Parte 1 – O Plano da Barquinha
Na rua mais normal da cidade mais normal, quatro crianças tiveram uma ideia muito pouco normal.
Tomás disse:
— Hoje eu vou amarrar a nossa barquinha a um nuvem.
Lia abriu muito os olhos:
— A um nuvem? Lá em cima?
Nico riu:
— As nuvens vão ficar tontas!
Mia bateu palmas:
— Eu ajudo! Mas ninguém cai, combinado?
Eles tinham uma barquinha azul. Não era de verdade, era de brincar. Ficava no quintal, em cima de um lago muito importante: uma poça enorme de água de chuva.
Tomás falou sério, com cara de capitão:
— Se vamos amarrar a barquinha a um nuvem, temos de ser responsáveis.
Ele gostava dessa palavra. Fazia cócegas na língua.
— O que é res-pon-sá-veis? — perguntou Nico.
Lia explicou:
— É cuidar bem. Não estragar o nuvem. Não estragar a barquinha. E não perder nenhum amigo.
— Ah, então eu quero muito ser isso! — disse Mia.
Eles olharam para o céu. As nuvens passavam devagar, fofas, pareciam pão.
— Aquela ali — apontou Tomás — é a Nuvem Número Um.
A nuvem, lá longe, coçou-se um bocadinho. Parecia gostar do nome novo.
Parte 2 – A Corda que Faz Cócegas
Os quatro puxaram uma corda de pijama. Era a corda mágica que segurava sempre as calças do Nico. Hoje ia segurar uma nuvem.
— Corda, hoje és corda de aventura — disse Mia.
A corda brilhou um pouquinho. Devia ter gostado.
Tomás amarrou uma ponta na barquinha azul.
Lia conferiu:
— Nó apertado, nó cuidado.
Nico perguntou para o céu:
— Ó nuvem, aceita brincar?
Ouve-se um “pluft”. Uma nuvem pequenina apareceu mais baixa, bem perto do telhado.
— Acho que ela disse “sim” — riu Lia.
Mas a nuvem pequenina era apressada. Corria no céu como se estivesse a jogar à apanhada com o vento.
Eles tentaram atirar a corda. A corda passou, rodopiou, fez cócegas na nuvem. A nuvem deu uma gargalhadinha de chuva: caiu só uma gota, bem no nariz do Nico.
— Ei! — protestou Nico, a rir. — Nuvem malandra!
Mia levantou o dedo:
— Temos de pedir com jeitinho. E com cuidado. Lembra? Res-pon-sá-veis.
Tomás respirou fundo:
— Nuvem, podes ficar um bocadinho quieta? Só para um nó? Prometo que não dói.
A nuvem parou. Inchou de orgulho. Ser nuvem importante era novo para ela.
A corda deu uma volta, duas voltas, um laço. Pronto. A barquinha azul ficou ligada à nuvem branquinha.
Parte 3 – A Barquinha que Não Vai a Lado Nenhum
Eles esperaram.
Nada.
A barquinha ficou ali, parada, em cima da poça. A nuvem lá em cima, a balançar só um bocadinho.
— Ué… — disse Nico. — Não está a voar.
Lia pensou, coçando o queixo:
— Talvez seja barquinha de poça. Ela só sabe navegar baixinho.
Mia concordou:
— E a nuvem só sabe navegar altinho. Fizeram um empate.
Tomás olhou para a corda, para a barca, para a nuvem:
— Então está tudo certo. A nuvem não foge, a barquinha também não. Eu cuido das duas.
— Mas é chato se não voar — suspirou Nico.
Mia sorriu:
— Podemos imaginar que voa. Imaginamos bem forte.
Eles sentaram-se dentro da barquinha, apertadinhos. A corda esticou, a nuvem mexeu, a poça fez “chuac”.
Tomás anunciou:
— Atenção, tripulação! Estamos a subir… subir… subir na imaginação!
Na cabeça deles, a casa ficou pequenina, a rua virou risquinha, o cão do vizinho virou pontinho.
— Olha, um dragão! — disse Nico.
— Não, é só a camisola do teu pai no estendal — riu Lia.
Mia apontou:
— E aquele castelo gigante?
Tomás explicou:
— É o prédio da esquina. Mas hoje é castelo, porque nós é que mandamos na aventura.
A nuvem parecia ouvir e gostava da história. Ficou ainda mais fofinha. A poça, lá em baixo, brilhava como um lago mágico.
Depois de muito “sobe” e “desce” de imaginação, o sono chegou devagar.
Lia bocejou:
— Acho que a nuvem também está com sono.
Mia falou baixinho:
— Amanhã soltamos a corda. A nuvem tem trabalho no céu.
Tomás concordou:
— Ser responsável também é deixar o amigo ir embora na hora certa.
Eles deram um nó de descanso, bem fraquinho, que a nuvem podia soltar quando quisesse.
Encostados uns aos outros na barquinha azul, imaginaram mais um bocadinho de céu. A nuvem ficou de guarda lá em cima. A poça fez “plim” de contente.
E todos descansaram, muito seguros, com uma barquinha bem amarrada entre o chão e o alto, entre a imaginação e o sono.