A Inês tinha 4 anos. Era de manhã, e a luz entrava macia pela janela. O frio do inverno já não mordia. O ar parecia mais leve.
A Inês abriu a porta de casa e respirou fundo. “Cheira a… cheira a limpo”, disse ela, com um sorriso pequeno.
A mamã pôs-lhe o casaco fininho. “Hoje é primavera”, disse a mamã. “Vamos dar um passeio.”
A Inês deu a mão à mamã. Lá fora, o céu estava azul-claro, como uma manta lavada. Havia passarinhos a cantar, piu-piu, piu-piu, como se estivessem a dizer “bom dia” a toda a gente.
No caminho, a Inês viu gotas brilhantes na relva. Ela agachou-se. “São bolinhas de água!”
“São gotinhas”, respondeu a mamã. “A relva bebeu a chuva.”
A Inês tocou com a ponta do dedo. Estava fresquinho. Ela cheirou a relva e fez uma cara contente. “Cheira a verde.”
Andaram devagar, sem pressa. A Inês gostava de andar devagar. Assim, podia ver tudo.
Passaram por uma árvore com ramos finos. Agora tinha pontinhos novos, pequeninos. “Olha, mamã! A árvore tem bebés!”
A mamã riu baixinho. “São folhas a nascer. A árvore acordou.”
A Inês encostou a mão ao tronco. Era áspero, mas quente do sol. Ela ficou a ouvir. Não ouviu palavras, mas sentiu que a árvore estava viva.
Mais à frente, havia um canteiro com flores. Algumas eram amarelas, outras roxas. A Inês aproximou o nariz. “Hummm… cheira doce.”
De repente, passou um inseto a voar, bem perto. A Inês abriu muito os olhos. “Uma abelha!”
A abelha pousou numa flor amarela. A Inês ficou quieta. A abelha mexia as patinhas e enfiava a cabeça na flor. Parecia estar a trabalhar.
“Ela está a comer?”, perguntou a Inês, em voz baixa, como quem fala num segredo.
“Ela está a beber néctar”, disse a mamã. “É como um suminho das flores. E, quando ela vai de flor em flor, ajuda as plantas.”
A Inês observou com atenção. O sol fazia a abelha brilhar um pouco. O zumbido era baixinho, como um motor pequenino.
A Inês apontou para um montinho de flores cor-de-rosa. “Mamã, posso apanhar estas flores para a vovó? Ela gosta de flores.”
A mamã agachou-se ao lado dela. “Podemos levar algumas, sim. Mas vamos pensar: se levarmos todas, o que é que as abelhas e as borboletas vão beber?”
A Inês olhou para as flores. Depois olhou para a abelha. Depois olhou para a mamã. A cara dela ficou pensativa.
A mamã falou com doçura. “Partilhar é também com a natureza. Nós podemos deixar flores para os insetos.”
A Inês fez um “ahh” baixinho. “Então… eu posso apanhar só um bocadinho?”
“Sim”, disse a mamã. “Escolhemos poucas. E deixamos muitas aqui. Assim, a vovó fica feliz e os insetos também.”
A Inês gostou dessa ideia. Ela começou a contar, com a voz suave: “Uma flor… duas flores… três flores.” Só três. Ela escolheu as mais altas e cheirosas.
Depois, ela pousou a mão perto das outras flores e falou como se elas entendessem. “Fiquem aqui. São para as abelhas. São para as borboletas.”
A mamã beijou-lhe o cabelo. “Que bonito, Inês.”
Continuaram a caminhar. O vento fazia cócegas na cara. A Inês fechou os olhos por um segundo e ouviu: pássaros, folhas a mexer, e passos no caminho. Era uma música calma.
Ao lado de um muro, viram uma borboleta branca. Ela voava devagar, como um pedacinho de papel no ar.
A Inês levantou a mão, mas não tentou tocar. Só acompanhou com os olhos. “Ela é leve.”
A mamã respondeu: “Ela gosta de flores também. Por isso, é bom haver muitas.”
A Inês lembrou-se. “Eu deixei muitas!”
“Deixaste”, disse a mamã. “E isso é partilhar.”
Passaram por uma poça pequena que refletia o céu. A Inês olhou lá para dentro. “O céu está no chão!”
A mamã sorriu. “Está a brincar contigo.”
A Inês riu baixinho. Ela gostava dessas brincadeiras.
Quando chegaram ao portão da vovó, a Inês segurou as três flores com cuidado. Bateu palminhas de leve e tocou à campainha.
A vovó abriu a porta. Tinha um avental e mãos cheirosas a sabonete. “Olá, minha florzinha!”
A Inês esticou o braço. “Vovó, são para ti. Só três. Deixei muitas lá fora para as abelhas.”
A vovó ficou com os olhos ternos. “Que menina tão querida. Partilhaste com a vovó e com as abelhas. Isso é um coração grande.”
A Inês encostou-se à vovó, num abraço quentinho. A vovó cheirava a casa. Cheirava a chá e bolachas.
Entraram. A vovó pôs as flores num copo com água, em cima da mesa. As pétalas pareciam sorrir.
“Queres uma bolacha?”, perguntou a vovó.
A Inês assentiu. “Sim, por favor.”
A bolacha era crocante. Fazia “croc” e tinha gosto de manteiga. A Inês bebeu um pouco de água. Sentiu-se bem.
Depois, sentaram-se junto à janela. Dava para ver o jardim. Havia um vaso com uma flor amarela, e a vovó tinha mais vasos com plantas pequenas.
A Inês apontou. “Vovó, podemos ter flores para os insetos aqui também?”
“Podemos, sim”, respondeu a vovó. “Vamos cuidar delas. Regar com carinho. E depois, quando as flores abrirem, os insetos vêm visitar.”
A Inês gostou da palavra “visitar”. Parecia uma festa tranquila.
Quando voltaram para casa, o sol já estava mais baixo. A luz era dourada e macia. A Inês bocejou no caminho. Os pés estavam cansados, mas era um cansaço bom.
Em casa, a mamã deu-lhe um banho morno. A água fazia “ploc-ploc” e cheirava a sabonete. A Inês fechou os olhos e pensou nas flores, na abelha, na borboleta.
No pijama, ela ficou na cama com a sua mantinha. A mamã sentou-se ao lado.
“Hoje aprendeste uma coisa importante”, disse a mamã, com voz de ninho.
A Inês falou devagar. “Eu aprendi a deixar flores para os insetos. Eu partilhei.”
A mamã acariciou-lhe a testa. “Sim. Partilhar deixa o mundo mais bonito.”
A Inês sorriu, já com sono. “A primavera é bonita.”
“É”, disse a mamã. “E amanhã vamos ver mais folhas bebés.”
A Inês apertou a mantinha. O quarto estava quieto. Ela ouviu, ao longe, um passarinho a cantar baixinho, como um “boa noite”.
A Inês fechou os olhos. No pensamento, viu um jardim cheio de flores, e uma abelha contente. Tudo estava calmo. Tudo estava seguro.
E a Inês adormeceu num dodo manso e feliz.