Lanternas, Tesouras e Um Plano
Miguel tinha onze anos e mãos inquietas. Adorava recortar. Papel, cartão, fitas, folhas de outono… tudo virava morcegos, estrelas e pequenas janelas que deixavam a luz passar. Na noite de Halloween, o pavilhão da associação do bairro brilhava com lanternas de abóbora e cheirava a canela e a pipocas.
No Cantinho dos Jogos, havia almofadas, uma tenda feita de lençóis e uma caixa cheia de papéis coloridos. Miguel sentou-se e recortou uma fila de fantasminhas de papel que, vistos contra a luz, pareciam dançar.
— Esses fantasmas estão a sorrir? — perguntou uma voz fininha.
Era a Nina, uma menina de cinco anos com um chapéu de bruxa torto e olhos muito redondos.
— Estão a sorrir porque sabem que hoje tudo acaba bem — respondeu Miguel, piscando-lhe o olho.
Ela riu-se, mas encolheu-se quando um ruído de vento assobiou na porta.
— O vento só quer brincar — disse ele, entregando-lhe um fantasma de papel. — Se quiseres, fica comigo. Posso acompanhar-te.
Nina segurou-lhe a manga como quem agarra uma corda segura.
O Pedido e a Promessa
Dona Estela, que organizava a festa, aproximou-se com um sorriso cansado e um nariz de bruxa desenhado com lápis preto.
— Miguel, estás aqui! Precisamos de um ajudante. A Nina quer andar no Comboio Fantasma do parque, mas só vai se fores com ela. Consegues acompanhá-la?
Ele olhou para Nina, que mordia o lábio.
— Se fores comigo, prometo que, se aparecer alguma coisa assustadora, eu recorto um escudo de papel. De acordo?
— De acordo — disse Nina, com um fio de voz.
Dona Estela colocou dois bilhetes fininhos nas mãos de Miguel. Eles tilintaram como folhas secas. Miguel guardou-os no bolso do casaco, ao lado da lanterna e de um saquinho de rebuçados.
— Obrigada, campeão — disse Dona Estela. — E lembra-te: respeita as regras do parque e, mais importante, respeita o ritmo da Nina. Se ela disser “não”, é não.
— Combinado — respondeu Miguel. — Vamos devagarinho, ao passo dos fantasmas sorridentes.
Saíram do pavilhão. O ar estava frio e cheirava a chuva que ainda não caíra. Havia risos, capas pretas a esvoaçar, dentes de vampiro de plástico, e um tambor mais ao longe. A lua parecia uma fatia de abóbora no céu.
O Comboio Fantasma e o Maquinista
O parque tinha um trilho estreito que serpenteava por entre árvores. O Comboio Fantasma era pequeno, com carruagens pintadas de roxo e olhos amarelos desenhados na frente. Um fumo doce, cheiro a algodão doce queimado, subia de uma máquina escondida.
Ao lado da locomotiva, estava um homem alto, de boina e casaco escuro, com um apito pendurado ao pescoço. O bigode parecia um ponto de exclamação.
— Boa noite — disse ele, com voz grave mas simpática. — Sou o Maquinista Álvaro. Bilhetes, se faz favor.
Miguel deu um passo em frente, bateu no bolso e sentiu… vazio. O coração dele deu um salto.
— Só um momento… — murmurou, espetando a mão no bolso, depois no outro, depois no de dentro.
Nada. O bolso esquerdo fazia um som de papel rasgado quando os dedos tocaram o fundo. Furado. O frio entrou por ali, como um suspiro.
— O meu bolso está furado — disse, vermelho. — Eu… perdi os bilhetes.
Nina apertou-lhe a manga com mais força.
O Maquinista Álvaro inclinou-se, aproximou-se, mas não pareceu zangado.
— Regras são regras. Sem bilhetes, ninguém entra. Mas hoje é Halloween, e há outra regra escondida: quem pede ajuda com respeito costuma encontrar caminhos. O que pensam fazer?
Miguel olhou para o chão. O vento levantou folhas, e qualquer coisa brilhante riscou a relva. Um pedaço branco, um canto de papel. Ele apontou.
— Vamos procurar. Eu perdi os bilhetes, eu encontro os bilhetes. Juntos. Ao ritmo da Nina.
— Gosto disso — disse o maquinista, levantando o apito. — Têm quinze minutos antes da próxima partida. A lua é vossa lanterna, e eu fico de ouvido atento. Se precisarem, assobiem.
— Assobia tu — disse Nina, com um sorriso tímido. — Eu ainda não sei assobiar direito.
— Então eu recorto um assobio de papel, e tu sopras — brincou Miguel, tentando ser leve.
O maquinista riu-se e fez-lhes um gesto de boa sorte.
A Pista dos Papéis e o Cantinho de Jogos
Do bolso furado de Miguel devia ter caído tudo quando ele correu para a porta do pavilhão. Voltaram pelo caminho, Nina saltitando como quem pisa estrelas.
Perto do Cantinho dos Jogos, encontraram um pedaço fino de papel rasgado no chão, com um “B” escrito. O “B” de “Bilhete”. Miguel acocorou-se.
— Vês? Está a dar. Vamos com calma.
Na mesa onde Miguel tinha recortado fantasminhas, alguém tinha deixado uma tesoura pequena com cabo azul. Ele reconheceu-a. A tesoura parecia olhar para ele, pronta para voltar ao trabalho.
— Posso levar a tesoura? — perguntou Nina a Dona Estela, que voltara com uma vassoura cheia de confetis.
— Só se for para criar, não para assustar — disse ela. — E prometem arrumar depois.
— Prometemos — disseram os dois ao mesmo tempo.
Miguel recortou rapidamente dois retângulos de papel colorido, copiazinhas dos bilhetes. Escreveu “Comboio Fantasma” com letras caprichadas. Depois parou, pensou e abanou a cabeça.
— Não são oficiais. O Maquinista Álvaro foi claro. Temos de encontrar os verdadeiros.
Nina encostou os bilhetes de mentira ao ouvido, como se fossem conchas do mar.
— Eles dizem que os verdadeiros estão à porta. Ouvi.
— Então vamos ouvir mais — disse Miguel. Fechou os olhos, deixou o barulho da sala passar por dentro: risos, música, o estalar de sacos de rebuçados, o arrastar de cadeiras. E, por baixo, um barulhinho de papel a raspar. — Ali.
Atrás da tenda de lençóis, o chão tinha uma risca de açúcar. O saco de rebuçados de Miguel também tinha um buraquinho junto do bolso. Doce e papel, uma trilha dupla.
— Bolso furado, saco furado — suspirou ele. — Mas não vamos desistir.
— Nem vamos pisar os rebuçados — disse Nina, séria. — Seria falta de respeito pelo trabalho de quem os fez.
— Concordo — disse Miguel, abrindo caminho com a lanterna, luz baixa para não incomodar.
A trilha levou-os até uma janela aberta, por onde o vento fazia “shu-u-u”. Havia um bilhete preso numa ranhura, tremendo como uma asa. Miguel esticou os dedos, falhou, respirou fundo, recortou da capa do seu caderno um gancho de papel duro e puxou devagarinho.
— Um! — disse Nina, levantando o polegar.
— Falta outro — respondeu Miguel, guardando-o com cuidado dentro da carteira, e não no bolso. — O teu ouvido mágico diz alguma coisa?
Nina inclinou a cabeça, muito atenta.
— Diz que está perto do sítio do comboio. E também… também diz que tenho fome.
— Então, quando recuperarmos o último, comemos um rebuçado. Se o saco não tiver desaparecido pelo buraco — riu Miguel.
Saíram outra vez para a noite, o ar agora mais frio. O parque murmurava. Um gato preto atravessou o caminho, lento, como se dançasse.
— Boa noite, senhor gato — disse Nina, com respeito. — Não viemos assustar ninguém.
A Última Corrida e a Regra do Respeito
Chegados ao trilho do comboio, ouviram o apito do Maquinista Álvaro. Ele ergueu a mão.
— Têm cinco minutos.
Miguel olhou em redor. Havia fardos de palha, uma abóbora enorme com a cara recortada — e ele percebeu que a boca da abóbora mordia qualquer coisa branca.
— Não se entra pela boca sem pedir — disse ele, meio a brincar, meio a sério. — Desculpa, senhora abóbora. Posso tirar isso?
Ele esperou. O vento soprou; as velas dentro da abóbora tremeluziram. Pareceu um “sim”.
Miguel enfiou a mão, devagar, e sentiu o papel. Puxou. Outro bilhete! Mas rasgado ao meio, preso por cera. Ele fungou, cheiro a abóbora assada e vela derretida.
— Está rasgado… — disse Nina, com a testa franzida.
— Dá para ler — disse ele. — E tem o carimbo. O Maquinista sabe ler coisas partidas.
— A regra diz que o bilhete tem de existir — disse uma voz atrás deles.
Era o Maquinista Álvaro, aproximando-se sem fazer barulho. Os olhos dele brilhavam, severos e ao mesmo tempo divertidos.
— E a outra regra… — começou Nina.
— …é pedir ajuda com respeito quando é preciso — completou ele. — Posso remendar isso com uma fita. Mas, antes, quero ver o que aprenderam. O que fazem quando alguém mais pequeno tem medo?
Miguel olhou para Nina.
— Pergunto o que a assusta. Espero. Não gozo. E, se ela quiser, dou a mão. E se não quiser, caminho ao lado.
— E se alguém grande está a trabalhar, como eu, e diz uma regra? — perguntou o maquinista.
— Eu sigo. E explico à Nina o porquê — disse Miguel. — Para ela saber que as regras são para proteger, não para mandar por mandar.
O Maquinista Álvaro mordeu o sorriso.
— Muito bem. Tens bom corte, miúdo. Bom corte e bom coração. Mostra-me o bilhete.
Com um rolo de fita escura que tirou do bolso, alinhou as metades e colou com cuidado. Depois, carimbou outra vez por cima.
— Oficial outra vez. E o outro?
— Seguro na carteira — disse Miguel, levantando-a.
— Então, para dentro do comboio. Partimos em três minutos. E o saco de rebuçados?
— Furou pelo caminho — confessou Miguel. — Mas ainda temos alguns. Podemos partilhar.
— Partilhar é a melhor magia — disse o maquinista.
O Comboio Fantasma e o Obrigado
Nina e Miguel sentaram-se na primeira carruagem. Os bancos eram almofadados e frios. O comboio começou a tremer, as rodas chiaram um “créééc”, o fumo doce ergueu-se numa espiral.
— Pronta? — perguntou Miguel.
— Pronta. Mas, se eu disser “não”, paramos — disse Nina.
— Combinado.
O comboio entrou num túnel de tecidos pretos. Há sombras a dançar. Um esqueleto de madeira bateu os dentes: tá-tá-tá. Nina apertou o fantasma de papel. O vento fez “shu-u-u”. Daqui, o mundo era uma canção baixinha e uma bateria de latas.
— É só música a brincar — sussurrou Miguel. — E se te assustares, olha para a minha lanterna.
A lanterna desenhou estrelas no teto. Estrelas recortadas, tremidas e bonitas. Nina riu-se, o som claro como um sino pequeno.
Uma bruxa de cartolina desceu num fio. Parou mesmo em frente deles. Miguel inclinou a cabeça.
— Olá, minha senhora. Ainda bem que veio — disse, respeitoso. — Pode desejar-nos boa viagem?
A bruxa abanou num “sim” molengo. Nina fez um aceno formal, como uma mini senhora importante.
— Obrigada, bruxa.
O comboio saiu do túnel para uma curva onde o vento cheirava a folhas molhadas. Pelas árvores, luzes penduradas piscavam devagar. Um corvo empoleirado soltou um “craa”, mas pareceu somente curioso.
— O corvo está com frio — disse Nina. — Ele devia ter um cachecol.
— Recorto-lhe um quando voltarmos — prometeu Miguel.
O comboio travou no fim, macio. O Maquinista Álvaro levantou a mão num gesto de “muito bem”.
— Sobreviveram ao medo com boas maneiras — disse ele. — Isso é raro e bonito.
— Eu estava com medo ao início — confessou Nina. — Mas o Miguel não riu de mim.
— E eu fomos devagar — disse Miguel. — Ao passo dos fantasmas sorridentes.
O maquinista inclinou-se.
— Obrigado por me lembrarem por que gosto desta noite. Porque é para juntarmos coragem, não para a usarmos contra ninguém.
Miguel saiu da carruagem e ofereceu ao maquinista um dos fantasminhas de papel.
— Para a cabine do comboio.
— Vai ficar aqui mesmo — disse o maquinista, prendendo o fantasma a uma alavanca.
Dona Estela apareceu a correr, com o nariz de bruxa torto de tanto sorrisos.
— Conseguiram! E a Nina?
— A Nina é valente — disse o maquinista.
— Só precisei de alguém comigo — respondeu Nina. — E de ouvir o vento.
Voltaram ao pavilhão. No Cantinho dos Jogos, Miguel remendou o bolso por dentro com fita adesiva e um pedaço de tecido que achou numa caixa. Ficou torto, mas seguro.
— Não quero perder nada mais — disse. — Nem bilhetes, nem rebuçados, nem estrelas de papel.
— Nem respeitos — acrescentou Nina, com convicção, inventando a palavra e rindo.
Miguel dividiu os últimos rebuçados. O açúcar derreteu na língua, doce e quente. A música, cá fora, continuava. Gente mascarada entrava e saía, com passos leves.
Antes de irem, Miguel foi até ao Maquinista Álvaro, que arrumava a boina.
— Obrigado por esperar e por remendar o bilhete — disse ele.
— Obrigado por saberes pedir, por ouvires e por não te esqueceres da Nina — respondeu o maquinista. — É assim que se conduz um comboio de gente.
Miguel sentiu o bolso agora firme, a companhia de Nina ao lado, e a noite cheirando a abóbora e riso.
— Hoje, o meu melhor recorte foi o medo, que fizemos ficar pequeno — disse.
Nina deu-lhe a mão, com a leveza de um fio de papel.
— E comemos o medo com rebuçados — disse ela.
— E com respeito — completou Miguel.
Quando saíram, o vento soprou um “shu-u-u” doce, e as lanternas piscaram. A noite pareceu piscar de volta. Ele aperto-lhe a mão e, antes de desaparecer na rua de folhas, disse em voz baixa:
— Obrigado.