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História sobre a festa de ano novo 11 a 12 anos Leitura 19 min.

A menina do tempo certo e as doze uvas do Ano Novo

Inês, uma menina que sente o momento certo, prepara a noite de Ano Novo com a sua família e descobre, entre uvas, confettis e surpresas, o valor dos pequenos rituais e da esperança.

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Inês, 12 anos, rosto redondo, rabo de cavalo, olhos grandes e maravilhados, segura uvas verdes e observa um confete rodopiante; à direita, o pai (~40) de barba curta e casaco escuro sorri enquanto segura um pequeno fogo de artifício de chão que solta faíscas douradas; a mãe (~38), cabelos curtos e encaracolados, casaco vermelho, está atrás com uma caixa de uvas aberta; o irmão Tomás (~16) sentado no peitoril da janela com uma roupa casual segura um controlo remoto; a avó Lurdes (~72), cabelo grisalho preso, camisola estampada, senta-se oferecendo uma pequena ampulheta de plástico dourada; o gato Pinhão, tigrado, na mesa com a pata levantada para uvas roladas; local: varanda de prédio no inverno com grade metálica, luzes de natal coloridas e reflexos nos bolsões de água, prédios desfocados ao fundo; cena: família na noite de Ano Novo com uvas alinhadas para a tradição, confetes coloridos, faíscas douradas e ambiente festivo e acolhedor. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — O Relógio e a Rapariga do “Já!”

A Inês tinha onze anos e uma habilidade que parecia meio mágica, meio irritante: ela sentia o momento certo no corpo, como se tivesse um relógio escondido debaixo da pele. Não era adivinhação de testes nem truques para ganhar jogos. Era mais simples e mais estranho: ela sabia quando levantar o bolo do forno um segundo antes de queimar, quando atravessar a rua sem hesitar, quando dizer “agora” numa brincadeira de corda para não tropeçar.

— Inês, a mesa! — chamou a mãe, com um guardanapo preso no ombro como se fosse uma capa.

— Já! — respondeu a Inês, e “já” nela significava “estou a caminho e vou chegar no instante exato”.

Na sala, o pai tentava pendurar uma grinalda brilhante na estante, mas a fita cola recusava-se a colaborar.

— Isto não aguenta nem uma promessa de Ano Novo — resmungou ele.

O irmão mais velho, o Tomás, estava no sofá a fazer de comentarista oficial do caos.

— Falta pouco para o espetáculo “Adultos a Stressar Antes da Meia-Noite”! — anunciou, com voz de apresentador.

A avó Lurdes entrou a rir, trazendo uma caixa de passas e outra de uvas.

— Tradicionalmente são doze passas, mas eu gosto de ter uvas de reserva, caso alguém se engasgue com a esperança — disse ela, piscando o olho.

Inês pegou numa das uvas e segurou-a contra a luz das luzinhas de Natal ainda penduradas.

— A esperança tem caroço? — perguntou.

— Às vezes tem, minha querida. Mas a gente aprende a cuspir o que atrapalha e a ficar com o doce — respondeu a avó.

A Inês gostava da ideia: esperança como fruta. E naquela noite, ela queria que tudo estivesse no tempo certo, porque o Ano Novo era uma espécie de porta. E quem não gosta de entrar numa porta quando ela se abre?

Capítulo 2 — A Lista Secreta de Ritmos

Na cozinha, a mãe preparava rabanadas e o cheiro de canela era tão forte que parecia música. A Inês fez a sua ronda: copos, guardanapos, pratos, tudo alinhado. Não por mania, mas porque o ano a mudar merecia uma sala bonita, como se a casa dissesse: “Entra, 2026. Tira os sapatos.”

A Inês tinha um caderno pequeno onde escrevia coisas que só ela entendia: “Ritmos”. Era uma lista de tempos invisíveis.

“23:47 — desligar as luzes por um segundo para o ano velho não levar nada.”

“23:55 — abraçar a avó antes de ela fingir que não gosta.”

“23:59:30 — respirar fundo.”

“00:00 — doze uvas e um desejo teimoso.”

O Tomás espreitou por cima do ombro dela.

— Isso é um plano secreto?

— Não é secreto. É… organizado.

— Ah. Uma palavra mais chique para “mandona” — brincou ele.

A Inês fez cara séria, mas os olhos dela riram.

— Se eu fosse mandona, agora mandava-te descascar batatas com os dentes.

— Eu sou o convidado especial da preguiça — respondeu o Tomás, encostando a cabeça ao sofá como se fosse parte do móvel.

O pai entrou com uma caixa de foguetes de chão (dos que fazem luz e barulho, sem ir para o céu) e disse:

— Este ano, nada de exageros. Só um bocadinho de festa, para a rua não parecer um campo de batalha.

A mãe cruzou os braços.

— Prometes?

— Prometo… no tempo certo — disse ele, olhando para a Inês.

Ela levantou o polegar, como quem carimba: “Aprovado”. Mas por dentro, a Inês sentiu uma pontinha de nervos. Porque, apesar do seu talento, havia uma coisa que ela não conseguia controlar: as surpresas.

E o Ano Novo adorava surpresas.

Capítulo 3 — O Quase-Desastre das Uvas Voadoras

Às onze e meia, a sala já parecia uma pequena festa: música baixa, pratos com salgadinhos, uma travessa de sonhos polvilhados de açúcar e um prato solene com doze uvas por pessoa.

A avó Lurdes pôs na mesa um copo de espumante para os adultos e sumo com gás para os miúdos.

— Para brindar, não precisa de álcool. Precisa é de coragem — disse ela.

O Tomás pegou no comando da televisão e começou a procurar a transmissão da contagem decrescente.

— Se eu errar o canal, o ano pode começar em espanhol, em italiano, ou com anúncios de aspiradores — avisou ele.

— Escolhe rápido — disse o pai. — Eu não quero entrar no ano novo com alguém a vender panelas.

A Inês olhou para o relógio da parede. Os ponteiros moviam-se devagar, como se estivessem a saborear o suspense.

Foi então que o gato, o Pinhão, decidiu que as uvas eram um tesouro digno de ataque. Saltou para a mesa com a elegância de um ladrão e, com uma patada, fez rolar três uvas.

— PINHÃO! — gritou a Inês, num tom que tinha “não” e “ai meu Deus” ao mesmo tempo.

As uvas rolaram como bolinhas de gude. Uma caiu no tapete. Outra passou por baixo da mesa. A terceira… pareceu ter desaparecido no ar.

O Tomás entrou em modo de narrador dramático:

— Senhores e senhoras, o destino do Ano Novo está em perigo. Sem doze uvas, o desejo pode ficar sem bateria.

— Não inventes — disse a mãe, tentando não rir enquanto resgatava uma uva do tapete.

A avó Lurdes, com a calma de quem já viu mais fins de ano do que o Tomás viu episódios de série, ajoelhou-se e espreitou por baixo do móvel.

— Aqui está uma! — anunciou ela, vitoriosa, com uma uva na mão como se fosse uma joia.

A Inês respirou fundo. Ainda faltava a uva desaparecida.

E foi aí que a ouviu: um “ploc” discreto.

A uva tinha caído… dentro do sapato do pai, que estava ao lado do sofá.

O pai levantou o sapato e olhou para dentro, espantado.

— Isto é um sinal?

A Inês riu, aliviada.

— É um aviso. Para entrares no ano novo com o pé direito… e com uvas.

O pai fez uma reverência exagerada.

— Aceito o conselho da Senhora do Timing.

E por um instante, a Inês sentiu que, mesmo quando as coisas escapavam, a família tinha um jeito de as apanhar no ar. Como se o ano novo já estivesse a treinar com eles.

Capítulo 4 — A Rua, o Vento e o Pequeno Maravilhoso

Às onze e cinquenta e cinco, decidiram ir à rua. Não para uma grande multidão, mas para sentir o ar de mudança. O prédio tinha uma varanda comum no patamar do último andar, e dali dava para ver algumas luzes ao longe, como estrelas que preferiam ficar perto da cidade.

A Inês vestiu o casaco, enfiou as luvas e conferiu o relógio no telemóvel. O “tempo certo” vibrava nela como uma nota musical.

A mãe levou um saco com confettis de papel (feitos em casa, com folhas coloridas recortadas) e a avó levou as uvas, dentro de uma caixinha.

— Avó, parece que estamos a levar um tesouro — comentou a Inês.

— Estamos. O tesouro é acreditar que amanhã pode ser melhor — respondeu a avó.

O vento lá fora era fresco e cheirava a inverno limpo. Havia vizinhos nas janelas, alguns a acenar, outros a falar alto, como se a alegria tivesse de ser partilhada para não rebentar por dentro.

Um miúdo do prédio ao lado testava um apito irritante com grande entusiasmo.

— Esse apito vai entrar no ano novo antes de nós — disse o Tomás, tapando os ouvidos.

A Inês encostou-se ao parapeito e olhou para baixo. Lá em baixo, na rua, uma poça de água refletia as luzes, parecendo um pedaço de céu no chão.

E aconteceu uma coisa pequena, quase invisível, mas que a Inês sentiu como uma cócega no coração: uma brisa passou e levantou um confetti perdido do saco, fazendo-o rodopiar sozinho no ar, devagar, como se estivesse a ensaiar uma dança.

— Viram? — ela perguntou.

— O quê? — disse o pai.

— Um confetti… a dançar.

A mãe sorriu.

— Talvez o ano novo esteja a aquecer — disse ela.

A Inês gostou dessa ideia: o Ano Novo como alguém a preparar-se nos bastidores, a estalar os dedos, a testar a luz, a ver se o público está pronto.

Ela tirou o caderno de ritmos do bolso e, com a caneta, acrescentou uma linha:

“23:58 — reparar no que dança sem ninguém mandar.”

Capítulo 5 — Doze Uvas, Doze Desejos e um Segundo a Mais

A televisão, lá dentro, começou a gritar números com entusiasmo. O Tomás ajustou o volume pela janela aberta.

— Dez minutos! — informou ele, como se estivesse a guiar um foguete.

O pai distribuiu os copos de sumo com gás. A avó abriu a caixinha das uvas com solenidade.

— Cada uva, um desejo — lembrou ela. — Mas desejos não são encomendas. São sementes.

A Inês pegou nas doze uvas e alinhou-as na palma da mão, como bolinhas verdes prontas para uma missão.

— E se eu não souber o que desejar? — sussurrou ela, de repente.

A mãe pôs uma mão no ombro dela.

— Então desejas coragem para descobrir — disse, simples.

O Tomás fez cara de pensador.

— Eu vou desejar que os trabalhos de casa se façam sozinhos.

— Isso não é desejo, é ficção científica — disse o pai.

A contagem começou, ecoando do televisor e das janelas vizinhas.

— Dez… nove… oito…

A Inês sentiu o seu corpo inteiro a acompanhar os números. Ela tinha o timing, mas ali o tempo era de todos, era um coro.

— Sete… seis… cinco…

Ela levou a primeira uva à boca e pensou: “Que haja paz no coração das pessoas, mesmo quando o mundo faz barulho.”

— Quatro… três… dois…

Comeu outra uva: “Que eu não tenha medo de tentar coisas novas.”

— Um…!

E no “zero” que ninguém dizia mas toda a gente sentia, o céu ao longe acendeu-se com uns fogos discretos, mais luz do que estrondo. O pai acendeu um foguete de chão no pátio do prédio, e um jato de faíscas douradas subiu como uma fonte.

— FELIZ ANO NOVO! — gritaram todos, quase ao mesmo tempo.

Quase.

A Inês, que normalmente acertava sempre, percebeu que o seu “Feliz Ano Novo!” saiu um segundo depois. Não porque se enganou, mas porque estava a olhar para as faíscas a cair, tão bonitas, e pensou que talvez um segundo a mais fosse só… mais tempo para admirar.

Ela riu-se de si mesma e comeu mais uvas, apressada e divertida, enquanto o Tomás fingia engasgar-se para fazer a mãe dar-lhe atenção.

— Drama! Drama! — dizia ele, com a mão na testa.

— Drama, nada. Mastiga! — ordenou a mãe, a rir.

A Inês fechou os olhos por um instante e desejou uma coisa teimosa, a mais importante de todas:

“Que eu nunca me esqueça de que recomeçar é possível.”

Quando abriu os olhos, o ano já estava ali, no frio da varanda, no riso da família, no confetti que agora voava de verdade.

Capítulo 6 — A Surpresa no Envelope Azul

Depois dos abraços e dos brindes, voltaram para dentro. A casa parecia mais quente, como se a alegria tivesse ligado um aquecedor invisível.

A Inês foi beber água à cozinha e, em cima do balcão, viu um envelope azul que não estava ali antes. Tinha o nome dela escrito com letra redondinha: “Inês”.

Ela pegou no envelope e olhou para a mãe.

— Isto é teu?

A mãe levantou as sobrancelhas, inocente demais para ser inocente.

— Eu? Não faço ideia…

O pai assobiou, fingindo que estava muito interessado no teto.

A avó Lurdes sentou-se devagar e cruzou as mãos, como quem espera o momento certo.

— Abre, menina do tempo — disse ela.

A Inês abriu o envelope com cuidado. Lá dentro havia uma folha dobrada e uma pequena ampulheta de plástico, cheia de areia dourada.

Na folha, lia-se:

“Para a Inês, que sabe quando é a hora:

Este ano, escolhe um momento por semana para fazer uma coisa só porque sim.

Uma coisa que te faça sentir viva.

Assinado: Quem te vê crescer com orgulho.”

A Inês engoliu em seco. Não era um presente caro nem brilhante, mas parecia feito à medida dela, como um casaco de esperança.

— Mas… quem escreveu? — perguntou ela, olhando de um para o outro.

O Tomás aproximou-se e disse, com voz de segredo:

— Talvez seja o Ano Novo. Ele anda a deixar mensagens por aí.

A avó Lurdes riu.

— Fomos nós, claro. Mas a ideia também pode ter vindo do Ano Novo. Ele é muito dado a empurrõezinhos.

A Inês virou a ampulheta e viu a areia começar a cair, fininha, brilhando como poeira de estrela.

— Um momento por semana… — repetiu ela.

— Sim — disse o pai. — Nem sempre dá para controlar o mundo. Mas dá para escolher um tempo teu. Um tempo certo para ti.

A Inês sentiu uma alegria quieta, daquelas que não gritam, mas ficam.

— Então o meu primeiro momento vai ser agora — disse ela, decidida.

— Agora? — perguntou a mãe. — Fazer o quê?

A Inês olhou para a sala: pratos por arrumar, confettis no chão, o Pinhão a lamber uma pata como se não tivesse cometido crime nenhum.

Ela sorriu.

— Agora eu vou… não fazer nada por dois minutos. Só ouvir. Só estar.

E ficou ali, a ouvir o som do sumo com gás, o riso longe dos vizinhos, o relógio da parede a continuar, teimoso, a avançar.

O tempo passava. E, pela primeira vez, ela não tentou apanhá-lo. Apenas caminhou ao lado dele.

Capítulo 7 — O Abraço que Fecha e Abre

Mais tarde, quando já era “ano novo a sério” e não só “ano novo de gritos”, a família começou a arrumar tudo, devagar. A música ficou mais baixa. As luzes da sala pareciam mais suaves, como se também estivessem com sono.

A Inês recolheu confettis do chão com o Tomás.

— Sabes — disse ele —, eu pensei que o teu timing era tipo superpoder.

— E não é?

— É… mas hoje percebi uma coisa. — Ele fez uma pausa, segurando um confetti vermelho entre os dedos. — Às vezes o melhor momento é quando a gente está junto. Mesmo que seja um segundo atrasado.

A Inês olhou para ele, surpreendida.

— Isso foi… profundo. Estás doente?

— Cala-te. — O Tomás empurrou-a de leve com o ombro.

A avó Lurdes chamou da poltrona:

— Inês, vem cá.

A Inês sentou-se ao lado dela. A avó tinha os olhos brilhantes, cansados e felizes.

— Sabes qual é o meu desejo teimoso deste ano? — perguntou a avó.

— Qual?

— Que tu continues a acreditar. Mesmo quando o mundo te disser que é melhor não esperar nada.

A Inês sentiu a garganta apertar, mas de um jeito bom. Ela pegou na mão da avó, enrugada e quente.

— Eu vou tentar — disse.

— Não. — A avó sorriu. — Tu vais conseguir. Porque tens uma coisa rara: sabes sentir o momento. E a esperança vive disso. Do momento em que a gente decide não desistir.

A Inês encostou a cabeça no ombro da avó. O cheiro dela era de sabonete e canela.

— Avó… — murmurou a Inês. — Obrigada por me ensinares a cuspir os caroços.

— E por me ajudares a mastigar os dias — respondeu a avó.

Então a Inês levantou-se e abraçou a avó com força, um abraço demorado, daqueles que dizem “fica mais um bocadinho” e “vamos juntos”.

A avó retribuiu, apertando-a como se a guardasse.

Ali, naquele abraço quente, a Inês sentiu o ano novo abrir-se à frente como uma rua iluminada, com poças que refletiam estrelas e confettis que dançavam quando ninguém mandava.

E, pela primeira vez, ela não quis chegar antes. Quis só caminhar, no tempo certo, com esperança no bolso.

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Travessa
Prato grande e raso usado para servir comida à mesa.
Polvilhados
Algo coberto com pó fino, por exemplo açúcar ou canela por cima.
Solenidade
Ação feita com respeito e cerimónia, de forma séria e especial.
Confettis
Pequenos pedaços de papel colorido lançados em festas para celebrar.
Ensaiar
Praticar algo várias vezes antes de mostrar ao público.
Ritmos
Sequência de sons ou movimentos que se repetem com certa ordem.

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