As Abóboras à Porta
Na noite de Halloween, o ar cheirava a doce de abóbora e a vento frio. As folhas secas estalavam sob as sapatilhas do Tomás e da Rita. Tinham quase doze anos, levavam lanternas pequenas, e riam de tudo. Tomás tinha um riso fácil, daqueles que começam baixinho e acabam a contagiar as árvores.
Quando chegaram ao prédio do Tomás, viram uma caixa pequena à porta. Papel laranja, laço roxo, e um bilhete colado com fita-cola. A Rita inclinou-se.
— Cuidado, pode ser uma partida.
— Se for, eu rio-me — disse o Tomás, com os olhos a brilhar.
A Rita tocou no bilhete. A fita-cola descolou num suspiro e o bilhete caiu no chão. Um borrifo de purpurina roxa espalhou-se pela soleira.
— Esta fita-cola cola mal — resmungou a Rita, a sacudir os dedos. — Parece baba de fantasma.
Tomás apanhou o bilhete. Tinha apenas umas palavras, tortas mas caprichadas: “Para quem faz rir quando o frio pica”. E, no canto, um desenho minúsculo de um cão com língua de fora.
— Para mim? — Tomás mordeu o lábio a conter o riso. — E para ti, Rita, que ris das minhas piadas más.
— Ou para nós, que somos equipa — disse ela. — Vamos descobrir quem deixou isto.
Abriram a caixa. Lá dentro, havia um pequeno morcego de madeira, pintado à mão, com olhos bondosos e uma corda fina para pendurar. Ao lado, um saquinho de bolachas em forma de estrela.
— Isto não é uma partida. É um presente mesmo — sussurrou a Rita.
Tomás olhou para o corredor escuro, onde a luz do patamar piscava.
— E quem dá um presente no Halloween quer que o mistério comece. Vamos ao percurso simples da escola. Aposto que está lá a pista.
O Percurso na Escola
O pátio da escola brilhava com lanternas de abóbora. Havia um percurso simples montado com cones, cordas, tapetes de espuma e letras fluorescentes coladas com fita-cola em cartazes. A névoa parecia dar abraços a tudo.
— Olha o percurso! — disse a Rita. — É o caminho mais direto de todos. Cones, uma corda para equilibrar, e no fim uma mesa com doces. Quem deixar um presente em casa vai, de certeza, passar por aqui.
Tomás cheirou o ar.
— Cheira a castanhas assadas e… hum, a purpurina? Purpurina cheira?
— No teu mundo, sim — riu a Rita.
Ao lado da mesa dos sumos, um senhor de boné acenou. Trazia um cão preto e branco, de orelhas pontudas, com um lenço laranja ao pescoço. O cão arrastou-o um pouco, feliz.
— Boa noite, miúdos! — disse o homem. — Sou o Sr. Raul e este é o Pipo. O Pipo gosta de crianças e de tudo o que brilha. Também mastiga fita-cola, se não dimos por isso.
O Pipo aproximou-se, farejou a caixa no saco do Tomás e abanou a cauda. Depois, lambeu a mão do rapaz com tanta vontade que o fez rir alto.
— Pipo, pára, senão o miúdo derrete — brincou o Sr. Raul. — Estão a jogar ao mistério?
— Alguém deixou um presente à nossa porta — explicou a Rita. — Tinha um desenho de um cão no bilhete.
— Um cão? — O Sr. Raul coçou o queixo. — A minha sobrinha desenha cães em tudo. E hoje esteve a ajudar aqui. Gosta de colar cartazes mas a fita-cola… costuma pregar-nos partidas.
— Cola mal? — perguntou o Tomás.
— Cola só quando quer — suspirou o Sr. Raul.
O Pipo puxou a trela e levou-os até ao início do percurso. No chão, um rasto fininho de purpurina roxa seguia entre os cones. A Rita sorriu.
— Parece um mapa para quem sabe olhar.
— E quem sabe rir — disse o Tomás. — Vamos.
Entraram no percurso. Primeiro, passos em ziguezague entre os cones. Depois, um equilíbrio curto numa tábua baixa. O vento vinha frio, mas o coração aquecia.
— Se virem alguém a ajeitar cartazes com fita teimosa, chamem — disse o Sr. Raul. — Eu e o Pipo ajudamos.
Pistas de Purpurina
A purpurina brilhava como estrelas caídas. Conduzia-os até um arco de balões roxos. Um canto do arco estava meio descolado.
— Ahá! — exclamou a Rita. — A mesma fita-cola. Vês como se solta nas pontas?
Tomás encostou o presente ao peito, como se o morcego de madeira pudesse mostrar o caminho.
— Ouvi dizer que quem sussurra aos morcegos aprende a ouvir melhor — disse ele, teatral. — Oh morceguinho, leva-nos a quem te fez.
— Estás impossível — riu a Rita.
Do outro lado do arco, um cartaz dizia “BOO!” em letras recortadas. Um canto estava caído. Detrás, colado às pressas, havia um pedacinho de papel com desenhos de patinhas. O Pipo cheirou, encostou o nariz e espirrou.
— Esta patinha é o nosso selo de fábrica — disse o Sr. Raul, divertido. — A Lara, a minha sobrinha, usa um carimbo de patas.
— Ela esteve hoje aqui? — perguntou a Rita.
— Esteve, mas fugiu da confusão quando o DJ aumentou a música. É tímida. Se vos deixou um presente… deve ter sido por querer dizer “obrigado” e não soube como.
— Obrigado por quê? — Tomás coçou a cabeça. — Eu só… rio.
— Às vezes, é disso que as pessoas precisam — respondeu o Sr. Raul. — Riso, calma, alguém que as faça sentir menos nervosas. A Lara fica tensa com barulho e com muita gente. Mas quando o Tomás faz aquelas vozes de vampiro tonto, ela ri por baixo da máscara.
O Pipo puxou outra vez, levando-os para o fim do percurso. Ali havia uma mesa com guardanapos roxos e copos com olhos desenhados. Um fio de lã roxa, preso com fita-cola, corria da mesa até um banco.
— Isto é uma corda-guia — disse a Rita. — Quem não gosta de confusão segue a linha para um cantinho mais calmo.
— A Lara faz isso — murmurou o Sr. Raul. — Vamos pelo fio.
O Obstáculo Pegajoso
Seguiram o fio de lã roxa até um canto do pátio, atrás de uma cortina de tecido preto. Era um recanto com almofadas, desenhado para descansar. A decoração tremia quando o vento passava.
— Hmmm — disse o Tomás, apontando. — Olha aí um fantasma de cartolina.
O “fantasma” pendia por um pedaço de fita-cola que já não queria saber do seu trabalho. O vento soprou, e o fantasma caiu direto na cabeça do Tomás.
— Buuuu! — gritou o rapaz, batendo palmas por baixo do fantasma.
A Rita riu tão alto que se sentou numa almofada para não cair.
— Isto está a desmontar-se — disse o Sr. Raul, enquanto tirava do bolso um rolinho de fita-cola. — Eu sabia. Esta fita… argh, cola mal. Sempre comprem a boa, miúdos.
Tentaram colar o fantasma de novo. A fita colava só por segundos e depois soltava, como se tivesse medo do próprio tecido.
— Vamos segurar juntos — disse a Rita, com um sorriso calmo. — Um segura, outro passa a fita, outro sopra.
— Soprar? — perguntou o Tomás.
— Para secar um bocadinho a humidade. A minha mãe faz assim com os autocolantes do frigorífico.
Fizeram um pequeno plano. O Pipo, atento, ficava com a patinha sobre a ponta do fio de lã para ele não fugir. O Sr. Raul segurava a cartolina. A Rita passava a fita-cola e o Tomás soprava, com dramatismo, como um dragão. Entre risos, o fantasma ficou pendurado outra vez, torto mas simpático.
Foi então que a Rita viu, debaixo da mesa, outro papel meio solto, preso com uma última tirinha de fita cansada. Tinha o mesmo desenho de patinhas.
— Espera! — disse ela. — Isto é uma mensagem.
Puxou devagar. O papel dizia: “Desculpem a fita. O vento ganhou. Se precisarem de mim, estou onde os ouvidos descansam. — L.”
— L de Lara — disse o Sr. Raul, aliviado. — Sabia.
— Onde os ouvidos descansam… — repetiu o Tomás. — A biblioteca da escola! Hoje está aberta para contos de Halloween.
— E é um sítio quentinho e silencioso — acrescentou a Rita. — Vamos!
Na Biblioteca, Entre Sussurros
A biblioteca tinha luz baixa e cheirava a papel e chá. Havia um canto com almofadas e uma lâmpada em forma de lua. Uma bibliotecária, com chapéu de bruxa só pela piada, fez-lhes sinal para falarem baixo.
Ali, encostada a uma estante, estava uma rapariga com uma capa roxa. Tinha os olhos curiosos e um sorriso tímido. Nas mãos, um rolo de fita-cola quase no fim.
— Lara? — chamou o Sr. Raul.
Ela levantou-se um pouco, surpresa, e depois relaxou quando viu o Pipo. O cão foi ter com ela, abanando a cauda.
— Eu… — começou a Lara, olhando para o chão. — A fita não queria colar, e o vento… e o Pipo roubou-me um pedaço, e…
— E deixaste um presente à nossa porta — disse a Rita, com doçura. — Obrigada.
— Foi para ti e para o Tomás — disse a Lara, numa voz que parecia um segredo. — Eu não sei falar em frente de muitos. Mas sei desenhar e colar coisas (quando a fita deixa…). Vocês fazem-me sentir… segura. O Tomás ri de forma que me acalma. E a Rita fala devagar quando vê que fico aflita. Por isso deixei um morcego bondoso. Para vos protegerem nas noites frias.
Tomás não riu. Sorriu, com o coração a fazer um barulho quente.
— Gosto de rir — disse. — E gosto de partilhar o riso. Mas hoje, gosto ainda mais de saber que o meu riso te ajudou.
— E nós também te podemos ajudar — disse a Rita. — Quando a fita não cola, pedimos outra. Quando o barulho é demais, vamos para a biblioteca. E, se quiseres, amanhã ensinamos-te um truque para a fita colar melhor: dobra a pontinha, faz uma “orelha”. Dá para puxar sem rasgar.
A Lara riu baixinho.
— Tenho de aprender esse truque das orelhas.
— E eu ensino-te o truque do morcego cantarolão — disse o Tomás, fazendo uma voz de morcego simpático. — “Eu sou o morceguinho da paz interior…”
O Pipo abanou a cauda como se aprovasse a canção.
— Então foste tu quem desenhou o cão no bilhete? — perguntou a Rita.
— Fui. O Pipo foi o modelo, mas não ficou quieto — respondeu a Lara, fazendo uma careta.
— Nunca fico — disse o Sr. Raul, em nome do cão, e todos sorriram.
Doces, Coragem e Um Bravo
Voltaram ao pátio juntos. O vento ainda passava, mas agora parecia ter menos dentes. A música estava mais baixa. A Rita reparou em duas crianças mais novas, perdidas junto ao início do percurso simples, com ar envergonhado.
— Precisam de ajuda? — perguntou ela.
— Os cones metem medo — disse um deles. — São muitos.
— Não são maus — disse o Tomás, com uma voz dramática. — São cones pacíficos. Vamos fazer o percurso juntos?
Fizeram o trajeto devagar. A Lara ia ao lado, segurando um dos miúdos pela mão, e o Pipo ia à frente, guiado por um biscoito invisível. Tomás contava histórias de vampiros que se esquecem dos dentes e bruxas que usam pantufas. A Rita dava as mãos e dizia “respira fundo”.
Quando chegaram ao fim, a mesa dos doces esperava. Havia sumo, bolachas e um prato especial de estrelas, iguais às do saquinho. A bibliotecária-bruxa apareceu, contente.
— Precisamos de voluntários para reconcertar alguns cartazes. A fita-cola decidiu fazer greve.
— Temos experiência — disse a Rita, piscando o olho.
A pequena equipa atacou o problema. O Sr. Raul arranjou um rolo melhor. A Lara aprendeu a fazer “orelhas” nas pontas. O Tomás, com os braços abertos, ficava à frente das decorações como um guarda-chuva humano, a bloquear o vento e a fazer caretas para manter a moral. O Pipo sentou-se, atento, como um segurança de lenço laranja.
— Sabes — disse a Lara ao Tomás, enquanto alinhavam um cartaz de “Doces ou Travessuras?” — às vezes tenho medo que as pessoas pensem que eu sou esquisita por ser calada.
— Esquisito é não tentar perceber os outros — respondeu o Tomás. — E nós aqui tentamos. É a regra da nossa equipa.
— Regra boa — concordou a Rita. — Empatia é superpoder.
Quando o último cartaz ficou direito, o pátio pareceu suspirar de alívio. A névoa abriu um caminho suave entre as lanternas. A diretora da escola aproximou-se, com a voz doce e firme.
— Ouvi dizer que tivemos heróis silenciosos por aqui — disse ela. — Obrigada por ajudarem. E quem fez este morcego bonito?
A Lara levantou a mão, meio a tremer.
— Fui eu… com a fita que não cola.
— Ficou ótimo — disse a diretora. — O importante não é a fita. É a intenção que a segura.
Os amigos olharam uns para os outros, com um brilho nos olhos que era maior do que todas as lanternas. A Rita tirou da caixa o morcego de madeira e prendeu-o num ramo, agora com fita boa. O boneco balançou devagar, como se dançasse ao som de uma canção só dele.
— Ao morceguinho da paz interior! — proclamou o Tomás, fazendo todos rirem outra vez.
O Sr. Raul levantou um copo de sumo.
— À coragem de dar presentes sem querer aparecer! À coragem de rir e de ouvir! À coragem de pedir ajuda quando a fita-cola cola mal!
As crianças mais novas bateram palmas. Os voluntários também. A música subiu só um bocadinho, o suficiente para fazer o pátio sorrir. E, sem combinarem, todos se voltaram para a Lara, o Pipo, a Rita e o Tomás. As mãos juntaram-se em aplausos que aqueciam mais do que o chá.
— Bravo! — gritou alguém. Depois outro. E mais outro.
Tomás sentiu um arrepio bom a subir pelas costas. Não era medo. Era a sensação de estar certo no sítio certo, com as pessoas certas, numa noite que parecia assustada por fora e tranquila por dentro.
A Rita bateu palmas devagar, como quem marca o ritmo do coração.
— Bravo — disse ela, em voz baixa, e o morceguinho de madeira pareceu concordar, a balançar com um sorriso invisível.
E, no meio de lanternas, gargalhadas e fita-cola finalmente obediente, a noite de Halloween terminou com um coro simples e sincero: bravo.