Capítulo 1
O pequeno João acorda com o som da chuva.
Ele tem quatro anos.
Puxa o cobertor. Sente o ar fresco.
"Mamãe, a chuva faz música?" pergunta João.
"Faz sim," responde a mãe. "É a música da primavera."
João veste a capa amarela. Põe as galochas azuis.
A janela mostra gotinhas nas folhas.
O cheiro é de terra molhada. João respira fundo.
"Vamos ver o jardim?" diz ele.
No quintal, a chuva para. O céu fica mais claro.
As nuvens abrem uma janela de luz.
O gramado brilha com pingos.
Um cheiro doce sobe das flores.
João toca uma pétala. Está fria e macia.
Ele vê uma poça grande no caminho.
A água reflete o céu. pequenas ondas brincam.
João sorri. Ele quer ficar seco.
"Eu pulo," diz ele com coragem.
Ele corre e pula por cima da poça. Splash!
A água dança e volta para o chão.
João bate palmas. Sente as gotas no rosto.
Ao lado, a vizinha Ana, de cinco anos, vem com um chapéu florido.
"Posso pular também?" pergunta ela.
"Sim!" diz João.
Eles pulam juntos. Riem. A água canta sob os pés.
Capítulo 2
O vento traz sementes leves.
Voam como pequenos barcos brancos.
João pega uma semente. Ela é suave.
"Planta comigo?" pergunta ele.
Ana assente com os olhos grandes.
Eles cavocam com as mãos. A terra é quente por baixo.
Colocam a semente no ninho de terra.
Cobrem com carinho. Apertam com cuidado.
"Boa semente," sussurra João.
"Vai crescer com a chuva," diz Ana.
A mãe de João chega com um saco de biscoitos.
"Querem um?" oferece ela.
"Sim, por favor," respondem as crianças.
Eles sentam numa pedra. Compartilham os biscoitos.
São crocantes. Têm gosto de mel.
João derrete uma parte para a Ana. Eles dividem o último pedaço.
Perto dali, um pássaro faz um ninho.
Ele voa de galho em galho.
João observa. O peito dele se enche de alegria.
"Olha as cores," diz Ana.
"Azul e amarelo," conta João.
O jardim acorda devagar.
As abelhas zumbem. O som é suave.
As folhas têm gotas que brilham.
João passa a mão pela grama. Está macia.
Sente o frescor na ponta dos dedos.
Eles encontram uma lagarta verde.
Ela anda devagar. João a observa com cuidado.
"Ela vai virar borboleta," explica a mãe.
"Uau," respira Ana. "Como?"
"Com tempo e carinho," diz a mãe.
Capítulo 3
O sol aparece mais forte.
As sombras ficam pequenas.
As nuvens brincam de esconde-esconde.
João sente calor no rosto. Fecha os olhos.
O cheiro das flores fica mais forte.
Eles continuam a caminhada pelo bairro.
Cada casa tem um jardim diferente.
Um senhor rega plantas com uma lata azul.
Ele sorri e acena. João acena de volta.
"Bom dia!" diz o senhor.
"Bom dia!" dizem as crianças.
Ao lado da calçada há outra poça.
É menor. João calcula com os olhos.
"Posso tentar pular sem molhar?" pergunta.
"Eu pulo contigo," diz Ana.
Eles dão as mãos. Correm e saltam. Splash menor. Só a ponta das galochas toca a água.
Eles riem. O riso é como sino.
No parque, há um banco velho. Sentam-se.
A mãe tira um lenço e limpa as faces das crianças.
"Que dia bonito," diz ela, calma.
João pensa nas sementes. Na lagarta. No ninho.
Sente que tudo está acordando.
"Vamos fazer um ritual?" pergunta Ana de repente.
"Um ritual?" repete João, curioso.
"Para dar boas-vindas à primavera," explica Ana.
"Sim!" diz João, olhos brilhando.
Eles combinam um pequeno gesto.
Cada um dará algo para a primavera.
João dá uma folha verde que encontrou.
Ana oferece uma pedrinha lisa.
A mãe coloca um fio de cabelo preso em uma flor — é só um gesto carinhoso, sem medo.
O senhor do jardim oferece um beijo de mão.
Todos deixam os pequenos presentes numa caixinha de madeira.
A caixinha fica no pé de um pé de limão.
Fecham com cuidado. Sussurram um segredo leve.
"Bem-vinda, primavera," dizem juntos.
O som é macio. As folhas parecem ouvir.
Depois, fazem um círculo.
Seguram as mãos. Respiram fundo.
Contam o que mais gostam na primavera.
"Cheiro das flores," diz João.
"As cores," diz Ana.
"As poças," ri João.
Quando o sol começa a se pôr, a luz fica dourada.
As crianças estão cansadas e felizes.
A mãe pega João no colo. Ele boceja.
"Boa noite, primavera," ele murmura antes de fechar os olhos.
Eles voltam para casa devagar.
As galochas ainda têm um pouco de lama.
A casa cheira a chá e pão.
João escuta, da cama, os sons do jardim à noite.
Um grilo, uma coruja distante, o vento nas folhas.
Antes de dormir, João lembra do ritual.
Sabe que amanhã a semente terá um amigo a mais.
Sente-se seguro. Sente-se parte de algo.
O mundo mudou de cor. Está suave e vivo.
Ele fecha os olhos com um sorriso.
Pensa nas poças e nos saltos.
Pensa na partilha dos biscoitos.
Pensa no abraço da primavera.
E adormece, leve, sonhando com flores que vão crescer.