de ser rápido, bonito e ter um final com fogo-de-artifício. Mesmo que seja daqueles de sopa.
A Marta riu.
— E tem de estar pronto antes das doze. Se não, passa a ser vídeo de “Boas Entradas atrasadas”.
A Lara endireitou o telemóvel.
— Ok. Capítulo um: nós a dizer “Feliz Ano Novo!”. Capítulo dois: rituais. Uvas, brinde, saltinho. Capítulo três: surpresa.
— Surpresa? — A Inês abriu os olhos. — Eu gosto dessa palavra.
A Lara fez ar de mistério.
— Ainda não sei qual é. Mas vai existir. Prometo.
Capítulo 2 — O minuto que fugiu
Começaram a gravar na cozinha, porque ali a luz era melhor e a bancada brilhava como se fosse cenário de televisão. A Lara carregou no botão vermelho e fez sinal com a mão.
— Três, dois, um…
— “Feliz Ano Novo!” — disseram as três, mas não ao mesmo tempo: a Inês entrou cedo, a Marta entrou tarde, e a Lara engasgou-se com a palavra “Feliz”, que saiu “Feli…feli…”.
— Corta! — decretou a Lara, com um dramatismo que dava vontade de aplaudir.
— Eu sabia! Um sismo! — provocou a Inês.
— O sismo és tu — respondeu a Lara, a rir, e tentou outra vez.
Na quarta tentativa, ficou quase perfeito. Quase. A Marta, no final, fez uma careta sem querer, porque uma uva rolou-lhe para o colo e ela tentou apanhá-la com rapidez.
— Isto é bom — disse a Inês. — Parece espontâneo. Tipo… vida real.
— Vida real é a bateria a morrer — avisou a Lara, olhando para o ecrã. — Trinta e dois por cento.
A Marta inclinou-se para ver.
— Tens o carregador?
— Está no quarto. Só que… — A Lara mordeu o lábio. — Eu deixei o cabo enrolado atrás da secretária e, quando puxei, caiu o saco das lantejoulas e… pronto.
— E “pronto” significa desastre, não é? — A Inês já se levantava.
Foram ao quarto. Havia lantejoulas por todo o chão, como se um peixe dourado tivesse explodido de entusiasmo. O cabo estava preso debaixo de uma perna da secretária.
— Socorro… — disse a Lara.
A Marta analisou a cena com ar de detetive.
— Sem pânico. Se tropeçarmos, vamos parecer uma bola de Natal a rebolar.
A Inês, que tinha a habilidade de transformar problemas em jogos, apontou para o chão.
— Missão: resgatar o cabo sem espalhar mais brilho. Quem perder, lava a louça do jantar.
— Isso é chantagem emocional — disse a Lara.
— É solidariedade doméstica — corrigiu a Inês.
Com cuidado, a Marta aproximou-se e, com uma régua, empurrou as lantejoulas para longe do pé da secretária. A Lara levantou ligeiramente o móvel, e a Inês puxou o cabo como quem puxa uma espada de uma pedra.
— Conseguimos! — gritou a Inês, em silêncio, para não acordar a mãe da Lara que estava a fazer rabanadas na cozinha.
Quando voltaram à sala, o relógio marcou 22h47.
— Ainda dá — disse a Lara, mas o “ainda” soou como uma porta a ranger.
Capítulo 3 — Montagem com cheiro a rabanadas
A Lara abriu o portátil e criou uma pasta chamada “ANO NOVO (FINAL MESMO)”. A Inês encostou-se ao sofá, com as uvas ao lado, e a Marta ficou perto da mesa, onde as luzes da árvore lançavam sombras a dançar na parede.
— Precisamos de mais cenas — disse a Lara, a arrastar os clips para a linha do tempo. — Não pode ser só a gente a dizer “Feliz Ano Novo” como robôs simpáticos.
— Eu posso filmar o ritual do brinde — sugeriu a Marta. — As mãos com os copos, o tilintar, a espuma… poesia.
— Poesia com gás — aprovou a Inês.
Gravaram a mãe da Lara a polvilhar açúcar nas rabanadas, como neve doce a cair. Gravaram a taça das uvas, redonda e cheia, parecendo um planeta verde. Gravaram um plano da rua pela janela: o passeio brilhava com a chuva, e um gato atravessava como se estivesse a fazer a última ronda do ano.
A Lara montava tudo com rapidez, mas a linha do tempo parecia crescer mais depressa do que ela.
— Isto está a ficar comprido — murmurou.
— Corta o gato — sugeriu a Inês. — Gatos são sempre dramáticos.
— Não corto o gato — respondeu a Lara, ofendida. — Ele é o artista convidado.
A Marta apontou para o ecrã.
— E se pusermos legendas engraçadas? Tipo quando a tua mãe faz rabanadas: “Eis a magia oficial”.
A Inês já estava a inventar frases.
— E quando aparecerem as uvas: “Doze desejos, nenhuma vergonha”.
A Lara riu, finalmente mais leve.
— Ok. Legendas. Música de fundo. E no fim… precisamos da surpresa.
Como se a palavra tivesse sido ouvida por alguém invisível, a luz da sala piscou duas vezes. Não foi apagão, foi um piscadelar.
— Foi… a eletricidade a desejar Feliz Ano Novo? — perguntou a Inês, em voz baixa.
A Marta olhou para as luzes da árvore.
— Ou foi a árvore a ficar impaciente.
A Lara fez que sim, mas no fundo sentiu um arrepio bom, como quando se abre uma prenda e o papel ainda resiste um pouco.
— Vamos ignorar as árvores falantes e continuar — disse, fingindo ser adulta.
Só que, quando carregou em “exportar”, o portátil fez um som triste e apareceu uma mensagem: “Espaço insuficiente”.
— Não! — A Lara quase abraçou o ecrã. — Eu apaguei imensas coisas!
A Inês inclinou-se para ver.
— Tens aí… “Trabalhos de Ciências — 4º ano”. Não precisas disso.
— Eu gosto — defendeu a Lara. — Foi quando ganhei o prémio do vulcão.
A Marta levantou as sobrancelhas.
— O vulcão pode dormir em paz na nuvem. Vá.
A Lara respirou fundo e começou a apagar ficheiros, com a solenidade de quem despeja um baú antigo. Quando finalmente houve espaço, voltou a carregar em “exportar”.
A barra de progresso apareceu: 1%… 2%… 3%…
— Anda lá, barra, corre! — pediu a Inês.
— Ela não corre, ela rasteja — comentou a Marta.
O relógio: 23h31.
A barra: 17%.
A Lara sentiu que o Ano Novo era um comboio e ela estava a correr atrás, com os atacadores desapertados.
Capítulo 4 — A rua pede ajuda
A barra chegou aos 62% quando um som diferente se ouviu lá fora: um raspão, como uma pá a arranhar cimento. Depois outro. E outro.
A Inês espreitou pela janela.
— Olhem… o senhor Artur está a tentar limpar o passeio.
O senhor Artur era o vizinho do rés-do-chão. Tinha um casaco enorme e um gorro que lhe tapava metade das orelhas. Estava com uma pá pequena, a empurrar folhas molhadas e lama para o lado. Parecia estar a lutar com um monstro castanho e escorregadio.
A Marta aproximou-se também e fez uma careta.
— Sozinho? Com esta chuva? O passeio está um nojo.
A Lara olhou para o portátil, depois para a rua.
— O vídeo…
— O vídeo pode esperar um minuto — disse a Inês, já a calçar as botas. — Solidariedade primeiro. Além disso, dá uma cena perfeita: “as heroínas do passeio”.
A Lara hesitou, presa entre a barra de progresso e a consciência.
A barra: 64%.
O senhor Artur escorregou um pouco e apoiou-se na parede.
A Lara fechou o portátil com cuidado, como quem põe um bebé a dormir.
— Está bem. Vamos.
Na entrada do prédio, o ar estava frio e cheio de humidade. A porta rangeu, e a rua respondeu com um sopro molhado. As luzes dos candeeiros faziam o chão parecer um rio de bronze.
— Boa noite, senhor Artur! — chamou a Inês, com a voz alegre.
O homem olhou, surpreendido.
— Meninas? O que fazem aqui fora a esta hora?
— Viemos ajudar — disse a Marta, simples, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Ajudar? Não é preciso… — Ele tentou sorrir, mas estava cansado.
A Lara apontou para o passeio, onde a lama se acumulava perto do ralo.
— Se isto ficar assim, amanhã toda a gente vai escorregar. E… bem… nós não queremos começar o ano a cair.
A Inês pegou na pá com delicadeza.
— Empresta-me a arma.
O senhor Artur riu-se, rendido.
— Está bem, está bem. Mas com cuidado.
A Marta foi buscar uma vassoura ao hall do prédio, e a Lara trouxe um balde e uma pequena pá de jardim que a mãe usava para plantas. Em poucos minutos, as três estavam a trabalhar como uma equipa: a Inês empurrava a lama com energia de foguete, a Marta guiava as folhas para o canto certo, e a Lara recolhia e despejava no balde.
— Isto é… estranhamente satisfatório — confessou a Lara, ofegante.
— É como editar vídeo, mas com lixo — disse a Marta.
— E sem “espaço insuficiente” — completou a Inês.
A chuva diminuíra, e as nuvens pareciam mais altas. O senhor Artur observava, com os olhos a brilhar.
— Vocês são um presente de fim de ano — disse ele.
A Lara sorriu, sentindo que aquela frase era melhor do que qualquer legenda engraçada.
Capítulo 5 — Um bocadinho de maravilhoso
Quando a maior parte do passeio já estava limpo, aconteceu uma coisa pequena e estranha: as folhas que a Marta empurrava com a vassoura rodopiaram num círculo perfeito, como se alguém as tivesse ensinado a dançar.
— Viram? — sussurrou a Lara.
A Inês parou, a meio de uma pazada.
— O vento fez coreografia.
As folhas rodaram mais uma vez e, por um segundo, pareceram desenhar o número “12” no chão molhado. Depois desfizeram-se, espalhando-se como se nada tivesse acontecido.
A Marta piscou os olhos.
— Ok… ou estou a ver coisas, ou o Ano Novo está a fazer ensaio geral.
O senhor Artur não parecia assustado. Pelo contrário, parecia contente, como se a rua lhe tivesse contado um segredo.
— Diz a minha mãe que, na passagem de ano, a cidade ganha vontade própria — comentou ele. — As coisas alinham-se. As pessoas também.
A Lara sentiu um calor no peito, mesmo com as mãos frias. Olhou para as amigas e viu que estavam com os cabelos húmidos, as bochechas coradas e um brilho de missão cumprida.
— Precisamos de filmar isto — lembrou-se a Inês, de repente. — A surpresa! A nossa surpresa é… isto.
A Lara tirou o telemóvel do bolso.
— Bateria?
— Vinte e quatro por cento — disse ela, aliviada. — Dá.
Gravou alguns segundos: a vassoura a varrer, a água a escorrer para o ralo, o senhor Artur a rir baixinho, e o passeio a ficar limpo, como uma folha nova antes de se escrever nela.
— Digam qualquer coisa para a família — pediu a Lara, mantendo o telemóvel firme.
A Inês olhou para a câmara.
— “Olá! Se não vos pudermos abraçar hoje, mandamos-vos isto: um bocadinho do nosso trabalho e do nosso carinho.”
A Marta acrescentou, com um sorriso calmo:
— “Que o ano novo comece com espaço para os outros, não só para nós.”
A Lara falou por fim:
— “E que ninguém escorregue… nem nos sonhos.”
Riram as três, e o senhor Artur abanou a cabeça, emocionado.
— Vocês deviam ser vereadoras — brincou ele.
— Não, obrigada — disse a Inês. — Dá muito trabalho. Preferimos ser… varredoras poéticas.
Quando subiram de volta, o relógio no telemóvel da Lara mostrou 23h49.
— CORRER — ordenou a Lara, com a voz de realizadora em pânico outra vez.
Capítulo 6 — Doze uvas e um upload a correr
Na sala, o cheiro a rabanadas atacou-as com carinho. A mãe da Lara já tinha colocado os pratos na mesa e olhou para as três com surpresa.
— Onde é que se meteram?
— Missão de solidariedade — disse a Inês, limpando uma gota do nariz. — Salvámos o passeio.
— A sério? — A mãe sorriu, orgulhosa. — Vão lavar as mãos. E venham, que está quase.
A Lara abriu o portátil como se abrisse um cofre. A exportação tinha parado, claro, porque ela o tinha fechado.
— Não! — gemeu. — Recomeçou do zero.
A Marta pousou a mão no ombro dela.
— Calma. Faz uma versão mais curta. Corta o que for preciso, menos o gato. O gato fica.
A Inês apontou para o relógio na parede.
— Temos… onze minutos.
A Lara respirou fundo e fez escolhas rápidas: encurtou a introdução, acelerou uma parte, manteve o gato por teimosia artística, e acrescentou o clip do passeio no fim, como um final luminoso e verdadeiro.
Carregou em “exportar” outra vez. A barra avançou mais depressa, como se também estivesse com pressa de virar a página.
— Noventa e dois… noventa e cinco… — ia lendo a Inês, como narradora de corrida.
— Noventa e oito… — disse a Marta, apertando as mãos.
— Cem! — gritou a Lara, e quase chorou de alívio.
Sem perder tempo, enviou para o grupo da família: “Vídeo de Ano Novo — com surpresa”.
O telemóvel vibrou com mensagens a entrar já, mesmo antes da meia-noite: corações, “que lindas!”, “saudades!”, e um áudio da avó Rosa: “Está tão bonito que até parece cinema!”
A Lara soltou um riso que parecia uma campainha.
— Conseguimos.
Na mesa, as doze uvas esperavam. A televisão contava os segundos para as badaladas, e os copos estavam prontos para o brinde.
A Inês pegou numa uva e olhou para as amigas.
— Desejo número um: que o próximo ano tenha menos lama.
A Marta ergueu a sua uva.
— Desejo número dois: que a gente continue a aparecer quando alguém precisa.
A Lara segurou a sua, fechando os olhos por um instante.
— Desejo número três: que eu nunca mais deixe a barra de progresso mandar em mim.
— Isso é impossível — disse a Inês, e as três riram.
As badaladas começaram. Comeram uvas à pressa, tropeçando em desejos e risos, engolindo mais depressa do que deviam. A Lara quase se engasgou na oitava, e a Marta bateu-lhe de leve nas costas.
— Ainda agora começou o ano, Lara. Não me mates a realizadora — brincou.
No fim, brindaram. O tilintar dos copos soou como pequenas estrelas a colidir com cuidado.
— Feliz Ano Novo! — disseram, desta vez em perfeita sincronia.
Capítulo 7 — O passeio como página nova
Depois da meia-noite, a cidade ficou com aquele silêncio estranho de festa cansada: ainda havia uns fogos ao longe, mas a rua parecia respirar devagar. A Lara recebeu mais uma chamada, desta vez da tia Paula no Luxemburgo.
— “Meninas! Eu vi o vídeo!” — a voz vinha cheia de eco e alegria. — “E aquele final… o passeio! Que ideia linda!”
A Inês fez uma vénia exagerada para o telemóvel.
— Foi um final realista e com mensagem — anunciou ela, como se estivesse num palco.
A Lara aproximou-se da janela e abriu um pouco a cortina. O candeeiro iluminava o passeio agora limpo, com uma faixa clara onde antes havia lama. A água escorria direitinha para o ralo, sem poças traiçoeiras.
Lá em baixo, o senhor Artur saiu por um momento, olhou para o chão e levantou a mão, como se cumprimentasse o ano novo e as três ao mesmo tempo. Depois entrou, satisfeito.
A Marta encostou-se ao parapeito, tranquila.
— Parece mesmo uma página nova.
A Lara sentiu que, por uma vez, a metáfora não era só frase bonita: era concreta, ali, no passeio desimpedido, pronto para passos, rodas, saltos e pressas.
A Inês bocejou, mas manteve o sorriso.
— Amanhã, quando alguém passar e nem reparar que não escorrega, é porque funcionou.
A Lara assentiu.
— Às vezes, a melhor surpresa é a que evita um problema.
As três ficaram uns segundos a olhar, como quem guarda uma fotografia sem precisar de tirar. Lá fora, um último fogo-de-artifício abriu uma flor breve no céu e apagou-se com delicadeza.
— Pronto — disse a Marta. — Agora sim: o ano começou.
E começou com um passeio limpo, com as mensagens da família a aquecer o telemóvel, com o cheiro a rabanadas na casa, e com a certeza simples de que, quando se trabalha juntas, até a rua parece sorrir.